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    Desde que Kamito perdera o controle na luta contra o Falcão, sua energia tendia a se desestabilizar repentinamente. Raishi havia dito que aquilo acontecia porque ele excedera seu limite de energia, fazendo com que ela se tornasse instável mais rápido do que o comum. A princípio, aquilo não seria motivo de preocupação, mas sempre que acontecia sua Manifestação ficava mais violenta, deixando-o suscetível a perder o controle. 

    Kamito percebeu que Akane o observava com preocupação, mas sorriu de leve na tentativa de tranquilizá-la. Ele não podia mais viver daquela forma, com medo de si mesmo e do próprio poder. Mais cedo ou mais tarde, teria que colocar um ponto final naquilo e acabar com aquilo de vez. 

    Akane se preparava para se levantar e ir até ele quando o professor entrou na sala, pedindo que todos se sentassem. Kamito entendia a preocupação dela, mas não compreendia a dos outros, pois, no mesmo instante em que o professor entrava, Solum surgia em uma das árvores do campus da escola. Ele observava a sala de Kamito, atento à energia que emanava dali. 

    Não apenas ele, mas também uma das corujas de Coruja estava pela escola. Todos tinham extremo cuidado devido à instabilidade de Kamito. 

    — Essa foi por pouco. — Murmurou Kamito em voz baixa, apoiando o cotovelo na mesa. — Se não fosse pelo professor eu teria que ir falar com o Solum…, mas não entendo, foi algo tão normal, por que tanta preocupação de uns meses para cá?! O que será que está acontecendo? 

    Ele cochichava consigo mesmo enquanto pensava no que poderia estar acontecendo. Sempre que uma daquelas instabilidades surgia, Solum e Coruja apareciam para verificá-lo. Talvez algo maior estivesse acontecendo, e eles simplesmente não queriam lhe contar. Kamito desviou o olhar para o quadro e percebeu que o professor já havia começado a escrever. 

    — Melhor pensar nisso um outro momento. — Pensou, respirando fundo. — Preciso me concentrar na aula, mas com a presença do Solum aqui será meio difícil. Que droga. 

    Enquanto isso, Solum cruzava os braços e observava a escola do alto da árvore. 

    — Francamente, não sei o porquê do Coruja e o Raishi quererem tanto que eu fique de olho nesses dois. — Resmungou, com um tom impaciente. — Pensei que tinha algo muito mais importante do que ser babá deles. Só queria encontrar alguém mais forte para poder lutar. 

    Solum se sentou em um galho, apoiando o pé no tronco, enquanto analisava os arredores. Uma das corujas de Coruja apareceu e pousou em seu ombro direito. Ele a encarou por um instante, já sabendo do que se tratava. 

    — Não há nada de anormal com a energia dele, foi algo simples. — disse, desviando o olhar com tédio. — Me pergunto quando que ele finalmente vai aprender a controlar isso, é tedioso esse serviço de babá. 

    — Você sabe que é por algo muito maior. — disse a coruja, com a cabeça levemente inclinada. — Não estamos os vigiando só pelo fato de o Kamito ser instável, mas por algo perigoso estar se aproximando. 

    Aquela coruja falava com uma voz que parecia ser transmitida por um rádio, o que lhe dava um aspecto diferente do comum. Em silêncio, ela trocou de ombro, observando a escola com atenção redobrada. 

    — Há alguns meses encontramos aquela Fenda Dimensional — continuou, batendo as asas uma única vez. — E é só uma questão de tempo até que espiões do império estejam por essa cidade. Nesse exato momento estou indo relatar ao Adfectus as últimas informações que coletei. Solum, é possível que estejamos próximos de uma invasão. 

    — Uma invasão, é?! — Solum arregalou levemente os olhos, cerrando o punho em seguida. — Que tipo de Manifestadores será que ele possui?! Estamos realmente preparados?! Foi certo esconder isso? 

    Solum tinha muitas perguntas a fazer. Ele e Coruja haviam tomado conhecimento de atividades suspeitas e, desde então, patrulhavam a cidade enquanto reuniam informações sobre o Extra-Mundo. Ele então ergueu o olhar para o céu e suspirou profundamente. 

    — Espero que uma boa luta me aguarde. — Murmurou, abrindo um leve sorriso. — Não sinto nada desde a minha luta contra o Kamito e contra você, Mestre. Agora eu sei que estou pronto. 

    Em outro lugar, Raishi e Ruby admiravam o belo dia de sol. Ambos mantinham os olhos fechados, com as cabeças erguidas, aproveitando o momento em silêncio. Eles vinham se entendendo muito bem havia algum tempo e passavam bastante tempo juntos, mas aquela tranquilidade foi interrompida quando Coruja se aproximou lentamente. 

    Ele parecia sério, e seu semblante indicava que trazia algo de interesse direto para Raishi, já que havia ido pessoalmente relatar aquilo. Coruja parou bem à frente dos dois. 

    — Desculpe-me a intromissão, Senhor Adfectus. — disse, curvando levemente a cabeça. — Mas tenho mais informações sobre os recentes acontecimentos no Extra-Mundo. Suas suspeitas estavam certas e, ao que parece, as forças imperiais estão se movimentando. 

    O tom sério de Coruja fez com que ambos abrissem os olhos e o encarassem, demonstrando interesse imediato. Em seguida, ele ergueu a mão e criou uma tela à frente deles, exibindo diversos pontos do Extra-Mundo e registros de acontecimentos recentes. 

    — Há algumas semanas um grupo de rebeldes iniciou um ataque surpresa à fortaleza do Imperador. — explicou, apontando para a imagem. — Mas infelizmente eles falharam. O ponto é que isso inspirou todos aqueles contra o império a se revoltarem. Recentemente eu recebi a informação de que as gêmeas Harpia e Pombo tiveram contato com esse grupo. Eles são conhecidos como Emota, e são compostos por três homens e duas mulheres. Todos com o mesmo interesse que nós: o fim do império. 

    Eles eram conhecidos como Emota e eram compostos por três homens e duas mulheres. Todos tinham o mesmo interesse que eles: o fim do império. 

    — “Emota”?! — Ruby arregalou levemente os olhos, inclinando a cabeça para o lado. — Esse não é o nome de uma das prisões do império? Quem diria que alguém usaria esse nome para inspirar coragem e resistência. Ei, Adfectus, isso significa que teremos que ir ao Extra-Mundo? Se o império sabe da nossa existência, a melhor maneira de surpreendê-los seria indo até eles. 

    Ruby se esticou em sua cadeira enquanto falava. Sua ideia parecia a mais lógica possível, pois agora que o inimigo estava focado em outro grupo, eles poderiam agir entre os rebeldes sem levantar muitas suspeitas. Era perfeito. 

    — Quem diria que ainda existiam pessoas dispostas a lutarem pelo seu lar — comentou Raishi em um tom reflexivo, mantendo os olhos fechados por um instante — Nem tudo está perdido, afinal. Adfectus, parece que chegou a hora de voltar para casa. 

    — Finalmente o Extra-Mundo decidiu se mover. — disse Raishi, levantando-se com calma enquanto encarava Coruja.  

    — Um pouco tarde para isso, eu diria, mas já é um começo. — Cruzou os braços. — Coruja, essa Emota é confiável? Conte-me tudo que você sabe até o momento. Chegou a hora da Ordem também se mover. 

    Raishi se levantou por completo, mantendo o olhar tranquilo sobre Coruja. Ele sabia que agora o Extra-Mundo dependia deles mais do que nunca, e ficar aguardando um ataque já não era mais uma opção. Calmamente, desviou o olhar e deixou escapar um leve sorriso. 

    — Acho que está na hora de reunir toda a Ordem e decidirmos o que fazer. — disse, virando-se de lado. — Eu esperava que o império nos atacaria primeiro, mas com essa reviravolta as coisas mudaram. Parece que teremos que ir ao Extra-Mundo, Coruja e Ruby. 

    — Irei imediatamente convocar os membros restantes da Ordem. — respondeu Coruja, mantendo-se ereto. 

    — Aproveitando isso, você acha que devo convocá-los também? — ele hesitou por um instante. — Mesmo que isso não seja a respeito deles, eles também fazem parte da Ordem. 

    Coruja continuava sério até que o sorriso de Raishi desapareceu, e ele voltou a encará-lo diretamente. A mudança repentina fez Coruja se assustar, dando um passo para trás quase sem perceber. Por mais que agora todos fossem aliados, Coruja não concordava em manter Kamito na Ordem junto de Akane, assim como Ryruka também não. 

    — Desculpe-me pelo comentário. — disse Coruja, desviando brevemente o olhar. — Eu só acho que, por eles serem humanos, talvez não tenham interesse em se envolverem num assunto como esse. 

    — Entendo sua preocupação, Coruja. — respondeu Raishi, com a voz firme e controlada. — Mas eles também fazem parte disso e também terão a escolha de decidirem o que querem fazer. Sempre foi assim. 

    Raishi se virou e caminhou até sua cadeira, sentando-se novamente. Ruby o observou com um sorriso satisfeito, enquanto Coruja concordava em silêncio e se retirava. Após isso, Raishi ergueu o olhar para o céu, ficando pensativo. 

    — Será que eles estão prontos para irem para outro mundo? — murmurou. — Estamos falando de uma guerra, e eles ainda são só garotos. É isso que eles querem? 

    As horas se passaram calmamente, como se nada estivesse acontecendo. Todas as aulas seguiram sem nenhum imprevisto. Durante o almoço, Kamito e Akane conversaram sobre a ideia de se reunirem com Yujiro e Ryruka; seria animador revê-los. As aulas da tarde ocorreram sem problemas, e sua energia não havia se desestabilizado até aquele momento. 

    Segundo Raishi, isso se devia ao fato de Kamito ter ultrapassado o limite de energia que seu corpo suportava, e agora ela não conseguia mais se manter estável. Infelizmente, esse fora o preço que ele tivera que pagar naquele dia. 

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