Capítulo 257 - Ōtsu (4)
O treinamento começou sem cerimônia.
Sem discursos grandiosos.
Sem promessas heroicas.
Apenas com o nascer do sol batendo no chão duro de terra batida, no terreno afastado atrás do galpão, onde Ōtsu parecia observar em silêncio, como se quisesse julgar cada passo que aquelas crianças ousavam dar em direção a algo maior.
— Em fila.
A voz de Raiga era calma. Sempre fora.
Mas havia algo diferente nela agora. Mais pesada. Mais contida.
Vini ficou à frente instintivamente. Não por liderança — ainda não —, mas por urgência. Seu corpo parecia sempre um passo à frente da própria mente desde o dia em que vira Neom no chão da escola.
O rosto dela ainda surgia em seus pensamentos quando fechava os olhos.
— Antes de qualquer golpe… — disse Raiga, caminhando lentamente diante deles — …vocês precisam entender algo.
Ele parou.
— Força não nasce do ódio. — Olhou para cada um. — Nem do medo. Ela nasce da repetição… e da responsabilidade.
Mika franziu a testa.
— Isso quer dizer que vai doer?
Raiga sorriu de leve.
— Todos os dias.
O primeiro mês foi brutal.
Corridas intermináveis ao redor do terreno, subindo e descendo encostas de terra irregular. Flexões até os braços tremerem. Posturas mantidas até as pernas queimarem. Golpes no ar, repetidos centenas de vezes, sem alvo, sem impacto, apenas forma.
Vini caía mais do que todos.
Se levantava mais rápido também.
— Postura errada — dizia Raiga, corrigindo-o com um toque leve no ombro. — De novo.
Vini obedecia.
Sempre.
À noite, seus braços mal se moviam. As mãos tremiam. O corpo implorava por descanso. Ainda assim, quando todos dormiam, ele ficava sentado, repetindo mentalmente cada movimento.
— Você vai se quebrar — murmurou Neom certa vez, sentada ao seu lado.
— Se eu quebrar… — respondeu ele — …me junto de novo.
Ela o observou em silêncio. Havia orgulho em seus olhos. E medo.
Haru reclamava, mas não desistia. Daichi suportava tudo em silêncio absoluto. Mika rangia os dentes, transformando dor em fúria controlada. Ren observava, aprendia rápido, ajustava cada detalhe. Sora… apenas fazia o possível, sempre protegido pelos outros.
Raiga observava tudo.
E carregava tudo.
Quando as crianças dormiam, o sorriso desaparecia.
Ele ficava sentado sozinho, perto da horta, os espetos intocados ao lado, olhando para o nada. Às vezes, sua respiração ficava irregular. Às vezes, suas mãos tremiam sem motivo.
As vozes vinham à noite.
Sempre à noite.
Você não deveria estar aqui.
Você nunca foi especial.
Gan morreu por sua causa.
Raiga fechava os olhos com força.
O passado não pedia permissão.
—
Anos antes.
Muito antes de Ōtsu chamá-lo de Rei.
Raiga Kurohane era… ordinário.
Não rápido.
Não forte.
Não talentoso.
Enquanto outros quebravam pedras com os punhos, ele mal conseguia manter a postura correta. Enquanto prodígios despertavam técnicas impossíveis, ele tropeçava nos próprios pés.
— Você é lento demais — dizia Goro Shiranui, impaciente.
— E pensa demais — completava Kaito Shiranui, com desdém.
Eles eram seus instrutores.
Os mesmos homens que agora serviam a Chaejin Choi.
Raiga apanhava.
Errava.
Repetia.
— Por que insiste? — perguntou Kaito certa vez. — Você não tem talento algum.
Raiga, jovem, com o rosto machucado, respondeu apenas:
— Porque alguém precisa aprender mesmo sem talento.
Foi Gan quem o salvou.
Gan, da Geração Zero.
Um homem grande, de voz baixa, olhar firme.
— Talento é só o começo — dizia ele. — O que importa é o quanto você aguenta continuar.
Gan treinava Raiga quando os irmãos Shiranui desistiam. Corrigia com paciência. Repetia mil vezes se fosse preciso.
— Você não é fraco — dizia. — Só não nasceu pronto.
Na noite em que Gan morreu, o sangue ainda estava quente quando Raiga chegou.
Tarde demais.
Se tivesse sido mais forte.
Mais rápido.
Mais qualquer coisa.
Essa culpa nunca o abandonou.
No presente, Raiga acordou de um desses episódios suando frio.
Respirou fundo.
Levantou-se.
Colocou o sorriso de volta no rosto.
As crianças nunca viram suas crises.
Nunca ouviram seus gritos abafados.
Nunca souberam quantas vezes ele quase desistiu.
No treino, Vini avançava como se cada golpe fosse uma promessa.
— Outra vez — dizia, mesmo com os braços sangrando.
— De novo — repetia, quando caía.
Raiga o observava com atenção demais.
— Por quê? — perguntou certa vez, após o treino. — Por que se força assim?
Vini respirava com dificuldade.
— Porque… — engoliu em seco — …quando eu fiquei parado… ela caiu.
Raiga sentiu algo quebrar dentro de si.
— Você não pode carregar o mundo sozinho.
— Então me ensina a carregar pelo menos quem eu amo.
O silêncio foi longo.
Raiga colocou a mão sobre a cabeça de Vini.
— Então aprenda isso primeiro. — A voz saiu baixa. — Força não é para vencer. É para permanecer de pé quando tudo tenta te dobrar.
Os treinos ficaram mais duros.
Golpes reais.
Quedas reais.
Erros cobrados.
Vini apanhava. Muito.
Mas nunca reclamava.
Cada hematoma era uma lembrança.
Cada dor, um motivo.
Raiga observava… e via a si mesmo.
E temia.
Porque sabia o preço.
À noite, sozinho novamente, Raiga sussurrou para o vazio:
— Gan… eu estou fazendo certo?
Nenhuma resposta veio.
Apenas o vento de Ōtsu.
Mas, pela primeira vez em anos,
Raiga sentiu algo diferente da culpa.
Sentiu que talvez…
talvez…
a força que ele nunca teve
estivesse finalmente sendo passada adiante.
Os dias deixaram de ser apenas dias.
Passaram a ser ciclos.
Ciclos de dor, repetição, falha e, aos poucos, evolução.
O terreno atrás do galpão já não era apenas terra batida. Estava marcado por pegadas profundas, sulcos de quedas, pedras deslocadas e manchas secas de sangue — não em excesso, mas o suficiente para lembrar que aquele aprendizado não era simbólico.
Raiga não ensinava técnicas prontas.
Ensinava processos.
— De novo — dizia, sem elevar a voz. — Não porque errou… mas porque ainda não entendeu.
O treino da manhã começava antes do sol nascer. Corridas longas, agora com pesos improvisados amarrados às pernas. Posturas mantidas por minutos que pareciam horas. Exercícios de respiração que exigiam controle absoluto do corpo mesmo quando os músculos imploravam para ceder.
Vini era o que mais se cobrava.
Se Haru errava, ria e tentava outra vez.
Se Mika errava, ficava irritada e insistia com raiva.
Se Daichi errava, analisava em silêncio.
Se Ren errava, ajustava o ângulo, o tempo, a distância.
Se Sora errava, alguém o ajudava.
Mas quando Vini errava, ele recomeçava do zero.
— Você não precisa se punir assim — disse Raiga certa manhã, observando-o repetir a mesma sequência de golpes com os braços já trêmulos.
— Não estou me punindo — respondeu Vini, respirando pesado. — Estou me lembrando.
Raiga entendeu.
Havia algo em Vini que o inquietava.
Não era talento — porque ele não tinha muito.
Não era força — porque ainda estava longe disso.
Era persistência cega.
A mesma que ele próprio tivera.
Com o passar dos meses, os treinos evoluíram.
Raiga passou a ensinar deslocamento real em combate, leitura de intenção, uso do ambiente. Derrubadas simples, mas eficazes. Defesa antes do ataque. Controle antes da força.
— Quem só sabe bater — dizia — perde quando encontra alguém disposto a apanhar mais.
Vini absorvia tudo como se cada palavra fosse vital.
Às vezes, após os treinos, ficavam sozinhos.
Sentados perto da horta, o cheiro de terra molhada no ar, Raiga com seus espetos de legumes, Vini observando os próprios calos nas mãos.
— Fora de Ōtsu… — começou Raiga certa vez, sem ser provocado — …o mundo é maior do que você imagina.
Vini ergueu o olhar.
— Maior como?
— Existem outras cidades como esta. Outros lugares quebrados. — Raiga mastigou devagar. — E existem pessoas que chamam de “reis”.
— Como você?
Raiga soltou um riso baixo.
— Eu nunca me chamei assim. — Olhou para o céu. — Foram eles.
— Então você é mesmo um rei?
— Não. — A resposta veio firme. — Pessoas são reis quando acreditam que são. Eu só… fiquei.
Vini franziu a testa.
— Ficou?
— Quando todos foram embora, quando ninguém quis assumir responsabilidade… eu fiquei. — Deu de ombros. — Título não muda isso.
Vini pensou por um instante.
— E você é forte?
Raiga virou o rosto lentamente.
— Forte o suficiente.
— O suficiente pra quê?
Raiga sorriu de leve, aquele sorriso simples que não escondia tudo, mas também não revelava.
— Para proteger quem eu amo.
Nada mais foi dito.
Mas aquela resposta ficou gravada em Vini como um ponto de interrogação eterno.
Porque ele não perguntou quanto.
Perguntou por quê.
E entendeu.
Enquanto isso…
No topo silencioso da mansão de Ōtsu, Chaejin Choi permanecia em seus aposentos privados. O ambiente era sóbrio, organizado demais, quase estéril. Uma lareira acesa projetava sombras suaves pelas paredes.
Um guarda entrou e se ajoelhou.
— Senhor… chegou uma carta.
Chaejin estendeu a mão.
O envelope era negro. Sem selo oficial. Sem assinatura visível.
Ele reconheceu imediatamente.
— Charles… — murmurou.
Abriu a carta com calma.
Poucas linhas. Diretas.
Destrua o Documento do Envelope Preto.
Queime. Apague. Nunca leia.
É pelo bem de todos.
Chaejin ergueu uma sobrancelha.
— Interessante.
Ele leu.
E, à medida que avançava, seu sorriso desapareceu.
O documento não era apenas um registro. Era uma confissão incompleta. Um rastro de ações, alianças, nomes omitidos… e um erro fatal.
Uma fraqueza.
— Então é isso… — sussurrou.
Pegou o telefone.
A ligação conectou rápido demais.
— Irmão — disse Chaejin, com a voz suave. — Recebi sua carta.
Silêncio do outro lado.
— Você leu? — perguntou Charles, tenso.
— Li.
— Eu disse para destruir.
— E por que eu faria isso? — respondeu Chaejin. — Você me deu algo muito mais valioso.
A respiração de Charles ficou pesada.
— O que você quer?
— A verdade — respondeu Chaejin. — Quem você realmente é… e por que esconde isso até de mim.
O silêncio se prolongou.
Então, Charles riu.
— Porque você sempre achou que eu era só sua sombra.
A voz dele mudou.
— Mas eu sou mais perigoso do que você imagina.
— Eu sei — disse Chaejin. — Agora.
Charles respirou fundo.
— Esse documento… — continuou — …se vazar, acaba comigo. Mas também pode acabar com você.
Chaejin fechou os olhos por um instante.
— Não — corrigiu. — Ele acaba só com você.
A ameaça ficou clara.
Do outro lado da linha, algo se quebrou.
— Então… — disse Charles, a voz agora fria — …talvez seja hora de eu parar de subir… e começar a tomar.
Chaejin abriu os olhos.
— Está me ameaçando?
— Estou te avisando — respondeu Charles. — Existe uma forma de você sair ileso.
— E qual seria?
Charles sorriu, mesmo sem ser visto.
— Saindo do caminho.
A ligação caiu.
Chaejin permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então riu.
Baixo.
Controlado.
Perigoso.
— Meu próprio irmão… — murmurou. — Que interessante.
Ele olhou novamente para o documento.
E, pela primeira vez em muito tempo, viu não apenas um inimigo externo…
mas a oportunidade perfeita de eliminar um problema antigo.
Enquanto isso, em um terreno simples, crianças treinavam sob o olhar de um homem que não se chamava rei.
E o mundo, sem saber,
começava a alinhar forças
que jamais poderiam coexistir.

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