Capítulo 100 - Sacrifício (2/3)
Na cidade portuária de Luja, havia um pequeno armazém abandonado. Era um lugar escuro e inóspito – as paredes estavam mofadas e desmoronando, o chão coberto de excrementos de rato e cacos de vidro de garrafas quebradas, e as janelas e portas estavam rudimentarmente barricadas com tábuas de madeira. Havia vários lugares assim em Luja, pois era uma grande cidade portuária onde empresas comerciais surgiam e faliam com frequência. A maioria dos armazéns abandonados acabava encontrando um novo comprador e sendo reformada para uso, mas não era incomum que lugares como esse permanecessem desocupados por meses ou até anos, enquanto os antigos proprietários tentavam mantê-los na esperança de obter um preço melhor mais tarde.
Acontece que esse lugar em particular guardava um segredo sombrio. No fundo do armazém, escondido da vista por uma montanha de caixas e tábuas apodrecidas, havia um objeto preto, semelhante a um ovo, preso ao chão por uma massa de gavinhas parecidas com raízes. Linhas espirais estavam gravadas no oval negro, começando na base e indo até a ponta. Os mais perspicazes notariam que o oval quase se parecia com um bulbo gigante de flor negra prestes a desabrochar.
Ou talvez um recipiente, aguardando pacientemente o dia em que poderia liberar seu conteúdo sobre o ambiente alheio.
Zach, Zorian e Alanic estavam a certa distância do oval negro, encarando-o com semblante sombrio. Não ousavam se aproximar, com medo de ativar as proteções e armadilhas ocultas estrategicamente posicionadas ao redor.
“Este é o quarto que encontramos”, comentou Alanic. “Um em Cyoria, dois em Korsa e agora um em Luja. Quantas bombas espectrais essas pessoas fabricaram?”
“Deve haver mais de uma dessas coisas em Cyoria”, comentou Zorian. “Não tem como eles colocarem duas em Korsa e deixarem só uma em Cyoria. Korsa é importante, mas Cyoria é um local muito mais crítico. Nós simplesmente não encontramos as outras.”
“Provavelmente também há algumas na capital”, disse Zach. “Jornak parece ter uma rixa pessoal com a liderança do nosso país. Ele não perderia a chance de atacá-los no coração do poder. Além disso, considerando o que ele disse sobre Sulamnon e Falkrinea, com certeza há algumas dessas bombas reservadas para eles também…”
“Nunca vamos conseguir encontrar mais do que uma fração delas”, comentou Alanic, sombriamente. “Isso vai ser um desastre. Distritos inteiros da cidade podem acabar sendo devorados por espectros. A limpeza vai levar anos.”
Ele lançou um olhar infeliz para Zach e Zorian, mas nenhum dos dois disse nada. Não havia nada a dizer, na verdade. Eles também sabiam disso.
“Vocês ainda não sabem como neutralizar essas coisas sem ativá-las?” Alanic perguntou com um traço de resignação na voz. Ele já suspeitava da resposta que receberia.
Como esperado, Zach e Zorian balançaram a cabeça em negação.
“Elas são extremamente bem feitas”, disse Zorian. “Jornak deve ter passado uma eternidade refinando o projeto no loop temporal. Qualquer adulteração que eu consiga imaginar vai ativá-las, além de alertar nossos inimigos sobre nossas ações. A única maneira de lidarmos com elas é empregando as mesmas táticas que usamos nas bombas espectrais anteriores: criar um campo de proteção especializado logo fora do campo defensivo da bomba e tentar conter os espectros assim que forem liberados. Deve funcionar, mas obviamente eu não testei, então…”
“Entendo”, disse Alanic. Ele se virou novamente para a bomba espectral, encarando-a como se ela fosse, de repente, lhe fornecer alguma nova percepção. “Não precisa perder tempo com isso. Vou contatar os superiores da igreja e enviá-los para realizar outra operação de contenção aqui. Continuo achando que devemos acionar esses dispositivos assim que as encontrarmos e lidar com as consequências.”
“E eu continuo achando que não devemos”, retrucou Zorian. “Essas bombas espectrais podem ser desarmadas sem causar danos. Tenho certeza de que Jornak tem um método para isso. Só preciso arrancar isso da cabeça dele.”
“Você acha mesmo que consegue fazer isso?”, perguntou Zach, em dúvida. “Teríamos que capturar Jornak vivo para que isso acontecesse. Parece… difícil.”
“Essas bombas espectrais estão programadas para explodirem automaticamente no instante em que Jornak morrer, então queremos evitar matá-lo a todo custo”, ressaltou Zorian. “Sem falar das outras surpresas que ele pode ter deixado para nós em caso de sua morte. Apesar de toda a sua megalomania, ele claramente percebeu que havia uma chance real de perder este conflito e fez planos de contingência para lidar com isso.”
Zach bufou com desdém.
“Contingências demais, se me perguntarem”, disse Zach. “Ele dedicou tanto tempo a garantir que todos sofressem se ele perdesse… O que ele ganha com isso? É pura mesquinhez. Mau perdedor.”
“Bem, estávamos discutindo como deveríamos tentar capturá-lo em vez de matá-lo de vez”, observou Alanic. “Então não é só mesquinhez. Mas sim, tenho a impressão de que isso é mais do que apenas poder para Jornak. Ele quer vingança.”
“Vingança?” perguntou Zach, surpreso. “De quem?”
“De todos”, disse Alanic, ainda encarando o oval preto à sua frente.
A superfície lisa e brilhante do objeto se contorceu e estremeceu, como se centenas de vermes se movessem logo abaixo dela, antes de voltar a ficar imóvel e silenciosa. Nenhum dos três se perturbou com a cena. As bombas escectrais faziam isso às vezes. Em algumas ocasiões, era possível até mesmo vislumbrar o contorno de mãos e rostos na superfície do oval – encarando, enlouquecidos, chorando, gritando, suplicando – como se alguém estivesse tentando desesperadamente escapar de dentro antes de ser puxado à força de volta para as profundezas do dispositivo.
“Falando por experiência própria, talvez?” tentou Zach, lançando um olhar curioso para Alanic.
Alanic ficou em silêncio por um instante.
“Eu era uma pessoa muito raivosa quando jovem”, disse ele por fim. “Não quero falar sobre isso.”
Os três permaneceram em silêncio por alguns segundos, e Zorian refletiu sobre as palavras do sacerdote de batalha. Alanic nunca lhes contara sobre seu passado, e Zorian sempre respeitara isso. Sinceramente, às vezes se perguntava por que o homem era tão prestativo com eles. Será que os via como jovens encrenqueiros que precisavam ser desviados de um caminho sombrio, assim como alguém o havia desviado de um? Ou será que ele era simplesmente tão perspicaz que conseguia julgá-los com precisão mesmo com a menor exposição? Seja qual fosse a resposta, Zorian estava grato pela ajuda do sacerdote e não tinha nenhum desejo de reabrir feridas antigas sem necessidade.
Quanto à especulação do sacerdote sobre a motivação de Jornak… bem, poderia ser verdade. Jornak – o antigo Jornak, aquele com quem Zorian havia conversado no loop temporal – estava definitivamente amargurado e ressentido por ter sua herança legítima roubada. Ele podia ver como isso poderia crescer e se agravar quando ele se tornasse um looper temporário e visse o abismo de corrupção e jogos de poder que era a política altaziana.
No fim, isso nem importava. Não importavam seus motivos, Zorian ainda teria que derrotá-lo no final.
“Em notícias um tanto quanto não relacionadas, Silverlake desapareceu”, Zorian disse de repente, quebrando o silêncio. “A antiga Silverlake, quero dizer. Ela simplesmente juntou tudo o que era portátil, saiu do esconderijo e desapareceu um dia. Não tenho a mínima ideia de para onde ela foi.”
“Você acha que ela vai se juntar à batalha do lado do nosso inimigo?” perguntou Zach, franzindo a testa.
“Não, duvido disso”, disse Zorian. “Acho que ela só percebeu que estava sendo fortemente vigiada por forças muito poderosas e ficou com medo. Ela é uma covarde. De jeito nenhum ela se envolveria nesse conflito a menos que alguém a obrigasse, e a nova Silverlake parece que não apoiaria isso.”
“Se ela realmente vai ficar de fora disso, não me importo que tenha sumido”, Zach deu de ombros. “Uma coisa a menos para se preocupar.”
“Ouvi relatos de que várias companhias mercenárias dos países vizinhos aceitaram contratos secretos e bem pagos”, disse Alanic. “Não tenho certeza absoluta, mas suspeito fortemente que nossos inimigos tenham contratado mais soldados para a batalha final.”
Zach franziu a testa ao ouvir a notícia, soltando um palavrão pesado. A reação de Zorian foi mais contida, mas seu rosto ainda assim escureceu.
“Os invasores, em geral, têm ficado inquietos e cada vez mais imprudentes ultimamente. Seus preparativos podem estar chegando ao fim”, continuou Alanic, ficando mais animado. “O que estamos esperando? Devemos atacar agora e tomar a iniciativa.”
“Bem… a ideia sempre foi ser proativo e lançar um ataque antes do dia do festival de verão”, disse Zach, lançando um olhar interrogativo para Zorian. “No entanto, Zorian fica enrolando, dizendo que precisa de mais tempo. Então, o momento certo depende dele, na verdade.”
Os olhos de Alanic suavizaram um pouco com a afirmação, e sua postura se desfez.
“Ah, a situação com o Zach, certo?” perguntou ele suavemente. “Você encontrou…?”
“Sinto muito. Não consegui encontrar uma solução, não importa onde eu procurasse”, disse Zorian com voz monótona, sem demonstrar qualquer emoção no rosto.
“Tudo bem”, suspirou Zach. “Já me conformei com as coisas. Já fiz meu testamento e tudo mais.”
“Certo. De qualquer forma, você tem razão. Não adianta esperar mais. Só estamos dando mais tempo aos nossos inimigos. Atacaremos daqui a dois dias, na véspera do festival de verão. Ainda tenho uma última ideia que quero testar”, disse Zorian.
“Aquela coisa de metamorfo?” perguntou Zach, curioso. “Você acha mesmo que vai funcionar?”
“Se funcionar, será um sucesso estrondoso”, observou Zorian.
“Verdade”, concordou Zach. “Vale a pena tentar.”
* * *
Nos arredores de Cyoria, havia uma sala ritualística esférica construída por Zorian e seus simulacros. Tudo ali fora cuidadosamente elaborado com um único propósito: potencializar e aprimorar um feitiço de adivinhação específico. Todas as paredes estavam densamente cobertas por séries complexas de linhas e fileiras intermináveis de sigilos enigmáticos, todos feitos de metais preciosos e materiais alquímicos raros. O chão estava gravado com nada menos que seis círculos mágicos vermelho-sangue, e no centro havia um pequeno cubo dourado com uma tigela de cerâmica aparentemente comum. Centenas de pequenas estrelas brancas pairavam no ar, iluminando o espaço. Na verdade, eram minúsculos portais dimensionais que conectavam a sala a vários lugares do país e além.
Todos os lugares que provavelmente abrigariam as crianças metamorfas sequestradas, na opinião de Zorian.
Atualmente, a sala de rituais continha Raynie, Haslush, Rea e três simulacros de Zorian. Dois simulacros estavam disfarçados de magos adultos, sombrios e silenciosos, e estavam ali para fingir que se tratava de uma operação secreta do governo, e não de algo que Zorian tivesse arquitetado. Apenas um deles seria necessário para o ritual em si, mas ter dois não faria mal e seria mais realista que algo dessa magnitude exigisse várias pessoas para ser executado.
O último simulacro era idêntico a Zorian e fingia ser o original – seu trabalho era basicamente ficar perto de Haslush e Rea e fingir ser normal. Contudo, considerando as expressões em seus rostos enquanto examinavam o local do ritual, ele sentia que já havia falhado bastante nisso.
“Nossa, senhor Kazinski… Eu sabia que o senhor não podia ser normal, mas devo dizer que não esperava que estivesse ligado a pessoas assim…” disse Rea em voz baixa. Pela primeira vez desde que a conhecera, ela não parecia confiante e no controle da situação e, em vez disso, ele percebeu um traço de medo em sua voz.
“Você não faz ideia”, disse Haslush, com a voz trêmula. Sua reação foi ainda mais extrema que a de Rea; ele parecia genuinamente horrorizado com o que estava vendo. “Mais dinheiro foi investido nesta sala do que todo o meu departamento de polícia recebe em um ano. E tudo isso para potencializar um feitiço específico que só serve para esta única coisa! Tudo será inútil depois de hoje! A extravagância é inacreditável.”
O Simulacro número um se mexeu, um pouco desconfortável. A perspectiva de Zorian sobre dinheiro era um tanto distorcida, sim. Isso poderia ser um problema sério no futuro, mas, no momento, ele realmente não se importava. Ele pagaria o dobro se achasse que isso ajudaria.
“Você nem entende o que esta sala significa, entende?” perguntou Haslush a Zorian, lançando-lhe um olhar estranho.
“Não?” O simulacro lhe disse, incerto.
E ele realmente não entendia. Claro, o cômodo era a melhor coisa que ele conseguiu fazer em tão pouco tempo, o que provavelmente o tornava incrível para os padrões de magos comuns, mas ele tinha certeza de que um país tão grande e influente quanto Eldemar conseguiria fazer algo assim.
Era até engraçado, na verdade… O original se esforçou tanto para fazer suas habilidades parecerem mais humildes do que eram e para atribuir suas conquistas a alguma organização governamental nebulosa. Ele até conseguiu. Mas, no fim, o simples fato de estar associado a pessoas assim já era suficiente para alarmar e impressionar Haslush e Rea.
Normalmente, isso lhe daria dor de cabeça, mas ele era apenas um simulacro e nem existiria mais em algumas horas, então imaginar Zorian tendo que lidar com isso no futuro só o fazia rir.
“Ah, esqueca”, suspirou Haslush. “Você ainda é muito jovem e inexperiente. Você está se metendo com coisas realmente perigosas, é tudo o que vou dizer.”
“Ah, eu sei”, murmurou o simulacro.

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