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    Em outro lugar, longe dali, Raishi e Ruby estavam em um local com pouca iluminação, que se assemelhava a um quarto. Raishi permanecia sentado em uma poltrona, imóvel, enquanto Ruby estava deitada sobre uma mesa à sua frente. Ele a observava em silêncio, sem demonstrar emoção. Ruby então se sentou lentamente e passou a encará-lo com seriedade. Incomodada, levantou-se e se aproximou dele. 

    — Adfectus, agora que tudo acabou, por que você não disse ao Kamito que o Lobo era seu pai?! E que ele não é totalmente humano?! Por que você ainda esconde isso?   

    Questionou, cruzando os braços e inclinando levemente o corpo para a frente. Ruby o fitava com atenção, aguardando uma resposta. Ela não conseguia entender por que ele ainda guardava aquelas informações, especialmente depois de ter prometido contar tudo. 

    — Por quê? Porque esse não é um segredo nosso, muito menos nosso dever. Kamito ainda é muito jovem e inexperiente para saber sua origem. A única que pode lhe contar isso é a pessoa que mais o ama: sua mãe, Shiro Takeda. — respondeu Raishi, em tom calmo. 

    Ele fechou os olhos lentamente e apoiou a cabeça para trás, respirando fundo. Em seguida, abriu os olhos e passou a encarar o teto. Ruby então se sentou em seu colo, aproximando-se ainda mais, e levou a mão esquerda até o queixo dele, forçando-o a olhá-la. 

    — Nem mesmo eu faço ideia de como e porque ele possui as Chamas Negras da Calamidade. Mas, se o Lobo e a Shiro deram essa Manifestação a ele, então somente eles sabem o que o filho deles realmente deve fazer. — Completou, sem desviar o olhar. 

    — Você tem sido muito mal comigo e com as crianças, Adfectus. Quando você deixará de ser tão frio e começará a se importar com alguém?! — disse Ruby, deslizando lentamente os dedos pelo peito dele. — Você reergueu a Ordem. Qual o seu plano agora?  

    Enquanto falava, ela se aproximou ainda mais, levando o rosto até o pescoço de Raishi e mordendo-o de leve. 

    — Você tem os Manifestadores mais fortes aqui na Terra. Ficar protegendo uma cidade de Carniceiros não parece ser algo que você faria. Me diga a verdade, por favor. — Insistiu, em voz baixa. 

    Raishi permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de responder. 

    — O que eu havia dito antes: proteger esse mundo do Extra-Mundo e dos Manifestadores. Esse mundo não merece sofrer o mesmo destino que o nosso, além do fato do Kamito e a Akane serem os únicos capazes de viver entre esses dois mundos, especialmente o Kamito. — explicou, em tom firme. — Ele é o único de nós. Ele carrega o sangue dos dois mundos e uma das Manifestações mais poderosas. 

    Ele não reagiu de imediato, mas logo levou a mão aos cabelos de Ruby, acariciando-os com cuidado. Um leve sorriso surgiu em seu rosto enquanto ela aproximava lentamente os lábios dos dele. 

    — Vamos torcer para ele conseguir controlar ou conter seus poderes. Só havia uma única pessoa capaz de ajudá-lo com isso, e ela infelizmente está morta. — Concluiu, desviando o olhar por um breve momento. 

    O clima começava a esquentar. Eles sempre foram misteriosos e pareciam saber de tudo antes dos outros, mas ainda assim eram os únicos em quem se podia confiar sem medo. Raishi havia ajudado desde o início sem pedir nada em troca, embora suas atitudes fossem duvidosas e ele não aparentasse ser totalmente confiável. 

    Enquanto isso, Coruja e Solum patrulhavam os arredores da cidade após sentirem vestígios de energia nas proximidades. Os dois se encontraram em um bosque e se depararam com uma fenda dimensional prestes a se fechar. 

    — Ora, ora, o que temos aqui?! Parece que alguém acabou de vir para cá. Eu estava mesmo doido para caçar alguém! Onde ele está, Coruja?! — disse Solum, abrindo um sorriso animado. 

    Ele o olhava com expectativa. Solum não lutava desde seu combate contra Coruja e queria provar que estava recuperado. 

    — Por que essa cara?! Não me diga que você não consegue achá-lo. Será que ele é tão forte assim?! Isso me deixa muito ansioso para encontrá-lo. 

    — Ele não está na Terra, Solum. Esse portal foi aberto daqui. Seja lá quem abriu esse portal, ele foi para o Extra-Mundo. — respondeu Coruja, observando atentamente a fenda. — Isso é um problema grave. 

    Coruja criou várias corujas e as enviou para dentro da fenda. Ele sentia que algo estava errado, pois quem havia feito aquilo conseguiu despistar completamente todas as suas vigias. Em seguida, voltou o olhar para Solum, visivelmente preocupado. 

    — Isso é ruim. Se o império tomar conhecimento de que esse mundo é vulnerável, eles invadirão sem pensar duas vezes. — alertou, em tom sério. — Preciso que você informe ao Coelho imediatamente, Solum, ou tudo que você fez será em vão. 

    — Não deixarei que isso aconteça! Helenae jamais me perdoaria se eu deixasse isso acontecer. Estou indo agora mesmo! — afirmou Solum, cerrando os punhos. — Também pedirei para que todos que procurem por mais fendas pela cidade.  

    Ele demonstrava verdadeira preocupação. Solum havia vivido o período de paz e a ascensão do Império ainda quando criança e jamais queria ver aquilo se repetir. 

    — Ele jamais me perdoaria também. Agora está na hora de retribuir o favor que você me fez, Kamito. Dessa vez, quem abrirá seus olhos será eu!  

    — Espero que isso não seja o que eu estou pensando… Se realmente havia um espião, eu preciso encontrá-lo. Esse mundo não cairá como o nosso! — concluiu, encarando a fenda que lentamente se fechava. 

    Coruja estava determinado a encontrar o máximo de informações possível e utilizava sua Manifestação enquanto se esforçava para manter a fenda aberta. Solum partiu imediatamente, sem olhar para trás, pois não queria que aquele mundo tivesse o mesmo destino do Extra-Mundo.  

    Ao que tudo indicava, uma nova ameaça se aproximava, e eles precisavam agir o mais rápido possível para impedi-la. Ambos conheciam a força do Império e sabiam que, sozinhos, não seriam suficientes para detê-lo. Se aquela ameaça realmente estivesse se movendo, ninguém estaria preparado. Coruja tinha plena consciência disso e precisava planejar tudo antes de qualquer ataque. 

    Do outro lado do portal existia um mundo semelhante à Terra, porém com uma geografia completamente oposta. Uma das corujas atravessou a fenda e alcançou um imenso continente. Havia diversas cidades, florestas e montanhas, criando à primeira vista a impressão de um lugar belo e tranquilo. 

    No entanto, conforme avançava, a visão mudava. Planícies devastadas surgiam diante dela, cidades destruídas, pessoas vivendo na miséria e soldados as oprimindo. Aquele lugar não era um sonho, mas um pesadelo do qual poucos haviam escapado. 

    Em uma floresta densa, um homem vestindo uma capa preta que cobria todo o seu corpo caminhava com dificuldade. Ele se aproximou de uma imensa cachoeira e a atravessou, revelando um enorme castelo construído na rocha. Vários guardas surgiram rapidamente e passaram a escoltá-lo. O homem foi conduzido por um longo corredor até uma grande sala. No centro dela havia um trono de cristal e, acima dele, uma abertura por onde a luz atravessava, impedindo que se visse claramente quem estava sentado ali. Com esforço, o homem se ajoelhou diante do trono. 

    — Meu senhor, infelizmente o plano falhou… — disse, mantendo a cabeça baixa. — O artefato foi destruído antes de ser ativado, tudo por culpa de Manifestadores foragidos e de dois humanos com Manifestações. Um deles possui algo de seu interesse. 

    O homem então ergueu a cabeça e removeu o manto, revelando ser Cascavel. Os cabelos do lado esquerdo estavam brancos, e sua pele encontrava-se ainda mais pálida, enquanto o lado direito permanecia intacto. 

    — Posso ter falhado em criar uma ponte entre os dois mundos, mas encontrei duas Manifestações: As Chamas Negras da Calamidade, e também uma Manifestação extremamente rara de cura e defesa. — Completou, com a voz firme. 

    — “Chamas Negras da Calamidade”?! — a voz vinda do trono ecoou pelo salão. — Como essa Manifestação está no mundo humano?! Tem certeza do que você viu lá?! Ou é mais uma falha sua? 

    Cascavel respirou fundo antes de responder. 

    — Claro que sim, meu Imperador, pois foi ele quem fez isso comigo. — disse, dando um passo à frente. — O nome do portador das chamas é Kamito Takeda, e a outra Manifestação pertence a uma garota, Akane Yagami. Ambos inexperientes e fracos na Manifestação. 

    Ele então se levantou lentamente, aproximou-se do trono e estendeu a mão esquerda. Nela, havia um pequeno objeto, que foi imediatamente tomado pela figura envolta em luz. 

    — Como pode ver, sem dúvidas são as chamas negras. — continuou Cascavel. — Eu quase não sobrevivi a um ataque delas dormentes. Se não os tivermos do nosso lado, certamente eles nos darão mais problemas do que os rebeldes ou a própria Emota. 

    — Interessante… Muito interessante… — murmurou o Imperador. — Uma Manifestação Negra e uma Manifestação rara estavam todo esse tempo com os humanos. Hora de tomá-las para mim! Chegou a hora de agir novamente. 

    A figura se levantou do trono e, ao mesmo tempo, a luz desapareceu, deixando o ambiente com pouca visibilidade e impedindo que seu rosto fosse visto claramente. 

    — Convoquem todos os meus capitães! — ordenou, com a voz carregada de autoridade. — Hora de aniquilar todos os rebeldes de uma vez por todas! Agora temos algo muito mais importante do que brincar com rebeldes. Hora de termos o poder absoluto! Hora do Império mostrar do que é capaz! Hora de salvarmos esse mundo!!! 

    Os presentes gritaram, eufóricos. Aos poucos, a figura foi se revelando, até que seus guardas gritaram seu nome. Impero, o tirano que havia tomado grande parte do Extra-Mundo, finalmente estava prestes a se mover após anos de guerra. 

    O destino do Extra-Mundo e da Terra estava prestes a mudar de uma vez por todas. Um grande acontecimento estava começando, e ninguém fazia ideia de que tudo aquilo estava ligado diretamente às escolhas feitas até ali. Uma guerra por poder se iniciava, e novas batalhas se aproximavam. Os destinos de todos estavam cada vez mais próximos do que imaginavam. 

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