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    Arena Shang Mu

    Tribuna de Honra | Minutos antes do torneio

    — Hum… tudo está muito quieto. Por isso não gosto de ficar sozinho.

    Bryan O’Brian observava atentamente a arena pelo vitral luxuoso do espaço reservado.

    Relaxado, com os braços para baixo, falava sozinho — comportamento nada usual.

    — Faz só 6 minutos que Huli e Ana saíram e parece que se passou uma semana. — Seu rosto esboçava quietude, mas sua fala mostrou o contrário. — Por que estou tão incomodado? Não é porque estou sozinho…

    Como uma resposta, o portão da sala se abriu.

    Dele, surgiu Ana Andirá, portando seu microfone personalizado.

    — Senhor Bryan, está tudo bem? — ela o olhou bem.

    — Ok, Ana. Não vou esconder de você que estava sentindo falta da sua presença, hehe.

    Ela ficou um pouco corada.

    — Bem, ah… Isso foi fofo ao mesmo tempo que senti um pequeno, bem pequenino, flerte do senhor.

    — Ei, calma lá! Hehe… Eu gosto de você, mas acho que isso já seria ir além do “gostar de você”.

    Ambos trocaram sorrisos — era uma condição entre negócios e amizade.

    Com Bryan mais animado, o urso disse:

    — E então, os bastidores já estão prontos? Huli não permitiu meu pessoal na equipe da arena, então os próprios monges que farão o staff.

    — Não se preocupe, senhor Bryan. Eu já providenciei todos os ajustes.

    Ela pegou seu tablet de dentro da maleta que trouxe.

    No equipamento, mostrou toda a estrutura montada da arena.

    Câmeras, microfones, caixas de som…

    — Deixa eu adivinhar: você fez tudo sozinho.

    — Só a parte da fiação, conexões, testes de acústica e receptividade de som, cabeamento, sonoridade de retorno…

    — Okay… E o que você não fez?

    — Ah, bem… — esfregou os dois dedos, envergonhada. — Não gosto de amarrotar meu terninho, então pedi para os monges levarem os equipamentos.

    Bryan riu alto, tanto pela cena quanto pelos monges.

    — Haha! Eu tenho a secretária perfeita! Haha!

    A “competent cinnamon roll” agradável e fofa.

    Enquanto conversavam, alguém bateu a porta.

    Um silêncio acompanhou o intervalo.

    — Pode entrar — disse Ana.

    A porta se abriu, até o fim.

    Do portal surgiu a mesma cerva de olhos cor de cereja de mais cedo.

    A exemplo da outra vez, levava uma bolsa de trabalho, e o elegante sobretudo cinza esvoaçava enquanto caminhava para perto do urso showman e sua secretária.

    Bryan abriu ainda mais seu sorriso.

    — Hehe… agora eu imagino porquê estou tão “impactado”. — Ele a reverenciou. — Senhorita Leda Ilford-Cooke

    — Perspicaz… senhor O’Brian.

    Sua voz possuía consoantes bem marcadas e vogais ligeiramente deslocadas — sotaque britânico do nosso mundo — como se tivesse cuidado em dizer cada palavra.

    Rosto transmitia segurança, uma sutileza de quem caminhava em ritmo de valsa.

    Ela estendeu a mão, o urso a tomou com a sua e, como afago de etiqueta, a beijou.

    Ana Andirá acompanhava a cena — e tinha agência na ponta da caneta.

    — Senhor Bryan, a senhorita Cooke já começou os takes de fotos.

    — Ótimo! — Sua voz estava baixa, mas grossa no mesmo ponto. — Lembre-se de que os contratei como os únicos que pudessem registrar imagens do torneio.

    — O senhor Huli pôs essa condição… e acredito não haver problemas.

    Cooke tinha um olhar mais seguro, diferente das demais mulheres da arena.

    Ao ouvir o que o urso disse, ela se expressou:

    — Creio que essa restrição seja… bastante apropriada. Um contrato assinado merece o devido respeito. E tenho ciência de ter trazido os equipamentos, ajustados conforme exigido.

    Ela levou a atenção à sua bolsa e a abriu em seguida.

    De dentro, ela revelou sua câmera profissional.

    — Trouxe comigo lentes abertas, sistema mirrorless e uma configuração silenciosa de obturação. Eu suponho que… não teremos problemas logísticos.

    Ana respirou fundo, sinal de aprovação — a morcega elevou a sobrancelha direita, sabendo que não era a única competência no recinto.

    Logo, ela anunciou:

    — A senhorita Cooke já começou a criar material para a revista O.n.A Fashion Magazine. E ela também fará outros ensaios conforme as fases do torneio.

    Bryan respondeu:

    — O Theo deve estar muito orgulhoso. Estiloso e negociador. É um ótimo visionário, hehe. Ele só ganhou pontos comigo.

    — Uma observação sensata, de fato — disse Leda.

    Antes da conversa seguir um caminho mais profissional, Ana olhou para o urso pardo — tinha palavras:

    — Sr Bryan, trouxe a senhorita Ilford-Cooke aqui com um propósito colaborativo também.

    — Hm… — Pôs a mão no queixo. — O Samsara, não é?

    — Exatamente, senhor.

    O urso passou a observar Leda de uma outra forma, como se seu tino como lutador quisesse dizer algo.

    — Seus olhos… — Ele a fitou, de frente para ela. — Eles são diferentes, eu sei que são!

    A cerva, sem desviar sua fronte, emanou uma leve aura cereja, acompanhada pela mesma fragrância.

    Seu Nirvana era sereno.

    Raso… quase como uma sombra.

    Os olhos brilharam, leves, sob controle pleno.

    — Espero que consiga ser útil ao que chamam de Samsara, de fato. — Leda inclinou para a esquerda sua cabeça. — Talvez meus dons de observação e profundidade de gradiente consigam ser efetivos, Sr Bryan.

    — Promissora… mas quero ver mais, senhorita. — Bryan foi cético. — Conheço a revista a qual Theo Monsenhor patrocina, mas não as peças por trás dos panos. Me mostre algo… Sutileza não faz meu tipo.

    Pedido atendido: a cerva foi até sua bolsa, pegando um envelope, papel linho, luxo em cada textura.

    — Aqui… olhe com seus próprios olhos.

    Bryan o abriu, tomando cuidado.

    O material fino causou ótima impressão, ilustrada em seu sorriso.

    No interior do envelope havia somente um material: uma foto de proporção 21 x 29,7 cm (o famoso A4).

    Era uma capa de revista — tinha ilustrado alguém já conhecido por ele, e mais alguém.

    Bryan não tirou os olhos da capa pós edição.

    Foi nesse instante que sua satisfação pareceu contrair músculos.

    Os dentes, visíveis, escancararam esse estado.

    — Baron Hornberg… — sussurrava, segurando a foto. — Hehe… haha.. Hahaha!

    A cadência de sua risada cresceu até uma pomposa gargalhada.

    Ana Andirá ajeitou os óculos, reação de apreço genuína — sua secretária estava tão entusiasmada quanto ele.

    — Ele foi o último dos lutadores a chegar. E trouxe com ele a princesa Amu Amu, senhor.

    Subitamente, Bryan recuou. Não era uma reação defensiva.

    Ele fez esse movimento para enquadrar em sua linha de visão ambas as que estavam na sala nobre.

    Seu sorriso aumentou, pondo para fora algo além de uma simples satisfação.

    Aquilo não estava nos seus planos — e era exatamente por isso que era perfeito.

    Seu corpo começou a tremer, os punhos fecharam… e o sorriso no canto da boca coroou seu êxtase.

    — Hehe… hahaha! — Gargalhava alto, puxando ar dos pulmões. — Aquela garotinha trouxe o monstro, hahaha!

    Leda, com prazer no rosto, apreciou o clima agradável que antecedia o início do torneio.

    — Acredito que meu “port-folio” ajudou a demonstrar minha competência, eu presumo.

    — Sim, senhorita… Haha! — O urso guardou a capa no envelope, com cuidado. — Amo muito tudo isso, e veio até com bônus.

    Leda deixou brotar um sorriso no canto da boca, alegria controlada.

    Ligando o assunto, a morcega concluiu:

    — As somas de habilidades, audição e visão, todas integradas, trarão mais resultados de análise durante o torneio, senhor Bryan. Com isso, identificar o “paciente zero” não será tão difícil.

    O aceno de seu chefe veio, polegar para cima, junto com um sorriso.

    O mesmo fez Ana, segurando seu microfone.

    A breve reunião mostrou mais do que devia.

    Baron Hornberg… e Amu Amu, a qual Bryan conhecia — a segunda peça do tabuleiro não era esperada.

    A balança do evento pendia… silenciosamente.

    — Ana, onde está Huli? — Bryan havia estranhado a falta do guardião silencioso.

    — O Sr Huli está resolvendo um problema de indisciplina. Isso ocorreu dentro da zona administrativa do Monastério Omna…

    — Ah, então… Aquela soma de Nirvana veio de lá…? Curioso, hehe…

    Mas, enquanto dois pesos do mundo da luta em Avalice pendiam para um lado, do outro mais conflitos.


    Zona Estrutural da Arena Shang Mu

    Escritório Milenial | Manhã

    Local arejado, janelas vazadas para tal.

    A brisa dava curvas, para-ventos eram utilizados como subterfúgio.

    O clima acompanhava o nível do ambiente, polido e com odor levemente adocicado — incensos de frutas vermelhas eram um deleite.

    O salão, aposento oficial do curador da Arena Shang Mu, possuía várias estantes com centenas de livros — história milenar catalogada por seções.

    Ele estava sentado em sua mesa, sob companhia de Lilac.

    Não era um evento amistoso… e sim de punição.

    O raposo ruivo escrevia em uma folha, a pena arranhava a celulose com ímpeto, como se manifestasse o peso da seriedade estampada no rosto do guardião silencioso.

    A dragão, com um olhar confiante, levou sua atenção para além do salão — o céu azul, com nuvens que passeavam no alto.

    Esse desinteresse chamou a atenção de Huli — sua visão fugiu do documento e atingiu o espaço onde Lilac estava sentada.

    — Senhorita Lilac Sash… — tom de voz nada amistosa. — Sinto que você está em outro lugar, ou esse é seu desejo.

    — Hã? — Seu olhar encontrou o dele, tomando outro foco, o da saída. — Eu sei por que estou aqui, se essa é sua dúvida.

    — Saber do porquê é o mínimo. Sua indiferença é o que torna as coisas preocupantes.

    Dessa vez a jovem voltou suas atenções ao raposo. O que ouviu soou como uma repreensão, que Lilac não deixaria passar.

    — Eu não me arrependo do que eu e meu time fizemos.

    — Mas deveria. — Pôs a pena, ainda com a tinta fresca, sobre a mesa. — Uma provocação direta e revolta a um monastério inteiro já seria uma afronta aos bons princípios marciais de toda Zona Milenial.

    Huli afastou a poltrona fina, cruzando as pernas — ele sempre fazia isso quando o estresse o tomava.

    Era raro.

    — O Monastério Omna é a instituição matriz desta arena… e todo seu time ousou contra a honra do conglomerado inteiro!

    Huli não parou de falar.

    Cada palavra cortava o ar como um julgamento.

    — Não há como analisar sem que ninguém interprete isso quase como uma desonra… Com certeza, uma ofensa.

    — Eu mantenho o que disse, então. — Lilac se levantou, ainda mantendo o olhar no ruivo.

    A revolta da dragão era mantida, mesmo que sua voz, mansa, não deixasse isso evidente.

    Huli cruzou os braços, discordou.

    Não só isso.

    — Seu time estava à iminência de exclusão deste torneio, e não minta para si mesma que isso não é um problema.

    — Estou ciente de tudo que disse, senhor. E esse não é um problema maior do que aconteceu aqui nessa arena na última hora!

    — Não me responsabilize. — Os cabelos cobriram um dos olhos, se levantou.

    A dragão se calou.

    Huli fez o mesmo.

    Por cinco segundos, os dois se encararam.

    Lilac tomou a iniciativa.

    — Meu time recebeu o que não se esperava. Estamos aqui para lutar, e quase que isso aconteceu antes do Tormenta!

    — Vocês fizeram parte do que houve. Se é a líder de seu time, você dev… — Ele foi interrompido.

    — Eu fiz o que uma líder DEVE fazer! — exclamou Lilac, direta. — Proteger nossa força como time é o que eu deveria mesmo fazer! E eu faria de novo, e de novo… até que todos os lutadores que bateram na gente recebessem o troco, e com juros!

    O raposo respirou fundo — passou despercebido — após receber o que estava, até então, oculto.

    — “Eles foram impactados…”

    Pernas e braços cruzados, como um totem.

    Os fatos martelavam sua mente.

    Junto a seu gesto, o marco: pela primeira vez, os cabelos cobriram os dois olhos.

    — “Tch…” — estalo na boca, inaudível.

    Lilac possuía a liderança nas mãos.

    Huli, a instituição.

    Seus papéis estavam claros.

    O raposo soltou os braços, as pernas também, estando paralelas.

    Ele tomou a mesa outra vez, pegando a pena e escolhendo outro papel.

    Era um requerimento — uma carta de referência, como um documento de ficha técnica.

    — Lilac Sash, — Jogou a cabeça para cada lado, movendo seus cabelos. — Meu desejo é não desqualificar seu time, mesmo que tenha motivos. Mas, como curador desta construção milenar, devo satisfações ao Monastério Omna.

    — Não me surpreende. Somos o elo mais fraco… que não teve medo de mostrar por que está aqui!

    Um tremor ocorreu na mão que segurava a pena.

    Huli evitou a exposição, repousando-a sobre a mesa.

    Mas a marca da pressão estava ilustrada — o traço imperfeito de sua letra estava lá.

    — Cale-se.

    A dragão o ouviu, a dúvida veio na mesma velocidade.

    Ela mordeu o lábio, segurando a vontade de desobedecer — sem que soubesse, essa foi a melhor resposta.

    O silêncio retornou… junto com a ordem.

    — Hm… — murmurou o raposo, pegando a carta e se levantando. — Sua rebeldia é um confronto direto a quê?

    — A tudo… que esse lugar representa!

    — Delimite. Quero o alvo, o motivo.

    — Eu já disse.

    Huli abaixou a mão que segurava o papel.

    A resposta veio, mas não o que queria.

    — Senhorita, por que dificulta sua estada? Sou tolerante, mas há limites.

    Lilac lhe entregou outro silêncio.

    Huli não.

    — Você está se esforçando tanto para ser punida por quê? Manter-se calada é uma falta.

    Sua cauda chegou a se mexer, um sobe e desce contínuo.

    A dragão percebeu.

    — O senhor quer conversar, mas está tentando levar a conversa para um lado que não me favorece. E eu estou nivelando, dizendo verdades que não te favorecem.

    — Hm… — pôs a mão no queixo. — Você tem um ponto, e não negarei tal raciocínio. Mas isso não valida seus atos.

    — E valida o seu?

    — Senhorita, o que…

    — Meu time foi impactado por tudo que aconteceu nessa arena antes mesmo de ninguém dar um mísero soco! O Monastério Omna tem parte da culpa. Entendeu agora onde está o “meu alvo”?

    Huli arregalou os olhos como se a razão lhe aplicasse um golpe.

    O raposo se calou, mas não pelo o que ouviu e sim o que lembrou.

    — “O Samsara… e é por isso que eu, Bryan e Ana estamos nos mexendo.”

    Contenção. Essa era sua missão no momento, o porquê de estar tão tenso com o que ouviu.

    Ele não ignorou o que Lilac falou, mas precisava agir dentro do que estava em jogo.

    Foi até a mesa, olhou ao redor. A carta estava lá, aguardando a resposta.

    O papel timbrado, com a runa do monastério, pedia uma resposta, mas o ruivo tinha outros planos.

    De dentro de uma pasta de couro antiga, tomou em mãos um questionário milenar.

    Ele tinha mesmo um plano.

    — Lilac Sash, eu estou ciente dos eventos traumáticos que ocorreram pelos corredores, e sinto muito pelos efeitos em sua força.

    — Então é um pedido de desculpas?

    — Não exatamente… — Se sentou, os dois olhos estavam visíveis.

    Com o documento sobre a mesa, restabeleceu sua calma e a tranquilidade no olhar — o foco voltou.

    — Sob normas da cidade, falarei o seu nome de forma coloquial, está bem?

    — Hã? — A surpresa tomou seu semblante. — “O que aconteceu? Ele está diferente agora…”

    Huli pigarreou, as palavras vieram logo após.

    — Sash Lilac. Habitante de Shang Mu, precisamente no Vale do Dragão. Possui 16 anos e mede 1,52 m. Elemento Água. Você é a líder do seu time. Concorda com esses dados?

    — Ah, bem… sim. Mas por que essa ficha?

    Ele a olhou com mais afinco, cada centímetro de seu corpo.

    Huli tinha extremo zelo pelas artes marciais.

    — “Pernas definidas, assim como braços. Abdômen forte, mesmo sendo esbelta. Olhos violeta, pupilas saudáveis… e as vestimentas foram feitas pensando em eficácia e adaptabilidade. Sim, ela é uma lutadora e sabe o que está fazendo…”

    Os olhos do raposo correram até os da dragão, uma pressão foi dada como presente.

    No fim, ele foi mais incisivo — sabia o que fazer.

    — Sua permanência neste torneio dependerá… do seu conhecimento. Seu time… quero que me diga sobre cada um dos membros. E isso é uma ordem.

    — O senhor acabou de me dizer a minha. Tenho certeza de que já sabe dos demais.

    — Sim, de fato. Mas quero ouvir de você. Está em processo de análise, senhorita… e seu time também.

    Lilac recebeu isso do mesmo jeito que Huli a tratou.

    Fechou os dois punhos, e o rosto se aquietou.

    Uma longa conversa viria.

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