Capítulo 129 - Translucidez Carismática: Universo Tenro
— Mas o que está acontecendo?! Por que você está aqui?! — falou Lilac, com os olhos arregalados.
Uma aparição inesperada, mais do que o normal (e do anormal também!).

Lilac tentava processar o fato improvável que estava logo à sua frente: ver uma idol, em um lugar onde as artes marciais se distanciaram do mundano e do pop, era quase um delírio.
Mas não: a dragão púrpura estava certa no que estava vendo.
A menina, sorridente, também se surpreendeu.
— Ora ora… Então a sua pessoa me reconheceu? Eu não esperava, de coração e sinceridade, que alguém teria essa memória tão boa. Estou muito feliz por saber que me conhece, moça bonita.
O carisma gigante da garota teve o poder de causar rubor em Lilac por todo o corpo.
Era tanto que a dragão precisou tapar a boca com as mãos para não surtar.
— Oh, deuses de Avalice! — A voz saiu abafada por causa das mãos no rosto, enquanto a vermelhidão tomava sua fronte. — A princesa Amu Amu está na minha frente e me chamou de moça bonita?! É isso mesmo?!
Logo ao seu lado, Lilac tinha todo o time a olhando com estranheza.
Olhos suspeitos, desconfiados, sem expressão…
Tudo levava a uma só constatação:
— Ih, mano… A diva linda aí colapsou — Carol deixou claro o sentimento. — Pô, Lilac. Tamo quase saindo na porrada num torneio e tu me vem com essa de bancar a fangirl adolescente? Postura, “líder”!
— Ei, não corta o meu momento, está ouvindo? — falava a dragão. — Se você pôde ficar “em colapso” por fazer parte do torneio, então eu posso ficar encantada com coisas que me dão alegria, okay?
Sim, Lilac exigiu um tempo.
Um momento de descontração, onde ela estava sendo ela mesma, por mais que isso fosse em um lugar descolado do mundo com a presença de alguém tão descolada do seu próprio mundo — o pop, é claro.
A felina tagarela desta vez ficou em silêncio.
Refutada dentro do próprio argumento da amiga, se calou e ficou acuada logo atrás de Viktor, que também não entendia nada.
— Ah, deixa eu ver se entendi bem: essa garotinha é uma idol… e ela está aqui na arena?!
— Ah, piá… sei de nada, tá? — Carol recuou ainda mais. — Na primeira versão dessa história, nada disso aconteceu… então me deixa na minha aqui.
— Hã? Do que você está falando?!
(Nem eu sei do que ela está falando… ou será que não…?)
Voltando ao fio, havia também a estranheza de Santino, que observava a garota de longe, mas tão confuso quanto o humano.
— Olha, em outra situação eu até diria que ela é bem fofinha, mas essa palavra não combina em nada com esse lugar, não mesmo!
Carol, sempre ela, ouviu o comentário e retrucou:
— Qual é a sua, doggo? Pô, a Milla tá sempre com a gente, vai lutar… e ela é fofinha também!
— Sim, kiddo! Só que a Milla… é uma lutadora também!
— E daí? Fofa por fofa, as duas são!
— Só que a Milla é lutadora e a Amu é uma idol! Preciso ilustrar mais ou você ainda não entendeu que não é por causa da aparência e sim pela função?
Refutada.
Carol recuou (outra vez!), ficando em um canto de uma pilastra.
De braços cruzados, não estava nada feliz — ela não gostava de perder.
— Caraca, abriu a temporada de “cancelamento” da Carol, é? Já tá dois a zero, tô com medo de tomar pneu…
Seguindo a cena, ao lado de Carol estava Noah, neutro quanto ao evento.
Ela tentou diálogo.
— Aí, tu também tá achando isso aí mó brega, né?
— Não… — o albino se manteve sóbrio.
— Não?! Olha só pra aquela kawaiizinha lá e a diva linda sendo fangirl… e ela é a nossa líder!
— Desfilar a mente é um movimento nobre. Se você apóia nossa líder, veria que ela está relaxada e isso é bom para todos nós.
Refutada: 3 a 0.
— Ah, legal! — a gata verde estava quase surtando. — Esse é o momento que todo mundo dá risada por trás da tela, né? Vai acabar a bateria do celular de vocês!
Enquanto a tagarela pensa em alguma forma para “recuperar o placar” (spoiler: ela não vai!), a cena transicionou para onde Amu Amu estava.
A suricata, sendo mais do que paparicada por Lilac, manteve o mesmo sorriso.
— Nossa, seu estilo é muito lindo, sabia? — falava a dragão. — Eu sempre leio sua coluna e sigo os conselhos de moda da revista do salão Kiki! Eu me inspirei nas suas dicas para confeccionar meu modelito!
A menina deu um passo, rápido, incessante, de tal moda que os movimentos se tornaram tão simétricos e precisos que isso chamou a atenção de Santino, mesmo longe:
— “Hã? O que essa garota está fazendo…? Esses saltos… os pés mal tocam o solo, quase não se ouvem ruídos. Será que…?”
No fim, a princesa parou e, aos observar toda a roupa de Lilac, deu seu veredito:
— Sim! Exatamente o que eu imaginava e que agora tenho certeza: você, moça bonita, tem o selo “diva linda” da princesa Amu Amu! É uma honra tê-la inspirado! Arrasou!
Lilac estava nas nuvens, com seu sorriso brilhando tanto quanto o sol. Até raios quentes surgiram, centralizados só nela — até um coral super afinado surgiu do nada com um “oh!” contínuo, exaltando sua felicidade.
— Obrigada, muito obrigada! — a dragão a reverenciou, se segurando para não abraçá-la.
— Ei ei… Moça bonita, não é necessária toda essa sua educação para comigo. Eu estou, com total certeza, encantada por sua imensa felicidade e carinho pelas minhas ideias. Eu sou a pessoa que deveria lhe agradecer.
A fala pausada, mas repleta de formalidades, mesmo para uma menina tão jovem, era o que aumentava de todas as formas seu carisma radiante.
Amu Amu dominava a cena.
— Isso aí… e ela até roubou bordão meu e tá tudo bem, né?
Certa alguém não estava nada contente.
Carol foi até a pequena gigante e, a encarando com os olhos fechados nela, falou:
— Aí, foficha… — ela foi interrompida (?)
— Ah, você não queria dizer “fofucha”? — corrigiu Amu Amu.
— Não, é foficha mesmo, porque eu quero, tá? Agora escura: qual foi dessa aí de dar selo “diva linda”? Fui EU que criei isso, tá ouvindo? EU!
Lilac interveio.
Não foi bem assim:
— Sua bobona, será que você não tem mesmo noção do ridículo? Deixa a Amu Amu em paz!
— Paz?! Paz?! A “ídola” pintora de rodapé aqui que mal saiu do primário tá usando bordão meu na carocha!
— Carol, você sabe muito bem onde isso começou!
— Claro que eu sei, porque fui EU quem curtiu essa parada pra te elogiar, “diva linda”!
Não precisou muito para que a realidade caísse bem em cima da tagarela: Lilac pegou uma revista do Salão Kiki, cedido “por cortesia” pela Amu, lhe mostrando uma edição lendária.
— Olha aqui, Carol. Essa foi a revista onde você pegou esse bordão!
— Mas eu nem leio esse tipo de revista!
— Você ficou olhando enquanto eu estava fazendo o meu cabelo no Salão Kiki, sua boba! Ficou folheando e gritou “diva linda” quando me viu levantar porque já tinha acabado de arrumar o cabelo naquele dia!
Re-refutada?
— Peraí… Tô lembrando desse dia… — a sensação de derrota veio com força.
— Que bom, gatinha. Agora todo mundo sabe que foi você quem “roubou” o bordão!
Sim. Refutada.
Re-refutada: 4 a 0.
— Isso aí já tá virando humilhação, pô!
A felina se escolheu, caminhando cabisbaixa e apoiando o queixo no ombro de Viktor.
Ele, surpreso, disse:
— O que houve, Carol?
— O ouvido… — tentou brincar, mas o astral não ajudou. — Ah, esquece. Só tô carente, precisando de cafuné, tensão tá alta…
— Carente?! Você… voltou a ser a Carol meiga lá de Shang Tu?
Esse gatilho temporal ativou uma rebobinação instantânea na mente maluca de Carol, que relembrou os momentos onde ela e o time estavam partindo para Shuigang (no capítulo 23, lembram?)
Tudo em Full HD, com som Dolby Atmos™.
(Não era uma sala X-Plus da rede UCI)
Feito isso, a filmagem mental foi para frente a toda velocidade, voltando ao presente.
Foi nesse instante que Carol, vulnerável, deu lugar à rebeldia: ela começou a esganar Viktor com um abraço no pescoço “nada meigo”.
— Escuta, isekai de papel kardex: eu te avisei naquele dia pra tu ficar na atividade e não falar essas coisas de “miau meiga” porque eu não sou nada meiga, tá?
— Ahh… tu-tudo bem! Tudo bem! — disse, batendo no braço dela, pedindo para parar.
A Discussão de Relacionamento foi atualizada com sucesso.
Continuando a cena inusitada, desta vez quem se aproximou da idol foi Milla, sempre sorrindo e recebendo o mesmo de Amu Amu.
Elas, se encarando, começaram um diálogo.
— Nossa, você é tão bonita! — falava a canina. — Parece até daquelas bonecas que eu vejo nas lojas de brinquedo.
— Oh, isso é um elogio muito apreciado por mim! Sabe, você também é bem fofinha, acho que até mais do que eu por causa dessas suas orelhas estilosas e simétricas.
A exemplo do que fez com Lilac, o olhar e o saltitar incrível retornou por parte da suricata, o que trouxe nova observação.
Mas, desta vez, vieram de Noah, que estava longe.
— “Essa menina… Ela se movimenta como se o ar não tivesse peso. Ela desafia a gravidade e as leis da física. Isso é…?”
Sua curiosidade ficou martelando na mente, como se fosse além da reunião fofa que estava acontecendo.
O universo parecia ter as colocado alí por algum motivo.
Os elogios de Amu não terminaram:
— Sua roupa também tem um ótimo contraste: conjunto de um colant preto com colete amarelo é tudo de bom! Combina perfeitamente com seus cabelos desgrenhados, puro estilo selvagem! A-do-rei!
As duas reagiram radiantes: ambas ostentavam um sorriso abismal, trazendo arco-íris na mente de Lilac — e estranheza por parte dos garotos — culminando em um gesto de extremo sentimento de fofura cósmica.
O Karma que elas mostravam era o mais puro possível.
Contudo, metade do rosto de Amu Amu se escureceu, onde a pequena levou o dedo indicador sobre sua boca.
Um sorriso mais distópico ocorreu — um lapso entre curiosidade e atrevimento.
— Hehe… eu aposto que você é bem forte em combate.
O tom subiu.
Da ternura para mistério em um piscar de olhos.
Santino e Noah reagiram ao mesmo tempo, com Viktor em seguida, fechando seu rosto .
— “O que? Ela disse… combate?!”
Tanto o canino marrom como o mestiço se juntaram, se aproximando de onde as duas pequenas estavam.
Eles haviam entendido o sinal — trocaram olhares, tomando postos ao observar a ação.
Carol também se manifestou, indo até onde a dragão estava.
Falando em Lilac, até seu olhar havia mudado: antes era deslumbre, que deu lugar a tensão.
— Porque ela disse isso?
— Tava na hora… — falava a gata selvagem. — E já tinha até piscado uns paranauês nessa foficha aí…
— Carol… — olhou para sua amiga.
Ela não só percebeu em Carol a anomalia, mas também olhou em volta e viu os outros com o mesmo estado de espírito no rosto.
O reflexo pelo o que aconteceu pelos corredores da Arena Shang Mu retornaram.
Milla, ainda sorridente, respondeu:
— Eu sei lutar, sim. Minha mestra me ensinou muitas coisas, então eu sempre fiquei treinando pra ficar mais forte!
Após essas palavras, o rosto de Amu Amu recebeu sombras e, após três pulos ingênuos, ela surgiu na frente de Milla executando um soco tão rápido que o ar pareceu ignorar o atrito.
— Vamos ver o quão bem sua mestra te ensinou!
Um estrondo foi ouvido, os olhares aterradores dos que observaram o evento inesperado acompanharam o final impressionante: Milla conjurou um escudo tão rápido quanto o golpe da “idol”.

Amu ainda forçava seu soco contra o escudo, assim como Milla se defendia.
Era um duelo de força, quase uma queda de braço entre dois universos fofos.
Não.
Eram duas lutadoras.
Poderosas.
Isso causou espanto no olhar arregalado de Noah.
— “Essa criança… ela… é real?!”
Baque instantâneo em Santino, onde suas orelhas até apontaram para frente.
— “Essa guria… Se ela me atacasse assim, na certa eu receberia o golpe!”
E até Viktor, que se contorceu como se ele mesmo recebesse o soco.
— “Minha nossa! Eu não fui capaz sequer de vê-la socar a Milla! O nível dela é… como da senhorita Lilac?!”
Falando na dragão, seus punhos cerrados junto com o mordiscar na própria boca eram o suficiente para mostrar a mesma tensão de outrora.
Junto com ela, Carol estava com os pêlos da cauda ouriçados, situando sua posição como observadora.
As duas, lado a lado, reagiram.
— A princesa Amu Amu sabe lutar?!
— É, diva linda… e isso aí foi mó brabo, fala tu!
— Carol, isso é… ruim para a gente!
Na mente de Lilac, havia um raciocínio lógico: todo lutador forte do torneio era um obstáculo.
Amu Amu não só mostrou suas habilidades marciais como demonstrou um poder incrível.
Só isso já era o suficiente, mas não parou por aí: as duas meninas ainda mediam forças.
A manutenção do escudo de Milla, que estava com olhar sério, e a insistência no ataque de Amu Amu, que tinha o rosto coberto pelos cabelos e um sorriso de satisfação, lotaram a cena de pura vontade e força.
Entretanto, as coisas tomaram altas proporções bruscas sem que houvesse tempo para respirar: enquanto todos os garotos observavam, atônitos, ao duelo “fofinho”, sem que notassem, um vulto caminhou entre suas sombras.
Com exceção de Viktor, vidrado com o evento, Noah e Santino sentiram uma pressão de dentro para fora: uma não alcançou o ombro dos dois — esquerdo e direto.
— “O que?! Estou sentindo um Nirvana pesado…” — pensou Noah. — “Eu…eu não consigo me mexer!”
— “Mas o…. Essa pressão é destruidora! — Santino estava em colapso. — “D-droga, o que está acontecendo…?”
O choque foi imediato, como se o corpo deles pesasse mais de 10 vezes, com dificuldade até mesmo de se virar e ver quem era.
Mas não foi preciso: uma voz grossa com tênue nobre foi ouvida próximo a suas orelhas.
— Peço humildes desculpas por isso, meine Herren — falou, com voz arranhada.
Os dois ativaram sua aura, escura de Noah e amarela de Santino, como subterfúgio.
Só assim suportaram a imensa pressão e puderam se mexer.
Assim que olharam para trás, com os dois mostrando os dentes e entrando em base de luta, viram um elegante bode trajando calças de seda cinza, um terno caro de cor verde com uma blusa transparente de cor preta.
Seu peitoral desenvolvido entregou seu vigor.
Junto a seu visual, pelagem toda branca, com uma mancha alaranjada abaixo do olho, bastante exótico.
Cabelos grisalhos, olhos laranja, orelhas protuberantes — natural de sua espécie — e, como aspecto mais impactante, dois pares de chifres, onde um deles brotou próximo da testa e o outro partia do alto da cabeça.
Ele não era só imponente: ele impunha respeito só de existir naquele lugar.
Um indivíduo que não guardou pompa para impor sua superioridade; só a deixou evidente.
Ele não estava sorrateiro.
Era eficiência.
— Prinzessin Amu Amu, este comportamento é devidamente necessário?
Isso não encerrou o embate das duas, mas trouxe indefinição.
Quem era ele?

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