Índice de Capítulo

    Fragmentos do passado1.

    “O mundo precisa de vocês. E principalmente você, Lilac… […] Você tem o poder de unir a todos. Proteja quem estiver com você sempre. Tenho certeza de que serão pessoas especiais… […] Você guarda consigo um dom de conexão, capaz de conseguir feitos incríveis! Multiplique isso e sempre terá felicidade onde estiver.”

    Torque, Comandante dos Caçadores Espectrais

    Laços2.

    “Viktor possui sua própria jornada, mas ele não pertence a esse mundo… […] Então o conduza por um bom caminho e o faça voltar em segurança para seu mundo… […] Todo lutador tem um código a seguir e, caso ele veja que é limitado por ser um Natural, pode ferir seu orgulho.”

    Ying, também vendedor de doces.

    E uma promessa3.

    “Proteja Viktor de todo o perigo. Não exponha as mazelas do nosso mundo. Avalice é um lugar perigoso para alguém como ele…”

    Ying, também guardião do Reino de Shuigang.

    As palavras ecoavam na mente de Lilac, condensadas em memórias recentes que agora se entrelaçavam em seu senso de dever.

    Em frente à Arena Shang Mu, onde tudo começou, o término da corrida contra o tempo foi recebida com contratempos.

    Idas e vindas de outros times se faziam presentes, em paralelo à descoberta de Lilac ao ver o letreiro de néon

    A empolgação das pessoas envolvidas no Tormenta contrastava com o peso que Lilac sentiu ao ver a lista.

    — Viktor se inscreveu… no meu time?!

    O colapso causado pela aparição de Viktor como um dos integrantes do time realçou todo o compromisso que tinha com Ying e até mesmo Torque.

    Seu legado do passado, do qual não se orgulha, havia sido superado, mas o novo cenário que se construiu precisaria de mais cuidados.

    As peças do tabuleiro foram trocadas.

    Portanto, uma nova estratégia seria necessária.

    O chão pareceu ceder por um instante quando viu Viktor listado no time.

    Estaria ela preparada para lidar com a mudança de percurso que precisaria tomar como líder?

    Mas, antes disso, uma incógnita ficou no ar: por que Viktor fez o que fez? E por que escondeu a dor que sentiu no abdômen?

    Para sabermos o que aconteceu, voltemos um pouco no tempo, momentos após Lilac, Carol, Milla e Noah partirem em busca de Santino Rock pelos pontos cardeais da Zona Milenial de Shang Mu.

    Viktor havia recebido uma tarefa importante também, e que estava levando muito a sério.


    Uma hora atrás…

    Arena Shang Mu | Área externa

    “Não sabemos como será daqui pra frente. Estamos procurando pelo Santino, mas ele pode aparecer aqui e você o conhece. Diga para que se inscreva no torneio o mais depressa possível!”

    A urgência de Lilac ainda estava grudada em sua mente.

    Sozinho, Viktor estava sentado na escadaria, observando o movimento que quem passava pela área extensa dos arredores da arena.

    Com uma hora pela frente, seus pensamentos estavam em ebulição.

    — “Espero que eles consigam… A senhorita Lilac está mesmo determinada de corpo e alma nessa missão!”

    Foi quando ele pensou um pouco mais a fundo, relembrando dois minutos atrás, algo que o impressionou: o gesto de confiança da dragão.

    — Isso sim foi gentil! Eu realmente precisava ouvir isso. Obrigada, Viktor. De verdade!

    Ele olhou para as próprias mãos, quase como se estivesse vislumbrado com aquilo.

    — Ela segurou nas minhas mãos e as sacudiu com tanta vontade… e ainda disse que precisava ouvir o que eu disse para ela! — ele fechou os olhos, juntando as mãos abertas sobre seu coração. — Eu tenho que torcer por eles! Vamos conseguir!

    Seu punho solitário se levantou, sacramentando sua confiança.

    Ele se sentia mais forte, por fazer parte do time e ter um dever primordial.

    Contudo, o tempo também era um oponente à sua paciência.

    Tic tac.

    Os minutos pareciam horas…

    09:20 PM

    — Já se foram vinte minutos e nada. O que está acontecendo com o time?

    Viktor havia se levantado várias vezes, buscando outras posições e voltando a se sentar, quase como um ritual de impaciência.

    Sua angústia só cresceu conforme os segundos se passaram.

    — Droga… Eu queria ser mais útil, só isso! Essa espera está acabando comigo! — ele esfregava a própria cabeça, bagunçando seu cabelo.

    O humano estava agindo com naturalidade, como sempre foi.

    E esse comportamento normal e ingênuo, durante essa passagem temporal, sem que Viktor tomasse conhecimento, chamou a atenção dos demais do espaço.

    Não importa o quão inofensivo fosse, para todos que estavam ali, Viktor era um estrangeiro.

    Sua natureza singular, por mais que tivesse os mesmos atributos fisiológicos, suas características como espécie eram totalmente diferentes.

    E, óbvio, isso contou muito no momento em que se expôs mais do que antes em um lugar aberto e cheio de avaliceanos.

    Além disso, havia outro fator considerável: a imensa maioria ali eram lutadores.

    Nesse meio tempo, ouviu passos.

    Sapatos finos, caminhar controlado e firme.

    Viktor se virou. Era Huli, o raposo ruivo.

    — Ah?! Olá, senhor Huli.

    — Não me chame de senhor, estrangeiro… — falou, em um tom sério. — Não sou muito mais velho que você e nem sou pai ou casado.

    — Desculpe! Eu… — desconversou, um pouco corado. — Bem, como posso ajudar?

    — Estou aqui para avisar que seu time tem pouco tempo para se inscrever.

    — Ah, entendo. Bem, obrigado por avisar! — ele sorriu, um pouco sem graça.

    Huli não saiu do lugar, mesmo com as palavras do humano.

    O raposo, olhando para Viktor, perguntou:

    — Qual seu nome, estrangeiro?

    — Me chamo Viktorius Ashem.

    — Muito bem, Ashem Viktorius… — ele era ainda mais formal que o jovem. — Por que está aqui e não com seu time?

    — Uh? Por que quer saber disso?

    Viktor era ingênuo ao local, mas não às intenções. Sua pergunta veio com defesa e ataque tudo ao mesmo tempo, como Huli entendeu.

    Os dois trocaram olhares, com o silêncio estendido por quase dez segundos.

    Ambos buscavam o que era de interesse, mas partiu de Huli a iniciativa.

    — Você, somado aos outros, são cinco. Exatamente o que precisam para entrar no torneio.

    — Sim, mas… — Viktor deu um passo para trás, incomodado. — O quinto integrante já foi escolhido.

    — E onde ele está?

    — Eu não sei. Nem meu time sabe! Por isso foram procurá-lo.

    A troca de olhares retornou, com o raposo olhando Viktor do pé à cabeça.

    Ele olhou para seu punho. Teve uma impressão que só olhares de quem entende de artes marciais poderia entender.

    — Calos ósseos.

    — Hã? O que foi?

    — Você é um lutador, não é?

    — Eu sou, mas… — retrucou logo em seguida. — Espera! Você concluiu isso só de olhar pra mim?!

    Huli veio com uma pergunta direta atrás da outra:

    — Se você não é um lutador, o que faz com eles?

    — Eu estou ajudando meu time.

    — Seu time? Você por acaso irá lutar no Tormenta?

    — Ei, o que está insinuando?

    — Responda.

    Uma tensão inesperada ocorreu.

    Viktor estava pressionado, quisesse ou não.

    — Minha líder escolheu outro no meu lugar. Isso responde sua pergunta?

    Curto e seco. Viktor sabia agir sob pressão, como Huli percebeu.

    — Hm… Aceitável — recuou, ajeitando seu colarinho. — Peço desculpas pelas perguntas.

    — Ah, tudo bem. Mas… Posso lhe fazer uma pergunta?

    — Diga. Fique à vontade, Ashem Viktorius.

    — Eu percebi que você estava sozinho lá dentro. Onde estão os outros funcionários da Arena?

    Huli fechou seus olhos, com o outro escondido por seu cabelo.

    Ele tomou fôlego, explicando a seguir.

    — A Arena Shang Mu não é só um lugar de combate. Lá o passado se encontra com o presente, se juntando com o futuro. Eu assumi esse caminho com muito orgulho.

    Olhando para a arena, Huli deixou claro sua dedicação ao lugar:

    — O respeito pelas metas milenares moram nos punhos de quem tem honra e glória. Eu fui o contemplado e cabe a mim o zelo solitário. Mesmo só, devo levar este lugar.

    — Hã? Como assim?

    — Toda a arena é minha responsabilidade como cidadão da Zona Milenial. Em outras palavras, sou seu guardião, até o brilho da minha vida se extinguir.

    A revelação seria bombástica, e foi, caso Viktor já não estivesse preparado.

    Viktor arqueou as sobrancelhas, mas logo abriu um sorriso. Não era deboche — era sua forma de lidar com o peso daquelas palavras

    Isso chamou a atenção do raposo, mas o humano foi ligeiro.

    — Você me lembra alguém que conheci aqui em Avalice, um vendedor de doces gentil e amável.

    — Curioso ouvir isso. Mas, pela comparação, acredito que seja alguém que teve paciência e empatia com você.

    — Na mosca! — disse, piscando para Huli.

    O piscar charmoso foi uma referência a Ying que só Viktor sabia, mas que o ruivo entendeu de outra forma.

    — Você é alguém que merece minha atenção, como lutador é claro.

    — Hã? Mas por que disse isso?

    — Nada. Só estou curioso… — disse, subindo os degraus da escadaria da arena. — Ashem Viktorius, até mais.

    — Até! E obrigado pela conversa!

    Mas havia algo a dizer. Huli tomou a palavra:

    — E mais uma coisa… — virou seu rosto em direção a Viktor. — Você está em um ambiente hostil o tempo todo.

    Um pulso grave eclodiu nos ouvidos do rapaz.

    Era como se cada palavra dita por Huli soassem como um alarme incessante.

    Não era uma sensação boa, longe disso: eram como socos na alma e agressões ao ímpeto; um ataque direto na moral de um lutador.

    Foi nesse instante que tudo que Viktor ignorava reagiu imediatamente: olhares julgadores e burburinhos maldosos surgiram aos seus ouvidos, mesmo que estivessem distante.

    Aquilo foi uma libertação de sentidos.

    Só lutadores bem treinados poderiam perceber tal ambiente.

    Pois bem, Viktor era um lutador.

    Faixa preta.

    Um mestre do karatê.

    Como um trovão, sua voz foi ouvida: ele gritou com fúria misturado com coragem e determinação.

    Se antes todos olhavam com cuidado e maldade, agora seus olhos e ouvidos se fartavam do que Viktor era de verdade.

    — É assim que eu respondo a todos os lutadores!

    A tensão foi derrotada. O silêncio voltou.

    Mas as consequências ficaram, de sua atitude explosiva.

    Dois avaliceanos, um canino branco usando uma vestimenta oriental e um outro azul vestindo kimono se aproximaram do rapaz.

    Já o olhavam fazia algum tempo, esperando uma oportunidade.

    Não tinham boas intenções em seus olhares.

    — Ora, vejam só… Olha o que o caminhão de lixo trouxe!

    — Haha! Então o estrangeiro barulhento é um lutador, é?

    Os dois tinham um porte físico avantajado, e tentaram usar isso contra o humano.

    Viktor deixou de lado sua postura ingênua.

    — Acho melhor vocês pararem aí mesmo.

    — Ah, é? E o que você pensa em fazer, Sem Valor?

    — Hã? Do que você me chamou? — disse o jovem, surpreso.

    — Uh? Ora, eu só disse o que você é. E sim, estou te xingando, estrangeiro berrante.

    Viktor não tinha noção do teor da suposta ofensa, deixando seus dentes à mostra como sinal de insegurança.

    Porém, surgindo entre eles, uma jovem felina de pelagem acinzentada e portando óculos quase transparentes.

    Junto com o visual, olhos castanhos, cabelo longo, com franja branca e todo o resto da cor preta. Uma madeixa trançada era vista cair por sobre o ombro, como efeito de charme.

    Vestindo uma roupa oriental azul, seu sorriso largo se somava a sua atitude atrevida.

    — Rapazes… Calminha aí! — disse, com uma voz bastante lisa. — Será que vocês precisam adiantar tanto assim uma luta?

    — Quem é você? — disse o canino branco.

    — Veja bem: se eu falar quem sou, você promete recuar e deixar o “estrangeiro barulhento” em paz?

    Ele serrou seus punhos, mostrando que se irritou.

    Contudo, seu amigo azul estava tremendo, um pouco atrás.

    — Hã? Por que você está assim?! — o branco perguntou.

    — Va-vamos sa-sair daqui a-agora! Va-vamos! — tremia, quase fugindo do local.

    — Hã?! Você está louco? O que essa mulher tem de mais?

    O canino branco virou o rosto para a felina. Ela o fitou, de forma fria e ameaçadora o suficiente para que engolisse seco duas vezes e se engasgasse ao tentar a terceira.

    Seu amigo o puxou, e ele, aceitando o chamado, entendeu que era hora de saírem.

    Eles recuaram sem mostrar as costas, em sinal de extremo colapso.

    Um pequeno templo foi usado para esconder seu paradeiro, em um momento bem cômico e caricato.

    Viktor estava tão confuso quanto antes.

    A mulher, voltando seu olhar para o jovem, estendeu ainda mais seu sorriso.

    Ela,  com movimentos suaves e esbanjando carisma, falou;

    — Vou te dar uma dica, estrangeiro: nunca abaixe a guarda!

    — Senhorita, o que acabou de acontecer aqui?! — como esperado, a confusão ainda lhe tomava.

    — Você ouviu o que eu disse?

    — Eu ouvi, mas não entendi nada! Por que você me disse isso? Por que aqueles dois vieram até mim do nada? Quem é você?

    O rapaz estava repleto de dúvidas.

    Por sorte, a felina era tão amistosa quanto Lilac.

    — Okay… — ela tomou ar, aproximando seu rosto ao de Viktor. — Eu estava te olhando desde que você veio aqui fora. Aqueles dois queriam te dar uma surra e meu nome é…

    Ela disse seu nome, com Viktor o ouvindo.

    Entretanto, o impacto maior foi sentido pela dupla de caninos mau encarados de agora a pouco.

    Eles, sentados em posição fetal, se escondendo no escuro, pareciam bastante amedrontados.

    O azul, visivelmente o mais esperto e, também, o mais sentido, deixou claro a descoberta:

    — Co-como assim?! Pelos deuses de Avalice! Aquela lá era a… Tats Aoi Omna!

    O frio na espinha que ambos sentiram naquele instante deixou evidente que a tal felina carismática não era qualquer pessoa.

    — O Mo-monastério Omna… O Tormenta… Eles… Eles vão participar do torneio?! — gaguejou o branco, gritando no fim.

    O nervosismo fora do comum da dupla arruaceira disse muito do que viria pela frente.

    Mas, por que Tats se aproximou de Viktor?

    O que ela quer com o humano?

    1. Nota: como visto no capítulo 45[]
    2. Nota: como visto no capítulo 48[]
    3. Nota: como visto no capítulo 48[]

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