Projeto: Super-Herói – Oráculo – Parte Um
No início de tudo, não existiam Agências, Sistemas ou Organizações. Havia apenas: Heróis.
E muito diferente daqueles que temos hoje em dia, figuras imponentes e cheias de habilidades especiais; esses heróis, caro leitor, eram muito mais parecidos com a gente. Sim! Você e eu. Pessoas comuns que se esforçam todos os dias para ter uma vida boa e feliz.
Bem… se ignorarmos o fato de que, agora, sou capaz de manipular os incontáveis Fios do Destino e, você, Entidade de uma dimensão muito superior à minha — e que me observa de longe — de transitar entre os incontáveis Universos Fictícios; podemos dizer que nos enquadramos neste seleto e bem quisto grupo.
Profissionais da área da saúde, que dedicam suas vidas ao cuidado e atendimento de milhares de pessoas. Agentes de segurança pública, que trabalham incansavelmente na proteção da vida e na manutenção da ordem. Instituições de poderes públicos e privados, que investem seus recursos em nobres causas sociais.
E, também, não podemos nos esquecer daquele singelo cidadão comum — com seus pequenos atos de bondade — que transforma o mundo inteiro em um lugar melhor. Pois é dele que, em tempos de grande necessidade, os maiores heróis do mundo surgem.
Algumas vezes sozinhos, já em outras, como unidade. E apesar de todas as suas limitações, suas vontades são capazes de mudar o mundo.
E contrastando com a imagem sublime dessas figuras estoicas — que, diga-se de passagem, são todas dignas de louvor — em nosso mundo existem os Supers: entidades criadas artificialmente para desempenhar um papel crucial dentro da sociedade humana.
Os Super-Heróis.
Dominus, o Imperator Regis. Aquele que administra a Cidade dos Heróis.
A Soberana, Rainha. Aquela que preserva toda a ordem do mundo.
Super, o Imbatível. O princípio da força encarnada em forma humana.
E, acima de todos, sendo uma anomalia às leis naturais do próprio mundo; existe Zero, o Ranque Zero.
Sendo eles os mais poderosos da Cidade República — A Cidade dos Heróis.
Nesta cidade, a força de um Super não é definida pelo seu nascimento e, muito menos, pelo aprimoramento de suas capacidades físicas no decorrer da vida. Ela é medida, e refinada, utilizando como base a sua própria Popularidade.
Sim, no meu mundo, a Popularidade rege uma das leis fundamentais do universo. Ela é movimento. Ela é energia. E, acima de tudo, ela é poder.
Porém, o poder sem limites abre espaço para a anarquia. E da anarquia vem a desordem. E a desordem gera o caos. Sendo ele, a origem da ruína de todas as coisas.
E para controlar, e administrar, o número crescente de pessoas que despertavam as suas próprias habilidades especiais — que diga-se de passagem, podia ser tanto imprevisível, quanto premeditado — um projeto formulando a criação de um sistema, capaz de regular todos os super-heróis do mundo, fora aprovado.
O Protocolo Sacro.
Em seu texto, um conjunto de três normas imperava:
● A proteção da humanidade,
● O respeito à autoridade e,
● A preservação da própria vida.
Não havendo espaço para críticas ou interpretações erradas.
Em seguida, sob a égide firme e incontestável da lei, a Cidade República tornou-se o centro de todas as atenções, quando a Organização — uma entidade governamental legislativa, criada com o objetivo de promover a cooperação internacional — anunciou, que nela, seria aberta a primeira agência de super-heróis do mundo: a Glória Eterna.
Mais do que uma instituição, ela era um ícone. Um modelo. Um exemplo à ser seguido. Sendo a responsável por lançar as bases do Sistema de Heroísmo Moderno.
Com suas políticas inovadoras e uma ampla visão de mundo, consolidou-se o conceito de que qualquer pessoa poderia se tornar um super-herói, isso é, desde que tivesse popularidade o bastante pra isso.
O que levou a um súbito aumento na aparição de novos Supers.
Em paralelo à sua fundação e seguindo as novas tendências de mercado — e uma exagerada expectativa de ganhar dinheiro fácil — diversas organizações abriram as suas próprias agências e passaram, a promover, seus próprios super-heróis ao mundo.
Agências viraram marcas; heróis, meros produtos. E o conceito de heroísmo clássico havia a muito tempo sido esquecido.
Foi nesse contexto que, durante a era dourada da Cidade República — quando o medo e a opressão faziam parte apenas dos registros históricos do mundo — a Organização, em parceria com todas as Agências ativas, desenvolveu um sistema de classificação universal, o revolucionário: Ranque dos Dez.
O seu propósito era bem simples: destacar e promover, em tempo real, os dez super-heróis mais populares do mundo.
E tendo em vista que a exposição, deixava cada um deles ainda mais fortes, dezenas de heróis — dos mais famosos aos mais desconhecidos — passaram a fazer de tudo pra se manterem vistos.
Desde o altruísmo de ajudar um casal de idosos à atravessarem a rua, até a brutalidade de combater os crimes que aconteciam na cidade. Seja protagonizando os comerciais de bebidas mais assistidos do ano, até possuir o seu rosto estampado nas revistas de grandes escândalos.
A verdade nua e crua era que, não importava se ele era bem ou mal visto, contanto que o seu nome continuasse sendo falado, sua posição como Super estaria garantida. Além, é claro, de aumentar suas chances de entrar para o ranque dos dez.
Sendo esse, o objetivo de qualquer Super.
Contexto é importante. E somente com contexto, caro leitor, você será capaz de entender, em sua totalidade; a história que conto.
Com o trigésimo aniversário da Cidade República em alta — e o seu tópico assumindo destaque em todas as manchetes e conversas sociais — a Organização, em parceria com o Governador local, aproveitou a oportunidade para celebrar, em clima de festa, a ascensão do mais novo super-herói ranqueado da Glória Eterna: Ímpeto, o Titã.
Graças aos seus esforços incontáveis — e de todos os membros de sua agência — Ímpeto havia conseguido alcançar o tão cobiçado ranque dos dez. Sendo ele, o número nove na classificação mundial dos super-heróis mais populares de todos. Assumindo, incondicionalmente, o Princípio da Excelência.
A base de seus poderes, valores e comportamentos.
A cidade, por outro lado, não era apenas mais um palco bonito, um cenário extravagante, um singelo plano de fundo — criada com o objetivo de projetar as convicções de todos os Supers — ela era, em suas camadas mais profundas, um complexo organismo vivo que pulsava e respirava sob o aço e o concreto.
Adotando a silhueta de uma poderosa mega-metrópole, a Cidade dos Heróis era formada por uma robusta infraestrutura urbana, com suas vias, pontes e fundações servindo como o esqueleto de sua anatomia, ao passo que o constante fluxo de transporte, de veículos e de pessoas, formavam o seu elaborado sistema respiratório.
Sua intrincada rede de dados, e também de energia, serviam como artérias do seu extenso sistema nervoso, e a sede da Organização, bem como os principais centros de governança, funcionavam como o cérebro, e coração, da respeitada Cidade República.
O lar de todos os Super-Heróis.
Com o sol do meio-dia alcançando o topo da cidade — e a luz do firmamento irradiando por cada canto do cenário — Super, o Imbatível, aproveitava a multidão para promover ainda mais sua imagem.
Seus discursos inflamados, acompanhados de demonstrações autênticas de poder, eram o suficiente para elevá-lo ao mesmo nível — senão acima — da própria sede da Organização erguida atrás dele.
Um monolito de pedra flutuante, posta no centro da cidade, sendo um monumento incontestável da grandeza e glória humana.
Ali, sob os olhares de milhares de pessoas — tanto dos presentes quanto daqueles que o acompanhavam por meio da transmissão oficial — sua persona carismática e extremamente confiável sustentava a atenção do público, ao passo que seus ideais nacionalistas, alinhados à ideia de justiça absoluta, revestiam suas palavras de um caráter heroico.
Sua voz era marcante, sua presença ofuscante e sua força absoluta. Por um momento, ele havia se tornado o centro do mundo, e não havia ninguém sob o céu capaz de desafiar sua vontade.
Isso mesmo… apenas sob o céu.
De repente, rasgando a atmosfera e caindo como se fossem meteoros na terra, dezenas de satélites — de comunicação e também de observação — cruzaram os céus e seguiram, para além da Cidade dos Heróis, deixando para trás uma incandescente trilha de fogo.
Em seguida, sem que a multidão tivesse tempo de compreender o que havia acontecido, um poderoso pulso eletromagnético — desencadeado por um imenso feixe de luz — atingiu o centro da cidade, desestabilizando o sistema de energia e os sinais de transmissão.
Em questão de segundos, todas as comunicações foram cortadas, o sistema de energia colapsou e, por um breve momento, o mundo inteiro silenciou.
Até que uma voz calma, clara e incontestável ordenou:
“Habitantes deste mundo, rendam-se!”
Imediatamente, assumindo o controle de todas as telas e sinais de transmissão, uma figura feminina adulta, de cabelos escuros e afiados olhos cor-de-rosa — que brilhavam intensamente como luzes de neon — manifestou-se diante da multidão, tomando para si toda a atenção do público.
Sua persona era imponente. Sua presença, majestosa. E apesar de seu rosto não demonstrar expressão alguma, todos os traços estavam ali — perfeitamente alinhados, quase belos demais — de uma entidade cruel e implacável. Fria e racional. Feita para ser admirada… e também temida.
De todos os seus atributos, seus olhos eram o que mais chamavam a atenção.
Brilhavam em um tom rosado, constante, sem oscilar. Não piscavam. Não desviavam. Simplesmente procuravam por alguém na multidão.
Nas ruas, ninguém dizia nada. Seja por ceticismo, ou uma exagerada confiança em seus próprios Supers. E apesar de todos os sinais mostrarem o contrário, eles ficaram ali, parados, olhando calmamente para os céus, enquanto um véu translúcido, feito de energia estranha, engolia a cidade inteira de ponta a ponta.
Tolos. Ignorantes. Mal sabiam eles, que naquele momento, haviam se tornado presas.
Presas d’Aquela que os observava de longe.
Nos telões, a entidade desconhecida inclinou levemente sua cabeça. Um movimento pequeno — sutil demais — mas que dava muita ênfase em suas próprias intenções.
Na sua frente, completamente derrotado e desacordado no chão, havia um rapaz, esguio e de cabelos longos, portando trajes cibernéticos — com diversos cabos de energia, todos conectados em suas costas — ao passo que atrás de si, ostentando a vasta paisagem do espaço-sideral, havia a silhueta de um planeta, belo, azul-esverdeado, sendo transmitido em toda a sua glória, para todas as partes daquele mesmo globo.
Com a visão de seu mundo completamente cercado por milhares de naves-espaciais e, o seu herói: Illuminati, o Olho que Tudo Vê, aprisionado pelo inimigo, diversas pessoas passaram a recuar instintivamente, ao passo que outras, aterrorizadas com tudo o que viam, simplesmente congelaram no chão.
Imediatamente, numa tentativa desesperada de conter a ameaça, dezenas de ogivas, termonucleares e também de plasma, foram lançadas em direção aos céus — de vários silos e abrigos subterrâneos da Cidade República — com a intenção de destruir tanto o inimigo quanto a estação espacial sob seu domínio.
Com um simples estalar de dedos, a entidade que observava tudo desfez cada um dos projéteis ainda em ascensão e, no lugar deles, o céu floresceu com diversas explosões coloridas, vastas e frias — como fogos de artifício — transformando o que deveria ser um contra-ataque em um espetáculo sem igual.
E foi nesse momento, que tudo ficou claro.
A entidade não falava palavras vazias e, muito menos, era indigna de atenção. Sua pequena demonstração de força — capaz de rivalizar, senão, até mesmo superar, os poderes de seus próprios Supers – implantou o nervosismo dentro dos corações da multidão.
O que quer que estivesse diante deles, não os impedia de lutar. Muito pelo contrário, aquilo ansiava pelo conflito, pela resistência inútil e pelo sacrifício fugaz.
Em seguida, cerrando levemente os olhos, a entidade proclamou:
“Os seus ‘heróis’ falharam…” disse ela, gesticulando com as mãos. ” Seus governantes? Previsíveis. Suas armas? Primitivas!”
Ela permaneceu imóvel por um instante. Ereta. Absoluta. Como se estivesse avaliando não apenas a cidade, mas o próprio conceito de humanidade daquela sociedade.
“Vocês confiaram em falsos ídolos. Falsos princípios! Que vocês mesmos criaram para suportar a própria insignificância.” continuou, como se estivesse olhando nos olhos de cada um.
Um silêncio se seguiu. Não imposto — inevitável.
“Em três dias, darei um fim em tudo isso!”
Com essa declaração, uma estranha sensação de medo tomou posse de dezenas de pessoas e, até mesmo as mais valentes dentre elas — seja por confiarem incondicionalmente em suas próprias forças, ou nas forças de seus próprios super-heróis — por um breve momento, vacilaram.
Então, inesperadamente, algo mudou na expressão fria e implacável da entidade hostil. Foi sutil. Quase imperceptível. Tal como um feixe de luz atravessando momentaneamente o olho da tempestade.
“E você…” acrescentou ela, voltando o seu olhar para alguma coisa que estava além daquela cena. “O ‘protagonista’ desta história. Eu sei que está olhando!”
O seu tom não era de raiva, tampouco de ameaça. Nele havia interesse, desejo, e o mais puro e sublime respeito.
“Me divirta. Me entretenha! Até que a minha lâmina esteja fincada em seu peito.”
Por um momento, a mulher de cabelos escuros pareceu sorrir e, tendo retomado à sua expressão habitual, declarou suas intenções para todas as câmeras:
“À partir de agora, será uma batalha entre poderes!”
E ela, elevando-se como um deus sobre uma criação inteira, completou:
“Iniciem a invasão!”
Das janelas da estação espacial, ela — conhecida simplesmente como ‘a Imperatriz’ — observou suas poderosas naves de guerra, acompanhadas de seus habilidosos generais, atravessando a atmosfera e descendo até o planeta.

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