Capítulo 68 — O Encontro
Um mês havia se passado desde a luta contra a Ordem dos Cavaleiros Brancos, e, aos poucos, tudo começava a voltar ao normal. Os membros restantes da Ordem decidiram ficar e aceitar Raishi como líder. Ainda assim, eles não possuíam um lugar fixo para morar, e a maioria acabou se separando.
Kamito ainda se perguntava por que Hiena precisava morar com ele. Ela até era legal, mas ele definitivamente não havia concordado com aquilo. Ao menos não fora Solum quem viera. Mesmo assim, Raishi ainda lhe pagaria por isso.
Os dias eram mais belos quando havia paz, e ele se sentia aliviado por tê-la protegido. Seus poderes haviam voltado gradativamente com o tempo. Kamito os sentia mais fortes do que antes, o que o assustava, mas sabia que não precisava ter medo, pois sempre tinha alguém ao seu lado.
Já fazia um mês que ele e Akane estavam namorando. A mãe dela realmente surtara quando soube da notícia, mas, milagrosamente, não o havia agredido. Em vez disso, tentara convencê-la a ir morar com ele, como se já fossem casados. Eles conseguiram contornar a situação, mas ainda assim tinha sido engraçado.
Aquele dia marcava o aniversário de um mês do relacionamento deles, e Kamito prometera encontrá-la no shopping. Ele esperava não se atrasar; odiava deixar as pessoas esperando, principalmente Akane. Ele lhe devia muito. Ela fora sua primeira amiga e, agora, sua primeira namorada. Era difícil acreditar que uma amizade como a deles tivesse durado tanto, ainda mais considerando como tudo começara.
Kamito tinha apenas seis anos quando havia acabado de se mudar para aquela cidade. Até então, sua mãe vivia mudando de lugar constantemente. Ele se lembrava bem daquele dia: o céu estava nublado e as ruas, movimentadas. Estavam dentro do carro quando ele olhou pela janela para observar mais uma cidade passageira. Aquilo o deixava triste. Ele nunca conseguia fazer amigos e sempre era alvo de comentários e olhares maldosos. Sentia-se estranho, diferente, e isso doía profundamente.
— Qual o problema, querido? — a mãe perguntou, olhando para ele de relance antes de voltar a atenção para a estrada.
— Você não gostou da vista? — acrescentou, com um leve sorriso. — Eu sei que essa cidade parece pequena, mas ela tem tudo o que precisamos.
Ela parecia animada com a ideia de morar ali, mas Kamito não conseguia compartilhar daquele entusiasmo.
— N-Não é isso… — respondeu, hesitante, apertando os dedos sobre o banco. — Eu só estava pensando se vou conseguir ter um amigo aqui… e se as outras crianças não vão falar da minha aparência ou rir de mim.
Ele desviou o olhar para a janela, emburrado. Não queria mudar novamente, muito menos continuar sem nenhum amigo. Aquilo o deixava profundamente triste.
— Mamãe, por que a gente se muda tanto? — Ele respirou fundo antes de continuar. — Toda vez que nos mudamos, você diz que vai ser a última. Não tem nenhuma cidade que te agrade?
— Poxa, não fala assim com a mamãe, Kamitinho. — disse ela, com a voz suave.
— Eu sei que sempre digo que será a última vez, mas sempre surge um imprevisto. Dessa vez, eu prometo que será a última. — Ela sorriu de leve. — Eu até compro um sorvete para você como garantia.
Ela o olhou, sorridente, e Kamito acabou desistindo de argumentar. A mãe voltou a atenção para a estrada, mas bagunçou seu cabelo com a mão direita antes de recolhê-la. Ele passou a mão pelos fios, tentando arrumá-los, e sorriu de forma envergonhada.
— Não se importe com o que falam de você. — Continuou ela, ainda dirigindo. — Você é um garoto lindo e incrível. Eles não sabem o quanto você é especial, por isso te tratam assim.
— Eu sei… — respondeu ele, com a voz baixa.
— Eu só queria ser normal. Até os adultos acham estranho. Por que eu tenho essa aparência? Por que meus cabelos e meus olhos não são parecidos com os seus? — sua voz tremeu. — Eu tenho algum problema? Eu estou doente?
Kamito a encarou, indignado, buscando respostas. Seus olhos brilhavam cheios de esperança, mas, ao mesmo tempo, pequenas lágrimas de medo começavam a se formar.
— Claro que você não tem nenhum problema, nem está doente! — respondeu ela rapidamente, olhando para ele com firmeza. — As pessoas são diferentes umas das outras, principalmente nós. Um dia, eu prometo contar o porquê de você ser assim. Mas, até lá, me prometa que será um homem forte.
Ela finalmente parou o carro e virou-se para ele. Seu olhar estava sério, carregado de tristeza e preocupação. Ela compreendia o que o filho sentia, mas parecia não saber como explicar tudo naquele momento.
— Certo! — disse então, forçando um sorriso. — Chegamos ao nosso novo lar. Que tal olharmos a casa?
— Tudo bem… — respondeu Kamito, tentando parecer convencido.
— Mas espero mesmo que essa seja a nossa última casa, ou nunca mais confio em você de novo. — Ele fez um pequeno bico antes de completar:
— E, mamãe, eu quero que meu quarto seja muito grande!
Ele sorriu enquanto esperava que ela o ajudasse a sair do carro. Ao olhar para a casa, passou a admirá-la. Ela realmente era enorme e bonita, mas, mesmo assim, ele sentia que talvez não fosse a última. Depois daquela conversa, concordou em conhecê-la melhor. A casa era espaçosa e ideal para os dois, assim como as outras haviam sido, mas aquele pensamento insistia em não sair de sua cabeça.
Em seguida, sua mãe sugeriu que ele fosse brincar em um parquinho ali perto. Kamito pensou que talvez pudesse fazer amigos. A ideia o animou imediatamente. Seu coração se encheu de alegria depois de tanto tempo, e a ansiedade tomou conta dele. Tudo o que mais queria era ter amigos.
Após algum tempo perdido nessas lembranças, uma voz familiar o cutucou algumas vezes enquanto chamava seu nome. Ele demorou um pouco para voltar à realidade, mas logo ergueu o olhar e percebeu que era Akane.
— Kamito?! Kamito?! Kamito! — chamou Akane, aproximando-se. — Você está bem? Fiquei preocupada por você estar atrasado e, quando te encontro, você está parado igual uma estátua.
Akane o encarava sem entender o que estava acontecendo. Kamito sorriu sem jeito e coçou a cabeça. Ao ver aquilo, ela bufou levemente, cruzando os braços.
— Por que está sorrindo?! — questionou. — Você não está bem. Acho melhor irmos embora, você ainda deve estar muito desgastado. Eu não devia ter te chamado.
— N-Não é isso! — respondeu ele rapidamente, erguendo as mãos de leve. — Me desculpa… eu me distraí pensando no passado. — Ele respirou fundo.
— Não se preocupe, eu estou ótimo. Desculpa o atraso. — Hesitou por um instante antes de completar, sincero:
— Você está linda, Akane.
Kamito sorriu, visivelmente envergonhado. Akane usava um vestido florido com um colete branco, e o pingente com o cristal dourado se destacava em seu peito. Ele estendeu a mão direita em sua direção, ainda sorrindo.
— O-Obrigada… — respondeu ela, corando levemente.
— Você também está lindo. — Fez uma pequena pausa antes de sugerir: — Que tal olharmos as vitrines? Depois podemos tomar sorvete e caminhar pelo parque. O que você acha?
Ela sorriu de forma tímida e segurou a mão direita dele com a esquerda. Akane não parava de olhá-lo, principalmente para o pingente que ele também usava, que estava bem visível. Logo ela se colocou ao seu lado, e os dois começaram a caminhar de mãos dadas pelo shopping. Ainda havia um pouco de vergonha entre eles, mas não o suficiente para soltarem as mãos.
— Você disse que estava pensando no passado, — comentou ela. — No que exatamente estava pensando?
— Ah… no dia em que me mudei para essa cidade. Eu vim pensando nisso o caminho todo. — Ele olhou ao redor, pensativo.
— Quem diria que um dia eu salvaria esse lugar… — respirou fundo. — É estranho pensar que fiz parte de um time que salvou essa cidade. Talvez seja por isso que eu estava distraído.
Ele falava um pouco confuso, sem saber ao certo como explicar o que sentia. Enquanto caminhava ao lado dela, era como se aquele pensamento viesse acompanhado de um orgulho silencioso.
— Que tal olharmos aquela loja? — disse ele de repente, apontando à frente — Parece bem interessante, vamos lá!
— A-Aquilo é uma joalheria! — respondeu Akane, surpresa. — Espera aí, Kamito, não precisa ir com tanta pressa.
Ela tentou acompanhá-lo, meio relutante, mas acabou desistindo quando chegaram mais perto. Akane começou a observar as joias, admirando-as com curiosidade, enquanto Kamito a observava discretamente. Ao perceber o olhar dele, ela voltou-se para ele e ficou envergonhada.
— Por que quis olhar essa loja? — perguntou.
— Pensei que você não se interessasse por joias. Há algum motivo em especial? — inclinou a cabeça. — Ou você só quer olhar mesmo?
— Na verdade… — Kamito respirou fundo antes de responder. — É por um motivo especial. — Ele desviou o olhar por um instante — Estamos juntos há um mês, então pensei que já estava na hora de comprar anéis de compromisso.
Ele ficou visivelmente envergonhado ao dizer aquilo. Uma das atendentes ouviu a conversa e logo se aproximou, oferecendo ajuda para escolher um par de anéis. Kamito tentou disfarçar, mas ela insistiu e pediu que os dois a acompanhassem. Akane o olhou, ainda mais corada.
— V-Você devia ter me dito isso antes… — murmurou.
— Eu poderia ter planejado melhor nosso encontro. — Fez um pequeno bico. — Agora não sei nem como vou retribuir. Que injusto.
Ela parecia chateada, mas Kamito cutucou levemente sua bochecha, arrancando-lhe um sorriso. Em seguida, Akane começou a observar os anéis com mais atenção, pensando em qual escolher.
— Mas você já tem ideia do que quer? — perguntou. — Você deve ter pensado nisso, não é?
Kamito sorriu, nervoso, e respondeu que não fazia ideia do que comprar. Akane lhe deu uma pequena bronca por isso. Ele realmente queria escolher tudo junto com ela, por isso não havia planejado nada antes. Olhar aqueles anéis enquanto ouvia a voz dela o fazia lembrar de tudo o que haviam passado juntos, e ele queria algo que representasse aquilo de forma forte e única.
Foi então que a atendente reparou nos pingentes dos dois e perguntou se eles gostariam de algo parecido com aqueles.
Kamito concordou prontamente com a sugestão da atendente. Ela então lhes mostrou alguns anéis mais detalhados e requintados. Entre eles, havia um par que possuía pedras exatamente das mesmas cores dos pingentes que ambos usavam. Assim que os viram, souberam que seriam aqueles.
Sem pensar duas vezes, escolheram o par. A atendente pediu que Kamito a acompanhasse até o caixa. Ele seguiu com ela, visivelmente nervoso, mas não era pelo significado da compra, e sim pelo preço. Enquanto pagava, Kamito sentia o olhar de Akane à distância. Ela o observava com as bochechas rosadas, apertando as mãos com leve ansiedade.
Após finalizar a compra, Kamito voltou até ela e segurou sua mão direita. Akane admirava o anel, impressionada, enquanto ele o colocava cuidadosamente em seu dedo. Kamito sorriu, ainda um pouco sem jeito. Em seguida, Akane segurou a mão direita dele e fez o mesmo, colocando o anel em seu dedo. Ele a olhou envergonhado, e ela respondeu com um sorriso suave.
— Essa é a prova do quanto eu te amo, Akane. — disse Kamito, com a voz baixa, olhando diretamente em seus olhos.
— Esse é o significado dos meus sentimentos por você e algo para que não se sinta sozinha quando não estivermos juntos. — Ele respirou fundo antes de continuar — Queria poder ter comprado antes, mas eu queria fazer isso com você. Espero que você realmente goste.
Ele sorriu enquanto encarava os olhos dela, que brilhavam intensamente. De forma inesperada, Akane o abraçou com força e o beijou bem no meio da loja. As atendentes sorriram e começaram a aplaudir, o que fez o rosto de Kamito ficar completamente vermelho de vergonha.
— Eu amei! — disse Akane, emocionada.
— Assim como eu te amo, Kamito. — Ela fungou levemente. — Mesmo que você não me desse um anel, eu ainda me lembraria de você. Você é o único que está sempre nos meus pensamentos e nos meus sentimentos. Eu nunca vou tirar esse anel.
Akane começou a chorar, tomada pela emoção. Kamito sorriu, secou delicadamente suas lágrimas com a mão e disse que era melhor continuarem o passeio. Ela concordou e segurou a mão direita dele com força, como se não quisesse deixá-lo escapar. Assim, todos poderiam ver que estavam juntos.
Eles mereciam aquilo. Mereciam ser felizes depois de tudo o que haviam passado.
Enquanto caminhava ao lado dela, Kamito sentiu lembranças antigas surgirem. Ele ainda se lembrava claramente do dia em que a conheceu. Pequenos lapsos de memória voltavam enquanto seguiam de mãos dadas, memórias do início de tudo, de quando suas vidas começaram a se entrelaçar.

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