Capítulo 134 - Falha Assumida (Ato 2): Significado
“Num mundo de golpes e quedas, eu reconheço meus verdadeiros aliados não pela força dos punhos, mas por quem me levanta depois da luta.”
— Ginseng Dao, primeiro guardião da Arena Shang Mu
Minutos antes…
Após a ação de revolta do time de Lilac, todos do grupo foram conduzidos pelos monges do Monastério Omna até o Escritório Milenial, onde Huli esperava.
À frente do lugar, por lá ficaram.
Nesse meio tempo — minutos antes do início do torneio — a insegurança era muita.
— Pode dar muito ruim isso tudo, mas foi mó irado! — Carol socou a sua mão direita, sorriso no rosto.
O termômetro exposto pela tagarela era o mesmo de seus amigos.
Mila estava tensa, assim como Viktor.
Noah, quieto — distante do grupo.
E Santino…

— Mocinha, você não fez nada errado — disse, com uma mão no ombro da dragão. — O time estava em pedaços… e você juntou tudo. Parabéns.
— Obrigada… — Colocou uma das mãos sobre a dele. — Eu não me arrependo, mas o curador dessa arena é rígido. Temo pelo que pode acontecer agora.
Ela manteve o gesto, o olhando.
— Acho que ainda não te agradeci do fez pela Milla mais cedo.
— Hã? Mas o…
Sem que pudesse dizer mais nada, Lilac beijou o rosto do canino, que corou levemente.
Seu rubor durou o bastante para todos verem.
— Ah, o… Hã… mas por quê…?
— Um irmãozão. É isso que você é! — Sorriu Lilac.
— Ah, eu… eu sou?! O que eu fiz pela Milla era o mínimo, mocinha!
— Isso mesmo. É o mínimo… e só você teve a capacidade de fazer isso naquele momento. Não estava lá, mas…
Ela pausou o que iria dizer, puxando Santino para distante do time.
Enquanto os demais viram o movimento, a dragão tinha coisas a dizer.
— Vou fazer o mesmo com eles depois dessa conversa.
— Hã? O que irá fazer?
— Santino, eu tenho responsabilidade do que fiz.
— Nós fizemos, mocinha! Não se esqueça!
— Mas fui eu quem deu o primeiro passo, então assumo as consequências, se houver.
O canino marrom assentiu, como um batismo.
— Você era uma boa líder antes, mas agora já está sendo grande.
— Vindo de você, experiente, tem um peso maior. Obrigada outra vez.
Ambos apertaram as mãos, com maior intensidade de Santino.
O canino tinha mais a falar.
— Há um tempo, eu saí da minha vila em Parusa. Eu fiz uma promessa a alguém…
— E qual foi?
— Ir ao encontro do mais forte. Ir até onde os ventos sopram, rumo ao lado de quem é virtuoso e luta contra as injustiças. É o lema do meu clã.
— E qual seria, Santino?
— Kaze Fuiteru! “O vento está soprando”, traduzindo da língua dos milenares.
Um ar nostálgico passou a circular o canino.
Uma gota de lágrimas gritou de seu olho esquerdo.
— Quero o melhor, para todos à minha volta…
Lilac, com uma das mãos, enxugou seu rosto.
A lágrima se misturou com seu abraço tenro.
— Você apareceu na nossa vida sem pretensão alguma, e só trouxe tudo de bom para o time. Sim, você está cumprindo sua promessa. Tenho orgulho disso… e de ter no meu time, Santino.
Se Lilac estava ferida de alguma forma, Santino era o curativo que ela precisava.
A cena, minutos antes, trouxe a Lilac a lembrança — era a força e sabedoria que lhe ajudariam.
Durante a análise de Huli, o raposo, com o documento em mãos, indagou:
— Santino Rock. Pertencente ao Clã Angin Kekuatan Hati (trad: Vento do Poder do Coração, em Malaio), do Elemento Terra.
O foco agora era Lilac.
— Qual o motivo de um lutador de 27 anos estar te seguindo, senhorita?
Sem perder tempo, ela falou.
— Santino é o que cura.
— Hm… — Huli não fugiu o olhar. — Sintetize.
— Sendo honesta, eu não tenho experiência como líder. Mas ele, mesmo com pouco contato comigo e meu time, eliminou o ponto mais frágil.
— Qual?
— A sina de lutador. Sem ele, eu não saberia o peso de ter responsabilidade do punho que luta. Essa força também protege… como eu sei, como ninguém.
A vista do raposo fechou — imperceptível — o fazendo mover a pena ao papel.
As marcações eram fortes, de quem tinha satisfação.
Sua gana pelo exame continuou.
— Carol Tea. Gata selvagem… que vive com a senhorita Sem clã, mas já pertenceu aos Red Scarves… assim como a ti. Elemento Metal.
Porém, vieram mais vieses.
— Vocês fizeram parte de um clã de ninjas criminosos em um passado recente. Essa sua aliada… Sintetize sobre ela.
Huli veio com uma isca perfeita.
E Lilac…
— Ela é tagarela.
Huli respirou fundo, controlando a pena que segurava.
— Está tripudiando de mim, senhorita? Há uma construção a ser feita e vem com piadas?
Isso fez com que Lilac lembrasse a conversa que teve com sua amiga minutos antes.
À frente do prédio, distante do restante do time, lá estava ela com a gata selvagem.

— Carol, como você está?
— Tô “pê da vida” com essa parada aí. Mas também felizona por ter zuado os omnildos, nyah!
— Estou falando sério!
— Ô… tá, né? Tamo quase entrando pra falar com o raposão lá e já tô tomando esculacho aqui?
— Escuta, desde que entramos aqui muita coisa aconteceu. Você foi a primeira a se preocupar quando eu fui em direção à zona administrativa.
— E daí?
— E daí?! Você seria a última pessoa a fazer isso! Porque fez?
Carol recuou, dando um passo para trás.
Coçou o nariz, ajeitando as luvas.
— Sabe, diva linda… Tava mesmo preocupada com você. Tipo, tu já tava seguindo mó barra com essa parada de ser líder e pá…
— Carol…
— Quando você sai do seu personagem, isso me preocupa. Sabe por quê? Tu é o cérebro, o que me faz manter as garras guardadas. Tu fazer aquilo, de querer ser expulsa de propósito… me assustou.
— Mas você foi a primeira a achar “brabo”!
— É, foi. Mas tava com medo… de você tocar a responsa toda. E eu nunca iria te deixar fazer esse tipo de coisa sozinha.
Essa conversa, levou a mensagem que Lilac herdou com muito apreço.
No presente, ela explodiu.
— MINHA AMIGA NÃO É UMA PIADA!
A dragão ignorou todos os protocolos.
Huli quase deixou a pena cair — sua palavra, que fraquejou.
Mas não o papel — a instituição, isso jamais.
— Ah, eu… — disse Lilac, sem jeito. — Peço desculpas por ter feito isso e..
Ele levantou uma das mãos — a que segurava a pena — a calando.
— Seu brado me disse muito mais do que um monólogo burocrático. Continue.
— Carol e eu sempre estivemos juntas. Eu a conheço tão bem quanto eu mesma. Nossa parceira é uma via dupla. Se eu sou a pessoa que segura aquela boca grande, é ela quem me alivia nas horas que preciso.
Não satisfeita, a dragão concluiu.
— No passado, erramos. Mas, no presente, creio que estamos fazendo a coisa certa. Não estou falando que somos perfeitas, e sim que sabemos para onde ir dessa vez.
Huli voltou suas pena à celulose, pôs força tal qual a tinta marcou sua opinião.
O raposo, convicto, prosseguiu com a acareação.
Fitou Lilac, por alguns segundos— buscou uma melhor posição na sala.
— O que pensa do futuro de vocês duas?
— Nada. Ele ainda não aconteceu.
Ressabiado, terminou com essa.
Mas havia outros membros.
— Milla Basset. Não possui clã, e tem 11 anos. Elemento Terra…
Huli respirou fundo e trocou olhares com a dragão.
Uma fraca brisa voou pelos dois, trazendo não só refresco mas também uma mensagem, um ruído — que ruiu o silêncio que se manteve por alguns segundos.
O curador — guardião silencioso — investiu mais no jogo que propôs.
— Uma criança… que não possui clã e tampouco histórico de luta. Sintetize, e tome cuidado com o que irá dizer, senhorita.
Lilac também tomou ar, ao mesmo tempo que fechou seus olhos — seu preparo não foi em vão.
Momentos antes, ela conversou com a pequena.
A lembrança veio…

— Milla, como você está?
— Eu estou muito bem, Lilac! — disse, sorrindo.
— Eu soube o que te fizeram. Noah me contou… Por isso te perguntei.
A canina fofa levantou uma de suas longas orelhas e levou o indicador direito no queixo.
— Eu… Bem, pensei em muita coisa nesse tempo que ficamos lá na zona administrativa. Acho que… tudo isso que aconteceu foi um engano.
— Engano?! — A dragão arregalou os olhos. — Milla, foram preconceituosos com você!
— Ah, eu sei, mas… Eles não me conhecem. Por isso disse que isso foi um engano. Aquele moço que disse coisas ruins no início me ajudou a achar o galpão onde a Carol estava, lembra?
— O que?!
Foi nesse momento que Lilac percebeu: Milla não tinha pensamentos ruins das pessoas, mesmo as que foram grosseiras com ela.
Ela não estava só bem — a Milla.
A pequena canina estava… sendo quem sempre foi o tempo inteiro.
— Um dia aquele moço vai mudar. Eu vou conversar com ele, com todo mundo que pensa errado das pessoas. Acho que, com jeitinho, todo mundo se entende nessa vida… Você não acha?
No momento que o vento passou, ele trouxe a mente de Lilac de volta ao presente.
Ela chegou pronta com uma resposta.
— A Lady Neera… é sua mestra.
Huli deu um passo para trás — leve, mais como um reflexo de sua surpresa — ainda olhando para Lilac.
Ele fez uma anotação na folha — somou essa informação ao que já estava escrito.
— Você está me dizendo que a sacerdotisa e atual chefe da polícia de Shang Tu treinou aquela garotinha? Senhorita, eu diria que isso é um absurdo.
— Milla foi treinada por ela… e é isso que tenho a dizer.
— A linhagem da Lady Neera Li tem uma história longínqua, indo além dos templos milenares, quase inóspitos, de Shuigang. O que diz é mesmo a verdade?
A arma da dragão: o silêncio.
A redundância de Huli disse muito o que os fatos entregaram.
A exemplo de Lilac, o raposo ficou em silêncio por um tempo, relutante ao dar uma resposta… ou fazer uma pergunta.
O peso do fato era maior que a lógica.
— Isso não muda o fato dela ser uma criança.
— Pergunte isso a Lady Neera. Ela não recua por qualquer coisa, mas não foi preciso que ninguém pedisse para treinar a Milla: ela mesma se voluntariou… sem pensar duas vezes.
Huli voltou sua pena contra a folha — incessante nas anotações.
Lilac pôs um ponto final.
— Milla é a pureza inocente que eu protejo. Sem ela, a esperança perderia a força. Só em tê-la no meu time eu já me sinto mais forte… e a todos também.
O raposo ruivo não só adicionou informações: ele fez isso com gosto, talvez como nunca antes visto.
A ponta da pena era até ouvida, tamanho o atrito à folha.
Entretanto, ele voltou a encarar Lilac.
Pontos críticos chegaram.
— Noah Hibiki…
Ele pigarreou, preparando-se para a nova sabatina.
— De acordo com a ficha dele, vejo que é original de Shuigang, mas vive aqui em Shang Mu faz 3 anos. Não possui clã, mas tem arte marcial descrita: Kaipasu. Elemento Fogo…
Dessa vez, Huli tomou uma postura diferente: ele colocou a folha e a pena sobre a mesa, e se aproximou de Lilac.
— “Esse indivíduo, eu já o vi em seu ambiente de trabalho, na biblioteca…”
Ficou a um metro de distância — bem mais íntimo dessa vez.
— Sintetize — sussurrou.
A palavra serviu como um mantra — ecoou pela mente de Lilac.
“Sintetize… Sintetize…”
O eco tomou forma, trazendo à tona as lembranças recentes, a conversa que a dragão teve com o albino.

— Noah… como você está?
O jovem desviou o olhar, voltando em seguida — quase um ritual.
— Ansioso.
A fala veio junto com sua expressão neutra, contrastando com a emoção expressada na palavra.
— Você parece indiferente com isso, sabia?
— E por quê?
Eles se encaravam — o olhar dizia muito.
Embora aliados, Noah tinha visão de rivalidade.
— Naquele dia, no terreno baldio… O que sentiu? — perguntou o albino.
— Na luta, você diz? Bem… eu percebi que você estava levando a sério. Acho que mais que deveria.
— E você?
Econômico, o que ele falava entregava mais que a quantidade.
— Eu lutei com tudo, como você pôde ver. Mas, por que quer saber disso?
— Você sabe o motivo de eu estar aqui. Eu insisti que me deixasse fazer parte do time, você sabe da minha história… e tenho mais objetivos.
— Mais objetivos?! Quais?
— Preciso lutar contra os mais fortes e você sabe o porquê.
— Sim, o Triângulo de Kai, não é? Você quer desenvolver esse golpe.
— Exato…
O jovem caminhou um pouco para o lado, indo até próximo de uma estátua de dragão.
Frente à carranca, o albino pareceu ameaçar o monumento com seu olhar — Lilac gelou, observando o comportamento incomum.
— Um Tier S… está entre nós! — Ele fechou seus olhos, a voz cortou o ar. — Aquele bode, a anomalia… Ele pode ser o que eu procurava.
— E por quê? Noah, você está bem com isso?
— Sintetize, Lilac… Sintetize…
A voz se tornou quase uma reza, marcando a dragão.
“Sintetize… Sintetize…”
Milissegundos somente foi a duração do retorno a minutos atrás.
Lilac, no presente, respondeu:
— Alguém que busca aprimorar sua arte marcial é um aliado valioso, não acha?
— Tente de novo — falou Huli, sem desviar o olhar.
— E alguém que busca isso e, ao mesmo tempo, é seu rival, é melhor? — manteve a encarada.
A análise prosseguiu, mesmo com a resposta.
O raposo fechou o olhar, foco pleno dos traços da dragão.
— “Rivais? Interessante…”
Cruzou os braços, à vontade.
— Continue.
— Não conheço muito Noah, mas tem algo nele que me lembra a Milla.
Huli arregalou levemente o olho visível — o outro foi coberto por seu cabelo.
— Do que está falando?
— Eu sinto nele… carência por afeto.
— C-care… — gaguejou, restabelecendo o diálogo. — Explique-se.
Ela voltou um pouco mais no tempo, no momento que bagunçou o cabelo do albino.
Ele, ao contrário da última conversa, só aceitou o gesto amistoso, sem esboçar incômodo.
Lilac guardou seu rosto ruborizado…
— Ele é fofo. Eu olho pra ele e vejo uma criança que quer estar por perto de quem lhe quer bem. Acho que, por mais que ele tenha mistérios, ele é… uma boa pessoa.
O ruivo, já com os braços soltos, caminhou com pressa até a mesa — pegou o papel e a pena.
As anotações vieram, a tinta quase acabando.
Havia fúria na escrita.
— “Esse jovem merece atenção… Sua aura me inquieta.”
Após as anotações, por lá deixou o papel, mas a pena veio com sua mão.
Huli a apontou para Lilac — era quase o fim.
Quase.
— Viktorius Ashem. Estrangeiro. Ele escreveu que seu dojo se chama Shushin… e também anotou como doutrina “Lute com força, lute com garra, lute com mais força e com mais garra”…
A voz grossa de Huli passava um ar de autoritarismo intencional, como a de um promotor convicto nas palavras.
Ele não diluiu.
— Senhorita, temos aqui um exemplo claro de “membro desgarrado”. Ele não é de Avalice, não possui Nirvana… e se diz um lutador. Justifique-o.
O processo tinha um peso maior.
O histórico entre os envolvidos dizia por si só.
Lilac iria abrir sua boca, mas bastou buscar ar para ser interrompida antes de dizer qualquer coisa.
— Tome muito cuidado ao falar! — A voz mais alta de Huli era intimidadora. — Existem mil anos de história de artes marciais em jogo! A presença de um Natural no meio de “bestas descontroladas” não é só imprudente: é quase um suicídio!
Essa sentença fez os olhos de Lilac tremerem.
Não só isso: uma tremedeira nas mãos veio com força.
Ela chegou a juntar as pernas e os braços.
Mesmo assim, enrijeceu seu corpo — como um marco de sapiência.
Impôs sua voz, mesmo diante de argumentos poderosos.
— Eu…
A palavra, sozinha, já dava as impressões.
Sua fala seguiu normalmente, como se nada tivesse acontecido.
Mas, na sua mente, as lembranças vieram como um soco no ar.
Ela recordou da conversa com Viktor — a última.

— Viktor…
A voz, doce e afável, veio com um sorriso do jovem.
— Como você está? — disse a dragão.
— Estou bem, senhorita Lilac.
— Já te disse que não precisa me chamar assim, tá?
— Hehe… desculpa! — coçou a nuca. — É que… força do hábito!
Era fácil Lilac conversar com o humano.
O jovem, sempre acessível, parecia ter cuidado como falava.
— Viktor, você viu o que aconteceu aqui nos corredores. Está ciente do que está prestes a lidar?
— É claro… — ainda coçava a cabeça.
O sorriso de Viktor murchou, dando lugar a um semblante subitamente tenso
— Viktor, o que houve?
— Ah, bem… Lilac, alguma vez você já se viu em um cenário adverso, onde você sabe que o combate é inevitável?
O passado da dragão veio, as lembranças a atingiram sem misericórdia.
As marcas da vida estavam lá, mas ela não deixou isso transparecer.
— Sim, mas por que perguntou isso?
— É que… por mais que eu tenha visto os lutadores desse torneio, eu não consigo sentir medo.
— O que?! C-como é?!
— Bem, eu treinei muito de onde vim. Tinha a cozinha como minha segunda casa, mas… meu espírito estava sempre no dojo de karatê que treino.
Lilac só acompanhou o que ele tinha a dizer.
A curiosidade lhe tomou.
— Eu não sinto medo da luta ou de me machucar. Eu treinei muito esse lado.
— Viktor, até eu estaria com medo na sua situação. Reconheça: você não tem Nirvana. Eu entendo que seja um lutador, mas aqui em Avalice, você está correndo riscos… e eu não vou me perdoar se algo ruim acontecer!
Lilac se lembrou da promessa a Ying — o guardião de Shuigang lhe deixou uma grande responsabilidade.
Porém, o que ela viu a seguir mudou sua forma de interpretar a situação, mais do que antes.
— Temos uma missão a cumprir… e eu tenho medo do que é mais importante para você falhar por minha culpa.
A dragão arregalou seus olhos púrpuros, o abraçando com força.
Naquele instante, ela chorou, mas não deixou que ele a visse fazer isso.
E, voltando ao presente, ela estava nesse estado.
As lágrimas brotaram dos olhos, indo ao chão.
Huli acompanhava as gotas pingando e abençoando o solo.
Essa era sua visão.
— S-senhorita…
Ele deu um passo para frente.
Mas Lilac, pondo seu braço em sua direção, o impediu de qualquer acolhimento a ela.
Ela enxugou o rosto — vieram palavras:
— Se eu tivesse uma fração da coragem dele, eu nunca teria sido uma Red Scarves!
A troca estava no começo.
Huli estava imóvel, uma das orelhas tremia.
A dragão lhe entregou mais.
— Quem sou eu de julgá-lo? Alguém como o Viktor é uma raridade em Avalice. Não é à toa que sempre tento protegê-lo…
O curador engoliu seco, fechando um dos punhos — o esquerdo.

A pena baixou com a outra mão, e as palavras do raposo foram diretas.
— Por que Ashem Viktorius tem esse compromisso de segui-la? Um Natural com essa determinação é algo inédito, longe da lógica. Eu quero saber.
— Viktor tem a gentileza… como sua maior força — falava Lilac, já com um sorriso no rosto. — Como líder, tenho ciência dos riscos que ele corre. E como amiga dele… o respeito.
Huli iria falar, mas…
— E estamos aqui… por causa dele! — completou a dragão.
Huli se lembrou da noite anterior, quando golpeou Viktor com um violento soco usando seu Nirvana aflorado. Foi nessa visão passada que viu o significado das lágrimas da dragão ganharem um peso maior — naquele dia, ele também chorou, e manteve oculto.
— “Até de mim essa emoção surgiu, devo admitir…”
Mesmo assim, a lógica parecia brigar contra os argumentos — o raposo teimava consigo mesmo.
— “O que eu estou sentindo…?”
A resposta não saciou Huli.
— Isso é insuficiente! Me diga o porq… — ele mesmo se calou.
O raposo respirou fundo, se recompondo.
Por pouco não perdeu a razão — sua vulnerabilidade emocional gritou alto, mas foi amansada.
Lilac ilustrou um sorriso ainda mais reluzente em seu rosto — fechou os olhos, inclusive.
Era como um reconhecimento do comportamento afável.
Huli deslizou a pena com precisão. Após as breves anotações, sentou-se e cruzou as pernas, entrelaçando os dedos enquanto encarava a dragão.
Com um dos olhos cobertos por seu cabelo, o raposo disse:
— Já cheguei a uma conclusão…
Essa frase antecedeu a abertura dos portões do Escritório Milenial, cujo ranger das dobradiças soou como um anúncio.
Porém, ao se abrir, da passagem, Lilac deu as graças. Seu rosto alegre e aquele sorriso contagiante foi o estopim da felicidade de seu time.

Todos foram ao seu encontro, sabendo que boas notícias seriam ditas.
E, enfim, um chamado veio.
Não um simples:
— Estamos dentro… Time Avalice!

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