Índice de Capítulo

    A noite em Ōtsu não trouxe descanso.

    Ela veio pesada, espessa, carregada de rancor.

    Nos aposentos mais altos do distrito central, Chaejin caminhava de um lado para o outro como um animal enjaulado. O chão de madeira rangia sob seus passos, e o cheiro amargo de tabaco misturava-se ao da raiva mal contida. As janelas estavam abertas, mas nem o vento ousava entrar.

    O copo de vidro em sua mão se partiu.

    — Aquilo… — murmurou, os dentes cerrados. — Aquilo foi uma humilhação.

    O sangue escorria entre seus dedos, pingando no chão, mas ele não parecia sentir dor.

    Um dos guardas ajoelhou-se imediatamente.

    — Senhor Chaejin, ordene, e—

    — Cale a boca.

    A voz saiu baixa, mas cortante.

    Chaejin virou-se lentamente, os olhos tomados por um ódio frio, diferente da raiva explosiva. Era um ódio calculado. Do tipo que não grita — planeja.

    — Eu permiti que existisse um símbolo acima de mim em Ōtsu — continuou. — Um homem que se recusa a ser rei… mas que é seguido como um deus.

    Ele riu, sem humor.

    — Raiga Kurohane.

    O nome saiu como veneno.

    — Ele fez de mim um espectador no meu próprio território. — Chaejin ergueu o olhar. — Isso não é aceitável.

    Os irmãos da Geração Zero estavam encostados à parede, silenciosos. Observavam. Sempre observavam.

    — Quero tudo eliminado — disse Chaejin, enfim. — A casa. As crianças. O símbolo. A memória.

    Um dos irmãos ergueu levemente a sobrancelha.

    — Inclusive… elas?

    Chaejin não hesitou.

    — Principalmente elas.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto.

    — Cem homens — continuou Chaejin. — Armados. Sem contenção. Quero que Raiga Kurohane seja forçado a sangrar até o último suspiro.

    Ele se aproximou da janela e encarou a vastidão escura de Ōtsu.

    — E se ele sobreviver… — sorriu, finalmente — …que sobreviva sozinho.

    O ataque veio antes do amanhecer.

    O primeiro som não foi grito.

    Foi metal atravessando madeira.

    A casa de Raiga foi rasgada como papel. Portas explodiram, paredes cederam, e o cheiro de fumaça tomou o ar em segundos. As crianças acordaram em pânico, gritos ecoando, passos desordenados, o caos se instalando como um incêndio.

    — PARA FORA! — gritou Raiga, sua voz atravessando tudo. — AGORA!

    Ele estava no centro do pátio, já em posição, o corpo firme, os olhos atentos. Cem homens cercavam o lugar, formando um anel de aço e ódio. Espadas, lanças, armas improvisadas. Nenhum hesitava.

    Vini sentiu o coração quase sair pela boca.

    — Raiga… — sussurrou.

    O homem não olhou para trás.

    — Corram. — Sua voz foi suave agora. — Não olhem para trás. Não parem. Não gritem.

    Neom segurou a mão de Vini com força.

    — Mas—

    — AGORA!

    Eles correram.

    O primeiro homem avançou.

    Raiga avançou junto.

    O impacto foi brutal.

    Punhos, chutes, cotovelos. Raiga não lutava como um rei, nem como um herói. Ele lutava como alguém que recusava cair. Cada movimento era seco, direto, sem desperdício. Um homem caiu com o pescoço quebrado. Outro teve o esterno esmagado. Um terceiro voou contra a parede.

    Mas eles eram muitos.

    Demais.

    O sangue começou a manchar o chão.

    Raiga respirava pesado, o corpo já marcado, mas os olhos… os olhos permaneciam firmes.

    — Vocês não passam — murmurou.

    Enquanto isso, as crianças corriam pelas vielas de Ōtsu, o medo guiando seus passos. Os cinco mais novos tropeçavam, choravam, chamavam por Raiga.

    — Não parem! — gritava Vini, desesperado. — Por favor!

    Então… o mundo parou.

    Duas presenças surgiram à frente deles.

    Os irmãos.

    O ar ficou pesado, esmagador.

    — Fim da linha — disse um deles, calmamente.

    — Raiga mandou correr… — sussurrou uma das crianças, tremendo.

    Não houve luta.

    Não houve chance.

    Os irmãos se moveram como sombras antigas, e em segundos… tudo acabou.

    Corpos caíram no chão.

    Silêncio.

    Vini sentiu algo se quebrar dentro dele.

    — NÃO… — sua voz falhou.

    Neom puxou-o com força.

    — VINI! VEM!

    Eles correram.

    Correram até os pulmões queimarem, até as pernas falharem, até o mundo virar um borrão de lágrimas e terror.

    Mas os irmãos os alcançaram.

    — Duas sobraram — comentou um deles.

    — As mais interessantes — respondeu o outro.

    O vento mudou.

    Passos pesados ecoaram atrás deles.

    — Chega.

    A voz era rouca. Cansada.

    Mas firme.

    Raiga estava ali.

    Coberto de sangue. O próprio e o alheio. Um olho inchado, o corpo ferido, mas ainda de pé. Ele se colocou entre as crianças e os irmãos, abrindo os braços.

    — Vocês não tocam neles.

    Os irmãos sorriram.

    — Sempre o mesmo, Raiga — disse um deles. — Bancando o salvador.

    — Um ordinário — completou o outro. — Sem talento. Sem dom. Sem destino.

    Raiga respirou fundo.

    — Já ouvi isso antes.

    — Ouviu de nós — disse o primeiro, aproximando-se. — Fomos nós que te treinamos. Nós que te quebramos. Nós que te mostramos o quão insignificante você era.

    Os olhos de Vini se arregalaram.

    — O… o quê…?

    Raiga não se virou.

    — É verdade — disse, enfim. — Eu era ordinário.

    O vento soprou.

    — Não tinha talento. Não tinha força. Não tinha nada.

    Ele cerrou os punhos.

    — Tudo o que eu tinha… era alguém que acreditou em mim.

    Uma imagem cruzou sua mente.

    Gan.

    O sangue. O sorriso. A morte.

    — E eu falhei com ele — murmurou.

    Os irmãos avançaram um passo.

    — Então ajoelhe-se — disseram. — E talvez deixemos as crianças vivas.

    Raiga sorriu.

    Não de alegria.

    Mas de aceitação.

    — Eu não sou rei — disse. — Nunca fui.

    Ele flexionou o corpo, assumindo posição.

    — Mas sou o homem que escolheu ficar de pé.

    O chão tremeu.

    Vini sentiu algo diferente. Algo pesado. Antigo.

    Raiga Kurohane avançou.

    Não como um ordinário.

    Mas como alguém que transformou dor, culpa e perda…

    em uma vontade impossível de quebrar.

    E naquela noite, Ōtsu aprenderia que até um homem comum…

    pode se tornar um muro contra o fim do mundo.

    O vento cessou.

    Não de forma natural, mas como se alguém tivesse fechado a mão em torno do mundo.

    Raiga permaneceu à frente de Vini e Neom, o corpo arqueado pelo cansaço, o sangue escorrendo em linhas grossas pelos braços e pelo tronco. Cada respiração queimava. Cada batida do coração ecoava como um martelo rachando ossos por dentro. Ainda assim, ele não recuou um único centímetro.

    Os irmãos o observavam com atenção renovada.

    Não mais com desdém.

    Mas com cautela.

    — Então é isso… — disse um deles, estreitando os olhos. — Você finalmente decidiu parar de fingir.

    Raiga fechou os olhos por um breve instante.

    E então falou.

    — Vini… — sua voz saiu rouca, pesada de algo que não era apenas dor física. — Há coisas que eu nunca quis te dizer. Não porque fossem mentiras… mas porque eram cedo demais.

    Vini sentiu o peito apertar.

    — Raiga…?

    — Gan… — continuou ele — …não era apenas meu mestre.

    Os irmãos se entreolharam.

    — Não… — murmurou Neom, sentindo um pressentimento frio percorrer-lhe a espinha.

    Raiga abriu os olhos.

    — Gan era seu pai, Vini.

    O mundo desabou.

    O ar saiu dos pulmões de Vini como se tivesse sido arrancado à força. As pernas falharam, e se não fosse por Neom segurando-o, ele teria caído.

    — O… o quê…? — sua voz saiu quebrada, irreconhecível.

    Raiga continuou, cada palavra um golpe mais profundo.

    — Gan foi uma das maiores lendas da Geração Zero. Um homem que enfrentou o próprio caos quando o mundo ainda não tinha nomes para suas guerras. Ele morreu na Batalha da Separação… quando a Geração Zero se partiu e deu origem à Primeira.

    Os irmãos sorriram, agora com algo diferente nos olhos.

    — Um legado pesado — disse um deles. — Pesado demais para uma criança.

    Raiga ignorou.

    — Ele morreu para proteger algo maior que si mesmo. — A voz de Raiga falhou por um segundo. — E eu… eu sobrevivi. Carregando a culpa de ter sido fraco demais para lutar ao lado dele até o fim.

    Vini tremia.

    — Então… — engoliu em seco — …meu pai…

    — Era um monstro no melhor sentido da palavra — respondeu Raiga. — E foi ele quem me apresentou a ela.

    O vento voltou a soprar.

    — Mei.

    O nome soou diferente. Antigo. Profético.

    — Uma mulher absurdamente forte — continuou Raiga. — Forte a ponto de fazer a Geração Zero parecer incompleta. Ela olhou para mim… um ninguém… e disse algo que nunca esqueci.

    Raiga cerrou os punhos.

    — “Daqui a alguns anos, espero que meu filho desperte. E quando isso acontecer… ele vai acabar com as gangues deste país.”

    Os olhos de Vini se arregalaram.

    — Ela… ela estava falando de quem exatamente?

    — Não sei exatamente— respondeu Raiga. —Mas foi naquele dia que eu decidi viver, viver para ver isso acontecer, e ver quem vai ser esse garoto que vai por um final nessa vasta guerra de gangues

    Os irmãos deram um passo à frente.

    — Bonita história — disse um deles. — Mas histórias não vencem guerras.

    Raiga assumiu posição.

    — Não. — Ele abaixou levemente o corpo. — Mas convicção vence.

    O primeiro irmão avançou.

    O impacto foi explosivo.

    O chão rachou sob os pés de Raiga quando ele bloqueou o golpe, os braços vibrando com a força absurda que vinha contra ele. O segundo irmão atacou pelo flanco, um chute giratório capaz de destruir concreto.

    Raiga se abaixou por centímetros.

    O vento rasgou o ar acima de sua cabeça.

    Ele contra-atacou.

    Um soco curto, direto, sem ornamentos — mas carregado de algo diferente. Não era apenas força. Era intenção absoluta.

    O golpe atingiu o abdômen do irmão, comprimindo o ar dentro do corpo dele como uma explosão interna. O homem foi lançado vários metros para trás, atravessando um muro de pedra como se fosse papel.

    — Ele… — murmurou o outro irmão, recuando meio passo. — Ele está…

    Raiga avançou.

    Cada passo deixava marcas profundas no chão.

    Os movimentos que antes eram apenas resistentes agora eram precisos, letais, dominantes. Ele antecipava ataques, quebrava ritmos, forçava erros. Era como se cada fracasso de sua vida tivesse sido condensado naquele corpo.

    Um soco.

    Um cotovelo.

    Uma joelhada.

    O segundo irmão tentou reagir, liberando toda a sua força, mas Raiga atravessou o golpe, ignorando a dor, e o atingiu no rosto com um impacto seco, quebrando os ossos, distorcendo a carne.

    Silêncio.

    Os dois irmãos estavam no chão.

    Respirando.

    Mas derrotados.

    Gravemente feridos.

    Raiga permaneceu de pé… por pouco.

    O corpo finalmente cobrou seu preço.

    Ele caiu de joelhos, o sangue escorrendo em abundância, a visão turva. Ainda assim, ergueu o olhar na direção do centro de Ōtsu.

    — Chaejin… — murmurou. — Eu vou te matar.

    O ódio em sua voz não era descontrole.

    Era promessa.

    Então…

    — Nossa, nossa…

    Uma voz despreocupada cortou o momento.

    Raiga ergueu o olhar.

    No topo de um muro quebrado, iluminada pela lua, estava uma garota de cabelos brancos como neve recém-caída. Seus olhos — completamente brancos — refletiam a luz noturna de forma inquietante. Um pirulito descansava entre seus lábios, sendo girado com calma.

    Ela observava tudo… como quem assiste a uma brincadeira interessante.

    — Isso foi bem mais divertido do que eu esperava — disse ela, inclinando a cabeça. — Você é mesmo o Raiga?

    Raiga forçou-se a ficar de pé novamente.

    — E você…?

    Ela sorriu.

    Um sorriso leve.

    Perigoso.

    — Kira.

    O vento voltou a soprar com força.

    E, naquele instante, Vini Jin sentiu — pela primeira vez — que o mundo era muito maior, mais cruel… e mais fascinante do que jamais imaginara.

    O passado havia terminado.

    E o verdadeiro caos estava apenas começando

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