Capítulo 26 - A confraternização
Ala leste da cidade de Shuigang
Casa da Família Li | Noite
Longe do centro da cidade, havia um tipo de vilarejo, cujo estilo eram daqueles chineses, como nós conhecemos em nosso mundo. Não os rústicos, do interior, e sim daqueles tradicionais, casarões campestres, mas com um quê de modernidade.
Como elementos de cenário onde estavam, havia riachos, que moviam moinhos de vento ao sul, e fazendas de trigo ao fundo, com fartas plantações, assim como árvores frutíferas.
As ruas eram bem pavimentadas e havia energia em todas as casas, advento da Espiral do Reino, energia vitalícia que alimentava todo o planeta.
E enfim chegamos até a moradia de Ying, que havia convidado Lilac e seu time para que ficasse em sua casa.
Bem, a única coisa que o jovem panda não disse era que ele praticamente vivia em uma mansão.
Sua casa era enorme, com três andares.

A construção era de fato grande, no melhor e mais belo estilo oriental possível.
Em seu interior, embora houvesse muita mobília rústica, tudo remetia a beleza, com paredes de cores suaves, como violeta-vapor, sendo essa a de maior destaque, allure e azul-chuva.
Tudo era alinhado com uma harmonia fora do comum.

O interior da casa era impressionante, tanto que as garotas, junto com Viktor, logo ficaram surpresas com o que viram.
— Ying, essa sua casa… Ela é linda! – disse Lilac, com um sorriso mostrando deslumbre.
— Puxa, Ying, sua casa é grande e bonita! – disse Milla, parecendo estar perdida.
— Caraca, bunitão, me conta esse segredo de ser vendedor de doce. Tu deve faturar um barão por dia, só pode. Olha o tamanho do casebre do figura, Lilac! – Carol estava incrédula.
— Caro Ying, sua casa é magnífica. Digna de um empresário — completou Viktor, olhando para todos os lados.
Era esperado um contexto para a ocasião. E foi o que Ying se propôs a fazer.
— Bem, acho que devo a vocês uma explicação sobre isso, não? — ele estava envergonhado.
— Você não precisa, Ying. Nós não estamos te julgando. — Lilac tratou de ser uma boa hóspede.
— Eu insisto, senhorita Lilac — o panda disse, indo até a frente do grupo. — Bem, eu sou herdeiro da família Li.
— Herdeiro?! — perguntou Milla.
— No passado, durante a era Shu Zi Zeyan1, minha família se mudou para cá e fizeram crescer todas as plantações de bambu. Como as casas antigamente eram feitas de bambú…
— Então tua família faturou com a venda de bambu! Caraca, que máximo, Ying! Mas porque tu vende doces? Tu é bem de vida, falei? — disse Carol, curiosa.
— Carol, não seja curiosa! — Lilac logo tentou segurar sua amiga.
— Pô, eu sou uma gata. O que tu esperava ? Sou curiosa por natureza, nyah!
Ying, espirituoso, gargalhou ao ouvir o que a felina disse, assim como os demais. O panda prosseguiu.
— Eu vendo doces pra levar minha arte até as pessoas. O valor que cobro é só simbólico, pois nosso povo valoriza a todos que têm um trabalho árduo. Todas as gemas que eu consigo são destinadas ao orfanato de Shang Tu — ele disse, piscando para Carol.
Isso chamou a atenção de Lilac.
— Orfanato em Shang Tu?! Eu não sabia que existia um em nossa cidade.
— Fica em um dos distritos de lá chamado Shenlin Park.
— Shenlin Park?! Nossa, aquele lugar é mesmo especial!
— O Templo Sallo é um dos locais onde aquelas crianças encontraram asilo enquanto ocorriam as crises aqui em Shuigang e por toda Avalice. Eu me ofereci a ajudar. Espero que todos lá estejam bem.
Enfim, a explicação veio. E junto a ela uma maior admiração por parte de todos os seus hóspedes, começando por Carol.
— Cara, tu é massa demais! Legal isso, muito legal mesmo!
— Concordo. É um belo gesto, caro Ying — disse Viktor, olhando para o jovem panda.
— Eu agradeço pelas palavras. E é uma honra hospedá-los na minha humilde casa – disse Ying, cobrindo a mão esquerda com a direita, cumprimentando-os formalmente.
Ying era um panda bem educado e honrado. Não só seu carisma muito acima da média era um destaque mas também seu coração fraternal.
Esse era o sentimento dos hóspedes após saberem da sua breve história.
Decerto, abrigou seus novos amigos em sua casa de forma cortês e incrivelmente amistosa.
Todos se sentiram à vontade conforme as conversas da noite prosseguiram.
E, além disso, estava chegando a hora do jantar.
Uma hora depois…
Sala de jantar da Família Li | Meio da noite
Um lugar aconchegante. Esse era o sentimento de todos que estavam lá.
Uma grande mesa redonda, com uma arrumação oriental milenar adornando a cada raio e talheres e louças nobres. Além disso, cadeiras altas e aveludadas eram muito confortáveis, com o estofamento da cor malva, novamente um tom dentro do espectro de roxo.
Entretanto, só as garotas estavam sentadas à mesa.
— Muita calma nessa hora… — disse Carol, fazendo de conta que estava tranquilizando as suas amigas. — Tamo numa casa de magnata, cheia de mimo, muito luxo… E na cozinha agora tão o Viktor e o Ying… Lilac, tamo no céu, diva linda!
— Vai com calma, Carol. Você está muito animada… — disse a dragão, com os olhos fechados, meditando.
— Eu acho que nós vamos ter uma baita refeição hoje — desta vez era Milla, brincando com um pequeno cubo criado com seus poderes.
E eis que o momento que todas estavam esperando chegou: Ying, sendo acompanhado por Viktor, traziam quatro bandejas cobertas com uma tampa.
O cheio havia atiçado as garotas, pois um aroma irresistível tomou toda a sala de jantar.
Carol (sempre ela) logo se manifestou.
— Muleque… Hoje que eu vou estufar o bucho de tanto comer, vixe!
— Carol, deixa de ser grosseira! — até Lilac não se conteve. — Nossa, esse aroma é de enlouquecer!
— Meu nariz não consegue suportar tanto cheio bom, minha nossa! Está até doendo… — Milla logo falou a verdade de como se sentia, no bom sentido.
E os jovens colocaram as bandejas sobre a mesa. Tanto Ying quanto Viktor usavam aventais, mostrando que os dois mostravam-se envolvidos em toda a preparação da comida como dois ótimos cozinheiros.
Lilac não conseguiu conter sua curiosidade.
— Minha nossa… O que vocês fizeram?
— Bela Lilac… — disse o panda, reverenciando a dragão. — Espero que todos vocês gostem.
— Vocês dois ficaram um bom tempo cozinhando pra gente. Então deve ser amigo delicioso ao dobro!
— Hehe. Esse jovem estrangeiro aqui é um mestre na cozinha, devo reconhecer — Ying falou, piscando para Viktor.
O humano, retirando seu avental e se sentando à mesa, também foi polido.
— Ora, que isso! Você é um grande cozinheiro, Ying. Eu nunca vi alguém manusear facas com tanta maestria. Poderia dizer que é um artista marcial também, mas há muitos chefs de cozinha no mundo que tem essa habilidade, hehe.
E, sem perder tempo, Carol abriu as bandeiras uma a uma, sem esperar pelas etiquetas do panda.
— Que cavalheirismo o quê! Eu quero é encher meu buchin!
— CAROL! — Lilac gritou com força.
Mas nem mesmo a dragão pôde falar muito mais que isso: uma reação em cadeia ocorreu, com Lilac, Carol e Milla explodindo de satisfação, pulando de alegria inclusive.
Não só o aroma enlouquecedor da comida, mas também a estética e apresentação fizeram com que as garotas esquecessem totalmente dos problemas.
Com a palavra, a gata tagarela.
— Hoje é festa, aqui em Shuigang… Vai ter comida até o amanhecer! Hahaha! Eu vou morrer hoje de tanto comer! — cantarolava Carol, balançando seus braços.
— Como assim?! — Lilac estava quase surtando. — Vocês… Vocês fizeram… Vocês fizeram todo tipo de sushi?!
— Tem Nigiri2, Gunkan3, Norimaki4, Temaki5, Chirashi6, Sashimi7… Ai, Viktorius… Ai, Ying… Vocês são demais! — disse Milla, se servindo.
Nem é preciso dizer que as garotas devoraram sem pena seu prato preferido.
Sushi era praticamente um manjar dos deuses para elas. Uma forma de ficarem muito bem e recobrar as energias.
Ao fim da refeição, todas estavam bem satisfeitas, principalmente Carol, que disse:
— Só isso: buchin cheio. Satisfeita. Tô na suculência, hehehe. Pô, vocês dois aí, Viktor e Ying, mó boa a comida! Na moral, coisa de profiça!
Lilac também reconheceu que foi uma refeição diferenciada.
— Devo dizer que a refeição foi magnífica. Eu nunca comi sushis tão deliciosos!
— Vocês capricharam de verdade. Esses sushis estavam deliciosos! — Milla concordou com Lilac.
Porém, Ying, que caminhava até a cozinha novamente, disse:
— Mas esperem… Ainda não acabou.
— Mas-o-quê?! Tem mais? — Carol logo ficou confusa. — Lilac, acho que a duplin aí quer me matar. Tô dizendo…
O panda andrógino, após voltar da cozinha, trouxe mais uma bandeja, colocando-a graciosamente sobre a mesa.
Lilac não perdeu tempo e a abriu: as garotas quase caem para trás, tamanho era a felicidade e surpresa.
— Ah, vocês vão matar a kid assim! Olha, Lilac! Bala demais! — disse Carol, extasiada.
— Minha nossa… Wagashi8! Eu amo! Oh, minha nossa… Daifuku9! Sanshoku Ohagi10 também?! Ying, você é magnífico! – Lilac estava mesmo surpresa.
— Minha nossa! Nunca vi tantos doces belos e apetitosos, Ying! Tão coloridos e bonitos, puxa! — disse Milla, encantada.
— É, são realmente uma obra de arte. Preciso aprender a fazer doces assim, caro Ying — Até Viktor se surpreendeu. — Não fiz muita coisa a não ser afinar o açúcar, hehe.
— Ora, basta me fazer companhia na cozinha enquanto eu estiver cozinhando. Será um prazer te ensinar — disse Ying, dando uma piscada para Viktor.
Mas vocês devem saber quem adorou ver essa cena, não? Com a palavra, a gata selvagem tagarela.
— Lilac, Ying passou um xaveco no Viktor, é essa parada mesmo?
— Carol, para com isso. Eles só estão conversando amigavelmente. Ambos são bons na cozinha e Viktor quer aprender a fazer doces como esse.
— Lilac, o panda bunitinho ali chamou o Viktor pra uma aula particular na cozinha. Como você quer que eu não shippe os dois?
— Carol, pare com essas coisas! Vai deixar os dois env… — ela foi interrompida.
E não precisou Lilac terminar o quê iria dizer.
Viktor e Ying, ao mesmo tempo, ficaram olhando para o vazio, com seus rostos vermelhos de vergonha.
O jovem cozinheiro, vermelho, disse:
— Eh… Bem… Ele é bonito, mas eu prefiro garotas, Carol.
— E tipo… Bem… Eu não quero me comprometer com ninguém, sabe? Eu gosto de liberdade e dedicar meu tempo para meus doces… — disse Ying, completamente envergonhado.
A felina verde surpreendeu-se com as palavras dos dois, mostrando em seu rosto uma demonstração clara de desânimo, não acreditava que sua insistente cultura ao “shipp improvável” havia falhado.
Lilac, aproveitando o momento, foi à forra.
— Viu, sua boba? Eles te jogaram a real. Engole essa!
— Ah porquê? Porquê? Eu jurava que ia dar mate!
— Para com isso, Carol! Chega! Deixe os dois!
— Tá bom… Que saco!
Finalmente um pouco de razão tomou a mente da tagarela. E, com isso, um assunto encerrado.
Os jovens ficaram o resto da noite conversando assuntos sobre a cidade de Shuigang e as outras regiões de Avalice. Costumes, comidas e lojas de roupas também foram tópicos para uma divertida e descompromissada conversa entre amigos.
Porém a noite ainda não havia acabado.
- nota: detalhe em alusão às tradicionais famílias milenares chinesas que, no passado, moviam a economia do país asiático em 1250 DC[↩]
- nota: O nigiri é um tipo de sushi tradicional japonês feito à mão que consiste num bolinho de arroz moldado à mão e coberto com uma fatia fina de peixe cru ou outros frutos do mar, como camarão, polvo ou lulas.[↩]
- nota: Os gunkanmakis ou gunkan são sushis que possuem uma base de arroz envolvida em uma folha de nori. Diferente dos outros tipos sushi, os gunkan levam o recheio no topo, e não do meio do rolinho. A forma desse sushi lembra um barco, por isso, o nome desse sushi é gunkan, palavra japonesa para “navio de guerra”.[↩]
- nota: Norimaki é um prato japonês envolto em algas nori. O tipo mais comum de norimaki é o makizushi, um sushi tradicional feito de arroz e recheio enrolado numa folha de nori. No entanto, outros pratos como onigiri, sashimi, senbei, chikuwa e mochi também são considerados norimaki se forem embrulhados em algas.[↩]
- nota: O temaki é um tipo de sushi japonês que consiste num cone de folha de alga nori recheado com arroz e outros ingredientes e enrolado com as mãos.[↩]
- nota: O chirashi é um prato tradicional japonês, que junta vários ingredientes e peixe cru ou marinado numa tigela.[↩]
- nota: Sashimi é um termo japonês que significa carne perfurada. Geralmente, é servido acompanhado de pepinos ou rabanetes cortados em tiras bem fininhas para decorar ou saborear junto. Nabo ralado, folhas de shisô e cenoura ralada também podem compor o prato[↩]
- nota: Wagashi é um confeito tradicional japonês que é geralmente servido com chá, especialmente os tipos feitos de mochi, anko, e frutas. O wagashi é normalmente feito de ingredientes das plantas.[↩]
- nota: Daifuku é um confeito japonês que consiste em pequenas bolas de mochi recheado com algo doce, geralmente anko, pasta de feijão vermelho adocicado feito de feijão-azuqui.[↩]
- nota: Sanshoku Ohagi, ou botamochi, são bolas de arroz doce feitas com arroz glutinoso. Tradicionalmente, esses bolinhos são consumidos em datas festivas no inverno, na primavera e no outono japonês.[↩]

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