Capítulo 124 - Propagação Justa
Voltando aos corredores da Arena Shang Mu, precisamente na zona administrativa do Monastério Omna, Joshy aguardava paciente no espaço demarcado, onde ninguém ousava entrar.
O lobo, pensativo, continuou com seu inseparável escudo, este apoiado no chão, centralizado, como se fosse um marco.
— “Lilac e seus aliados já estão fora de perigo, por enquanto. Logo os demais lutadores confiáveis estarão aqui e isso será ainda melhor.”
Porém, havia detalhes que se encontravam com o que aconteceu até então nos bastidores.
As ameaças não estavam entrelinhas, tornaram-se literais.
Caminhando em direção à área restrita, uma silhueta foi vista se aproximando da zona, o que causou reações imediatas em Joshy — desagradáveis, por assim dizer.
O lobo contraiu a boca, seguindo para um rosnado e franziu sua testa, em sinal de irritação.
Não era um visitante e sim alguém ativo no monastério: era Pawa, que adentrou no espaço sem cerimônias — ele tinha tanto direito quanto Joshy ou qualquer outro membro do Monastério Omna.
O lobo avermelhado, encarando Joshy, falou:
— Contemplando os corredores, nobre soldado?
— Continue seu caminho, monge — o lobo branco não desviou o olhar. — Tenho responsabilidades e você está atrapalhando.
— Atrapalhando, você diz… Eu digo que estou cooperando, embora nosso dever maior fosse manter a integridade dos mais de mil anos de artes marciais intactas.
— As artes marciais são de todos os que a vivem, você sabe minha opinião.
— Sim, claro… — retomou o passo, mas deixou palavras no ar. — Artistas marciais que são dignos e puros merecem, mas não criaturas que não deveriam existir em Avalice.
— O que quer dizer com isso? — Manteve o olhar guardião, batendo o escudo no chão.
Joshy, com raiva no rosto, reagiu em silêncio: a mandíbula travou por um segundo ao ouvir aquilo. Pediu satisfações — era o líder do time.
— Ora, nós da Família Geiza sabemos separar direito de crime — Pawa parou por três segundos, seguiu adiante. — Estamos fazendo justiça, a todo custo.
Acalmando o próprio coração, o lobo branco, com sua voz gutural natural, deixou a última palavra.
— Os fins não justificam os meios. A justiça só está nas mãos dos justos… e nas suas ações. Não confunda opinião com fatos, Pawa Geiza Omna.
Ouvir seu nome completo ser falado soou como uma provocação maior do que ser contrariado. Pawa estancou, engolindo a afronta.
Mas não ficou calado.
— Joshy Sapphire Omna… e sua eterna luta ingrata contra um problema imaginário — sua voz estava carregada de rancor. — Essa sua tentativa frustrada de “limpar” o que está limpo suja seu caminho.
A mensagem foi entregue, mas o destinatário não a recebeu — ele mandou de volta.
— Trate de se preparar, Pawa — a voz mastigava as palavras. — Temos um torneio para participar. Sheng está meditando. Faça o mesmo, para o bem do time… e para si mesmo.
O avermelhado entrou na sala, deixando Joshy sozinho na frente do espaço.
Pawa estava lá dentro, caminhando, mas sua mente estava em outro lugar.
— “Meus seguidores são capacitados…” — pensava, com os olhos fechados. — “A essa hora, a justiça de mais de mil anos de artes marciais em Avalice foi feita, e a limpeza realizada.”
Concentrado no interior da zona administrativa, o lobo fez valer o pedido de Joshy e se colocou a meditar, mas com os pensamentos longe dali.
O lobo branco, olhando para a movimentação do corredor logo à frente, não parou com sua prontidão.
Para firmar ainda mais a postura, repetiu a batida de seu escudo ao chão, causando uma vibração que se propagou, zunindo pelas paredes dos corredores rubros da arena, como se estivesse enviando um recado para todos.
Esse som, já filtrado pelos corredores, chegou até onde o poderoso soco de Gil Son rompeu a tensão no corredor onde ele e os demais membros lupinos da Família Geiza estavam — o ambiente sofreu o abalo do golpe com peso e pressão.
A soma dos dois ruídos se misturou, ocasionando um estrondo de justiça.
O ar parecia ter desaparecido, efeito rarefeito no pulmão de cada um que lá estava.
Não só paralisado, o cheiro inodoro trouxe a normalidade do Nirvana de todos, como um cessar fogo imposto.
Com o monge líder da matilha da Família Geiza caído desacordado, o boxeador falastrão o olhava — tinha a fala apropriada.
— Haha! Pode parar a contagem, árbitro! É nocaute!
Desnorteados pela entrada inesperada do javali selvagem boxeador, Santino Rock, Noah e até mesmo Milla não contiveram a surpresa.
— O que está acontecendo aqui? — perguntava o albino, rosto acalmado à força.
— Esse moço forte apareceu do nada e acabou com tudo! — a pequena canina sintetizou os eventos.
A leitura feita por Milla foi precisa. O cenário resumia-se a três palavras: definição, convicção e finalização.
Invisível a todos, mas tátil à Noah, uma pequena fagulha de sua aura escura se dissipou, com seu corpo descontraído por completo — adiamento daquilo que quase explodiu.
Ele respirou fundo, como meio termo entre alívio e apreensão.
Com os demais lacaios da Família Geiza ajudando seu líder abatido, o único que teve uma reação mais positiva — amigável também — foi Santino.
— Grande Gil Son, seu atrevido! — o canino marrom sorria, abraçando o pescoço do javali. — Como você está, meu amigo?
— Oh, e aí, Santi-rocha! — tom tenro de amizade de longa data na voz. — Eu nasci pra dar soco, então estou ótimo! E você, problemas com babacas?
— Não mais, e tudo por sua culpa, hehe!
A leveza que se tornou o ambiente agiu como uma renovação de brios.

Até quem estava observando a movimentação no local estava levando tudo como um evento esporádico entre lutadores, mas de uma forma desportiva e, dentro da cultura de artes marciais, honrosa.
Contudo, uma agressão ocorreu, e causou nocaute — ninguém fechou seus olhos quanto a isso.
Esse fato fez com que um dos monges, corajoso o suficiente, se levantasse contra o agressor, indo até Gil Son, supostamente para tirar satisfações.
— Você atacou nosso líder! — esbravejou, apontando o indicador.
— Oh, é mesmo? Que coisa… — o javali respondeu, com ironia; mas não por muito tempo. — Ei, Peludo… eu estava acompanhando vocês desde o espaço da Família Geiza. Estavam caçando a baixinha, eu vi!
— Então tens ideia de que impediu o nosso clã de fazer justiça! Você abertamente está defendendo uma criatura repugnante e abominável e… — ele foi “interrompido”.
As aspas não foram usadas à toa; um soco tão potente quanto veio novamente, rasgando o ar e atingindo o queixo do lupino revoltado — era possível ouvir os ossos roçarem um com os outros tamanha a potência.
A exemplo de seu líder, ele voou até onde estavam os outros membros dos Geiza, derrubando a matilha, em um momento bem cômico.
Risadas ocorreram, uma algazarra generalizada.
— Haha! Isso não foi um nocaute. Foi um strike! — gargalhava Gil Son, gesticulando como se os pinos caíssem após soltar a bola de boliche.
Mais risadas vieram, o clima ali se transformou.
Até quem tratava das inimizades passou a ignorar tal fardo e entrou na brincadeira.
Em minutos, o que estava tenso agora mostrava envolto do verdadeiro espírito de lutador: comunidade marcial.
Entretanto, e como realçado mais cedo, houve um atentado à integridade de monges.
Havia limite até na comunidade marcial. O javali cruzou uma linha, e o sistema cobraria.
O contexto raso estabeleceu esse critério, e um dos lupinos, ficando de pé, iria usar esse fato.
Ele, raivoso, caminhou até o javali e, a uma distância segura — os cinco metros “seguros” — falou:
— Uma afronta não só a Família Geiza, mas também ao Monastério Omna!
— Ih, meu chapa… Não tenho tanto braço pra socar um monastério inteiro, desculpa aí — o sarcasmo trouxe mais risadas no local.
Pela terceira vez, o boxeador mostrou que tinha um talento nato de lidar com situações adversas e transtornar isso em comédia, por mais que o assunto fosse sério.
Havia leveza, mas era só uma destilação do teor.
O lupino, segurando com força a razão e o fato, incitou mais:
— Você e seu time serão expulsos deste torneio e banidos de toda a Zona Milenial de Shang Mu para sempre!
Gil Son, e todos do trio, só ouviram as palavras eloquentes do monge, que não parou:
— E tudo isso por ter impedido a lavagem inevitável de seres malditos aos mais de mil anos de artes marciais em Avalice!
Uma ação iria ocorrer, com Gil Son tomando posto.
Porém, surgindo como um raio entre ele e o lupino, uma jovem felina usando top branco, calção de boxe e luvas vermelhas encarou o monge, olho no olho.
Seus óculos vermelhos, em contraste com seus cabelos azulados, não esconderam seu olhar azurro compenetrado — a razão neles era visceral.
— Q-quem é você?! — perguntou o remanescente dos Geiza.
— Ametista Superior, capitã do Time Demifaiku… e filha de Ouro Superior, boxeador profissional da Academia Demifaiku.
Enquanto o javali só acompanhava a cena, Santino, Noah e Milla olhavam surpresos.
— Essa aí… é aquela moça de mais cedo! — falou o canino marrom, recordando.
— Ela quase acertou a Carol, não é? — Milla realçou o feito.
— Tão veloz… que até pareceu invisível — Noah fez uma leitura corporal imediata. — “Seu treinamento de pernas deve ter sido levado ao limite!”
Enquanto a conversa no trio continuava, o assunto agora envolvia a felina bege com o lupino monge.
— Jovem, deixe esse recinto imediatamente! Esse assunto não cabe a ti…
— Cabe a mim… porque está atacando um do meu time!
Mais uma surpresa.

Ametista estava se referindo a Gil Son.
— O que?! Isso quer dizer que… — Santino se surpreendeu, olhando para o javali. — Você faz parte do time dela?!
— Hunf… A guria tem muita fibra, não é? — respondeu, um leve sorriso surgiu.
Cortando para o diálogo de forças, o monge, levando consigo a razão que acreditava, continuou a conversa.
— Tens noção de que seu time está impedindo uma missão imposta pela tão consagrada e conhecida Família Geiza? Todo o Monastério Omna ficará sabendo de seu insurgente e sua academia sofrerá as consequências se não o advertir!
— Você não tem moral para fazer isso, nenhum de vocês — voz firme, como autoridade máxima.
Ametista não precisou aumentar o tom. Ela só falou o que estava na cabeça e nada mais.
O efeito foi “Superior”.
— Como disse, senhorita?
— O Sr Gil e eu estávamos próximos do seu distrito agora a pouco. Vimos Pawa Geiza Omna atingir aquela pobre menina — apontou para Milla, olhando-a.
Isso causou não só empatia imediata à Milla, mas também assimilação de causa — era uma criança sendo atingida por toda uma casta de monges.
Sem parar, a felina bege manteve as acusações.
— Vocês se apoiam na ideia das artes milenares e eu jogo contra vocês a verdade: ninguém liga pra essa doutrina e pra essa moral torta de vocês. Só estamos nesse torneio para lutar.
Seu monólogo não se estendeu, mas tinha muito peso, maior que mil anos.
— Há um prêmio em jogo, um troféu, e ele não é mais importante que o caminho que tomamos como lutadores — bateu os dois punhos um no outro, som pesado propagou no ar.
Esse som viajou por metros, ricocheteou nos cantos e chegou até aos ouvidos aguçados de Joshy — ficou surpreso na hora.
— Hm… — fechou os olhos, leve sorriso no canto da boca. — Um punho justo veio ao meu encontro.
Cortando rápido até onde Amy estava, sem quebrar o raciocínio, ela concluiu:
— Deixem essa menina em paz! — voz ainda mais firme. — Se querem tanto provar que sua doutrina é grandiosa, façam isso na arena. É por isso que todos nós estamos aqui… e vocês?
Ao contrário do que os membros da Família Geiza tinham certeza, nenhum dos lutadores que estavam acompanhando a suposta justiça que a odiável família ostentava tinha a mesma impressão.
Tudo não passou de um mal-entendido a princípio: antes, havia a desconfiança, agora era uma constatação.
Ao fim, todos bateram palmas para Ametista, que não esboçou reação, mantendo o olhar frio contra o monge agressivo.
Ele, sem desviar o olhar, expôs sua opinião:
— Você falou bem e também solucionou uma questão que todos parecem não ter observado a fundo — disse, caminhando para próximo de seus asseclas. — E vocês irão pagar por essa insurgência! Serão banidos!
— A quem você vai reclamar? Para o Sr Huli Hu Li? Será legal todos nós termos uma conversa com ele… já que ele sabe do que aconteceu.
Xeque mate — ou melhor: nocaute por pontos.
Após agrupar, e aceitar a derrota momentânea, ele apontou para Milla, junto com palavras:
— Como você disse mais cedo, mocinha… No torneio será mostrado e todos verão a queda deste ser repugnante e abominável. A mácula maldita será esterilizada permanentemente.
Gil Son até deu um passo para frente — interesse de mais um soco — mas a felina pôs sua mão estendida a sua frente, impedindo o ataque.
Era o momento de dar um fim ao ciclo da Família Geiza.
— Essa garota já recebeu ofensas demais, Sr Gil. Isso acabou, por enquanto.
— Muito bem, Amy — falava o javali, já mais contido. — Mas é difícil segurar o punho na frente de gente como eles.
— São revoltantes, mas isso é o que esperamos deles. Não somos injustos, e muito menos hipócritas.
Por causa desse comentário, Noah a olhou com mais intensidade.
O albino, impressionado por tamanha força na voz e palavras, mesmo com a simplicidade que mostrou, ficou comovido.
— “O carisma dela é incrível. Nem eu escolheria bem o que dizer como ela fez. O mundo dos lutadores de Avalice é fascinante, onde anônimos como ela se escondem dos holofotes.”
Vendo os monges inconvenientes caminharem para longe do local, Santino Rock se aproximou da felina.
Ele veio com um sorriso.
— Nunca te vi antes deste torneio, mas não tem como esconder meu orgulho por você, Ametista Superior.
— Ora, hehe… Obrigada — sorriu de volta, rubor no rosto. — Eu que devo te agradecer por ter postura firme contra injustiças.
Ela olhou para o canino marrom com delicadeza e admiração ao mesmo tempo — ainda sorrindo e mantendo o rosto vermelho, não só pelo elogio.
Amy continuou:
— Nós vimos tudo lá na área dos Geiza. O Sr Gil disse que o conhecia e decidi acompanhá-los.
— Você é uma excelente líder, sabia? Parabéns.
— Foi o meu time que me escolheu como líder. Agradeço muito a eles pela oportunidade — ela reverenciou Gil Son, ainda mais corada.
A imensa humildade da jovem cativou a todos.
E não havia terminado.
— Não gosto que pessoas como os Geiza levem o mundo das artes marciais em Avalice para esse lado preconceituoso deles.
A surpreendendo, Milla segurou em sua mão, a puxando — a pequena também queria falar.
— Moça, obrigada pela ajuda, tá? — um grande sorriso surgiu no rosto da canina. — Que bom que temos lutadores tão bondosos e fortes como você por aqui.
O gesto, repleto de ternura, foi apreciado por Amy, que também segurou na mão da pequena, dizendo:
— Você está certa, mas você é a mais forte aqui — voz sussurrante, com carinho. — Tolerar essas coisas é difícil e você superou tudo de frente. No fim, quero uma coisa de você.
Isso causou surpresa em todos, com a atenção toda na felina.
— Hã? Que coisa você quer de mim? — perguntou Milla.
— Não economize força quando lutar de verdade. Esse torneio será difícil, e poderemos nos enfrentar em breve. Então, pelo que você viu do Sr Gil, já sabe do que estou falando.
O que seria motivo para tensão — foi um desafio proposto — serviu mais para admiração de Milla.
A pequena não só sorriu, mas a abraçou, dizendo:
— Então eu vou me esforçar bastante, pra você se orgulhar de mim… assim como minha mestra Neera Li me disse!
Ametista se surpreendeu com o que ouviu, já que uma certa panda foi citada, mas deixou para lá, retribuindo o abraço.

Mas Gil Son ouviu também, e não ficou calado.
— Santi-rocha, eu ouvi errado ou essa garotinha disse que a panda do Reino de Shang Tu é a mestra dela?!
— É… eu sei bem o que é sentir esse baque, meu amigo.
Enfim, os corredores da Arena Shang Mu estavam voltando à normalidade, mas não seria tão breve.
Naquela zona, a ordem marcial e dos lutadores fincaram uma âncora no mar, mas as ondas ainda batiam com força nos demais pontos da arena.
Rumando pelo oceano ainda impávido, era ouvido passos apressados, com a certeza para onde ir, e o que fazer.
Logo, foi visto um grande portão, que se abriu — a pouquíssima poeira do assoalho fino levantou à movimentação de ar.
As grandes portas deram passagem à imponência do raposo ruivo Huli Hu Li, o solitário guardião da Arena Shang Mu.
Com um dos olhos cobertos por seu longo cabelo, ele procurava por:
— Bryan O’Brian… Cesse essa balbúrdia que sua equipe criou imediatamente!
O urso, sentado na poltrona que dava visão à arena, não se mexeu, estando de costas.
Huli, não satisfeito, ousou em caminhar, para dar fim ao maremoto.
Porém, ao fazê-lo, à sua frente surgiu uma figura até então escondida.
Do alto, ela aterrissou: era uma morcega trajando um terno preto, assim como a gravada, e uns camisa social por dentro.
Usava salto alto como calçado, e luvas pretas nas mãos, com características de sua raça.
Usava óculos, com olhos púrpuros penetrantes, e cabelos pretos curtos, brilhosos e sedosos.
Com um tom de voz suave e feição segura, ela falou:
— Guardião, peço desculpas, mas… Não dê mais um passo.
O raposo a encarou, mantendo a calma.
Ele a conhecia, vide sua postura controlada.
Todavia, sua autoridade estava em debate…?

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