Capítulo 26: Você é Louca
Entre a confusão e o pânico, Yaci se jogou no chão, desviando de um chute devastador.
O professor a atacava com a medida perfeita entre a ferocidade animalesca e a precisão fria da técnica.
Movendo-se freneticamente, sem um instante de descanso, Yaci lutava para se manter inteira no meio daquela tempestade de golpes. Ainda assim, tentava escutar os ensinamentos do Professor. Fazia isso com o máximo de atenção que conseguia dispor para a tarefa.
— Sua base é fraca, desse jeito vai cair a qualquer momento! — Para onde pensa que está olhando? Nunca tire os olhos do inimigo! — Ele vociferava sem esforço, sua voz estável sem o menor indício de cansaço.
Ele fazia correções pontuais na maneira como se movia. Indicava os principais pontos de atenção que ela deveria manter em mente no combate. Gritava em plenos pulmões, trazendo-a de volta à realidade sempre que seus olhos se nublavam pela desatenção e pelo cansaço.
Mas então, sua postura mudou. Ele se tornou mais feroz e impiedoso. Parou de gritar. A próxima frase foi dita em tom baixo, porém Yaci a ouviu como o som de um tambor retumbando dentro de sua cabeça.
— Para de focar no que eu quero que você foque. — o som de tudo sumiu, mas parecia que as palavras ainda pesavam no ar à volta da menina.
Ela torceu o tronco para baixo para esquivar de uma direta de esquerda, mas logo em seguida um joelho feito sombras a acertou no estômago.
Yaci perdeu as forças e caiu no chão. Um refluxo subiu por sua garganta, mas ela o engoliu de volta. Já havia passado dias demais com fome para vomitar um almoço grátis. Ainda com o azedo do vômito espreitando sua mente ela se levantou.
— Bom! Te dou dez segundos de pausa. Enquanto isso, me escute com toda sua atenção.
Ela assentiu, refletindo em cada fala do professor.
As primeiras duas frases pareciam tiradas diretamente de um livro de auto ajuda ou que um charlatão falaria para enganar alguém desprevenido.
No quinto segundo, quando o corpo de Yaci finalmente relaxou e sua expressão transmitiu claramente sua confusão com as palavras rasas daquele velho misterioso.
O professor não perdeu a oportunidade. No primeiro instante de distração da menina, continuou a luta com um soco devastador.
Um fio de sangue apareceu no rosto da menina. Ela conseguiu escapar por pouco ao mover o rosto de maneira brusca para o lado. E assim, a lição de verdade continuou.
“Velho desgraçado!”
Um chute rasteiro chicoteou pela grama, acertando sua canela.
— Você pensa demais…
Ele socou o rosto dela, dessa vez com um movimento mais amplo e telegrafado, dando a Yaci mais oportunidades de reagir.
Yaci não tinha treinamento em lutas, suas experiências com violência eram brutas e selvagens, em sua maioria, resumiam-se nela junto aos irmãos protegendo uns aos outros.
Mas ela tinha um instinto e uma vontade maiores que o medo primitivo e paralisante.
Contradizendo toda lógica, que a mandava desviar, ela se aproveitou da oportunidade que ele havia dado a ela. Se aproximou, jogando-se sobre o punho do professor e o agarrando com as mãos, antes que pudesse acumular mais força.
Doeu, mas funcionou. Ou melhor, por um momento ela pensou ter funcionado.
— Você cai em fintas óbvias… — disse uma voz séria, sem desdém ou sarcasmo, apenas relatando a pura verdade.
O punho restante atingiu o nariz de Yaci em cheio, ecoando um estalo agudo. A menina caiu para trás, com o nariz pingando sangue e olhos marejados, mas não se deu por vencida.
— Bom… muito bom! Como prometido, você lutou comigo sem reclamar e sem desistir por três minutos, agora sente-se, vamos às devidas explicações.
— Não! Eu tenho cara de otaria, por acaso?
Yaci limpou o nariz e os olhos. Permaneceu em pé, pronta para reagir.
O professor vendo isso riu um pouco. Feliz que a lição tinha sido aprendida.
O velho relaxou o corpo, levantou os braços em sinal de trégua.
— Pode sentar, é sério dessa vez!
“Esse velho desgraçado é tão inconsistente! Quais as chances dele estar falando a verdade?”
No fim, após ver que a menina não tinha nenhuma intenção de acreditar em sua palavra, disse em rendição à teimosia dela.
— Me chute! De qualquer jeito, apenas me chute com o máximo de força que puder.
Yaci levantou a sobrancelha, mas mesmo receosa acatou o pedido.
“Qual é a pegadinha dessa vez? “
Correu em direção ao velho à sua frente. Mas antes mesmo do golpe ser completado, o professor, de forma fluida, rodopiou ao lado da menina, lançando seu pé para trás dela, e puxando o de volta, derrubando-a sentada, sem muito esforço.
No chão, Yaci estava frustrada por não conseguir nem mesmo arranhar o velhote exibido. Observando-o se sentar à sua frente de pernas cruzadas, relaxado.
“Pode não ser hoje, nem amanhã. Talvez nem ano que vem, mas eu ainda vou derrubar esse velho.”
Mas sua expressão se tornou séria, e suas palavras perderam toda a leveza que detinham ao começar sua explicação.
— Para um indivíduo acordar, ele deve primeiro se quebrar, quebrar quem ele acha que é. Só dessa forma é possível quebrar o selo que separa a alma da mente e da carne. Pois ele deixa de ser quem pensava ser, para quem é de fato.
Ele parou por alguns instantes, deixando aquela informação afundar na consciência da menina antes de continuar.
— Você já quebrou o selo entre a alma e a mente, e agora habita o seu mundo, lembre-se, só você vê o mundo assim, é seu, somente seu.
Ela assentiu, fitando os contornos do esboço da sua realidade. Admirando a forma como as tintas o preenchiam e os davam seus significados e os tornavam completos.
Ele continuou sem pressa. Aproveitava aquela interação entre aluno e professor. Seus olhos transbordando em nostalgia mal contida, de lembranças que Yaci entendeu serem dolorosas demais para que ele a contasse sobre.
— Normalmente quebra-se o selo do corpo primeiro, mas isso não é problema, nosso objetivo a partir de agora, é quebrar o selo da alma com o corpo e começar a caminhar para integrar todos em uma única coisa.
— Como quebramos o selo então? — perguntou, ansiando por respostas.
Ele gargalhou, o riso escorrendo com um toque de acidez e maldade.
— A alma deve estar em sintonia com o anseio mais ardente da carne, normalmente sendo a vontade de viver ou sobreviver. E o corpo deve ser forte o suficiente para abrigar a alma e coexistir com ela.
— E como fazemos isso?
— Você vai ver! dito isso, provavelmente temos mais quinze minutos antes que as pessoas dêem falta de você. Não se preocupe se alguém vier aqui no meio do seu treinamento, vão simplesmente pensar que você é maluca, já que ninguém pode me ver.
— Espera! Tenho uma coisa para perguntar.
— Sem tempo, pergunta enquanto corre, vai, vai, xispa da minha frente. Corra como se sua vida dependesse disso, o mais rápido que você conseguir, capiche?
Alguns grunhidos de cansaço depois, Yaci estava correndo pela clareira. Estava há um dia sem dormir, havia hematomas espalhados pelo seu corpo, lançando pontadas de dor a cada passo que dava.
Era extenuante e doloroso, o suficiente para que ela quase se esquecesse da dúvida que assolava seus pensamentos.
— Você… você disse que eu já quebrei o selo… da alma e mente. — grunhiu entre arfadas.
Ao bater a marca dos cinco minutos correndo, seus músculos gritavam através da tensão colocada sobre eles cobrando-a pelo cansaço acumulado dos últimos dias.
— Eu disse. — Finalmente respondeu, sem se dar ao trabalho de olhá-la.
Os olhos ardiam por causa do suor e as pálpebras tremiam na fútil tentativa de limpar sua visão. Os pulmões queimavam, clamando por uma lufada de ar.
— Como eu fiz isso?! Quer dizer, ele só quebrou? Se fosse assim esse tipo de coisa não deveria ser tão raro…
O professor não estava espantado com a pergunta, ele estava completamente chocado. Sua incredulidade vazou para seu rosto em uma careta no mínimo engraçada.
— Você é maluca? Quer dizer, isso deveria ser uma afirmação, afinal só sendo uma completa insana para quebrar o selo.
— Isso ainda não explica nada! — reclamou a menina
A expressão de surpresa do velho só aumentou quando percebeu que a garota realmente não entendia.
— Tá de sacanagem pirralha?! Já fez a retrospectiva do seu último ano?
Mas mesmo assim, Yaci não entendia. Ela parou de correr, e concentrou seu olhar em seu professor em busca de respostas.
Neste ponto a grama por onde Yaci correu estava amassada, delineando o caminho irregular entre as árvores que ela vinha percorrendo.
O velho, ao ver os olhos verdes da menina cheios de confusão, lembrou-se de um fato.
Para quem vive no inferno, ele acaba se tornando cotidiano.
De fato, Yaci não era uma gênia, muito menos alguém a ser exaltada. Ela era, antes de tudo, uma menina, da qual a única coisa que era digna era pena.
— O método para quebrar o selo da mente, não é outro, se não colocar tanta pressão na mente, até que ela quebre junto do selo. Só depois de catar os cacos vemos o mundo.
— Tá, e o que isso tem a ver comigo? Não fiz nada de tão diferente como você diz!
O professor deu um suspiro profundo e penoso, surpreso em como a menina não via o próprio mártir.
— Deixa eu colocar dessa forma… durante um ano você por escolha própria, passou fome e comeu coisas que fariam adultos vomitarem tendo o equivalente a um banquete no quarto ao lado. Em prol de esperar seus irmãos, que você não tem certeza que estão vivos.
Não bastasse isso, mesmo nesse tipo de situação você ainda se colocava em lugares perigosos todos os dias para procurar por qualquer resquício desses mesmos irmãos, se expondo ao perigo.
Ah é, como se esquecer das experiências de quase morte e encontros com o paranormal!
Em outras palavras, você é louca.

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