Índice de Capítulo

    — Cale-se… e isso é uma ordem.

    A frase cortante causou um eco pelos quatro cantos da sala de reuniões, silenciando Pawa por alguns segundos.

    Ambos se encararam, com Joshy um pouco acima no olhar.

    Pawa tomou a segunda iniciativa.

    — Meça até onde sua “autoridade” vai, soldado insolente!

    — Eu sei bem até onde posso ir, monge. Lhe pergunto: você sabe até onde pode ir?

    O Nirvana exalava da testa de Pawa, ainda que de forma controlada.

    Em contrapartida, Joshy se manteve calmo, sem esboçar maiores reações.

    Esse pequeno ponto de ebulição por parte de Pawa poderia escalar em um piscar de olhos ou estalar de dedos — que não ocorreu.

    — A sala é pequena, insuficiente para ocorrer uma luta — falou Tats, com a cabeça apoiada na mão. — Nirvana está fugindo de você, Pawa. Seu vigor, assim como sua estamina, podem ficar comprometidos.

    Vindo de uma médica, aquilo soou tanto como deboche como uma realidade possível.

    Ele recuou na ofensa, mas a conversa não esfriou.

    — Um ato de revolta contra o Monastério Omna ocorreu bem embaixo do nariz de todos vocês e escondem isso de si mesmos?

    — O time da dragão púrpura foi conduzido pelos monges até o Escritório Milenial — Joshy explicou o protocolo. — O fato de ter votado contra uma ação de expulsão da arena não apaga a irresponsabilidade deles.

    — Mas apaga parte das luzes do nosso monastério, Joshy Sapphire Omna!

    — Pawa, por acaso você se sentiu ferido pelo ato de revolta do time da dragão púrpura? Nem mesmo os monges mais velhos ficaram assim.

    Pawa cruzou os braços, contendo mais de sua natureza violenta — mas as palavras vieram.

    — Posso te mostrar o que é vulnerabilidade agora, se quiser. Ou acha que sua família de soldados tem a superioridade como os Geiza?

    — Ser um soldado é motivo de orgulho… e é uma escolha. Se queria usar isso para me atingir, economize energias para o torneio, está bem?

    A fala de Joshy foi direta, atingindo o ego de Pawa com precisão militar.

    Mas antes que o ranger de dentes de Pawa ocorresse, Sheng, que estava debruçado na mesa, jogou mais pedras:

    — Cara, você está tão fora de foco que isso me lembra quando participei do Omna Sangou.

    Pawa virou seu rosto rapidamente, olhando para o jovem.

    — Garoto, não tenho tempo para traquinagens.

    — Tinha um cara lá como você. Ele ficou falando o tempo todo de “ah, minha família é melhor” e, no fim, ele foi o primeiro a cair fora.

    — Um perfeito covarde — virou o rosto, puro desdém. — Essa é a turma que herdamos, e você veio dela.

    — Haha! — risada debochada. — Ele era da sua família, idiota! Tomou?

    Sem mais nem menos, Pawa pulou a mesa; ele deslizou sobre a plataforma como uma sombra predatória, sem sequer roçar na superfície.

    Antes que Sheng pudesse piscar, dedos grossos fecharam-se ao redor de sua garganta, prensando-o com violência contra a parede.

    Joshy não ficou parado… e nem calado.

    — Pawa, solte-o imediatamente!

    Não lhe deu ouvidos.

    Mantendo Sheng preso contra a parede e o suspendendo, disse:

    — Você pesa como um fedelho… — O Nirvana brotava com mais intensidade de sua testa. — Se quer me provocar, então precisa saber se defender de uma investida Geiza, moleque!

    — S-seu… — as pernas se mexiam no vazio, o ar lhe faltava. — M-me solta…

    — Sua geração está perdida. Um projeto mal calibrado, que sequer sentiu até hoje o peso de um punho forjado da alma.

    Joshy estava ao seu lado, tão rápido quanto antes.

    Desta vez, ele bateu com seu escudo no chão com tanta força que o rachou, propagando energia cinética o suficiente para fazer Pawa ser jogado para um dos lados, soltando Sheng.

    O desequilíbrio ocorreu por segundos, já que Pawa, arrastando os pés no chão, estabilizou sua base.

    Ao mesmo tempo, Sheng se colocou de pé, em base de luta — suas garras até estavam visíveis.

    — Pode vir com tudo, pimentão!

    Contudo, Joshy não se voltou contra Pawa.

    — Sheng, abaixe seus braços agora!

    — Hã? Mas você viu o… — foi interrompido.

    — É uma ordem!

    Sem mais insistir, o felino obedeceu, retraindo suas garras também.

    Mas não acabou.

    — Peça desculpas ao Pawa imediatamente!

    — Como é que é?! O cara tentou me esganar e eu que devo pedir desculpas?

    Joshy só manteve o mesmo olhar, aguardando pelo pedido.

    Sheng bufou, virando o rosto, mas acabou cedendo no fim.

    — Tá… desculpa, ok? — apontou a mão aberta para Pawa. — Passei do limite com você…

    Pawa o olhou, e se limitou a fazer isso — como um aceno ao apaziguar de Joshy.

    O líder fez o mesmo a Pawa, sendo que o olhar inquisitivo foi o suficiente.

    — Hm… — cruzou os braços, falando em seguida. — Como monge, devo me retratar a alguém que mal saiu do casulo. Eu, como mestre que respeita os mais de mil anos de história de artes marciais em Avalice, peço desculpas pela agressão descabida.

    Ambos se encaravam.

    Joshy só observava.

    Nesse tempo, Joshy esperava quem daria o primeiro passo.

    Para sua surpresa, os dois caminharam ao encontro do outro — o olhar sério era igual nos dois.

    Tanto Sheng quanto Pawa levantaram suas mãos, as fazendo se juntar, em um aperto de mãos bem forte.

    Não havia sorrisos, nem expressões emocionais — eram monges resolvendo suas diferenças e honrando o posto que defendiam.

    Ao lado deles, Joshy disse:

    — Também devo pedir desculpas a todo o time pela avaria no assoalho que causei. Nem mesmo a justificativa valida minha falta, é um local milenar. Pedirei à Família Sapphire Omna a reparação o quanto antes.

    Tats estava sentada, já mais tranquila, e sorriu ao ver todos se entenderem.

    Ela olhou para Joshy, com uma felicidade maior do que demonstrou até então.

    — “No fim, ele sempre tenta fazer o certo… e consegue resolver da melhor forma.”

    O grupo voltou para a mesa, reestruturando o assunto — Joshy se manteve de pé, com o escudo apoiado no chão, confiante.

    Eles acompanharam as palavras de Tats.

    — Estamos a poucos minutos do início do torneio Tormenta. A meta do Monastério Omna é: manter a constância de conquistas.

    Ela se levantou e, munida de uma pasta, foi até um quadro, onde escreveu cada time participante. Em mãos, anotações, que espelhou na lousa.

    Ajeitando seus óculos, disse:

    — O time que mais ameaça nosso objetivo é o de Theo Monsenhor Sesto.

    Sheng levantou seu dorso — ele estava debruçado sobre a mesa antes — sinalizando uma curiosidade.

    — Espera. Por que esse time? Esse cara não é modelo de uma revista?

    Joshy, de braços cruzados, expôs sua opinião.

    — Sheng, já conversamos sobre imagem e forma nas artes marciais. Será que tudo foi em vão?

    Sheng se virou para o soldado e argumentou:

    — Não estou dizendo que ele não saiba lutar. O detalhe é: por que o time dele preocupa?

    Pawa lhe mostrou o porquê.

    — Garoto, eles têm em seu time duas figuras emblemáticas em toda Avalice.

    — Hã? E quem seriam?

    Tats tomou a palavra.

    — Elyra Cealestine e Baron Hornberg.

    — Grr… — grunhiu Pawa, também de braços cruzados. — A “Lâmina Cega” e o “Demônio dos Quatro Chifres”. Duas bestas… e ambos estão aqui, em carne e osso.

    Sheng arregalou seus olhos, mas não por conhecê-los. Era um sentimento ainda além da surpresa.

    Por Pawa, o monge cujo trato marcial era o máximo do time, ter deixado sua voz carregada proferir cada pseudônimo com tanta dramaticidade, é porque tudo aquilo era muito mais sério do que imaginava.

    Seu silêncio se manteve, calando-o mesmo que a vontade de perguntar estivesse martelando sua mente o tempo inteiro.

    Como ironia, Joshy parecia ler seus pensamentos.

    — Baron Hornberg é um Tier S, Sheng.

    — O que?! — sua surpresa foi imensa. — Você tá mesmo falando sério?!

    Sem perder tempo, Tats trouxe duas fotos, especificamente a dos que foram citados.

    Porém, as imagens mostravam ambos em ação no passado, com a mesma idade de Sheng.

    Ao lado, ela, enfim, pôs o rosto de cada um, mas como mostrado para o torneio — o padrão para todos os lutadores.

    Novamente com a palavra, ela explicou:

    — Tiers como eles, para estarem em um torneio, é porque procuram por algo.

    Sheng manteve-se em silêncio.

    Longe das explicações, ele sabia o que aquilo significava, mas:

    — “O que Tiers S procuram? Essa gente sequer fecha as mãos, nem luta mais…”

    As informações faltantes expuseram mais do que Sheng imaginava — o que de fato estariam fazendo no torneio Tormenta afinal?

    O garoto se levantou, olhando para o quadro.

    Os demais o observaram, estranhando o comportamento.

    Ainda assim, caminhou até o quadro, passos marcados e com seu dorso reto — uma forma de segurar a tensão.

    Um de seus caninos estava visível, e sua respiração era ouvida por todos.

    Sua cauda se movia lentamente, apontando para baixo — e esse foi um ponto que Tats analisou a cada passo que acompanhou do felino.

    — “Respiração funda. Diagnóstico: quadro de tensão marcial. Ele já está pronto para lutar mesmo antes de conhecer o oponente. Inquietude nos gestos naturais indica leve desvio na claridade ondular de sua natureza…”

    Sheng parou, olhando para as fotos.

    Seus olhos não piscavam, mas tremiam ao fechar nos indivíduos que foram apresentados.

    Com isso em mente, ele ficou imóvel, mergulhado em seus pensamentos.

    — “Isso só pode ser uma brincadeira…”

    Pawa o olhava de longe, como se estivesse observando um futuro ainda distante — o retrato do impacto.

    — “O choque de realidade. No mundo das artes marciais, ter esse sentimento é quase renunciar ao estado marcial. Veremos se você é forte mesmo, garoto… ao lutar sabendo que forças da natureza estão ao seu redor.”

    Segundos a mais ou a menos, Sheng por lá ficou, imaginando as possibilidades que estavam por vir.

    Contudo…

    — Onde está Waaifu? — perguntou Pawa, de braços cruzados e enfezado.

    Pawa deu falta da quinta integrante do time.

    Os demais mostraram indiferença, agindo como se ela “sequer existisse” — mas não era bem assim.

    — Você sabe onde e porquê, Pawa. — Falou Joshy, segurando seu escudo.

    O olhar irritadiço do lobo trouxe a resposta à própria pergunta, no exato momento em que sua mente materializou o local onde Waaifu se encontrava.

    Metros à frente, pelos corredores da área administrativa, em uma sala milenar recatada, porém simples, lá estava ela.

    O salão possuía várias estantes de livros, com alguns poucos lugares sobrando.

    No chão, um tapete de pano fino, vermelho tanto quanto sangue.

    Não havia janelas, mas respiradores que mantinham o clima ideal — 23 graus constantes — com uma leve brisa rondando.

    Ao canto, Waaifu estava sentada em uma confortável poltrona; dois livros eram usados, e estavam sobre uma antiga escrivaninha.

    Entretanto, um fato curioso estava acontecendo: ela estava lendo um dos livros, ao mesmo tempo que escrevia no outro com uma caneta.

    Seus olhos corriam por ambas as linhas e trafegavam entre os livros, com uma sinergia incomum — era como se ela compreendesse a leitura ao mesmo tempo que compunha parágrafos de conteúdo acadêmico.

    Outra mostra extraordinária: o título do livro de leitura era “O Oceano da Epifania de Suw”, enquanto o de escrita, sem título, tinha linhas didáticas focadas em estudos matemáticos de artes marciais.

    O olhar de leitura varria o livro, enquanto a caneta desfilava pelo papel em branco — quase o desempenho de uma máquina:

    “Partindo da epifania descrita por Suw — na qual a consciência marcial abandona o paradigma empírico da reação muscular e passa a operar sob uma lógica de percepção antecipatória do fluxo cinético — proponho que tal estado não seja interpretado como iluminação metafísica, mas como a convergência de múltiplos vetores biomecânicos e cognitivos dentro de um sistema de otimização dinâmica.”

    O fluxo de escrita de Waaifu era constante, exatamente sincronizado com a leitura que fazia — ela sequer piscava.

    A caneta estava ininterrupta:

    “Assim, ao modelar o gesto marcial como uma função contínua no espaço de fase entre intenção neural, torque articular e transferência de impulso, torna-se possível demonstrar que a chamada ‘epifania’ corresponde, em termos matemáticos, ao ponto de mínima entropia decisória do lutador: o instante em que percepção, cálculo e ação colapsam em um único evento irreversível de eficiência combativa.”

    Seus óculos com lentes redondas se misturavam aos olhos laranja, as íris com fenda ligavam os extremos de seus globos, como se bailassem ao som do silêncio.

    Enfim, a escrita se tornou mais complexa mas, mesmo assim, em nada mudou seu comportamento.

    ​A sua respiração transmitia a mesma calma e quietude à leitura/escrita — Waaifu parecia meditar, ao mesmo tempo que suas atividades cerebrais a moviam para o fim dos livros.

    ​“Tratando o combate como um sistema dinâmico, define-se o gesto marcial pela função G(t) = m · v(t) + τ(t), onde m é a massa efetiva do corpo, v(t) a velocidade vetorial do centro de impulso e τ(t) o torque articular distribuído pelas cadeias musculares.”

    ​O alto teor acadêmico de suas letras simétricas deixou claro o controle pleno de sua mente.

    Ela não parou:

    ​“A epifania descrita por Suw ocorre quando a latência entre percepção e execução converge ao limite lim(dt -> 0)(Rs – Em) = 0, anulando o intervalo entre estímulo e resposta. Nesse regime, a eficiência combativa se estabelece quando dE/dt -> mínimo enquanto o impulso permanece conservado, I = ∫ F dt.”

    ​A teoria matemática, uma junção extremamente complexa no mundo marcial, parecia uma matéria primária tamanha a destreza de Waaifu em escrever.

    Não só isso: ela escrevia com propriedade, sem que perdesse o fio de raciocínio. Após alguns minutos, o fim chegou:

    ​“Assim, o lutador passa a operar sob uma única função de estado Φ(G,t), na qual intenção, movimento e impacto tornam-se indistinguíveis. A chamada ‘epifania marcial’ não constitui iluminação espiritual, mas o ponto limite onde a matemática do movimento e a consciência combativa atingem perfeita identidade.”

    Logo após o término tanto da leitura quanto da escrita, Waaifu fechou os dois livros com carinho, os colocando sobre a cama.

    Pegou a caneta, tampando-a — uma tipo tinteiro — e levou consigo os livros.

    De pé, o “Oceano da Epifania de Suw” foi colocado diretamente em uma portinhola na parede — um Dispenser próprio para isso — e o outro, que acabou de escrever, posto junto aos demais livros.

    Em um close mais próximo, todos os livros tinham sua assinatura.

    — Pronto… — um leve sorriso surgiu em seu rosto pálido. — Quinhentos livros defasados para cento e quarenta e três atualizados sob minha ótica. O Monastério Omna precisava disso…

    Sua naturalidade em algo tão exigente e complexo era assustador.

    O que para muitos estudiosos de artes marciais causaria uma estafa mental altíssima, Waaifu só bebeu água, e isso foi o suficiente para se sentir melhor.

    Enquanto consumia do líquido, falou consigo mesma:

    — É muito frustrante não poder usar meu celular aqui, ou meu tablet. Torneios são tão monótonos, impondo essas “leis marciais” que em nada contribuem.

    Ela passou a observar a coleção de livros, catalogados por ordem de disponibilidade — o orgulho pelo trabalho flertava com a arrogância.

    — Mil anos de artes marciais… e de ineficiência assumida. Os monges do passado merecem respeito, mas o tempo é um inimigo dos antigos. Para incômodo de Pawa, o que ele defende é antiquado, hehe.

    Ela passava as mãos por cada livro, em um momento íntimo com suas próprias obras. O esforço acumulado por anos reduzido a semanas de diversão era um ode ao brilhantismo de Waaifu.

    Sua cauda se movia como as mãos que acariciavam os encadernados: suaves e sincronizados, como extensão de sua satisfação pelo legado que estava deixando.

    Porém, ao chegar próximo do fim, por acidente um dos livros, que estava na outra extremidade, estava em queda livre.

    Dois passos foram suficientes para que ela pegasse antes que o livro fosse ao chão, mas mesmo assim o ato não impediu de Waaifu mostrar um semblante mais sério após ficar de pé.

    Ela pôs no lugar, arrumando simetricamente com os demais, mas não sem antes dizer:

    — Pode ser um torneio, mas tenho uma missão a cumprir…

    Um flash temporal trouxe a sua mente o foco — rápidos o suficiente para que só ela pudesse ver.

    E o que ela visualizou fez crescer um sorriso em seu rosto, ao mesmo tempo que sua sobrancelha esquerda se elevou.

    No fim, a suposta missão pareceu não só algo profissional.

    O sorriso se tornou gargalhada.

    Contrastando com sua “epifania”, na sala de reuniões a conversa continuava em paralelo, onde o diálogo anterior de Pawa tomou continuidade.

    — Aquela desertora do monastério já deveria estar aqui… Porque Waaifu tem essa predileção em ignorar essa reunião?

    Tats franziu sua testa, mostrando incômodo.

    Ela o olhou, e não ficou calada:

    — Já conversamos antes: Waaifu Soul Omna não é uma desertora.

    — Isso é o que você pensa. Quem foge das obrigações do nosso monastério é e deve ser considerado um desertor.

    A conversa indigesta foi até Joshy, que respirou fundo. O lobo branco sentiu um leve desconforto, o que o fez pôr seu escudo sobre a mesa.

    Ele se sentou…

    E a encarada não foi como antes.

    A de Joshy cobriu a de Pawa.

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