Capítulo 55 - O Eco da Quimera
O teleporte se desfaz como vidro quebrando no ar.
Ryuji cai em pé desta vez.
O corpo ainda dói, mas agora a dor é conhecida. Controlável. Ele respira fundo e sente o Sen girando por dentro, espiralando junto da mana, como dois rios prestes a colidir.
O cenário é um pesadelo esculpido à força.
O chão parece feito de pedra misturada com carne fossilizada. Colunas de ossos gigantes emergem como dentes de um deus morto. O céu é baixo, pesado, nublado, como se estivesse observando.
Então… ela se move.
A Quimera desperta de verdade.
O corpo colossal se levanta, cada músculo se contraindo como se fosse um terremoto vivo. A cabeça de leão encara Ryuji com olhos dourados, inteligentes demais. A serpente sibila, calculando ângulos. A cabeça de bode começa a concentrar energia, runas arcanas se formando nos chifres.
Pressão de Sen explode.
Ryuji ativa a CTD instantaneamente.
O mundo desacelera.
Linhas invisíveis surgem diante dos olhos dele — trajetórias, intenções, micro-movimentos. Não é previsão perfeita. É sobrevivência refinada. Ele vê onde vai morrer se errar.
— Tá… — ele murmura — então é assim.
A Quimera ataca.
Ela não corre.
Ela some.
A CTD grita.
Ryuji se joga pro lado no último milésimo. A pata do leão passa onde a cabeça dele estava, rasgando o ar e o chão junto. A arena explode atrás dele.
Antes que ele se estabilize, a serpente vem.
Ryuji puxa a Kidou Katana.
A lâmina se materializa envolta em Sen condensado, vibrando num tom agudo, quase como um grito. Ele gira o corpo e corta.
CLANG.
Faíscas. Escamas voam. A serpente recua, ferida, mas viva.
— Você é rápida… — Ryuji rosna — mas não é inevitável.
A cabeça de bode termina a conjuração.
Um feixe mágico bruto explode da boca da criatura — energia caótica, fogo, pressão arcana misturada. Não é Hadou. É magia pura.
Ryuji finca os pés no chão e cruza a katana na frente do corpo. O Sen explode ao redor dele, criando uma barreira improvisada. Mesmo assim, o impacto o arrasta dezenas de metros. A pele queima. O ombro estala.
Ele cai de joelhos.
O Sistema tenta alertar sobre danos críticos.
Ele ignora.
A CTD ativa de novo.
Ele vê.
Um ponto. Um instante. Uma abertura microscópica entre os ataques coordenados das três cabeças.
— É agora… ou acabou.
Ryuji abre a mão esquerda.
A Magia de Raios responde.
O céu da arena se rasga. Nuvens negras se formam em segundos, girando como um vórtice. Raios começam a cair ao redor dele, não aleatórios — obedientes.
Ele avança.
A Quimera tenta esmagá-lo com o corpo inteiro. Ryuji desliza por baixo, usando a agilidade no limite, corta o tendão da perna traseira com a Kidou Katana. O monstro ruge.
A serpente ataca por trás.
Morde.
Os dentes perfuram a coxa.
Ryuji sente o veneno entrar… e morrer.
A passiva age.
— Fraca.
Ele gira o corpo e enfia a katana direto no crânio da serpente. Um raio desce junto, amplificando o golpe. A cabeça explode em energia e carne.
A Quimera enlouquece.
A cabeça de leão morde Ryuji no ar, pega o tronco dele inteiro. Ossos rangem. O mundo some por um segundo.
Dentro da boca da criatura, Ryuji sorri.
Sangue escorre do canto da boca dele.
— Você acabou de errar.
Ele enfia a mão livre garganta abaixo.
A mana explode.
O Sen converge.
A Magia de Raios entra em sobrecarga.
— DESCE.
O raio não cai do céu.
Ele nasce de dentro.
A cabeça do leão é destruída num clarão branco-azulado que transforma a arena em dia. A onda de choque arremessa o corpo colossal da Quimera para trás, rasgando asas, quebrando colunas, destruindo tudo.
A criatura cai.
O corpo começa a se desfazer em partículas douradas.
Silêncio.
Ryuji cai de joelhos, depois de costas. O peito sobe e desce rápido. Cada músculo treme. Mas ele tá vivo.
O Sistema finalmente fala.
[Prova do Trono Concluída]
Ameaça: Quimera — ELIMINADA
Recompensas:
- +16 pontos em TODOS os atributos
- +10.000 Fichas do Rei
- Subida de Nível x2
Nível Atual: 3
Bônus de Nível Aplicado:
- +50 pontos em TODOS os atributos
O corpo dele muda.
Não é visual.
É estrutural.
O Sen flui mais pesado. A mana responde mais rápido. A CTD fica mais silenciosa — mais eficiente. A Kidou Katana vibra, reconhecendo o crescimento.
Ryuji se levanta devagar.
— Se isso foi uma Quimera… — ele olha pro vazio — então o resto do mundo tá muito atrasado.
O Sistema não responde.
Mas o Trono…
definitivamente percebeu.
O silêncio depois da vitória pesa mais que a luta.
Ryuji fica parado, encarando as próprias mãos. Ainda tem sangue seco nos dedos. Ainda sente o eco da Quimera morrendo dentro do peito. E mesmo assim… algo não encaixa.
— Isso não faz sentido.
Ele fecha os olhos. A memória vem sem pedir licença.
Antes de morrer… ele era um monstro.
Mais forte que Kaede e Ayumi juntos. Não era disputa. Era fato.
E agora?
— Sistema — a voz dele ecoa no vazio do subconsciente — como eu virei Rank C?
A pergunta sai sem raiva. Sai cansada. Pesada.
O Sistema responde, frio como sempre, direto no osso.
[Resposta Confirmada]
Após sua morte e ressurreição, você perdeu dois terços da sua força total.
O mundo dá uma leve inclinada.
Ryuji abre os olhos devagar.
— …Dois terços?
O peito aperta. Não é choque. É compreensão tardia. Tudo começa a fazer sentido: a dificuldade absurda, a sensação constante de estar “atrasado”, o corpo pedindo mais do que entregava.
— Então… — ele respira fundo — eu já recuperei isso?
Silêncio por meio segundo.
O suficiente pra doer.
[Negativo.]
Você recuperou apenas um terço da sua força original.
Ryuji solta uma risada curta, sem humor.
— Então isso tudo… — ele olha ao redor, lembra da Quimera, dos magos, dos basiliscos — …foi só o aquecimento?
O Sistema não provoca. Só confirma.
Ele passa a mão pelo rosto. O cabelo cai nos olhos. A expressão muda. Não é desespero. É foco frio. Aquele olhar que não pede permissão ao mundo.
— Me mostra meus atributos atuais.
Os números surgem, flutuando como sentenças gravadas no ar.
[Atributos Atuais]
Força: 296
Resistência: 296
Agilidade: 291
Percepção: 291
Controle de Sen: 291
Vontade: 291
Inteligência: 291
Magia: 291
Vitalidade: 2910
Mana: 2910
Ryuji observa tudo em silêncio.
Quase 300 em tudo…
E ainda assim, só um terço.
— …Beleza — ele murmura — então quando eu recuperar tudo…
Ele não termina a frase.
Não precisa.
— Quanto dinheiro eu tenho agora?
[Fichas do Rei: 14.000]
Um sorriso torto surge no rosto dele. Pequeno. Perigoso.
— Então é isso. Eu não fiquei fraco. — Ele ergue a cabeça, o olhar firme como aço recém-forjado. — Eu fui resetado.
O Sistema permanece quieto.
Ryuji dá um passo à frente, sentindo o Sen e a mana se alinharem dentro do corpo como engrenagens finalmente no ritmo certo.
— E dessa vez… — ele diz, voz baixa, quase um juramento — eu vou passar do que eu era.
Não pra ser herói.
Não pra salvar ninguém.
Mas pelo motivo que agora…o jogo é só dele.
O vazio do subconsciente começa a rachar.
As telas somem. Os números se apagam. O peso da batalha dá lugar a outro tipo de pressão — mais cotidiana, mais humana… e igualmente irritante.
Ryuji estala o pescoço.
— Sistema. Próximo desafio.
A resposta vem rápido demais. Rápido demais.
[Aviso do Sistema]
Desafio indisponível no momento.
Ryuji franze a testa.
— Como assim indisponível? Eu acabei de…
Antes que termine, outra mensagem surge, maior, piscando em vermelho discreto.
[Interferência Externa Detectada]
Seus aliados estão há 4 horas tentando acessar seu quarto.
Ryuji pisca.
— …Quê?
O Sistema, impassível:
Kaede Shizuma.
Naki Senrou.
Genjiro Okabe.
Tsubasa Hayashi.
Status:
Bater na porta.
Gritar seu nome.
Ameaçar arrombar.
Repetir o ciclo.
Ryuji passa a mão no rosto devagar.
— Quatro horas…?
[Confirmação.]
Você permanece isolado há aproximadamente 26 horas no tempo real.
Silêncio.
Então…
— Puta merda.
Ele olha ao redor, frustrado, como se pudesse discutir com o conceito de tempo.
— Eu tava entrando no ritmo agora.
[Recomendação do Sistema]
Saia do quarto imediatamente.
Probabilidade de dano estrutural: 63%.
Probabilidade de dano social irreversível: 41%.
Ryuji solta uma risada nasal.
— “Dano social irreversível” é foda.
Do mundo real, mesmo abafado, o som atravessa o subconsciente.
— RYUJI! — a voz de Naki ecoa — SE VOCÊ TIVER MORTO AÍ DENTRO EU JURO QUE EU TE MATO!
— Isso nem faz sentido… — Ryuji murmura.
Logo depois, a voz mais controlada de Kaede, claramente tentando ser racional:
— Ryuji, abre a porta. Agora. Ou eu vou considerar isso um ato hostil.
Um thump pesado na madeira.
Genjiro:
— EU AVISEI QUE ERA MÁ IDEIA DEIXAR ELE SOZINHO!
Tsubasa, mais contido, mas igualmente tenso:
— …Isso já passou do normal.
Ryuji fecha os olhos, respirando fundo. A irritação sobe, mas não vira raiva. Vira aquele cansaço típico de quem queria grindar mais uma dungeon e foi puxado pra realidade à força.
— Sistema… depois a gente continua.
[Registro Confirmado.]
Treinamento pausado.
Desafios aguardando.
Ele sente o mundo real puxando de volta. O chão sólido. O corpo pesado. As dores voltam todas de uma vez.
Ryuji se levanta da cama com um gemido baixo.
— Quatro horas… — ele resmunga — esses caras não têm vida, não?
A porta treme com mais um impacto.
— ABRE LOGO! — Naki grita.
Ryuji caminha até a porta, passa a mão no trinco… e para por um segundo.
— …Tô ferrado.
Ele abre.
Quatro pares de olhos o atravessam como se fossem julgá-lo ali mesmo.
Silêncio absoluto por meio segundo.
Aí Naki explode:
— ONDE TU SE METEU, SEU FILHO DA—
Ryuji ergue a mão, expressão neutra, voz cansada:
— Depois eu explico.
Kaede o encara de cima a baixo, analisando cada detalhe, como se sentisse que algo ali estava… errado.
— Você sumiu por um dia inteiro — ele diz, sério. — E agora tá com essa cara.
Genjiro cruza os braços.
— Cara de quem foi atropelado por um caminhão invisível.
Tsubasa completa, seco:
— Ou por dez.
Ryuji coça a nuca, meio irritado, meio sem paciência.
— Relaxa. Eu só… tava treinando.
Silêncio.
Naki inclina a cabeça.
— Trancado. Sozinho. Por um dia inteiro.
— É.
— Sem comer.
— Talvez.
— Sem responder ninguém.
— Provavelmente.
Kaede suspira fundo.
— Ryuji… isso não é normal.
Ryuji olha pra eles. Amigos. Companheiros. Âncoras no mundo real.
Por um instante, o olhar frio do “jogador” some. Só por um instante.
— Eu sei — ele diz. — Mas confia em mim.
Do fundo da mente, a voz do Sistema sussurra, quase irônica:
[Aviso]
Modo Social: Ativado à força.
Ryuji fecha os olhos.
— …Odeio quando você tem razão.
E assim, entre risos nervosos, tensão no ar e um monte de coisas não ditas, o jogo pausa.
Só por agora.

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