Capítulo 101 - A Troca (1/3)
Capítulo 101
A Troca
Cyoria estava em chamas. Vários prédios importantes haviam sido reduzidos a escombros pelo fogo inicial da artilharia, e diversas seções da cidade ardiam em chamas, consumidas por um fogo senciente que deliberadamente buscava queimar o máximo possível da cidade. Os soldados invasores não ajudavam em nada, pois tinham a tendência de incendiar prédios a menos que houvesse forças de defesa para impedi-los de causar destruição desenfreada.
Apesar disso, Zorian achava que a situação estava, na verdade, bastante boa. Baseado nas invasões anteriores que testemunhara no ciclo temporal, ele esperava que a cidade sofresse muito mais do que até então. A liderança da cidade reagiu e se organizou com extrema rapidez, apesar de a prefeitura e o quartel principal terem sido totalmente destruídos logo no início, e as forças de defesa estarem muito mais bem equipadas do que ele se lembrava. Isso era apenas parcialmente resultado das maquinações de Zach e Zorian – parecia que, apesar do acordo entre os dois lados para manter tudo relativamente secreto e discreto, alguma informação sobre o que estava acontecendo acabou chegando às autoridades de Cyoria.
Isso era bom. Zach e Zorian tinham batalhas mais importantes para travar e não podiam se dar ao luxo de ajudar a cidade naquele momento. Cabia à própria cidade apagar os incêndios antes que saíssem do controle e repelir os invasores que saíam dos túneis subterrâneos.
Seria cruel da parte deles abandonar Cyoria completamente à própria sorte em um momento como aquele? Um pouco. No entanto, Zorian acreditava firmemente que o que estavam fazendo era a melhor maneira de minimizar o número de baixas. Envolver-se nos combates na cidade certamente faria com que Quatach-Ichl e outros líderes invasores também aparecessem por lá. Não era do interesse de Cyoria e seus habitantes ter um bando de magos extremamente poderosos se enfrentando nas ruas da cidade.
Não, era muito melhor partir para o ataque contra os invasores e forçar os combates entre os magos de alto nível a acontecerem em outro lugar. Em algum lugar onde os invasores teriam que se preocupar com danos colaterais.
Foi por isso que um dos simulacros de Zorian liderava uma força composta por golens, recrutas de Alanic e monstros controlados mentalmente, em direção à base subterrânea de Ibasan. A base abrigava o portal dimensional pelo qual as forças de Ibasan pretendiam recuar após alcançarem seus objetivos, o que significava que precisava ser defendida a todo custo.
Assim, no momento em que os invasores perceberam que havia um poderoso exército se dirigindo para seu ponto de retirada, não tiveram escolha a não ser redirecionar a maior parte de suas forças para tentar detê-los. Os defensores na superfície provavelmente não perceberam isso, mas estavam lutando contra uma mera fração dos inimigos invasores, pois a maioria deles estava ocupada lutando contra o exército de Zorian nos túneis abaixo.
Bem, o Zorian original estava ocupado com outros assuntos, então era mais preciso dizer que eles estavam lutando contra um exército liderado por seu simulacro… mas naquele dia em particular, isso pouco importava. Zorian e seus simulacros eram verdadeiramente um só, suas mentes fundidas em um grau sem precedentes. Ele se sentia menos como um homem com algumas cópias à solta e mais como uma única mente controlando múltiplos corpos. Era o ápice de toda a sua pesquisa sobre o funcionamento da Princesa e dos enxames de ratos cefálicos, algo que ele não ousara fazer fora de uma câmara de testes. Temia que tal magia distorcesse sua personalidade e senso de identidade, especialmente se usada com frequência, mas tempos desesperados exigem medidas desesperadas.
Deveria ser seguro usar isso apenas desta vez.
Esperançosamente.
No momento, o corpo simulacro de Zorian avançava com confiança em direção à massa de inimigos que bloqueava a entrada do túnel próximo, sem se intimidar com a tentativa deles de erguer uma barricada. Seu exército, composto por centenas de golens de tamanhos variados, quase uma centena de magos recrutados por Alanic para a causa deles e centenas de goblins com ganchos e outros habitantes da Masmorra, o seguia em grupo, aguardando ordens.
Um par de projéteis brilhantes, um vermelho e um azul, voava em sua direção vindo da barricada inimiga à frente. Eles brilhavam tanto que chegavam a doer os olhos, e seu voo criava um som estridente e ensurdecedor enquanto se aproximavam de Zorian. Ele nem se deu ao trabalho de se defender; seria um desperdício de sua mana limitada. O enorme golem guarda-costas que nunca o deixava sozinho ergueu suas mãos gigantescas diante de Zorian e repeliu os feitiços que se aproximavam como se fossem moscas irritantes.
Eles explodiram em duas explosões cegantes que, de alguma forma, se fortaleceram e reforçaram mutuamente, tornando-se mais fortes do que a soma de suas partes, mas simplesmente não foi o suficiente. As proteções do enorme golem guarda-costas neutralizaram a explosão sem causar danos, deixando Zorian completamente ileso.
O golem também saiu ileso.
Sem dizer nada, e antes mesmo que a explosão terminasse completamente, Zorian apontou o enorme rifle mágico em suas mãos para um dos magos que lançaram o ataque e disparou. A bala atingiu o alvo em velocidade supersônica, atravessando sem esforço as proteções que os Ibasans haviam colocado em sua pequena barricada, atingindo o mago inimigo no peito antes que ele pudesse oferecer qualquer tipo de defesa. Não foi um golpe fatal, mas o mago estava fora de combate por um futuro previsível, o que, na prática, dava no mesmo. Zorian apontou friamente seu rifle ao outro mago responsável pelo ataque, ignorando a saraivada de feitiços que vinha em sua direção e as tentativas frenéticas do alvo de se proteger com o máximo de feitiços de escudo possível.
Mais de uma dúzia de golens próximos se voltaram repentinamente para o alvo de Zorian, apontando seus próprios rifles pesados para ele em um único movimento sincronizado.
Os escudos do mago bloquearam os primeiros cinco tiros. Então, os outros dez ou mais o atingiram em cheio, matando-o instantaneamente.
Quanto à saraivada de feitiços fracos que pretendia distraí-lo, foi bloqueada sem cerimônia por um grupo de golens robustos que se colocaram à sua frente para absorvê-los com seus corpos resistentes e proteções bem-feitas.
Zorian lhes deu um pesnamento, e um enxame estridente de goblins com ganchos, centopeias gigantes e lagartos das cavernas avançou e investiu contra a posição inimiga. O inimigo respondeu enviando hordas de esqueletos e zumbis, e os dois grupos de escudos de carne descartáveis se chocaram no meio do campo de batalha, tentando sobrepujar um ao outro.
No entanto, logo ficou óbvio que os mortos-vivos estavam perdendo. Podiam até ser destemidos, mas, no fim das contas, eram apenas uma massa sem mente. O enxame de monstros de Zorian, por outro lado, era mais avançado do que aparentava. Não era a primeira vez que Zorian usava monstros controlados mentalmente como escudos vivos e tropas de choque, e seus métodos haviam evoluído bastante com o tempo. Seus monstros não avançavam mais sem rumo, atrapalhando uns aos outros e espalhando seus ataques por todo o campo de batalha, como faziam no passado. Em vez disso, trabalhavam juntos como um enxame de ratos cefálicos, compartilhando sentidos, concentrando ataques em pontos fracos percebidos, atacando em grupo os oponentes mais resistentes e se sacrificando pelo bem do conjunto, se necessário.
De repente, Zorian sentiu dez assinaturas mentais e de alma se movendo rapidamente em direção a eles por todos os lados, escavando tunéis invisivelmente em direção à retaguarda de seu exército através da pedra sólida.
Vermes de rocha. Zorian zombou interiormente e ordenou telepaticamente ao resto do exército que avançasse. Os golens obedeceram sem pensar, é claro, mas alguns dos voluntários humanos de Alanic estremeceram visivelmente com o comando mental, ainda não acostumados com essa forma de comunicação e um pouco receosos dele. No fim, obedeceram, e isso era tudo o que importava. Ele havia evitado usá-los até então, tanto porque estava tentando preservar suas forças para uma batalha realmente importante quanto porque ainda se sentia muito desconfortável em ordenar que pessoas fossem para batalhas onde algumas delas certamente morreriam. Ao contrário dos golens irracionais e dos monstros de nível animal que compunham o resto de seu exército, os magos e soldados humanos não eram descartáveis.
Os Ibasans à frente deles enviaram trolls de guerra para enfrentá-los, provavelmente na esperança de capitalizar no momento de choque em que os vermes de pedra irromperam repentinamente do chão e os atacaram. Isso não aconteceria, é claro. Silverlake deve ter informado Jornak sobre as poderosas capacidades de magia mental de Zorian, mas ou a informação nunca chegou aos comandantes das tropas, ou eles a descartaram como ridícula, ou então jamais ousariam usar uma estratégia como essa contra ele.
Aconteceu num instante. A linha de trolls de guerra em investida estava a poucos instantes de se chocar contra a linha de golens de batalha à sua frente, perfeitamente sincronizada com os vermes de rocha que estavam prestes a emergir no meio do exército de Zorian. Quem quer que estivesse no comando da situação sabia exatamente como orquestrar as coisas para causar o máximo de dano e confusão ao inimigo, e Zorian podia literalmente sentir a alegria e a expectativa nas mentes dos magos de Ibasan enquanto aguardavam, com a respiração suspensa, a inevitável catástrofe que cairia sobre o inimigo…
…e então Zorian, de repente, estendeu sua mente aos dez vermes de rocha que se aproximavam, desfazendo os esquemas de controle mental de Ibasan como se fossem teias de aranha, e ordenou que mudassem de alvo.
E assim fizeram. Pouco antes do confronto entre os golens e os trolls de guerra, oito vermes de pedra irromperam do chão e do teto, derrubando os trolls maiores e de aparência mais ameaçadora e interrompendo seu ímpeto. Quando os dois grupos finalmente se encontraram, o regimento de trolls de guerra desmoronou imediatamente diante do avanço impiedoso dos fantoches de metal. Mais resistentes que aço e armados com lâminas incandescentes projetadas especificamente para neutralizar a regeneração natural dos trolls, os golens não teriam tido problemas mesmo sem a ajuda dos vermes de rocha. Com eles distraindo os líderes do regimento de trolls de guerra, os trolls não tinham a menor chance.
Zorian continuou avançando. Na verdade, ele nunca havia parado. Conforme se aproximava da batalha entre os golens e os trolls de guerra, um dos líderes trolls de guerra cambaleou em sua direção, com um verme de pedra teimosamente enrolado em seu corpo como uma serpente gigante. O verme de pedra continuava a estalar suas enormes mandíbulas contra o rosto do troll de guerra, enquanto este usava as duas mãos para desesperadamente se defender. Zorian deu uma ordem ao seu enorme golem guarda-costas, e o boneco de metal estendeu uma de suas mãos gigantescas, agarrou o troll de guerra pela perna esquerda e o ergueu no ar.
O verme de pedra imediatamente soltou o troll e encontrou outro alvo para atormentar, enquanto o enorme golem girava o troll de guerra acima da cabeça algumas vezes e então o arremessava diretamente contra a barricada que os Ibasans haviam erguido no caminho de Zorian.
Normalmente, não teria sido um ataque muito eficaz, mas os Ibasans estavam um pouco ocupados no momento. Os dois últimos vermes de pedra que Zorian não enviou atrás dos trolls de guerra foram, em vez disso, apontados para os magos normalmente responsáveis por comandá-los. Além disso, a horda de monstros de Zorian havia dizimado a maior parte dos mortos-vivos enviados para detê-los e atacava todos os pontos fracos da barricada na tentativa de rompê-la. Assim, nada podiam fazer além de observar enquanto seus próprios trolls de guerra, grandes até mesmo para os padrões dos trolls e trajando pesadas armaduras de aço, giravam no ar e se chocavam contra o cubo de pedra que servia como núcleo das proteções da barricada.
O cubo se estilhaçou em centenas de pedaços, e as proteções que cobriam a fortificação ruíram imediatamente. Sem interromper seu passo, Zorian pegou o volumoso lançador de granadas das costas e disparou três granadas de gelo diretamente contra os maiores grupos de magos de Ibasan que conseguia ver. Quase imediatamente, seus subordinados humanos se juntaram a ele no ataque, não querendo desperdiçar uma oportunidade tão óbvia, e uma onda de feitiços de energia, balas e granadas caiu sobre os Ibasans.
Desmoralizadas por seus repetidos fracassos, as forças Ibasans abandonaram o bloqueio e fugiram. Zorian estava prestes a ordenar que suas tropas os perseguissem e dizimassem suas forças quando uma figura familiar materializou-se no ar à sua frente.

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