Capítulo 66 — As Asas do Falcão e a Toca do Coelho
Eles podiam sentir que tudo estava errado e quebrado. Aquela energia estava invertendo tudo, o tempo, o clima, tudo parecia se distorcer, como se estivessem no fim dos tempos. As duas energias se chocavam, destruindo de uma vez por todas a barreira erguida por Ruby. Toda aquela energia começava a se espalhar, seguida por um enorme tremor e um estrondo. Se não estivessem no Mundo Invertido, teria sido o fim da cidade.
— Q-Que poder monstruoso, Adfectus! — Falcão gritou, apertando os dentes enquanto tentava resistir. — Você realmente melhorou muito! Mas não morrerei com apenas isso!!! Tome isso e morra de uma vez por todas!
Irritado por não esperar tanto poder do adversário, Falcão aumentou o tamanho das asas e fez rajadas de vento varrerem tudo em seu caminho. Raishi, porém, apenas sorria enquanto girava sua espada lentamente, pensativo.
— Sentiu isso, cretino?! — Falcão rosnou, batendo as asas com força. — Essa ventania irá rasgar seu corpo em pedaços!
— Inversion of Life… — murmurou Raishi, inclinando levemente a cabeça antes de erguer a mão — Ramo número 3: Manifestação dos Mortos. Foi mal, pessoal, mas preciso de vocês mais uma vez. Me desculpem.
Os mortos começaram a ativar suas Manifestações ao mesmo tempo. Falcão arregalou os olhos ao notar que eles preparavam suas técnicas supremas.
— Falcão. — Raishi disse, baixando a espada enquanto os observava. — Eu te darei duas escolhas agora. Escolha um: ser atingido por isso e tentar resistir. Escolha dois: sentir toda a dor e sofrimento deles. Se quer me fazer pagar pelo que fiz a eles, então lhe ofereço suas dores.
— Sádico desgraçado… — Falcão cuspiu, avançando para a frente. — Acha mesmo que eu irei cair no seu truque?! Minhas asas destruirão seu maldito mundo e eu finalmente irei realizar meu sonho!
Ele disparou rajadas de energia. Antes que Raishi reagisse, Falcão bateu as asas novamente e lançou outra ventania, aumentando a força do ataque. Ele riu confiante, até que todos os mortos se colocaram à frente de Raishi e foram atingidos, anulando o golpe por completo.
— Covarde! — Falcão gritou, inflando o peito. — Usou seus próprios companheiros como escudo. Você realmente é da mesma laia do Lobo, ou pode ser até mesmo pior.
— Será que sou?! — Raishi respondeu de forma seca, desfazendo a espada e recriando a máscara, colocando-a de volta ao rosto enquanto observava os corpos caírem ao chão. — Que diferença faz se eles estão todos mortos? Diferente de você, eu jamais atacaria alguém pelas costas, principalmente quem me ama.
Ele encarou os mortos silenciosamente e então estalou os dedos.
— Te dei duas escolhas e você não decidiu. — disse, inclinando-se um pouco para frente. — Nesse caso, eu já sei com qual você fica. Inversion of Life! Ramo número 4: Inversão da Vida!!!!
— “Inversão da Vida”?! — Falcão levou a mão ao peito assim que a dor começou. — Não me diga que… Não é possível que você tenha chegado tão longe! Ao que parece, o verdadeiro vilão é você!
Ele caiu de joelhos, apertando o tórax com ambas as mãos, enquanto todo o seu corpo começava a sofrer vários danos internos. Seus gritos ecoavam pelo ar.
— Q-Que vozes são essas?! — ele gritava, desesperado. — Que memórias são essas?! Por que eu estou sentindo tudo isso?! Pare! Pare agora!!!! Não!!! Nãoooo!!!!
Raishi o observava com semblante sério.
— A Inversão da Vida age de dois modos. — explicou calmamente. — Modo 1: eu posso trocar a vida de alguém pela de quem já está morta, algo nobre e útil. Modo 2: eu posso trocar toda a dor e sofrimento de uma pessoa para outra. Isso que você está sentindo são as dores e sofrimentos de todos os seus companheiros caídos por sua maldita ambição. Depois disso, sua mente estará completamente quebrada por causa da dor intensa e constante que está sentido. Essa é a sua punição.
Ele então desfaz a máscara mais uma vez e olhou para o céu avermelhado. Seu rosto estava tenso e tomado por tristeza, ele não queria ter usado seus antigos companheiros para isso. Raishi estalou os dedos de novo, libertando-os.
— Acabou, Lobo, Águia… — murmurou. — Agora, sem as ambições de Falcão, poderei pôr um fim na Ordem dos Cavaleiros Brancos. Me perdoem por ter falhado antes.
Com os olhos fechados, lembrou-se vagamente dos últimos momentos que tivera com seus companheiros. Desde o começo, ele sabia que nem todos sobreviveriam, mas não achava justo logo aqueles dois terem morrido. Em silêncio, abriu os olhos e se sentou em um dos escombros ao lado de Falcão.
No abrigo, Ruby finalmente relaxou a respiração, não sentia mais a energia agitada de Raishi. Disse que a luta havia acabado e que eles podiam ficar tranquilos. Os membros restantes da Ordem estavam incrédulos: Falcão era extremamente poderoso e ainda assim fora derrotado com aparente facilidade.
Ryruka sorriu, envergonhada, olhando na direção do antigo prédio, agora completamente reduzido a destroços.
— I-Impressionante! — Hiena comentou, ainda sem acreditar. — Quem diria que vocês possuíam alguém com tamanho poder. Toda a apreensão que o Falcão tinha sobre esse homem é justificada.
Hiena continuava olhando fixamente para a direção da batalha. Ela jamais imaginaria que existia um Manifestador Espiritual tão poderoso na Terra. Era, de fato, algo extraordinário.
— É claro que sim! — Ruby respondeu com orgulho, colocando as mãos na cintura. — Meu querido sempre foi muito poderoso. Sua força não se baseia em força física ou em Manifestações poderosas como muitos Manifestadores. A força dele vem do seu Mundo Invertido. Neste lugar, ele era capaz de qualquer coisa, desde que estivesse sob suas regras. Não era à toa que, na juventude, ele era considerado um prodígio!
Ruby falava toda orgulhosa e sorridente, pois o conhecia melhor do que ninguém. Isso só deixava todos com mais dúvidas sobre eles. Por que alguém tão poderoso estava ali e não tinha acabado com tudo desde o começo? Se realmente havia terminado, por que o Mundo Invertido ainda não havia sido desfeito? Talvez a luta não tivesse acabado, apenas tivesse parado por algum motivo.
De volta ao local da batalha, os efeitos da técnica de Raishi já estavam se dissipando. Falcão tentava se levantar, completamente trêmulo e destruído.
— P-Por que…? — ele questionou, erguendo o rosto com esforço. — Por que você decidiu proteger essa cidade? Por que você protege essas pessoas? Você é tão poderoso e desperdiça seu potencial…
Ele tossiu forte e cuspiu bastante sangue ao terminar de falar. Tentava manter os olhos em seu oponente, mas não conseguia por causa dos ferimentos graves.
Raishi respirou fundo antes de responder.
— Por quê? — ele repetiu, passando a mão pelo rosto cansado. — Eu prometi ao Kayn que cuidaria do filho dele e terminaria o que ele começou. A ambição destruiu o Extra-Mundo uma vez, e uma boa causa acaba se tornando motivo de ambições maiores. Paz, liberdade e igualdade, uma hora ou outra, se tornam caos, controle e superioridade. Você ficou tão cego tentando fazer a Ordem ser reconhecida que se tornou ganancioso. Ter o poder de acabar com a paz e a vida de inocentes para se tornar um herói aos olhos dos outros não é certo. No final, você se torna igual ao que tentou destruir.
Ele suspirou e se levantou devagar, encarando Falcão mais uma vez. Ambos caminharam lentamente um na direção do outro, como se se preparassem para aplicar o golpe de misericórdia, mas Raishi não parecia feliz com aquilo.
Falcão respirou fundo, com dificuldade, e continuou:
— Eu estive de olho em vocês durante cinco meses… — ele murmurou, enquanto cambaleava para frente. — Desde antes do incidente com aqueles dois. Pensei que vocês não seriam uma ameaça, mas estava errado. Eu não esperava que dois humanos progredissem tão rápido… e que a Ordem me trairia novamente. Eu só queria ter conquistado a paz, Adfectus…
Ele sorriu fraco para Raishi enquanto sua armadura desaparecia. Logo em seguida, caiu de bruços no chão. Raishi apenas o observou, imóvel, ouvindo cada palavra de seu antigo companheiro.
— Adfectus… — Falcão sussurrou, com a voz falhando. — Tenha cuidado. O Extra-Mundo não é mais o mesmo de antes. Há ameaças muito maiores do que antes… Ameaças que fizeram até mesmo a Ordem fugir para a Terra. Eu só queria livrar as pessoas disso, mas me ceguei e não percebi que esse mundo já estava em paz… Eu quase trouxe o caos. Fui mesmo egoísta… Por favor, eu te suplico… mantenham a Ordem! Faça dela o que eu jamais fui capaz de fazer! A Águia ficaria feliz com isso…
Raishi se abaixou um pouco, olhando-o com tristeza.
— Realmente, ela ficaria. — Ele disse, com a voz calma, porém pesada. — Todos ficariam. Mas esse não é o nosso mundo e nunca será. Nosso mundo ainda está em guerra, e uma Ordem como essa não seria o suficiente para trazer a paz no Extra-Mundo. Era o que eu achava… até perceber o quanto todos aqui são determinados. Então, não se preocupe. A Ordem estará em boas mãos. Pode descansar, Falcão. O Coelho venceu dessa vez.
Lentamente, o Mundo Invertido começou a desaparecer e o céu voltou ao normal, estrelado e lindo como sempre. Falcão sorriu ao ver o céu e lágrimas escorreram pelo seu rosto. Vagando entre alívio e arrependimento, ele fechou os olhos devagar, até parar de respirar por completo.
Raishi soltou um longo suspiro.
— Certo… — murmurou, ajustando o corpo inerte nos braços. — Hora de encontrar todos e contar a verdade. Eu devo isso a eles.
Enquanto isso, todos estavam bastante apreensivos no abrigo, pois já fazia alguns minutos que nenhuma energia podia ser sentida vindo dos destroços. Aos poucos, uma figura se aproximou, carregando alguém nos ombros. Ruby e Hiena imediatamente assumiram postura de combate, mas relaxaram ao perceber que era Raishi. Ele trazia o corpo do Falcão, deixando claro que a luta já havia chegado ao fim.

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