Capítulo 93 - Abrigo na Tempestade (2/3)
A longa viagem de trem de Cirin para Cyoria foi ainda mais tediosa do que o normal. Isso se devia principalmente ao fato de Zorian não estar fazendo nada de importância crítica e, portanto, ter que se abster de usar muito suas reservas de mana. Essa mana era melhor reservada para seus simulacros, que estavam lá fora adquirindo fundos, criando itens mágicos, se teletransportando e lutando contra seus inimigos. Usos frívolos de magia, como entreter Kirielle no trem com ilusões, eram simplesmente injustificáveis. Ele já havia repreendido seus simulacros por esse tipo de coisa muitas vezes no passado, então agora que estava na posição deles, era importante dar o exemplo e mostrar como as coisas deveriam ser feitas.
Além disso, aquilo já não era mais o loop temporal, e ele teria que lidar com consequências que iam além daquele mês. Era melhor fingir ser um estudante de magia normal na frente de uma fofoqueira como Kirielle. Isso significava nada de conjurar feitiços por enquanto, já que os alunos não conseguiam contornar as proteções no trem.
Depois de uma hora, ele começou a entender por que seus simulacros eram tão propensos a quebrar a regra de ‘nada de magia frívola’.
Ainda assim, no fim, ele encontrou maneiras de se divertir e divertir Kirielle sem magia. Contou a ela histórias de algumas de suas aventuras no ciclo temporal, usando histórias reais com nomes alterados e alguns ajustes aqui e ali. Kirielle reclamou que as histórias eram fantasiosas e ridículas demais depois de um tempo, então eles começaram uma competição de desenho. Zorian até que aprendeu a desenhar razoavelmente bem ao longo do longo loop temporal, mas estava longe de ser bom o suficiente para se igualar a Kirielle, então ela sempre vencia.
Sua irmã não se importava, no entanto. Mesmo sendo uma competição injusta desde o início, ela sempre queria continuar para mais uma rodada. A pequena pestinha nunca se cansava de ganhar.
“Parando em Korsa”, ecoou uma voz incorpórea. Um som crepitante novamente. “Repito, parando em Korsa. Obrigado.”
Algumas coisas aconteceram em rápida sucessão então. Primeiro, Ibery entrou e espiou o compartimento para ver se estava livre. Zorian, meio entediado com as travessuras de Kirielle, convidou-a para entrar. Ibery pareceu um pouco surpresa com a simpatia dele, mas ver Kirielle a deixou mais à vontade, e ela se sentou ao lado deles depois de um momento de hesitação. Em seguida, Byrn, um rapaz que ele conhecera no início de sua experiência com o loop temporal, também entrou e perguntou se havia um lugar livre no compartimento. Zorian alegremente o convidou para entrar também.
De repente, o compartimento ficou muito mais animado do que antes. Ibery era tímida e quieta, e imediatamente optou por mergulhar em um livro assim que entrou, mas Byrn era simpático e falante e logo tentou puxar conversa com eles. Kirielle imediatamente começou a bombardeá-lo com perguntas sobre magia e a academia.
“Meu nome é Kirielle Kazinski”, disse Kirielle, “e esse é meu irmão, Zorian. Você é estudante como o Zorian? Você sabe fazer magia? Em que ano você está? É verdade que você precisa lutar contra uma aranha gigante para ser admitido? O Zorian diz que é um requisito, mas acho que ele está mentindo…”
“Hahaha, hum… Acho que eu não teria entrado se fosse esse o caso”, riu Byrn. “Acho que não conseguiria vencer uma luta contra os outros alunos, quanto mais contra uma aranha gigante.”
“Existem muitos tipos de aranhas gigantes”, observou Zorian. “Há várias que você poderia facilmente matar a pauladas com uma arma comum, contanto que mantenha a calma e não entre em pânico.”
“Ah, é? Você parece saber bastante sobre isso. Você já lutou contra uma de verdade?”, perguntou Byrn, curioso.
“Sim, mas não como teste de admissão, é claro”, disse Zorian. “Eu disse isso para a Kirielle só para provocá-la um pouco.”
“Eu sabia”, resmungou Kirielle, cruzando os braços e lançando-lhe um olhar emburrado.
“Ah, então, odeio mudar de assunto, mas esse sobrenome…” Byrn tentou.
“Sim, Daimen Kazinski é nosso irmão”, disse Zorian, dando de ombros. “Mas temos pouco contato com ele. Ele geralmente faz as coisas dele e raramente nos visita.”
A conversa continuou por um tempo depois disso, divagando de um assunto para outro. Até Ibery entrou na conversa depois de deduzir, pela pergunta de Byrn, que eles eram irmãos de Fortov. Ela não mencionou Fortov diretamente, o que provavelmente foi para melhor. Zorian teria sido diplomático, é claro, mas Kirielle detestava o irmão do meio tanto quanto ele e provavelmente não teria nada de bom a dizer sobre o assunto. De qualquer forma, a conversa acabou se voltando para um evento particularmente chocante que ocorreu recentemente em Cyoria. Mais especifcamente, o fato de que a mansão de Zach ter sido completamente destruída durante a luta contra o Robe Vermelho, e que ele próprio tinha desaparecido por várias horas enquanto as pessoas o procuravam freneticamente por toda a cidade.
“O quê? Alguém realmente atacou a Mansão Noveda desse jeito? Eu não sabia”, disse Ibery, surpresa.
“Sim, aconteceu recentemente. O ataque ocorreu bem cedo pela manhã, apenas há algumas horas”, disse Byrn, assentindo com um ar de satisfação. Ele estava claramente contente por ter recebido essa notícia tão logo após o ocorrido. Cara, as notícias se espalham muito rápido hoje em dia. “Ouvi dizer que a luta foi realmente feroz. Algumas das colunas de sustentação foram danificadas e várias paredes foram rompidas. Ouvi dizer que os reparos levarão semanas! Deve ter sido uma força realmente poderosa que lançou o ataque – os jornais estavam dizendo que apenas um regimento de magos totalmente equipado poderia ter causado tanto estrago tão rapidamente.”
“Mas aquele lugar fica bem ali, numa das melhores partes da cidade… e a Casa Noveda não é uma antiga e influente Casa Nobre?” perguntou Ibery. “Como uma força desse tamanho pôde chegar e ir embora assim, sem mais nem menos? Onde estavam os guardas durante tudo isso?”
“Bem, alguém claramente estava lutando contra os atacantes e conseguiu repelir os ataques no final, então presumo que os guardas não foram inúteis”, Byrn deu de ombros. “Além disso, ouvi dizer que os Noveda não são mais a mesma força de antes. Meu pai diz que são apenas uma sombra do que já foram. Ainda é loucura que algo assim possa acontecer.”
“Sabe, o Zach Noveda é um dos meus colegas de classe”, disse Zorian de repente.
“Sério?” disse Byrn, animando-se. “Imagino que você não tenha ouvido mais nada sobre isso?”
“Só sei que o Zach está bem”, disse Zorian, balançando a cabeça. “Ele não estava na mansão quando o ataque aconteceu. Estava bebendo e dançando a noite toda.”
Ou pelo menos essa era a desculpa que Zach havia inventado para explicar o que tinha acontecido. Eles alteraram a memória do curandeiro que o havia atendido (depois de lhe deixar uma ‘gorjeta anônima’ considerável pelos seus serviços), então ninguém deveria poder contradizer a história dele. Zorian sugeriu que Zach inventasse outra desculpa, já que dizer que passara a noite inteira bebendo e sabe-se lá mais o quê era um tanto constrangedor, mas Zach insistira que estava tudo bem.
Como esperado, Ibery reagiu à explicação de Zorian franzindo o nariz em sinal de desagrado, enquanto Byrn apenas riu de forma constrangida.
“Ouvi rumores sobre o herdeiro dos Noveda”, disse Ibery. “Dizem que ele não é exatamente um aluno exemplar, se é que você me entende.”
“Não há nada de errado com as habilidades mágicas dele”, respondeu Zorian rapidamente, sentindo-se compelido a defender o amigo. “Ele é só um pouco… imprudente.”
“Você é amigo desse Zach?” perguntou Kirielle, curiosa. “Como é que eu não sei de nada disso?”
“Por que eu diria uma coisa dessas para uma fofoqueira como você?” perguntou Zorian retoricamente. “Você sairia correndo para contar para a mamãe assim que eu virasse as costas.”
“Eu não faria isso!”, resmungou ela, balançando as pernas na tentativa de acertar os joelhos dele. Ele desviou as pernas algumas vezes e ela acabou desistindo da ideia.
Quando o trem chegou a Cyoria, o grupo todo estava tão absorto na conversa que permaneceram juntos e continuaram conversando mesmo na hora de desembarcar. Quando o trem começou a se aproximar de Cyoria, todo o grupo saiu do compartimento e foi se reunir perto da saída… junto com muitas outras pessoas. Normalmente, Zorian levava Kirielle consigo até a saída com antecedência suficiente para garantir um lugar bem ao lado, mas desta vez ele havia perdido a noção do tempo e acabaram no meio de uma multidão. Um tanto cansado de socializar e incomodado com a aglomeração de pessoas empurrando e se apertando ao seu redor, Zorian se encostou na janela próxima e simplesmente passou a observar as pessoas ao redor.
Já fazia um tempo que ele não se via preso em uma multidão assim. Com suas grandes habilidades mágicas e a capacidade de se teletransportar de um lugar para outro, ele geralmente não precisava usar meios de transporte convencionais para chegar a algum lugar. Uma confusão errática de emoções e sinais mentais invadia sua mente, mas ele era bom demais em controlar seus poderes psíquicos atualmente para se preocupar com isso. Sua mente era como uma rocha no mar, castigada por ventos e ondas violentas, mas sólida e imóvel.
“Ei, você! Você é um dos veteranos, não é?”
Zorian olhou para a garota que falava com ele, curioso para saber o que ela queria. Ela fazia parte do grupo de calouros ao lado dele e o havia ignorado completamente até então. O grupo todo era meio engraçado, conversando animadamente entre si sobre como iriam começar a aprender magia, se tornar magos famosos e coisas do tipo. Ele até que desejou poder ver a cara deles quando percebessem que o primeiro ano era só teoria e exercícios repetitivos de mana.
“Sou”, confirmou ele. “E então?”
“Você pode nos mostrar alguma magia?” perguntou ela ansiosamente.
Espere… isso me soava familiar…
“Ele não pode!”, interrompeu Kirielle, que aparentemente estava ouvindo a conversa. “O trem tem um campo mágico que impede as pessoas de fazerem magia.”
“É porque alguns alunos incendiavam os assentos ou gravavam seus nomes e desenhos grosseiros nas paredes do trem”, confirmou Zorian.
“Ah”, disse a garota, visivelmente decepcionada.
“Eu sei”, concordou Kirielle, com tristeza. “É uma droga. Sempre tem algum babaca que estraga tudo para o resto de nós.”
É, toda essa situação lhe parecia muito familiar por algum motivo.
Bem, provavelmente não era nada importante.
* * *

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.