Capítulo 29 – Os caçadores e os caçados (1/3)
Capítulo 029
Os caçadores e os caçados
Considerando a reputação que a Grande Floresta do Norte tem entre as pessoas que vivem mais ao sul, em territórios civilizados, seria de se esperar que o local fosse uma armadilha mortal gigantesca, com cada animal e uma considerável porção de plantas tentando matá-lo a cada momento. A verdade, que Zorian descobriu, era um pouco mais complexa. Embora, sim, a floresta era cheia de criaturas perigosas — até mesmo os cervos eram um tanto agressivos e tentaram o chifrar algumas vezes em vez de fugir de sua aproximação — era perfeitamente possível gastar um dia inteiro sem arriscar sua vida se você soubesse o que estava fazendo. Claro, Zorian tinha um tipo de vantagem injusta na forma de seu sentido mental, que lhe permitia sentir diversos perigos antes que eles tivessem a chance de detectá-lo. Além disso, a região que ele estava frequentando era uma área de fronteira — logo, um pouco mais amigável aos humanos do que as profundas zonas selvagens intocáveis no extremo norte. Ainda assim, ele estava certo que até mesmo um civil habilidoso poderia se mover pela floresta sem ser molestado, imagine um mago. Inferno, ele estava indo muito bem no momento, apesar de ter menos de um mês de experiência.
Normalmente, Zorian não gostaria de se deslocar pela floresta sem ser detectado. Toda a razão de estar ali era para ganhar experiência de combate, então evitar ameaças era meio que perder o propósito. Dessa vez, no entanto, esgueirar-se era mais ou menos obrigatório. Ele realmente não queria se distrair próximo de uma ameaça do nível de um caçador cinza, e definitivamente não queria alertar o monstro com sua presença ao se envolver numa luta barulhenta e chamativa bem ao lado de seu covil. Ele lentamente circulou a área ao redor da toca do caçador cinza, checando-a por perigos e terrenos hostis que talvez o inibisse caso decidisse se retirar para qualquer direção específica. Em vários locais, esculpiu aglomerados de glifos explosivos nas árvores e rochas expostas — ele duvidava que fossem suficientemente poderosos para ferir seriamente um caçador cinza, mas talvez eles pudessem comprar os segundos necessários para que ele se teletransportasse para um local seguro.
Ele quase conseguiu chegar no covil sem uma luta. Felizmente, o trio de mosquitos-voadores, ou o quer que fossem, que tentaram emboscá-lo eram facilmente lidáveis (eles queimaram belamente), e a luta não gerou confusão suficiente para atrair a atenção da aranha monstruosa. Zorian selecionou uma árvore bem alta perto (mas não tão perto) da toca do caçador cinza e levitou-se aos galhos superiores, onde prontamente pegou o binóculo que encantou mais cedo para esse propósito e começou a estudar seu alvo.
A localização era um tanto pitoresca — uma pequena ravina rochosa cercada pela floresta, com algumas linhas de sedimentos bonitas entrecruzando as pedras e com poucos tufos de grama estrategicamente posicionados crescendo entre as rachaduras. Em uma dessas paredes estava um buraco perfeitamente circular que servia de entrada para a caverna. Era escuro como um breu e surpreendentemente desinteressante e sem sinais de ameaça — se Silverlake não tivesse contado a ele o que estava lá, era totalmente possível que Zorian não percebesse nada se tropeçasse no local em um de seus reinícios.
Iria ser o último erro que ele cometeria, pelo menos naquele reinício hipotético — caçadores cinza eram saltadores insanamente bons e possuíam uma velocidade totalmente surreal. Zorian apostaria qualquer coisa que o que estivesse dentro da caverna poderia pular direto da entrada para o outro lado da ravina em um único salto e se aproximar antes que Zorian pudesse perceber o que estava acontecendo.
O caçador cinza era fundamentalmente um monstro bem simples. A criatura é uma aranha cinza, peluda, do tamanho de um homem adulto… e também é incrivelmente rápida, forte, durável e resistente a magias. Pode correr mais veloz que um mago acelerado, pular distâncias incríveis, ignorar armas de fogo convencionais e feitiços de ataque de baixo nível como um pato ignora a água, desprezando a maioria dos efeitos diretos das magias e tendo uma mordida que atravessa aço. Ah, e tinha um veneno bem repulsivo que, ao invés de destruir tecidos ou colapsar o sistema nervoso como a maioria dos venenos, interrompia completamente a capacidade do mago de controlar e modelar a sua mana. Uma vez mordido, você seria incapaz de conjurar nada por um tempo, e levaria semanas para que o veneno fosse completamente eliminado do organismo. Aparentemente, era um tipo de veneno adaptado especificamente para derrubar seres mágicos que eram presas típicas do caçador cinza, mas isso era igualmente efetivo contra magos humanos. Basicamente, se você lutar com um caçador cinza sozinho e for mordido, você já foi dessa para melhor.
Essas abominações eram conhecidas por mastigar grupos inteiros de magos de batalha enviados especificamente para se livrar delas. Um feito e tanto para quem é, notadamente, uma criatura de nível animal — a maioria dos monstros não sencientes, não importa o quão impressionantes, eram facilmente atraídos para armadilhas para sequer representar tanto perigo a um grupo preparado de caça. Naturalmente, Silverlake queria que ele se envolvesse com a dita superaranha matadora de magos como preço de sua ajuda. A boa notícia era que ela não tinha o requisitado para matar a coisa, algo que Zorian suspeitava que estava além dele no momento. A má notícia era que o pedido dela era apenas um tiquinho mais fácil do que isto. Ela queria que ele confrontasse a fêmea do caçador cinza que estava contida na caverna que ele estava observando e roubasse alguns de seus ovos.
O ciclo de vida dos caçadores cinza era um mistério total, dado que eles eram considerados perigosos demais para estudar qualquer coisa além dos relatórios de pós-batalha e vivissecção, mas Zorian estava disposto a apostar que as mães caçadoras cinzas eram ferozmente protetivas com suas crias. Conseguir até mesmo um único ovo provavelmente seria um grande desafio. De toda forma, a mãe estaria relutante de ir longe de sua bolsa de ovos por qualquer razão, então esperar pela chance de simplesmente roubar alguns deveria ser impraticável, ou mesmo fútil. Por tudo que ele sabia, a fêmea sentava em sua bolsa de ovos todo o dia e vivia de suas reservas de gordura até que os filhotes eclodissem.
Zorian posicionou o binóculo em sua mochila e começou a anotar notas em um de seus cadernos que ele trouxera consigo. A questão de como adquirir os ovos sem ser terrivelmente assassinado no processo era, em última análise, uma questão para outra hora — ele estava ali no momento somente para explorar a situação e ver se a tarefa era sequer possível. Por mais que ele quisesse provar que a bruxa velha enrugada estava errada ao completar a tarefa impossível dela, morrer ali seria um incrivelmente estúpido. Ele tinha um tempo limite. Um longo tempo limite, mas morrer repetidamente porque ele decidiu enfrentar oponentes muito acima de seu nível seria um desperdício imperdoável. Cada reinício curto interrompido era um reinício que ele não estava usando seu potencial ao máximo. Se ele não conseguisse pensar em um modo para obter os ovos em que ele tivesse absolutamente certo que funcionaria, ele não faria isso. E mesmo se ele conseguisse pensar em um método, ele só tentaria perto do fim do reinício, quando o máximo que perderia fosse alguns dias.
“Tudo bem,” ele murmurou, fechando o caderno com um estalo. “Vamos ver com o que eu estou lidando.”
A primeira ação que ele tomou foi tentar localizar a caçadora cinza fêmea para garantir que ela não estivesse fora de seu covil no momento. Ele não tinha formas de rastrear especificamente caçadores cinza por meio da adivinhação, já que ele nunca havia visto um anteriormente e carecia de quaisquer partes corporais do caçador cinza, mas um simples feitiço localizador procurando por uma ‘aranha gigante’ apontou-o diretamente para a caverna. Desde que as duas outras grandes variações de aranhas gigantes que viviam na região — aranha gigante da árvore e aranha gigante do alçapão, respectivamente — não viviam em cavernas, a conclusão era óbvia. Ele então tentou vislumbrar magicamente a aranha, o que falhou imediatamente. Bem, o feitiço tecnicamente funcionou… mas a caverna estava totalmente escura. Não havia cristais brilhantes ou musgos chamejantes que ocasionalmente iluminavam cavernas naturais — apenas uma caverna ordinária cheia de escuridão impenetrável que escondia tudo.
Droga, ele não havia pensado nisso. Quebrando sua cabeça por uma combinação de feitiços que lhe permitissem explorar o covil sem ter que voltar à cidade e devorar livros, ele decidiu combinar dois feitiços diferentes. Primeiro ele lançou o feitiço ‘olho arcano’, criando um globo ocular ectoplasmático flutuante em que ele poderia ver remotamente. Em seguida, ele criou uma bola flutuante de luz, funcionalmente idêntica ao simples ‘lanterna flutuante’, exceto que ele alterou os parâmetros do feitiço para que seguisse o olho ectoplasmático ao invés dele propriamente. Então, ele enviou o olho para a caverna, fechando seus olhos reais e conectando sua visão com seu sensor remoto. Havia uma chance que a luz alertasse a caçadora cinza mãe, mas ele duvidava que ela fosse o confrontar só por causa disso, ou, aliás, pudesse rastreá-lo em sua árvore.
Acontece que o caçador cinza estava bem, bem incomodado com sua lanterna flutuante ou talvez a visse como uma presa, porque o olho mal adentrou na caverna, com a lanterna seguindo-o, quando um borrão cinza bateu neles e a consciência de Zorian foi violentamente arrancada de volta a seu corpo. Piscando em surpresa pela sua súbita mudança de perspectiva, Zorian foi então presenteado pela visão do caçador cinza pulando para fora e rastejando pela área em busca de algo.
Depois de aproximadamente 10 segundos olhando para a aranha, Zorian percebeu duas coisas. Primeiro, a caçadora cinza fêmea não estava sentada na sua bolsa de ovos todo o dia, porque ela estava carregando essa maldita coisa na parte inferior de seu abdômen! Isso era injusto pra cacete. Ele retirou tudo o que ele disse sobre a tarefa de Silverlake ser mais fácil do que matar a abominação — isso era, na verdade, muito mais difícil, já que ele só teria os ovos pegando-os do corpo frio da caçadora cinza, mas quando a matasse teria que ter o cuidado de não danificar a (aparentemente muito mais frágil) bolsa de ovos.
A segunda coisa que ele percebeu era que a aranha estava gradualmente chegando mais perto de sua localização.
Não era imediatamente perceptível. Em vez de instantaneamente fazer uma linha reta para a direção dele, a aranha disparou em uma direção aleatória por um segundo; parou por um momento, como se estivesse se reorientando; e então disparou em uma direção aparentemente aleatória novamente. Ela repetiu a mesma rotina parar-disparar segundo após segundo, e embora os movimentos parecessem aleatórios no início, Zorian, com pavor, percebeu que aquilo estava progressivamente se aproximando de sua árvore com o passar do tempo.

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