Capítulo 74 – O Surgimento de uma Nova Ameaça
Três dias se passaram desde o ataque. Kamito não contou a ninguém sobre o ocorrido, não queria gerar preocupações. Eles ficariam muito mais preocupados com a estabilidade da energia do rapaz do que com a luta em si.
Em um dia de semana qualquer, Lília o acordou mais cedo que o comum. Não queria que ele se atrasasse para o colégio outra vez, certamente. Na cozinha, Kamito se sentou numa cadeira enquanto a moça fazia o café.
— Bom dia, Kamito. Dormiu bem? Notei que sua energia estava mais instável que o comum. Teve um pesadelo? Poderia ter me chamado. Eu teria dormido com você para te confortar. — ela riu e jogou uma maçã para ele.
Após Kamito a pegar, Lília sorriu com leveza e voltou a preparar o café da manhã.
— Não preciso disso, nem das suas piadinhas pela manhã! Não sei se poderia chamar aquilo de pesadelo. Eu senti que algo ou alguém tentava conversar com minhas chamas. E elas tentavam responder… — ele observava a maçã, pensativo.
Se lembrava claramente de sua Manifestação reagindo a algo. Poderia ser o Imperador que aquele homem mencionou? Poderia ser a Sombra?
— Eu não sei o que pode estar acontecendo… Espero que não seja um sinal de que eu posso perder o controle de novo. Não posso deixar que isso aconteça.
— Não se preocupe tanto. Você é você, não importa que decisão você tome ou o que aconteça. Você não perderá o controle tão fácil, então relaxa. — ela colocou as mãos no rosto do rapaz e o levantou sutilmente. Seu semblante confiante o confortava. — Não vou deixar você perder o controle da sua energia. Foi para isso que treinamos. Não fique pensando no pior. Esse poder faz parte de você, Kamito. Ele só te dominará se você permitir, entendeu?
— E-entendi. Sei que você não quer que seu treino seja em vão, nem que eu não tenha me esforçado, mas venho pensando se é possível alguém estar tentando falar comigo através da minha Manifestação. Isso acontece quando a Sombra tenta tomar o controle. Será que é possível outro Manifestador fazer o mesmo que ela?
Ele a fitou com seriedade. Queria contar o que houve dias atrás, mas não podia. Disfarçou essa preocupação com um olhar convencido e um sorriso.
— Parece que você se preocupa mesmo comigo, dizendo essas coisas e segurando meu rosto. Nem parece a Lília que eu conheço. Obrigado.
— Idiota! Não fale coisas das quais você não sabe! Eu só quis te motivar. Pouco me importa o que vai acontecer com você. Eu já disse, você continuaria sendo você. Não sei por que a mudança te assusta tanto. — ela lhe deu um peteleco na testa, pouco antes de voltar para a pia lavar alguns utensílios. Logo depois, o fitou de novo. — Kamito, tem compromisso depois da aula? Recebemos uma mensagem do Coruja e, ao que parece, o Raishi quer uma reunião da Ordem.
— Uma reunião?! Fazia tempo que não nos chamavam. Vou avisar Akane mais tarde. Você sabe o que ele quer?
Poderia ser sobre o ataque? Kamito tentou manter a calma para não alertar Lília e olhou para o relógio.
— Tudo bem, eu vou. E acho que já vou começar a me arrumar para não me atrasar. Obrigado por me avisar, Lília, e por se preocupar comigo.
Na verdade, esse assunto o fez perder o apetite. Para não levantar suspeitas, foi ao banheiro, pensando no motivo da reunião. Enquanto estava no banho, pensava na possibilidade de Solum tê-lo dedurado. Mas não fazia sentido, Lília não perguntou nada. Algo estranho estava acontecendo e ele poderia saber o que era naquele dia.
Após se arrumar e sair de casa, Kamito esperou Akane para irem juntos ao colégio. Enquanto ela não aparecia, ele admirava o céu tranquilamente.
Minutos depois, quando ela apareceu, perguntou o que ele olhava: apenas o céu e o tempo. Com um lindo sorriso, ela o puxou pela mão. Durante o caminho, Kamito a informou sobre a reunião. Para sua surpresa, ela também não sabia o motivo. Várias preocupações tomaram a mente do jovem; ele deveria ter contado sobre o ataque que sofreu. Deixou escapar um suspiro profundo, chamando a atenção da namorada. Ele logo disfarçou com um sorriso nervoso, dizendo que não era nada demais.
Na sala de aula, Kamito olhava através da janela, como de costume, até sentir algo que o assustou: três seres se aproximavam da escola. Onde estavam Solum e os outros? Não sentia a presença deles por perto. Fitou Akane de relance; ela parecia tranquila. Era só sua imaginação? Para se acalmar, ele saiu da sala para lavar o rosto.
Foi até os bebedouros do pátio e molhou cabeça numa torneira. Nem percebeu a chegada de três pessoas com roupas militares. Sua energia estremeceu subitamente, o que o fez virar e os encarar com espanto. Sua reação fez o homem ao centro sorrir.
— Você é Kamito Takeda?! É um imenso prazer conhecê-lo. Sou Haythan Alexander, Capitão a serviço do Grande Impero, o Imperador de Eudora. — suas palavras paralisaram o jovem de cabelos azuis, apesar da reverência cordial. Ele vestia calças sociais pretas, botas militares até as canelas, camisa social preta com botões dourados, jaqueta militar vermelha com detalhes em dourado e luvas pretas.
Kamito foi pego desprevenido e num local impossível de lutar. Se aquele homem falava a verdade, o jovem não teria muitas escolhas.
— Esses são meus subordinados: meu braço direito, Aiko, e meu braço esquerdo, Igner. — Ele os introduziu com um gesto braçal. — O Grande Impero solicita sua presença junto da sua parceira, Akane Yagami. Recusar não é uma opção lógica.
— O-O que fazem aqui?! Justo aqui?! Como entraram?! Eu já disse uma vez e irei repetir. Não tenho interesse em me juntar a imperador nenhum ou em ir ao Extra-Mundo com vocês! — Kamito recuou, mas seu corpo parecia pesar toneladas.
Eles não eram Carniceiros. Eram Manifestadores. Ele estava aterrorizado.
— V-vocês são diferentes do homem que me atacou outro dia. Vocês não vão desistir, não é mesmo?! Se querem lutar, vamos para outro lugar.
— Não estamos aqui para lutar, apenas para te dar uma intimação: nunca contrarie a vontade do Grande Impero. — disse o homem de cabelos e olhos vermelhos.
Ele se aproximou, levantou o queixo do rapaz e o encarou nos olhos. Parecia ser bem arrogante. Com um sorriso de canto, estalou os dedos. O corpo de Kamito voltou ao normal, mas Haythan ainda o segurava pelo queixo.
— Você não tem opções. Ou vem por bem, ou teremos que usar a força. Eu não quero ter que fazer isso, Kamito, então pense bem na sua resposta.
— Chega de joguinhos com ele, Senhor Haythan. Vamos apagá-lo e ir atrás da garota. Persuadi-los não vai funcionar. Deixe isso comigo, por favor. — Aiko, um homem de cabelos verdes e olhos laranja, se aproximou.
Suas palavras forçaram Kamito a encará-lo; ele riu. Vestia calça preta, botas de couro, camisa social branca e um sobretudo militar vermelho com detalhes dourados.
— Mesmo em uma situação como essa, ele ainda tem esse olhar?! Patético. Você não sabe mesmo quando desistir, não é mesmo?!
— S-seus desgraçados! Já disse que não irei a lugar algum a não ser que seja para acabar com vocês! Isso é entre nós, não envolvam a Akane! — Kamito empurrou a mão de Haythan e manifestou sua energia. Sabia que não era páreo para o trio, mas, se usasse sua energia, alguém poderia vir ajudar. — Vocês invadem minha escola, ameaçam a mim e a minha namorada e acham que não farei nada?!
— Idiota. Reagir não é uma opção. Não viemos lutar, não percebe? Fizemos uma proposta e veja como você reagiu. Agora, você pagará por suas escolhas. — Disse Igner, um homem de aparência estranha, com cabelos roxos, olhos amarelos e uma máscara cobrindo a boca, de onde uma imensa cicatriz se estendia até as bochechas.
Ele usava calça marrom, camisa social preta, colete e jaqueta militar vermelhos com detalhes dourados e sapatos pretos. Sorriu com sadismo enquanto se afastava, abrindo espaço entre o parceiro e seu alvo.
— Você não entende mesmo, idiota. Estamos tentando ser civilizados e você pensa apenas em lutar. Não tem problema, foi você quem pediu. Sabe, eu consigo controlar o peso de qualquer coisa. Por isso você não conseguiu se mover há pouco. Agora, você pagará por sua insolência e sentirá o verdadeiro estrago do meu poder!
Aiko saltou para o outro lado do pátio e avançou. Kamito tentou reagir, prestes a ser socado, mas Haythan o segurou pelo braço e negou com a cabeça.
— Vocês rebeldes são uns animais insuportáveis! Tome isso!
Como alguém tinha tanta força num só braço?! O soco parecia ter a força de uma locomotiva. Kamito foi violentamente arremessado contra o prédio da escola. O barulho fez os alunos gritarem em desespero e correrem pensando no pior.

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