Capítulo 58 - Quando o Inferno Aprende Seu Nome
O fogo dourado ainda rasgava o campo.
O ar vibrava como se o mundo estivesse segurando o grito.
Ryuji sentiu.
Não no corpo.
Na alma.
Aquilo não era só poder.
Era algo que queria matar.
O Sistema gritava alertas em camadas, avisos sobrepostos, perigo piscando em vermelho — mas Ryuji fez o que sempre fez quando a morte olhava nos olhos dele.
Ele avançou.
— Dane-se… — rosnou. — Eu não recuo.
CTD em uma mão.
Ancifogo na outra.
As duas adagas cantaram.
Raios se espalharam pelos braços, estalando como serpentes elétricas. A magia não era lançada — era enfiada nas lâminas, misturada à força bruta, ao Sen, à vontade assassina.
Ryuji virou um borrão.
Cortes cruzados.
Perfurações em ângulos impossíveis.
Relâmpagos explodindo a cada impacto.
O campo virou um caos branco-azulado.
Tsubasa foi atingido.
Uma vez.
Duas.
Dez vezes.
A aura dourada oscilou.
O Sistema interrompeu, seco:
[Aviso.]
[A Ameaça perdeu 25% da Vitalidade total.]
Ryuji arregalou os olhos.
— …O quê?
Aquilo era real.
Ele estava ferindo um monstro sete vezes mais forte.
Mas Tsubasa…
não caiu.
Ele não recuou.
Ele andou.
Sem pressa.
Sem defesa.
Com uma velocidade absurda — 300 km por hora compactados em passos leves demais para o chão aguentar.
— Agora… — a voz dele ecoou, calma, cruel. — é minha vez.
Tsubasa ergueu a espada para o céu incandescente.
O mundo pareceu prender o fôlego.
— Grite…
— ZENIHIME!!
O ar EXPLODIU.
Não foi uma explosão comum — foi como se o espaço tivesse sido torcido. Um tornado de fogo dourado nasceu ao redor do corpo de Tsubasa, girando com violência divina, engolindo tudo.
Pedras evaporaram.
O chão foi arrancado.
O vento queimava.
O tornado avançou.
Direto em Ryuji.
O Sistema berrava.
[FUGA RECOMENDADA.]
[FUGA RECOMENDADA.]
[DANO LETAL IMINENTE.]
Ryuji cerrou os dentes.
— Nem fudendo.
Ele cruzou as adagas.
Enterrou os pés no chão.
Jogou tudo que tinha naquele bloqueio.
O impacto foi apocalíptico.
O mundo virou branco.
O corpo de Ryuji foi esmagado contra o chão, o Sen despedaçando, os ossos gritando. O fogo atravessou a defesa como se fosse papel molhado.
Silêncio.
Então o Sistema falou.
[DANO EXTREMO.]
[Vitalidade reduzida em 50%.]
Ryuji tossiu sangue.
O corpo tremia.
A visão falhava.
Mas ele… ainda estava vivo.
Do outro lado da arena…
Outro inferno acordava.
Genjiro Okabe finalmente revelou sua mão.
Kaede recuou meio passo quando viu a Kidou surgir.
Um machado colossal.
Largo.
Brutal.
Antigo.
O cabo laranja parecia metal queimado que nunca esfriou. A lâmina… era grande demais para existir. Parecia puxar o chão para baixo só de estar ali.
Quando tocou o piso—
CRACK.
O campo rachou.
Cada golpe de Genjiro fazia a Kidou de Kaede rachar, fissuras se espalhando pela lâmina como vidro prestes a explodir.
Genjiro respirou fundo.
— Chega de brincar.
Ele ergueu o machado…
e fincou no chão.
O mundo tremeu.
— Queime…
— IGNIVAR REX…
— ZENKAI.
BOOOOOOOM.
Uma onda de calor varreu o campo inteiro.
O chão se partiu em padrões vulcânicos. Fissuras abertas cuspiram lava viva, escorrendo como veias ardentes. O ar virou um forno.
O machado mudou.
Não parecia mais uma arma.
Parecia um pedaço de vulcão arrancado da terra.
O metal respirava.
Pulsava.
Vivo.
Kaede sentiu a pele arder só de existir ali.
Mesmo assim… sorriu.
— Então essa é sua Zenkai… — rosnou, empolgado. — Boa pra caralho.
Genjiro puxou o machado do chão.
O simples movimento fez colunas de rocha incandescente surgirem ao redor, explodindo em estilhaços de magma.
Ele avançou.
— Tudo que eu cortar… — disse, voz baixa, pesada — some.
Um passo.
Um único golpe.
O machado desceu como o julgamento final.
Não houve explosão.
Não houve som.
Kaede foi apagado.
O corpo virou cinzas no ar, dissolvendo antes mesmo de tocar o chão.
Fim.
O campo inteiro congelou.
Ryuji, ajoelhado, sangrando, ergueu o rosto.
Os olhos ardiam.
Não de medo.
De raiva.
Em outro lugar da arena…
O campo tá intacto.
Estranho… considerando quem tá ali.
Naki Senrou respira fundo, aura pulsando forte, agressiva.
Os olhos dele não largam Saka nem por um segundo.
Saka Senrou tá relaxado demais.
Mãos baixas.
Postura aberta.
— Para de fugir — Naki rosna. — Luta como homem.
Saka sorri de leve.
— Tô lutando.
Naki avança.
Um soco direto, carregado de Sen.
Saka inclina o corpo meio centímetro.
Erra.
Chute baixo.
Saka gira o calcanhar e passa por cima.
Cotovelo.
Saka já não tá mais ali.
Nada de contra-ataque.
Nada de pressão.
Só desvio.
— Para de brincar! — Naki grita, acelerando.
Ele começa a soltar golpes em sequência.
O ar rasga.
O chão trinca.
Saka continua dançando no limite.
Cada movimento é mínimo.
Preciso.
Bonito.
Mas Naki começa a sentir algo estranho.
— … — ele franze a testa.
Um cheiro leve.
Quase doce.
— Tá sentindo? — Saka pergunta, tranquilo, desviando de mais um ataque.
— O quê…? — Naki respira fundo sem perceber.
O aroma entra.
Saka para de se mover.
— Chega.
Ele ergue a mão direita.
A manopla colapsa, vira uma luva.
As cores se invertem: rosa profundo, rachaduras roxas pulsando.
— Kaorihime… Zenkai.
O aroma fecha em volta de Naki.
Não se espalha.
Não vaza.
É só pra ele.
Naki dá um passo… e tropeça.
— Q-que cheiro é esse…?
As veias do pescoço começam a escurecer.
O coração bate errado.
— O que você fez?! — ele grita, tentando expandir o Sen.
Tarde.
O veneno entra em ação.
Por dentro, as veias começam a se destruir, uma a uma, como se algo estivesse rasgando o sistema sanguíneo de dentro pra fora.
Naki cai de joelhos.
— Eu… não fui… tocado…
Saka se aproxima, voz baixa.
— Não precisa.
Naki cospe sangue.
O corpo treme.
— Você… desviou o tempo todo…
Saka para na frente dele.
— Eu precisava que você respirasse.
O aroma desaparece.
Naki cai de lado, inconsciente, o corpo em colapso total.
Silêncio.
Saka olha pra própria mão.
— Zenkai não é sobre força… — ele murmura.
— É sobre decidir quando a luta acaba.
O campo ainda queimava.
Cinzas no ar. Lava escorrendo. Gritos presos na garganta da plateia.
E então…
o Sistema tremeu.
Pela primeira vez, ele hesitou.
A voz que sempre foi fria, matemática, agora soou grave — quase solene.
[AVISO RARO — PRIORIDADE ABSOLUTA.]
[Ameaça Iminente Detectada.]
[3 Usuários de Zenkai Ativos: Tsubasa Hayashi, Genjiro Okabe, Saka Senrou.]
[Probabilidade de Colapso do Jogador: CRÍTICA.]
Silêncio.
O mundo pareceu parar por um segundo.
Então veio.
[O Sistema Concedeu um Presente ao Jogador.]
[DESPERTAR DA MANA DO PRÍNCIPE — ATIVADO.]
O chão estremeceu.
O ar foi esmagado para fora do corpo de todos.
Ryuji sentiu.
Não foi força entrando.
Foi como se algo que sempre foi dele estivesse voltando.
[+500 Pontos em TODOS os Atributos.]
[Habilidade Concedida: Domínio do Príncipe — Nível 1.]
Resumo: Controle telecinético absoluto através de Mana.
Objetos. Corpos. Inimigos.
[Habilidade Passiva: Cura do Príncipe.]
Regeneração total de Corpo, Mana e Ferimentos Fatais.
[Status do Jogador: 100%.]
[Chance de Derrota Atual: 50%.]
Quando Ryuji abriu os olhos—
O campo inteiro sentiu.
Não foi aura comum.
Foi pressão real, como se o mundo tivesse sido empurrado para baixo.
Lutadores travaram os joelhos.
A plateia ficou muda.
Até Tsubasa…
Até Genjiro…
Deram meio passo para trás.
— …Que porra é essa — murmurou alguém.
Ryuji respirou fundo.
E sumiu.
Ele escolheu o mais fraco.
Saka Senrou.
Três movimentos.
Não golpes — execuções.
CTD rasgando o ar.
Ancifogo abrindo caminhos incandescentes.
Mana esmagando o espaço ao redor.
O Sistema confirmou, quase surpreso:
[A Ameaça perdeu 30% da Vitalidade.]
Saka rangeu os dentes.
— NÃO…!
A Zenkai dele explodiu em ação.
Um aroma invisível tomou o campo.
Veneno absoluto.
Não para matar aos poucos — para destruir órgãos por dentro.
O Sistema interveio.
[Jogador Envenenado.]
[Purificando em 3…]
[…2…]
[…1.]
[Veneno Neutralizado.]
Os olhos de Saka arregalaram.
— Impossível…!
Desespero.
Ele puxou tudo que tinha.
— SOPRO DE KAORIHIME!!
Uma cortina de fumaça tóxica caiu como um véu mortal.
Contato externo queimava a pele.
Contato interno dissolvia pulmões.
Silêncio.
A fumaça se dissipou.
Ryuji estava lá.
Intacto.
Sem um arranhão.
Ele inclinou a cabeça, decepcionado.
— Esse foi o seu ataque mais forte? — disse, calmo. — Engraçado… eu nem senti.
A Mana dele se expandiu.
O mundo puxou Saka.
O corpo de Saka voou, arrastado como um boneco quebrado.
— D-DESGRAÇADO—!
Ryuji avançou um passo.
Estocada.
Direta no coração.
Fim.
[INIMIGO HUMANO ELIMINADO.]
[+3000 XP.]
[Jogador subiu 3 Níveis.]
[+75 Pontos em TODOS os Atributos.]
[+8000 Fichas do Rei.]
Saka Senrou caiu morto.
O campo congelou.
Ryuji respirou fundo e murmurou, sincero:
— …Valeu, Sistema. De verdade.
Ele ergueu o olhar, fogo nos olhos.
— O fraco já foi. Agora só faltam—
Não terminou.
Dor.
Uma estocada atravessou seu coração por trás.
No mesmo instante—
Genjiro surgiu à frente.
O machado desceu.
Corte total no peito.
O mundo virou vermelho.
[HP: 100.]
[HP: 30.]
[HP: 5.]
[HP: 1.]
[HP: 0.5.]
[Ativando Plano de Emergência Contra Mortes.]
[Jogador Teleportado.]
O corpo de Ryuji desapareceu.
— Cadê o Ryuji?! — rosnou Tsubasa.
Genjiro limpou o machado.
— Linha de Eliminação. — Ele sorriu. — Preferiu ser eliminado… a morrer.
— Esse maldito…
Placar no ar.
1 a 1.
Round vencido por Tsubasa, Genjiro e Saka.
Em outro lugar.
Vazio branco.
Ryuji respirava.
Inteiro.
[Jogador 100% Regenerado.]
Ele passou a mão no peito, rindo sem humor.
— Sistema… valeu por salvar minha vida. Mas isso aqui é Senzoku. Eu voltaria de qualquer jeito.
A resposta veio imediata.
Negativo.
As Regras do Senzoku NÃO se aplicam ao Jogador.
— …O quê?
Silêncio.
Ryuji fechou os olhos, pensou por um segundo.
— Então vou ter que jogar mais sério.
Ele abriu os olhos.
— Sistema. Sempre que eu estiver à beira da morte… me teleporta pra cá.
A resposta veio fria.
[Negativo, Jogador.]
[Esse pedido já estava sendo executado automaticamente.]
Ryuji sorriu.
Um sorriso perigoso.
— Então tá decidido…
Ele respirou fundo.
— Da próxima vez… eu não vou precisar ser salvo.

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