Capítulo 1 - Chega uma onda de frio - Parte I
Chega uma onda de frio – Parte I
NOS PRIMEIROS MOMENTOS DE 799 ES, ano 490 do Calendário Imperial, o Duque Reinhard von Lohengramm olhou para as inúmeras constelações que dançavam selvaticamente contra um céu índigo. Os olhos azuis gelados do jovem conquistador, que completaria 23 anos no ano novo, lançavam flechas congeladas através do tecido de vidro rígido em uma declaração silenciosa: Todas essas estrelas distantes existem apenas para que eu possa conquistá-las. Reinhard balançou seus luxuosos cabelos dourados, de costas para os comandantes navais imperiais reunidos em seu grande salão de recepção. Sinos soaram através de alto-falantes montados na parede, anunciando o fim do antigo calendário.
Reinhard caminhou até sua mesa, levantando uma taça de champanhe de cristal. Os comandantes levantaram as suas, enchendo a sala com ondas de luz refletida.
“Prosit 1!”
“Prosit! Um brinde ao ano novo!”
“Prosit! Um brinde à nossa vitória!”
Outro grito de alegria se destacou acima dos demais.
“Prosit! Um brinde ao fim da Aliança dos Planetas Livres!”
O orador manteve o olhar fixo em Reinhard, levantando a taça bem alto. Tudo nele transmitia orgulho e arrogância. Reinhard esboçou um sorriso elegante e levantou a taça novamente, recebendo novos aplausos e vivas, o que fez o orador corar.
A voz em questão pertencia a Isaak Fernand Thurneisen, um Vice-Almirante Imperial. Ele era jovem para estar entre as tropas de Reinhard, da mesma idade que seu senhor.
No ensino fundamental, ele estava na mesma lista de honra que o chefe de sua turma, Reinhard, e então se destacou na Academia IFA antes de abandonar a escola no meio do curso para se juntar às linhas de frente, acumulando medalhas como Comandante de Combate e Oficial Tático. Ao contrário dos outros colegas de classe de Reinhard — muitos dos quais se dedicaram de corpo e alma à Liga Lippstadt na guerra civil do CI 488, para seu próprio perigo —, ele demonstrou bom senso e veracidade ao se aliar a Reinhard e por meio de suas grandes conquistas sob o comando do falecido Karl Gustav Kempf. Após a guerra, ele deixou Kempf para servir diretamente sob o comando de Reinhard, evitando por pouco o destino de Kempf, que caiu nas mãos do Almirante Yang Wen-li. Isso foi o suficiente para convencer Thurneisen e aqueles ao seu redor de que um anjo da guarda lhe havia concedido um favor misterioso. Obrigado a atender às expectativas de alguém tão escolhido, ele se destacou em todas as coisas. Seja no campo de batalha ou em qualquer outro lugar, Thurneisen se esforçava para ser a estrela mais brilhante.
Tal zelo não era de forma alguma indesejável para Reinhard, mas lembrava-lhe ainda mais um homem que nunca ostentava as suas habilidades, um homem agora morto. Siegfried Kircheis, aquele amigo ruivo que salvou a vida de Reinhard à custa da sua própria, nunca teria tolerado tal arrogância. Embora Reinhard soubesse que não devia comparar os dois, por força da sua determinação interior, sentiu-se compelido a fazê-lo.
Mais do que o esplendor dessa festa luxuosa, ver todos vestidos em uniforme, prontos para partir a qualquer momento, encheu Reinhard de orgulho. De fato, alguns dos presentes iriam para o campo de batalha assim que a festa terminasse. Eram eles o Almirante Sênior Wolfgang Mittermeier, Comandante da Vanguarda da Força Expedicionária, e o Comandante da Segunda Divisão, Neidhart Müller.
Müller, de cabelos louros, o almirante mais jovem da Marinha Imperial, completaria 29 anos este ano. Seu ombro esquerdo caído era tudo o que ele tinha para mostrar das muitas feridas que sofrera ao longo de uma carreira militar incomumente longa para sua idade. Fora isso, ele parecia um oficial de estado-maior manso que defendia apaixonadamente os ideais de ataque viril e defesa tenaz.
Ao lado dele estavam Mittermeier, conhecido como “Lobo da Tempestade”, e o Almirante Sênior Oskar von Reuentahl, agora encarregado de capturar a Fortaleza de Iserlohn, que juntos eram conhecidos como as “Duas Muralhas” da Marinha Imperial. Mittermeier tinha o corpo pequeno, mas bem proporcionado, de um ginasta. Ele era oito anos mais velho que Reinhard e dois anos mais velho que Müller — pelos padrões da sociedade, ainda um novato na vida. Nada disso impedia Mittermeier de falar como um homem experiente.
“É encorajador ver tanto entusiasmo na geração mais jovem.”
Ele era o mais condecorado dos almirantes que passavam pelo Corredor de Phezzan nesta ocasião, com um histórico de situações de risco para provar isso. No entanto, para ele, a bravata dos almirantes mais jovens também revelava uma imaturidade subjacente.
“Eu também posso ser jovem, mas não tenho esse nível de energia.”
A voz de Müller soou com um cinismo inadequado. Entre os soldados mais jovens, a impaciência era, por vezes, a norma. As pessoas mais ambiciosas preferiam a mudança à estabilidade, os tempos conturbados à paz, sabendo que isso aceleraria sua ascensão ao topo. Uma ilustração viva desse fenômeno estava diante dos olhos de Mittermeier e Müller.
Agora que a supremacia do Duque Reinhard von Lohengramm estava prestes a se concretizar, as chances de ascensão entre seus homens estavam desaparecendo rapidamente. Na verdade, sua visão limitada, restringida por barreiras de pretensão, efetivamente fechou a porta da fama na cara deles. Assim, mesmo que colegas e mentores agissem entre si como rivais, eles estavam se tornando companheiros iguais na vida e na morte. E como Müller ainda não havia alcançado a fama de um Mittermeier ou um von Reuentahl, ele continuava a ser franco sobre seus desejos.
“De qualquer forma, aposto que o Comandante-Chefe da Armada assumirá o comando das forças da Aliança.”
“Você quer dizer o Almirante Alexandor Bucock?”
“Ele é um verdadeiro veterano. Mesmo se combinássemos nossos registros militares com os de von Reuentahl e Wittenfeld, mal chegaríamos à superfície do que aquele velho conquistou. Ele é um museu militar ambulante.”
Mittermeier deu crédito a quem merecia. Desde que Müller conheceu esse companheiro dois anos mais velho, ele tentou conscientemente imitar suas virtudes, embora soubesse que nunca alcançaria a habilidade expressiva de Mittermeier.
“Que conversa animada vocês estão tendo.”
Os dois almirantes se viraram na direção da voz e então se curvaram para o jovem senhor, que estava de pé com uma taça de cristal na mão.
Depois de trocar algumas palavras, Reinhard fez uma pergunta ao Lobo da Tempestade.
“Não há nada que eu possa dizer sobre um estrategista incomparável como você, mas as Forças Armadas da Aliança certamente retaliarão assim que as encurralarmos. Gostaria de saber como você planeja lidar com isso.”
O copo vazio espalhou suas refrações coloridas pelos olhos do comandante supremo do Império.
“Se a Aliança tiver poder de fogo suficiente e não se importar em sofrer alguns danos colaterais, é seguro presumir que eles irão nos enfrentar para bloquear a entrada no Corredor de Phezzan. Não teremos escolha a não ser retribuir, mas isso nos custará pesadas perdas e, acima de tudo, tempo. Nesse caso, as chances de nossas forças de retaguarda avançarem para Phezzan seriam mínimas e, sem um núcleo dedicado, estaríamos em grave desvantagem.”
A análise de Mittermeier era precisa, sua apresentação clara. Seu público concordou com a cabeça.
“Dito isso, não vejo como a Aliança teria recursos para realizar tal manobra desta vez. Eles não podem se dar ao luxo de perder, pois isso deixaria sua capital indefesa. Sua primeira batalha se tornaria a última. Eles teriam que se render.”
Mittermeier respirou fundo e continuou.
“Visto que eles não podem sustentar um ataque frontal, é mais provável que nos atraiam para dentro de seu território. Quando atingirmos os limites de nossa mobilização, eles cortarão nossas rotas de abastecimento e bloquearão nossas comunicações, depois isolarão e eliminarão nossas forças, uma por uma, em uma reprodução quase exata da Batalha de Amritsar há três anos. Se mantivéssemos formações de batalha longas por nossa própria vaidade, estaríamos fazendo exatamente o que eles esperavam de nós. Mas há uma maneira de vencermos.”
Mittermeier fez uma pausa para olhar para Reinhard. O sorriso do jovem lorde era uma mistura requintada de perspicácia e elegância em reconhecimento às habilidades de seu subordinado.
“Uma cobra de duas cabeças, certo?”
“Exatamente.”
Mittermeier novamente expressou admiração pela perspicácia de seu senhor.
Reinhard desviou seus olhos azuis gelados.
“O que você acha, Almirante Müller?”
O almirante mais jovem da Marinha Imperial fez uma reverência seca.
“Eu concordo com o Almirante Mittermeier. Só me pergunto se a Aliança será capaz de manter suas operações militares em ordem.”
“Sempre haverá aqueles incompetentes de mente estreita que olham para o inimigo e equiparam o pacifismo à covardia”, disse Reinhard, lançando um sorriso de escárnio a um oponente imaginário.
“O que nos dá vantagem. Se conseguirmos lentamente levá-los a uma guerra de desgaste sem propósito tático, a deusa da vitória estará do nosso lado.”
“Mas onde está a graça nisso?”, murmurou Reinhard.
Sua expressão poderia parecer arrogante em qualquer outro rosto. Mas, como um gênio que já havia derrotado um inimigo duas vezes maior que ele na Região Estelar de Astarte e, na Região Estelar de Amritsar, aniquilou de forma sem precedentes uma força da Marinha da Aliança dos Planetas Livres com trinta milhões de soldados, ele tinha direito a tal atitude. A única coisa que Reinhard odiava mais do que um aliado incompetente era um adversário incompetente.
“Só posso esperar que nossos inimigos ajam com algum senso de método.”
Com isso, Reinhard se despediu dos dois homens e caminhou para se juntar a outra conversa amigável.
A secretária particular de Reinhard, a Condessa Hildegard von Mariendorf, estava ficando sóbria depois de todo o vinho com um pouco de suco de maçã gelado. O Vice-Almirante Thurneisen colocou seu copo vazio na mesa e, de bom humor, falou com a Condessa, conhecida por sua beleza e engenhosidade.
“Os historiadores do futuro certamente terão inveja de você, fräulein. Você não gostaria de se juntar à festa e ser testemunha da história sendo feita?”
O Vice-Almirante Thurneisen, com seu rosto jovem transbordando de orgulho exultante, olhou para Hilda em busca de aprovação. Hilda respondeu afirmativamente, mas só conseguiu dar de ombros por dentro. Ela nunca considerou Thurneisen incompetente, mas também não conseguia suprimir suas dúvidas nem um sorriso irônico pelo fato dele estar mais encantado com Reinhard do que o necessário. Reinhard era um gênio, sem dúvida, mas gênios nem sempre eram os objetos mais apropriados de emulação. Se fosse para aspirar a algo, ele teria feito melhor em aspirar à confiabilidade e tenacidade de um Müller ou um Wahlen, mas Thurneisen estava muito deslumbrado pelo brilho inimitável de Reinhard para perceber isso.
Duas horas após o início do novo ano, o Almirante Sênior Wolfgang Mittermeier pousou sua taça de vinho e, com um ritmo em seus passos, aproximou-se do jovem lorde.
“Bem, então, Vossa Excelência, vou me retirar”, disse ele, curvando-se.
Reinhard levantou a mão levemente.
“Rezo por sua boa sorte no campo de batalha. Nos encontraremos novamente no Planeta Heinessen.”
O Lobo da Tempestade respondeu ao sorriso destemido de Reinhard com outro e se curvou mais uma vez, depois saiu, levando seu corpo vestido de preto e prata para além do brilho do lustre. Os Generais Droisen, Büro, Bayerlein e Sinzer seguiram seu corajoso e honrado comandante, saindo em seguida. Em seguida, Neidhart Müller curvou-se antes de se retirar do salão de banquetes com seus próprios homens a reboque.
Com um terço dos participantes fora, o barulho das conversas se acalmou como o vento soprando nas copas das árvores. Depois de cumprimentar os almirantes mais importantes, Reinhard sentou-se em um canto distante da sala e cruzou as pernas. Por um momento, rajadas áridas de emoção varreram as planícies de seu coração. Apesar de se sentir animado com a perspectiva de uma batalha épica, seu interior descomprimiu, e a cena refletida nele começou a desaparecer.
Ele estava inquieto: havia um salto impossível em seu coração que ele não conseguia explicar nem fazer os outros entenderem. Depois de capturar Phezzan e conquistar a Aliança dos Planetas Livres para governar todo o universo, ele pensou, como eu suportaria uma vida sem inimigos?
Quando Reinhard nasceu neste mundo, as chamas da guerra já assolavam o Império e a Aliança há 130 anos. Isso significava 1.140.000 horas. Reinhard não conhecia nada além da guerra. Para ele, a paz era apenas uma fina fatia de presunto encravada entre duas grossas fatias de pão de conflito. Mas depois de derrotar seus inimigos e unificar o universo, abrindo caminho para uma nova dinastia, ele perderia todos os adversários contra os quais poderia exercer sua inteligência e coragem. Este jovem de cabelos dourados, que desde o primeiro dia vivera para lutar, vencer e conquistar, teve que se preparar para o peso da paz e do tédio. Mas, pensando bem…
Reinhard sorriu ironicamente. Ele estava se precipitando. A vitória ainda não era sua. Será que uma elegia 2 triste seria tocada para ele? Quantos homens ambiciosos venceram batalha após batalha, apenas para sair de cena no ato final? Mas ele se recusava a ser como eles. Ele tinha toda a intenção de passar o dia de hoje sem incidentes, enquanto voltava sua atenção para o amanhã. A partir deste dia, sua vida não seria mais sua.
Às 4h da manhã, a festa se dispersou e as pessoas partiram para seus respectivos alojamentos para se prepararem para a batalha que se aproximava. As naves da frota do Almirante Sênior Wolfgang Mittermeier já estavam decolando para os céus escuros do espaçoporto central de Phezzan. A primeira missão do Lobo da Tempestade no ano novo era garantir a extremidade da Aliança no Corredor de Phezzan.
- Saúde! – Expressão de felicitações em alemão[↩]
- https://dicionario.priberam.org/elegia [↩]

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