Capítulo 125 - A Descoberta da Mácula
Arena Shang Mu | Início da Manhã
Área administrativa do Monastério Omna
Ainda em seu posto na frente da área exclusiva do monastério, Joshy aguardava paciente por notícias de sua ordem aos mensageiros.
Um a um, o chamado chegava, com mais circulação de pessoas relacionadas ao torneio e acompanhantes.
Por estar preocupado com a integridade dos lutadores, alguns dos times foram agraciados por sua proteção.
O ar estava quente com uma vibração incessante, sensação do estado tanto mental quanto espiritual do momento conturbado — embora mais acalmado, havia várias manifestações de inimizade pelos corredores, como Joshy pôde ouvir.
Seus ouvidos estavam aguçados, assim como seu tato e olfato, que tanto lhe trazia boas e más notícias sensoriais — no fundo, ele sabia que ainda havia guerra.
Nesse meio tempo, ele viu se aproximar uma felina, que tinha rosto pálido — além de listras em sua pelagem como a de um tigre e orelhas felpudas.
Usava óculos com lentes laranjas, assim como a cor de seus olhos, com uma silhueta voluptuosa mas controlada.
Vestindo uma blusa preta estilo oriental e shorts de lutadora — bem justo no corpo — sua cauda acompanhava seu caminhar, deixando claro para o lobo quem se tratava.
Assim que se aproximou dele, Joshy disse:
— Agente Ingris… você demorou.
Ela passou por ele, em sinal de protesto — seu rosto mostrou desconforto.
Antes de prosseguir, ela interrompeu seu caminhar, mas não se virou.
Contudo, ela não ficou calada.
— Espero que essa seja a única vez que pronuncie pelo meu codinome, Joshy Sapphire Omna — lhe dando as costas, continuou a falar. — Queira você ou não, sou uma Omna.
— Lhe chamei pelo nome que você tomou após sair do monastério, Waaifu Soul Omna. Ou você tem vergonha da sua escolha?
Ela respirou fundo, como um vislumbre de superioridade, se virando em seguida.
Ambos estavam de costas um para o outro — uma dicotomia de mundos.

Ele mostrava segurança no olhar e no semblante, e ela um sorriso confiante e o mesmo olhar de seu líder.
Tomando a partida, a felina caminhou até o lobo, dando a volta e, com isso, passou a olhar para bem dentro de seus olhos.
Joshy não desviou e muito menos recuou, lhe impondo também a encarada.
— Você tem dificuldade cognitiva, líder? — não era um deboche, mas foi uma provocação.
— Uma pergunta retórica, agente — ele devolveu no mesmo tom. — Tenho certeza de que você queria essa honra. É um fardo pesado, será que lidaria?
Na pressão entre dois egos, restou a Waaifu dar o primeiro movimento de apaziguar: ela levou sua mão para até o escudo de Joshy, em um gesto não agressivo, mas que causou estranheza no lupino.
— O que foi, Waaifu?
— Esse seu escudo é belo, sabe? Mostra imponência, destreza, força e defesa tudo junto. Será que há alguém mais perfeito que você para ser o líder do Time Omna?
Por dez longos segundos, os dois se encararam, logo após a felina proferir as palavras.
Após o período, Joshy pôs mais tempero na disputa.
— Seus jogos não terão efeito em mim, Waaifu. Até hoje não sei o que disse ao Tanamako para que ele cedesse seu lugar para você, mas comigo as coisas são diferentes.
— Isso é bom. E não precisa se preocupar com aquele lobo da sua família: ele está em um lugar onde suas competências serão deveras respeitadas.
Foi um comentário velado, indicando consequências boas… ou não.
Joshy não ficou calado.
— Você angariou vários Omna para fazerem parte do plantel da Agência… — falava, com honestidade na voz. — Se Tanamako escolheu esse caminho porque quis, ele é mesmo especial.
— Exatamente, Joshy Sapphire Omna — a felina aproximou o rosto no dele. — Tanamako escolheu o melhor caminho. Sinta-se honrado.
— Eu sinto orgulho dele, Waaifu Soul Omna — ele não esboçou nenhuma reação. — O time já está reunido lá dentro das instalações da zona administrativa. Só faltava você.
Sua divagação não passou sem que Waaifu reagisse.
— Você tem controle do que fala, como agir e, principalmente, lidar contra intimidação com subtexto. Além disso, denota desenvoltura com viés político e ideológico. Bravo, é o mínimo — bateu palmas, saindo do local.
Seu caminhar lento, quase hipnótico, realçou mais de suas habilidades.
Entretanto, Joshy ousou:
— Você não suporta ouvir perguntas.
Waaifu estava de saída, mas precisou parar — ela se sentiu desafiada.
— O que disse? — ela não olhou para trás, mantendo o olhar para frente.
— Você é, de longe, a membra mais inteligente que eu tive o prazer de conhecer. Porém, você odeia perguntas.
Outra vez, um silêncio ocorreu — quinze segundos, precisos.
Esse foi o tempo para que a rivalidade entre os dois crescesse ainda mais.
Se a felina fez uma análise do lobo, ele mostrou o real.
Isso fez com que Waaifu começasse a rir, estancando as gargalhadas como ironia.
No fim, respondeu:
— Perguntas diminuem a capacidade das pessoas, as fazem ter procrastinação. Se você mostra dúvidas, parte da sua vulnerabilidade fica no ar. Porém, ao respondê-la, você é diminuído a pó.
Seus passos voltaram, indo em direção ao interior da zona.
Todavia, antes de sair, ouviu a última frase do lobo:
— Se tudo é motivo para fraqueza, o forte é o ser mais desiludido de toda Avalice — sua voz chegou até a felina sem veneno algum. — Eu confio em você, Waaifu. Porém somos de mundos diferentes.
Antes de entrar, ela voltou a olhá-lo, mas desta vez com brilho.
— “Em outra situação, seríamos amigos…” — pensou, entrando no recinto. — “Ou algo além.”
Todavia, ela tinha um foco no momento.
— “Tenho uma missão… e irei cumpri-la” — fechou os olhos, assim como seus punhos.
Ainda que a tensão entre os dois se mantivesse a mesma, diferente de Pawa, os dois tinham certo respeito um pelo outro, onde a breve conversa delimitou até onde ambos poderiam ir.
Eram duas lideranças batendo de frente, mas só uma detinha o título.
Era recíproco, ao mesmo tempo embate de egos.
Mas, diante dos limites de cada um, quem estava à frente tinha vantagem.
Ou não…?
Enquanto isso…
Tribuna de Honra da Arena Shang Mu | Manhã

— Guardião, peço desculpas, mas… Não dê mais um passo.
Contrariando o tom tempestuoso e diante de um mar de incertezas dos bastidores da arena, a elegante morcega encarava a autoridade suprema do local milenar.
Huli Hu Li não desviou o olhar um segundo sequer, raciocinando após o pedido controlado dela.
Ele, levando o foco até onde Bryan O’Brian estava sentado, retornou à moça, com ele dizendo:
— Ana Andirá, explique-se — voz baixa, mas com irritação contida. — Minha paciência tem preço.
— Atenderei suas expectativas, nobre senhor Huli — ela manteve o traço sereno e amistoso no rosto.
Ana até iria começar, se não fosse o raposo ruivo estender sua mão, sinalizando que se calasse — ele tinha mesmo a autonomia de fazer o que quisesse dentro daquele lugar, mas sabia dos limites do respeito.
Ele olhou para o urso, que não se mexeu, ainda sentado de costas na poltrona luxuosa do lugar.
Em seu rosto havia um sorriso, não ofensivo, que Huli não conseguia ver.
O guardião, controlado, falou:
— Essa senhorita é tão onipresente quanto a mim, e eu sei que isso não foi um acidente — sua voz tinha firmeza.
— Hm… você percebeu, não foi? — Bryan respondeu. — Não é à toa que ela exerce tantas funções ao mesmo tempo, e com o mesmo desempenho em todas elas.
— Competências de uma artista marcial se incluem, eu sei… — Huli estava em prontidão de luta.
O raposo sabia mais do que ninguém quando alguém com capacidades marciais estava à sua frente.
Como guardião, estar sempre alerta não era só uma obrigação, mas também um privilégio — superioridade marcial, mais adaptado e com subterfúgios.
A conversa prosseguiu.
— Não tenho culpa se minha secretária se ofereceu para ser a guarda costas oficial do Showman que aqui está, caro guardião — falou o urso, com sinceridade.
Pegou o bule de chá e uma xícara, a enchendo em seguida.
Ao mesmo tempo que tragou um pouco do líquido protéico, continuou a conversa.
— Eu não precisava dessa proteção, sei me cuidar, mas o zelo dela pela minha integridade foi algo que não pude recusar. Espero que entenda isso, meu amigo.
— Ótimo — fechou o olho que estava visível. — Ela tem menos de um minuto para me convencer a não colocar ordem neste lugar eu mesmo.
Não havia aura aflorada de Nirvana, mas a energia pesou, e muito — Ana Andirá não esboçou reação, mas sua mudança de postura mostrou que aquele era o movimento de agir.
Aliás, de falar e também convencer.
— Senhor guardião Huli Hu Li, creio que estamos diante de uma anomalia inesperada no torneio.
Ele se manteve do mesmo jeito, com o olho fechado.
Era um sinal de que só iria ouvir, e que também queria motivos para permitir o ato.
A morcega continuou:
— Existem vários arquétipos de lutadores. Há muitos do elemento fogo, a maioria, assim como metal e terra, quantidade mediana, e água, o menor.
O silêncio inalterado; Huli, que tinha os cabelos cobrindo um dos olhos, ainda não abriu o outro, este descoberto.
Ana tinha caminho livre, ele só iria ouvir.
Mas não tinha muito tempo.
— Níveis altos de Chi explodiram pelos corredores, com Nirvana aflorado por muitos. Contidos pela maioria, expostos por apressados. Tudo dentro do planejado, porém…
Esse foi o momento que Huli abriu o olho, causando um passo para trás de Ana, que sentiu a encarada.
Seu rosto transparecia controle, porém o tempo era seu maior inimigo.
— Minha técnica Orbital Auditivo identificou Samsara entre os lutadores.
O minuto doado por Huli havia se esgotado, no instante em que até sua respiração silenciou — um tópico crítico foi levantado.
Huli puxou ar, como alguém que acalmava a si próprio por querer, segurando uma carga emocional maior do que poderia suportar por um longo tempo.
— Então eu não fui o único que percebeu…
A fala breve chegou como um golpe cortante em Ana, que fechou o rosto ao ouvi-lo. O mesmo veio de Bryan, que se levantou assim que a notícia foi a seu ouvido pelo guardião da Arena Shang Mu.
Huli mostrou segurança, mesmo com o que todos agora sabem por igual.
— O comportamento inesperado de vocês está dentro da minha expectativa. Pagaram o preço por minha paciência.
Huli estava falando sério.
O minuto foi crucial para a continuidade do espetáculo.
Não houve alívio: a escalada crítica se manteve instável.
Bryan O’Brian, se juntando a sua secretária e também sem o sorriso icônico, pediu a palavra.
— Promover torneios por todo o planeta é o meu maior negócio. A parte mais importante, a que faz com que tudo funcione perfeitamente no mundo da luta, é a rivalidade, as inimizades, a ironia e tantos outros sentimentos.
A divagação só ajudou a deixar Huli mais tenso, principalmente por que ele pressentiu a segurada de ânimos.
— Não aprecio essa modernidade, essa gama de negatividade exacerbada, mas respeito quem tem essa predileção. Porém, não gosto quando romantizam essas coisas mundanas.
— Não se sinta ofendido, meu amigo. Faz parte do jogo.
— Do seu jogo, não do meu — fala firme, e foi direto ao assunto. — Quem é o causador do Samsara?
Tanto o urso pardo como sua secretária trocaram olhares, em acordo sobre a curiosidade do raposo.
Bryan foi categórico:
— Nós não sabemos, meu nobre. Não é tão fácil assim resolver todos os problemas de uma só vez nesse negócio, entende?
O comentário certo em um momento inapropriado.

Huli agora tinha os dois olhos visíveis; seu cabelo se ouriçou, como se parte de sua aura aflorasse instintivamente.
— Problema? — o olhar era muito mais penetrante que de costume. — Você sabe com o que está lidando?
O urso pardo recebeu a encarada como um desafio — ele se irritou também.
— Sendo sincero, as informações que sei pertencem a minha secretária. Eu confio nela mais do que a mim mesmo.
Sem desviar o olhar, concluiu:
— E respondendo a pergunta: não, eu não sei com o que estou lidando… e seria muito bom que você me dissesse.
Eles estavam quase duelando.
Bryan O’Brian e Huli Hu Li estavam firmes como uma rocha, recebendo a mesma carga de tensão em seus brios.
O sangue de lutador ardia em suas veias do mesmo jeito, mas por motivos diferentes.
Atendendo ao pedido do pardo, o raposo disse:
— Tal indivíduo que manifesta Samsara pode ser um problema ou uma anomalia na visão de vocês, mas há muito mais em jogo nisso.
— E do que estamos diante então?
— Honorável Bryan O’Brian, senhorita Ana Andirá… Samsara desmantela o cerne do espírito de qualquer lutador. É o fracasso marcial, o que tanto combato na minha vida como artista marcial.
Novamente a dupla responsável pelo Tormenta trocaram olhares.
Huli nunca tomou o olhar que mostrou aos dois naquele momento.
Uma linha foi cruzada — moral e ética em jogo.
— Não sei até onde este lutador que porta o Samsara irá, mas… — falava o raposo, indo até uma escrivaninha. — Se sua conduta foi de destruição, ele será banido de toda Zona Milenial, no mínimo. As leis da Cidade de Shang Mu farão o resto.
Isso foi uma mudança de direção abrupta.
Pela primeira vez desde o início, Bryan engoliu seco e passou a tremer, dado o estado emocional de seu cuidador.
Huli era pura resignação, comportamento que tomou para se segurar.
O assunto realmente o dominou por imensa preocupação.
— Forças proveniente das trevas são inimigas da boa índole e da saúde das artes marciais. Esse alguém pode se tornar uma ameaça tanto a ele mesmo e, o pior, para os demais lutadores.
O assunto tomou uma proporção muito maior que Bryan previu.
Pelo contrário: até o cercou com temor.
— Caro Huli, eu não esperava que isso fosse tão importante a ponto de soluções e consequências tão extremistas.
— Eu concordo com tal termo, honorável Bryan. E também quero que faça esse mesmo comentário ao indivíduo que possui Samsara.
Ana Andirá abaixou a cabeça, em sinal de baque. Ela sabia que o comentário foi infeliz, dado o entendimento que tinha do assunto.
O guardião, controlado, virou o rosto, o apontando para a arena.
O vitral agiu como uma moldura de uma obra de arte que o tempo preservou por mais de mil anos, o qual tinha admiração tanto quanto sua vida.
Ele tinha ciência da situação muito maior que de seus dois convidados.
— Não existe justiça no mundo das artes marciais. Vocês dois sabem o porquê? — ele divagava, tinha uma tese a defender.
A resposta veio rápida.
— Simples: a pureza é um fardo maior que a mácula, que só é maldita por não ter moralidade nem pudor.
Se apoiando na sacada, ainda contemplando o espaço de lutas, ele continuou sua explicação.
— Alguém puro é um indivíduo sem vícios, sem desvio de conduta, um simplório no mundo corrompido que o abriga. Mas, até nas trevas pode haver pureza… O mal supremo. Vêem a diferença?
A morcega, conhecedora de filosofias, entrou na tese.
— E como diferenciar o mal verdadeiro do falso?
Huli não poupou palavras:
— O mal falso não é real. Indivíduos inconvenientes podem e devem existir. Porém a mácula maldita destrói, tripudia, inibe a existência até do pior avaliceano. É algo acima de ter comportamento duvidoso ou odioso.
Ana, ouvindo atentamente, sintetizou:
— Senhor Bryan, o Sr Huli quer dizer que combaterá o outro extremo da maldade — olhou para o chefe, olhar sério. — Creio que estamos diante de alguém comprometido com a segurança deste lugar.
Bryan O’Brian coçou a cabeça, deixando a entender que entendeu a explicação mas que estava preocupado.
— “Esse cara me surpreende cada vez que o conheço melhor…” — pensava, o encarando. — “Será que todo setor milenar de Avalice é sempre tão rígido assim?”
Após a breve conversa, Ana enfatizou uma informação crítica.
Com um tablet em sua mão de morcega, disse:
— Minha técnica Orbital Auditivo identificou a anomalia, sabemos que é volátil, tanto que a mistura de karmas dificultou o rastreio.
— O esperado, depois de tanta semeadura de negatividade… — o ruivo disse, com um tubo grifado na mão. — Vocês promoveram tanta inimizade que algo verdadeiramente abominável está entre nós.
Bryan não gostou do que ouviu, lhe gerando desconforto.
Sua secretária tentou remediar.
— No mundo da luta, rixas são comuns. São contextos diferentes que coincidiram com essa anomalia.
Huli a fitou, assim como fez ao urso em seguida.
Sua resposta simples cortou o argumento em vários pedaços.
— O mal supremo é astuto… e ele usou vocês.
A lástima.
O Samsara estava entre todos na Arena Shang Mu.

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