Capítulo 28: Chegada
Paz, harmonia e serenidade. A frieza gentil da correnteza, lavando a sujeira, o sangue e o cansaço embora rio abaixo. O som das águas se chocando contra as pedras que lutavam contra o fluxo infindável, se desgastando de grão em grão.
Por um instante, isso era tudo que Yaci sentia. De olhos fechados, se permitiu relaxar e deixou o rio carregar suas feridas para longe.
Finalmente, após alguns segundos, abriu os olhos devagar, ainda aproveitando o abraço álgido das águas. Se pôs de pé e caminhou até a sua margem.
Sua pele escura estava iluminada pelo luar, suas roupas, encharcadas e os fios metálicos de seu cabelo, pesados pela água. Mas isso não a incomodava. Pelo contrário, era um grande alívio, considerando o quanto iria se esforçar mais uma vez.
— Se sentindo melhor? — Perguntou o professor.
Ele estava debaixo de uma árvore, seu corpo feito de sombras e tinta se misturando com a escuridão e seus olhos brancos eram duas luas na noite escura.
Ele observava sua aluna com orgulho, esperando que ela estivesse pronta para a última lição dessa viagem.
— Muito. Não me importo de ficar suja, mas pra tudo tem limite, tirando há três dias, quando choveu, não consegui me limpar de verdade. Esse foi um banho muito necessário.
Uma semana se passou desde que o professor começou a ensiná-la, a pequena caravana que acompanhou o mercador havia parado para descansar pela última vez. Amanhã, depois de caminhar mais algumas horas, estarão em Verdemar.
— Seu progresso é consistente, você é firme e não desiste, isso é bom. Sua amizade com os estrangeiros também foi de muita ajuda, não esperava que eles também decidissem te ensinar.
O professor tinha começado sua aula.
Yaci ainda escorria a água do cabelo, mas escutava com atenção.
Seu pingente de cristal brilhando, espalhando aquela energia cálida e reconfortante pelo seu corpo. Mais uma vez, tinha que agradecer ao homem morto que lhe entregou seus pertences.
Os machucados se fechavam mais rápido, o cansaço demorava mais para incapacitá-la. O professor levou essas propriedades ao extremo e de alguma forma, ao passo que Yaci crescia, o pingente e o anel também.
Quando Yaci perguntou sobre isso, o velho feito de sombras sem muito interesse os comparou como qualquer outra parte do corpo:
“Se fortalece sob esforço.”
O mistério era pessoal demais para o conforto de Yaci, mas pelo menos era benefício.
— Eles são boas pessoas, melhores que a maioria. Diria até que são professores muito mais generosos que você, velho preguiçoso.
— Hunf, por causa do presentinho? Quando você se formar no meu curso eu penso no seu caso. Por sinal não sou preguiçoso, sou velho, todos nós velhos já estamos cansados de viver, imagine eu que estou morto! Zero pique pra te acompanhar pirralha.
Depois de um instante para refletir sobre o que disse, ele se perguntou:
“Quando foi que o ‘se’, se tornou ‘quando’?”
Ele se levantou. Atrás de onde estava sentado havia dois livros encostados na árvore.
Quirrel e seu parceiro entregaram a Yaci como recompensa por estudar com eles durante as manhãs.
— Sério? Vindo de você eu aposto que meu presente deve ser alguma pedra que você achou durante a viagem.
Ela já estava em posição para começar a lutar. Com os braços erguidos protegendo o rosto e as pernas criando uma base firme para o corpo.
Neste momento ele percebeu como ela cresceu. Nenhum semblante de alguém que passou fome durante anos podia ser visto, ela havia novamente passado por um pequeno estirão e agora tinha quase a mesma altura de Hilda. Seus olhos agora eram calmos, profundos, como um lago, mas o brilho esmeralda por trás deles não conseguia conter o perigo que se escondia no fundo daquele lago.
— Hoje vai ser diferente, precisamos colocar em pauta algumas coisas que você e eu aprendemos durante essa viagem.
Ele se aproximou dela, pegou um graveto próximo e começou a escrever e desenhar no chão.
— Sabe, pirralha, você me lembra do meu filho…
— Lá vem o velho gaga!
— Cala boca porra. Fica na sua aí, que no final vai fazer sentido com a explicação.
Ele continuou a desenhar, e logo um pequeno diagrama surgiu no chão.
— Como eu ia dizendo, você parece muito com meu filho. Até em coisas que vão além da aparência. A falta de talento em combate desarmado é uma delas.
Yaci levantou a sobrancelha em dúvida. Uma pergunta se formando em sua mente. Mas o professor ergueu a mão, e pediu para que ela esperasse.
— Sim, eu falei que você estava progredindo bem, e para ser sincero, você é talentosa para sua idade. Mas eu tive décadas, séculos se contar o tempo que eu morri para me aprimorar, você não, o problema mora aí.
Ele desenhou dois retângulos no chão e continuou:
— Ambos conseguimos preencher completamente nossos retângulos, o problema é quão rápido conseguimos preencher eles depois do básico.
Como sempre, ele deu uma pausa rápida, observando as engrenagens na cabeça de sua aluna girando, antes de continuar.
— O básico é universal, todos precisam, e podem aprender. Mas após isso, vem os detalhes. Mesmo que eu te ensine as mesmas técnicas que eu uso, elas não vão te servir, não completamente, você mais uma vez vai aprender o básico, mas vai precisar aprimorar os detalhes. As pequenas alterações e correções que você vai fazer:
Seja mudando o alcance do ataque para corresponder ao comprimento do seu braço, criar um novo ângulo de chute que se adeque à sua flexibilidade ou até a falta dela. Coisas individuais de cada um! Essas coisas só vem com o tempo e a experiência, muita experiência. A não ser é claro que você seja um gênio, que surge de geração em geração para revolucionar os alicerces daquilo que você aprendeu. Sejamos realistas, nem eu, nem você somos essa pessoa.
Ela acenou com a cabeça mais uma vez. Mas agora era a vez dela de falar e tinha muito o que perguntar.
— Se não temos tempo, o que fazemos então? Não é como se fosse possível parar o tempo, ou ir para um lugar que ele passe mais devagar né?
— O que?! Claro que não! De onde você tirou uma idiotice dessas? Tanto faz, é aí que eu volto a falar do meu filho. Meu filho não era bom em lutar de mãos vazias, assim como eu e você. Então, todo aniversário dele eu lhe presenteava com uma arma diferente. Até achar uma na qual ele realmente fosse um gênio.
— E se ele não achasse? E se o talento dele fosse algo completamente não relacionado com lutas?
— Então ele ainda teria experiência e saberia o básico de várias armas. E teria todo tempo do mundo para se aprimorar naquela que ele mais gostou. Mas isso não importa, pessoas como você e ele não têm outra escolha que não seja lutar. Dito isso, Yaci, quando é seu aniversário?
De olhos fechados, em uma paz duradoura, uma luz forte brilhou através das suas pálpebras. No horizonte o sol nascia dando início às primeiras horas da manhã. Yaci acordou, tendo dormido pouco mais de cinco horas.
O pingente auxiliou seu descanso, mas chegou ao seu limite. Assim que acordou, ele se apagou e escureceu, como já tinha feito diversas vezes durante o treinamento. O professor realmente havia levado cada aspecto de Yaci ao seu limite, até mesmo seus mistérios pertencentes.
Ela estava bem descansada, mais que o normal. Já que a aula de ontem terminou mais cedo, ela estava nova em folha.
Seu novo livro e caderno estavam em uma bolsa ao seu lado. Sua reserva de comida diminuiu visivelmente, então espaço não faltava.
Pegou o livro, a capa verde desgastada tinha uma ilustração simples de uma fogueira e o titulo:
O Guia de Sobrevivência
para Exploradores
A primeira página tinha uma dedicatória de um autor desconhecido, dedicada a Quirrel. O livro era um presente que Yaci tinha herdado, e ela tinha certeza que seria de grande ajuda ao longo que estivesse por vir.
O caderno tinha uma capa de couro lisa e ainda estava parcialmente sem conteúdo. Quando o recebeu não havia nada, mas ao longo dos dias, ela o preenchia com informações importantes sobre fols e animais comuns, além de fazer seus próprios desenhos deles.
Com ajuda da dupla de guardas da caravana. Principalmente o companheiro de Quirrel, aos poucos, o caderno foi ganhando vida. Ele era o que compartilhava informações, detalhes e muitas curiosidades e histórias interessantes sobre suas viagens.
Estranhamente, mesmo depois de muitas interações, conversas sobre arte, técnicas de desenho e pintura enquanto preenchiam o caderno, o homem loiro nunca disse seu nome. E nem Quirrel parecia chamá-lo pelo nome, mas sim por uma espécie de apelido, “Bonfim”.
Depois que Yaci o questionou sobre, ele apenas disse que ela o podia chamar do que quiser, então, surgiu o apelido de “loirinho.”
Após folhear seus pertences, ela foi aproveitar o raro rio limpo que estava perto, um punhado de água fria no rosto terminou de despertá-la. Pegou algumas folhas de uma planta específica nas redondezas e talos de capim.
Lavou e amassou as plantas com água, passou nos dentes, encheu a boca d’água para lavar. Depois, tirou o excesso com os talos de capim.
A manhã estava calma e tranquila. Aproveitou a sensação fugaz da grama e do solo úmido sob seus pés, caminhando em direção a onde Quirrel e o loirinho dormiam
— Ó de casa! — Seguido de algumas palmas foram o suficiente para acordá-los.
Um careca, retinto, alto e com cara de cansado saiu de uma barraca.
— Tá com a cara boa, esquisita, finalmente decidiu dormir cedo?
Não esperou a resposta de Yaci, e seguiu para o rio, como ela fez e voltou mais disposto.
Logo depois, o homem loiro saiu de uma barraca ao lado.
— Bom dia Yaci! Espero que o final da nossa viagem seja agradável. Sem mais surpresas e experiências traumáticas, certo?
Concordou com uma risadinha. E assim passaram as primeiras horas da manhã trocando um papo furado.
Havia poucas pessoas acordadas a essa hora da manhã. Hilda e Pietro dormiam pacificamente em sacos de dormir embaixo de uma árvore. No silêncio reconfortante da manhã os três falavam baixo, às vezes deixando uma risada um pouco mais alta escapar, para a infelicidade daqueles que dormiam por perto.
As horas passavam devagar, de forma confortável, e quando o sol se ergueu o suficiente para ninguém conseguir fingir que ainda tinham tempo para descansar, as pessoas de pouco em pouco começaram a se levantar.
Depois de conversarem mais um pouco, sem se preocupar em acordar seus companheiros viajantes, naquele momento, quando estavam se aproximando a hora de comer, Yaci questionou:
— Última tentativa antes de terminar a viagem?
— Você é quem manda guria. — Quirrel respondeu sem esconder sua animação.
Logo, começaram a procurar galhos secos e algumas pedras. Yaci iria mais uma vez tentar fazer uma fogueira. Seu placar estava empatado, tinha acendido duas, das quatro que tentou fazer durante as aulas de sobrevivência na selva.
Mas o placar estava prestes a mudar.
Usando dois gravetos para gerar a fricção, Yaci começou o processo. Depois de alguns minutos de tentativas frustradas, e um pouco de suor escorrendo em sua testa, o fogo pegou, e a lenha finalmente começou a queimar.
Nesse momento, pegou folhas secas, grama e pequenos galhos sem titubear, o colocou junto da fraca labareda. Com delicadeza assoprou devagar e pausadamente, até não ter mais ar em seus pulmões. Ali, mais uma vez, o fogo cresceu e subiu, e o calor começou a se espalhar.
— Vamos ter comida quente hoje! — O loirinho comemorou.
— Você aprendeu mais rápido do que eu esperava… Tá de parabéns, Yaci. Agora você pode ficar segura de não morrer aleatoriamente por aí — Disse Quirrel, bagunçando os cabelos de Yaci.
A sensação fria e metálica deles era estranha ao toque, mas ele ignorou, pelo bem da comemoração. Ia ser só mais uma, das muitas esquisitices que aquela garota trazia consigo.
— Ha! Três a dois pessoal, pelo visto eu vou sair ganhando! Vamos chamar o pessoal pro café da manhã dos campeões?
Com o tempo todos se juntaram, e aos poucos foram parabenizar Yaci. No começo a caravana pensou que ela havia enlouquecido por causa do encontro deles com o sobrenatural. Mas a cada dia que passava o preconceito se tornou curiosidade, e logo, todos iam a ela para conversar, ou perguntar o que iria fazer hoje.
Ali, cada um fez sua comida. Yaci cozinhou com Quirrel e seu amigo loiro, e depois foi até Hilda e Pietro para comerem juntos. Conversaram e então se prepararam para seguir viagem pela última vez.
O caminho foi calmo e quanto mais próximos de Verdemar, menos rural e inóspito a estrada se tornava. Logo, os paralelepípedos brancos e as pedras de sal grosso voltaram a ser norma, e a velocidade disparou graças ao bom estado da estrada. No começo da tarde, ela estava de frente para as muralhas brancas de uma nova cidade. Depois daqueles portões, um pequeno mundo novo.

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