O Guia das Almas Perdidas
Havia um homem nascido no âmago do reino dos homens, cujo nome era Markus. Avarento, blasfemo, praticante de pecados que a repetição maculava a própria alma e réu do crime eterno: trair o sagrado por vaidade.
Em vida, era paladino. Mas seu estandarte jamais foi outro senão a própria satisfação. Não empunhava a lança em defesa dos fracos nem rezava as orações por convicção. Seu coração pendia apenas ao ouro e aos prazeres do mundo.
Markus era um homem de muitas posses. Riquezas infindas, terras férteis e rebanhos imensos, prata e ouro empilhavam-se sob seu nome. Seus cabelos, outrora fulgurantes como trigo ao sol, haviam tornado-se pálidos como topázios.
Seus olhos, profundos e frios, lembravam gemas enterradas em covas escuras. Sob aquele olhar repousava um corpo esguio, bem formado e talhado para impressionar, jamais para servir.
Conservava a barba alinhada com zelo, as pontas do bigode dobradas para reforçar o ar carismático de um homem digno. Sua postura era exemplar e sua reputação imaculada entre as altas rodas. Homem da igreja, diziam; bom marido, alegavam. Mas por trás das portas pesadas do palácio, sua alma apodrecia dia após dia.
Era casado com a irmã do rei, a quem traía sem pudor com mulheres de todos os sobrenomes, das mais nobres às mais esquecidas do distrito da luz vermelha. Tudo era abafado por ouro ou silenciado por aço.
Apesar disso, não havia homem em todo o reino mais celebrado por sua aparência. Da sola dos pés ao topo da cabeça, Markus parecia obra de um escultor divino. Contudo, não há mármore que não esconda rachaduras sob a superfície.
O deus a quem deveria servir, Mol, pai dos elfos e dos homens, senhor das florestas, patrono das belas artes e das ciências, criador da vida digna, mantenedor do ciclo solar e lunar, havia deixado mandamentos claros a seus súditos.
Um deles ordenava que não comessem das criaturas não concebidas por suas mãos. As salamandras de fogo eram uma iguaria proibida, que carregavam em seus corpos um veneno lento e sutil. Mas Markus, como sempre, zombava da vontade divina, importava tais bestas para seus banquetes e fazia delas espetáculo de vaidade e soberba.
Outro mandamento ditava a preservação do próprio corpo como templo sagrado, livre dos grilhões do desejo desenfreado. Markus, embora livre para fazer o que quisesse, jamais foi senhor de si mesmo. Era escravo das próprias vontades.
E por fim, estava escrito que não se usasse o nome do Senhor em vão, nem mesmo em gestos de falsa caridade. Markus, grande doador da igreja, jamais buscava o bem, apenas o aplauso dos homens.
Que valor têm as esmolas lançadas por mãos arrogantes?
Paz interior?
Amor ao próximo?
Tais conceitos não passavam de piadas para o coração de pedra daquele homem.
Em uma de suas habituais visitas ao distrito da luz vermelha, seduzido por promessas de vigor, ingeriu uma poção que deveria prolongar sua noite. Nessa mesma noite, marcado pelos chefes do submundo como presa fácil, Markus foi envenenado e morreu em seu sono.
Não houve luto. Sua esposa casou-se dias depois com um duque de boa reputação.
Qualquer outro homem de semelhante vida teria sido lançado sem cerimônia nas chamas eternas. Mas Markus havia jurado em vida proteger a luz de Mol. O peso de sua traição era maior. Não foi entregue a Mufspell, senhor do sofrimento, de imediato. Sua sentença foi mais cruel: vagar para sempre no Reino das Almas.
Este lugar não era céu, nem inferno, mas a borda tênue entre ambos, um território onde a realidade escorregava como névoa e o tempo não se mantinha firme. Ali se dividiam vivos e mortos, luz e trevas, esperança e desespero. Ali se amontoavam almas errantes, incapazes de encontrar sozinhas o caminho para seus destinos.
Cabia a Markus guiá-las, pois as almas são frágeis e seu juízo, turvo. No entanto, nem mesmo ele mantinha intacta sua consciência. Ao seu lado, eternos conselheiros, sempre presentes, que sempre discutiam e sempre suscitavam dúvidas.
O primeiro, um gato de pelos como calcedônia, olhos fendidos como os de uma serpente, membros longos e tortuosos, dentes prontos para despedaçar ferro e carne.
Suas asas, feitas de músculo cru, moviam-se em espasmos, e sustentavam seu voo irregular ao redor do infeliz paladino. Suas palavras eram poucas, sempre absurdas, mas jamais gratuitas.
O segundo, criatura de aparência mais gentil, possuía um corpo de homem até a cintura, de onde despontavam chifres negros como ônix. Suas pernas eram de carneiro, cascos firmes, pelagem cor de bronze, olhar plácido e doce como o luar sobre campos silentes.
Falava em declamações de poesia, suas palavras eram bálsamos perfumados e suas intenções, insondáveis.
Ambos tinham uma única função: guiar Markus, que por sua vez deveria guiar os mortos. Quando uma nova alma cruzava os véus, surgia um portal na forma que refletia sua essência. Encontrá-lo e enfrentar suas consequências era tarefa da alma. Mas nem todas conseguiam. Markus devia, então, conduzi-las.
E assim se desenrolavam os séculos. O tempo esmigalhava sua mente como o mar faz com as rochas. Aos poucos, os dois companheiros se tornaram as últimas âncoras de sua consciência.
Um gato e um carneiro.
Dois opostos, dois enigmas.
Markus já não sabia qual deles era o bom, isso se algum deles já tivesse sido bom.
Certa noite, após encaminhar ao fogo eterno a alma de um velho glutão que comeu até a morte, algo diferente aconteceu.
Ele sentiu um arrepio e percebeu que algo novo se mexia entre as sombras.
— Tá esperando um convite pra ir lá ver? — O gato, mantinha um tom arrastado, meio zombeteiro e meio cansado.
Ao ouvir o deboche do gato, Markus nada respondeu de pronto. Seus olhos, há tanto tempo incapazes de brilhar, fixaram-se no horizonte nebuloso onde algo, enfim, parecia diferente. Não havia portais ali e nenhuma alma perdida aguardava.
Apenas uma fenda, tão fina quanto o fio de uma lâmina, cortava a escuridão, ela pulsava uma luz estranha, tão pálida que mais lembrava uma vela do que uma fogueira.
O carneiro, de onde estava, aproximou-se com passos calmos. Seus cascos não produziam som, e sua voz, como de costume, surgiu envolta em doçura.
— Caminhos tortos seduzem homens tortos.
As rosas nascem onde o sangue é derramado.
Se teus pés seguem por onde não foi chamado,
Que não chores, Markus, quando fores despedaçado.
Por um momento, Markus hesitou. O carneiro jamais falava senão em versos, e mesmo suas advertências mais macias eram sempre mortais.
— Não vá, pobre alma atada. — Continuou a criatura, sua voz era embalada igual uma canção de ninar. — Pois não é tua sina ver o que ali mora. Deixa aos cegos a escuridão, deixa aos tolos o fardo.
O gato, pousado num pilar partido, arranhava as próprias asas com desdém enquanto arrancava pedaços de carne ao limpar-se de seus aborrecimentos.
— Pois vá, Markus, vá. Quem não arrisca não apodrece… ou apodrece menos, talvez. — Deu de ombros o gato ao largar a responsabilidade.
Diante das duas vozes, Markus sentiu novamente dúvida, tão antiga quanto o momento de sua queda. O carneiro falava com doçura enquanto o gato sussurrava absurdos.
Ele ponderou. E como todas as suas escolhas desde aquele dia maldito em que despertou no Reino das Almas, decidiu confiar no carneiro.
Virou-se. Não para a fenda, mas para o caminho oposto. Um atalho de raízes torcidas e pedras molhadas, onde a névoa parecia mais espessa e onde, segundo qualquer razão, não haveria nada além de solidão e perda.
— O contrário da razão pode ser a única saída — murmurou, mais para si que para seus companheiros.
O gato riu, baixo, em aprovação. O carneiro, com olhos tão calmos quanto a morte, não disse mais nada. Apenas sorriu.
Markus seguiu. Passos pesados, ciente de que toda escolha naquele lugar era como atravessar um lago de vidro: cedo ou tarde, algo haveria de partir-se sob seus pés.
Mas naquela noite, por capricho ou ironia de deus, seus pés afundaram, e não houve estilhaços. Havia, do outro lado, algo mais. Algo que esperava ser encontrado.
Com o coração cheio de esperança tola, Markus seguiu as palavras doces do carneiro. Este caminhava adiante, sem pressa, e entoava seus versos no solo morto da alma.
— Vem, pobre servo, por entre sombras e dor,
Segue o caminho onde cessará teu labor.
Na pedra oculta se encontra o descanso,
No ventre da terra repousa sem remorso.
Guiado por essa promessa, Markus adentrou uma caverna aberta na encosta de uma montanha curvada, que parecia uma boca faminta, trincada de tempo e umidade. O ar ali dentro era mais denso do que deveria, como se não respirasse há séculos.
A cada passo, seus pés afundavam em uma lama pulsante, que não parecia barro, mas carne apodrecida misturada ao pus do próprio mundo. O fedor era insuportável, feito de ferrugem, fezes e sangue coagulado.
Nas entranhas da caverna, sob um teto repleto de excrescências que pingavam uma seiva negra e quente, Markus enfim viu o que o aguardava.
A criatura era um aborto da natureza. Um colosso de asas rasgadas, translúcidas, infestadas de buracos onde vermes brancos se debatiam. O corpo era uma carcaça esquelética, recoberta por placas esverdeadas que pareciam fundir exoesqueleto e carne necrosada.
Sob as asas, dezenas de membros atrofiados, ora patas de inseto, ora braços humanos esqueléticos, tremiam como folhas mortas. O tórax inchado pulsava como se respirasse através da carne pútrida, e cuspia pequenas larvas ao chão, que se arrastavam de volta ao seu ventre por fissuras abertas.
Os olhos, quando se abriram, não pareciam olhos, mas bocas pequenas, circulares, preenchidas por dentes mínimos e agudos, que mastigavam incessantemente algo invisível.
Markus sentiu o próprio estômago revirar. Sua espada se ergueu quase por instinto, como se o ferro pudesse proteger sua alma do horror. Mas o ferro não protege contra aquilo que veio antes dos deuses.
A criatura avançou com um zunido ensurdecedor, como mil moscas devorando o mundo ao mesmo tempo. Suas patas o alcançaram, rasgando carne e armadura. O pus ardia como fogo. Markus golpeou, perfurou membranas, rasgou tecidos, mas sempre havia mais carne, mais dentes e mais vômito de vermes.
Por fim, ferido e exaurido, caiu de joelhos. A espada escorregou de suas mãos como se fugisse por conta própria daquele destino. Tentou se arrastar, mas as patas vinham atrás e tilintavam como agulhas que batiam em ossos.
O sangue lhe preenchia a boca e ele já não sabia se respirava ou se apenas morria devagar.
Foi então que ouviu a voz.
— Tsc… sempre tão esperto, não? — O gato riu, aquela risada baixa e longa, como se zombasse não só da carne dilacerada, mas da alma inteira de Markus. — Há quantos séculos, Markus? E você ainda não percebeu? Ainda acredita nessas promessas?
Markus não respondeu. O chão pareceu ceder, ou talvez seus olhos tenham se fechado. Tudo se tornou quente, mole e escuro.
Dormiu. Ou pelo menos acreditou que dormia. Porque naquele reino, nem mesmo o sono era verdadeiro.
Quando Markus abriu os olhos, não sabia ao certo se estava desperto ou apenas afundado em mais uma das inúmeras ilusões daquele lugar. A escuridão da caverna parecia a mesma, imóvel, pesada, e o fedor continuava a queimar suas narinas.
Seu corpo doía em todos os lugares onde ainda restava carne para doer. O sangue, já seco em sua armadura, começava a se dissolver lentamente. Ele tocou a lateral das costelas e sentiu a carne ter se fechado sozinha. Sempre era assim.
Ele não sabia quanto tempo havia passado.
No Reino das Almas, o tempo não seguia as regras dos vivos, e para quem morria repetidas vezes, o passado era só uma poça turva difícil de distinguir da manhã ou da noite.
— Décima vez só este mês, Markus. — A voz do gato ecoou preguiçosa, arrastada, carregada de zombaria. — Está ficando mais fraco ou só mais burro? Começo a achar que é os dois.
O animal estava empoleirado numa rocha baixa, suas asas tremiam e sacudiam a sujeira do próprio desprezo. Seus olhos brilhavam na penumbra como pequenos sóis falsos.
O carneiro, por sua vez, aproximou-se devagar, seus cascos afundavam suavemente no lodo pútrido.
— Não te aflijas por morrer, pobre alma ferida,
Pois mesmo a dor é irmã da vida.
A queda é amarga, mas breve a tristeza.
Todo recomeço é flor na correnteza.
Markus suspirou. Nem as palavras doces conseguiam mais trazer conforto. Sentia-se vazio, como um vaso de barro rachado que mesmo cheio nunca conseguia conter nada.
Mas então, entre o som distante das gotas que pingavam das paredes e o farfalhar das larvas no chão, ele ouviu.
Um choro.
Não daqueles lamentos que tantas almas proferiam ao perceber seu destino. Não era o choro de um homem condenado ou de uma mulher arrependida. Era pequeno, agudo, e cortava o silêncio com um tremor que não pertencia àquele mundo podre.
— Parece que temos companhia. — O gato sorriu. — Vai lá, curioso. Pode ser diversão… ou outra morte idiota. Quem sabe?
— Ouve a razão, amigo cansado,
Foge do som, não sejas tentado.
Choro não guia, não leva, não dá.
Choro é um laço que nunca se soltará.
O carneiro tentou dissuadi-lo com sua voz branda, mas Markus já estava de pé.
Dessa vez, ele não fugiria.
Ergueu sua espada com dificuldade, mesmo sabendo que era inútil contra certos horrores. Sabia também que fugir não o levaria a lugar algum. Já não havia mais para onde correr.
Avançou pela caverna em direção ao som. Passou por raízes penduradas como entranhas apodrecidas, por ossos meio soterrados no lodo, por pedras que pareciam pulsar como corações cansados. A cada passo, o choro tornava-se mais claro e mais próximo.
Markus não pensou, não hesitou, não perguntou ao carneiro e muito menos ao gato.
Apenas foi.
Pois naquele momento, Markus lembrou-se de quem havia sido: alguém que, ainda que tarde, sabia distinguir entre covardia e escolha.
Ao seguir o som frágil do choro, Markus atravessou a última garganta da caverna e encontrou-se, para seu espanto, diante de uma clareira. Um espaço impossível ali, no ventre de uma terra morta.
No Reino das Almas não existia céu, mas uma falsa luz derramava-se do alto, pálida como a pele de cadáveres, iluminava a relva cinzenta e as árvores retorcidas que cercavam o pequeno círculo de chão firme.
No centro, sentada com as pernas dobradas junto ao peito, uma garotinha chorava. Vestia trapos rasgados, sujos de terra e sangue seco. Os cabelos, castanhos, emaranhavam-se sobre o rosto escondido. Os olhos, quando se levantaram para espiar quem se aproximava, eram negros como carvão recém-apagado.
Markus parou a certa distância. Não queria assustá-la mais do que já devia. Mas seu corpo ainda estava se reconstruindo, as feridas abertas pareciam fendas sobre sua pele.
Ossos expostos sob carne inacabada. O rosto retorcido, sem metade da mandíbula, costurava-se devagar, músculo por músculo, veia por veia, numa visão digna das pragas do inferno.
A menina recuou e sufocou o choro no medo. Olhou-o como se fosse outro monstro surgido daquele lugar.
— Não precisa ter medo… — A voz de Markus saiu rouca e falha. — Não vim te ferir. Eu… sou teu guia.
A menina não respondeu, apenas se arrastou alguns passos para longe, com os olhos arregalados, incapaz de confiar.
Das sombras da clareira, o gato alado surgiu e pousou num galho acima como uma esfinge desdenhosa.
— Leve-a para o sul. Tem coisas melhores para você por lá… ou pelo menos, mortes mais divertidas.
As asas sem penas dobraram-se com um estalo molhado, e o sorriso do gato era o de quem assistia uma peça repetida mil vezes.
O carneiro surgiu logo atrás, seu casco partia pequenas pedras ao caminhar devagar. Com os olhos doces e a voz ainda embalada em poesia.
— Norte, Markus, é para lá que deves guiar.
O sul é engano, armadilha.
A pequena, perdida, espera condução,
Nas trilhas do norte achará redenção.
Markus olhou para a criança. Viu nela não só medo, mas algo mais antigo: confusão, abandono, a mesma que encontrou em si próprio no dia em que acordou naquele limiar entre mundos. Ele lembrava bem o que era não saber a quem seguir.
— Vem — disse, mais baixo, desta vez falava como se falasse a si mesmo. — Não tenha medo. Só… preciso que confie.
Deu-lhe a mão aberta, mesmo sabendo que a visão de seus dedos ainda não totalmente formados só lhe causaria mais terror.
O gato bufou e rolou os olhos de modo teatral.
O carneiro apenas esperou, paciente, como sempre, o desfecho que viria.
Markus não olhou para eles. Apenas ficou ali, ajoelhado enquanto esperava que a garotinha decidisse.
Sua mão estendida como um gesto vazio, sem esperar que a menina sequer pensasse em tocá-la. A pequena o encarava com olhos grandes e negros, um abismo de medo e rejeição cravado em sua expressão suja e franzina.
— Eu não vou te seguir. — A voz dela saiu trêmula, embargada entre soluços e raiva. — Você é um monstro…
Markus não moveu um músculo. Não recuou, tampouco tentou argumentar. Ser chamado de monstro já não lhe causava dor. Não lhe causava nada. Há séculos ele já tinha perdido qualquer capacidade de se ferir por palavras ou sentimentos. O mundo lhe arrancou tudo aquilo bem antes de sua primeira morte.
— Como você morreu? — Ele perguntou com indiferença. A pergunta saiu mais por hábito do que por compaixão.
— Você é mentiroso. — Ela cuspiu as palavras como quem protege seu último fiapo de orgulho. — Eu só… eu só segui a trilha de doces… eu estava com fome… só isso…
Markus ficou em silêncio. A trilha de doces. Um chamariz cruel demais para o mundo dos vivos, mas não raro ali. Quantas almas jovens já não ouviram contar histórias semelhantes? Histórias sempre iguais: fome, promessas falsas e desaparecimentos.
O gato, do alto de seu galho retorcido, esticou as asas com preguiça e falou com aquele tom arrastado, tão casual quanto uma bofetada.
— Markus… está vendo o pescoço dela?
O paladino ergueu o olhar. Por entre os cabelos desgrenhados, ele percebeu enfim as marcas finas e arroxeadas que circulavam o pescoço da criança. Não eram cicatrizes de tempo. Eram marcas recentes, tão recentes que ainda pareciam gritar por ar.
— É sempre assim nesses anos ruins. Melhor morrer pelas mãos dos pais do que morrer de fome devagar… ou assim eles pensam.
Markus não disse nada. Sabia que era verdade. Sabia que esse destino era mais comum do que qualquer um gostaria de admitir, até mesmo ali, entre os mortos. O amor e o desespero sempre encontravam maneiras estranhas de se confundir.
A garotinha enxugou o nariz na manga rasgada e apertou os joelhos contra o peito, como se sua magreza pudesse protegê-la de alguma coisa.
— Eu não devia estar aqui… Eu só queria comer.
Markus olhou novamente para o norte, onde a bruma se retorcia como serpentes sem olhos. Não haveria descanso para ela ali, nem para ele. Mas o caminho precisava ser feito. Mesmo que a contragosto. Mesmo se ele precisasse arrastar quem não queria ser guiado.
Ele não sentiu pena dela. Não sentia nada. Apenas se ergueu, firme como sempre.
— Então vamos. Você queira ou não.
— Eu não vou.
A voz da menina, agora, era mais firme. Não havia medo ali, mas teimosia. Aquela teimosia crua que só as crianças famintas conhecem, aquela que desafia o próprio instinto de sobrevivência por pura birra contra o mundo.
Markus suspirou. Não com cansaço, pois já não conhecia tal sentimento, mas por costume. O gato, no alto de sua árvore podre, estalou a língua com desdém.
— Amarra ela. Arrasta pelos cabelos se for preciso. Não seria a primeira vez, não será a última. Criança não entende gentileza aqui, Markus. Nunca entendeu.
Mas antes que Markus pudesse sequer cogitar obedecer, surgiu o carneiro, tão silencioso quanto uma oração sem resposta. Trazia consigo um pequeno cesto, feito de galhos secos e nervuras escuras, que parecia pulsar entre seus dedos como se tivesse vida própria.
Nele, repousavam algumas frutas.
Eram vermelhas, mas não o vermelho das maçãs ou das cerejas. Eram um vermelho doentio, saturado demais, como carne exposta ao sol. Suas cascas tinham veios que pulsavam como artérias.
Algumas gotejavam um líquido viscoso, outras pareciam cobertas por uma fina penugem que se mexia como pequenos pelos ao respirar. Tinham cheiro adocicado, quase embriagante, mas com um fundo metálico, que lembrava sangue antigo misturado a mel.
A única comida que existia naquele reino.
O carneiro estendeu o cesto a Markus com seu sorriso calmo, quase paterno.
— Não há alma que resista ao fruto do pesar,
Pois mesmo no medo é preciso alimentar.
A oferta é simples, o convite sincero:
Segue ou perece, o destino é severo.
Markus tomou o cesto e se aproximou da menina, seus passos ecoaram como aço ao bater em ossos velhos.
— Você decide. — A voz dele era neutra e vazia. — Se quiser comer, vem comigo. Se não… pode ficar aqui até entender por conta própria. Não vou arrastar você. Não hoje.
A garota olhou para as frutas com desconfiança, depois para Markus, depois para o cesto de novo. Hesitou. A fome era uma dor antiga nela, uma dor que não sabia nomear, mas que se agarrava ao seu estômago como garras afiadas.
Por fim, se levantou, devagar, com o olhar ainda duro, mas agora entrecortado por algo mais frágil.
— Tá… Eu vou — disse de má vontade. — Só por causa da comida.
Ela seguiu Markus, de longe, pisando nas pegadas que ele deixava atrás.
Quando sentaram novamente, Markus estendeu-lhe uma das frutas. Ela a segurou com nojo, torcia o nariz e estudava a coisa grotesca em suas mãos.
— Parece… nojento.
Mesmo assim, deu a primeira mordida. O suco escorreu vermelho pela boca suja dela. Um gosto estranho, doce e amargo ao mesmo tempo, algo entre framboesa e carne crua. Ela comeu mais, relutante, mas logo não pôde mais parar. Em pouco tempo, devorava a fruta como quem descobrisse novamente o sentido de existir.
— É… bom. — disse, com a boca ainda cheia, surpresa consigo mesma. — Não sei se é porque eu não como há semanas… ou se é bom mesmo.
Ele apenas observou. Não respondeu. Porque ali, tudo que alimentava também envenenava.
Mas algumas verdades eram melhores não ditas.
Markus assobiou.
Do breu atrás das árvores tortas, algo se moveu. Primeiro, as patas arrastaram-se pesadas. Depois, o cheiro veio antes da forma, podridão antiga, misturada a enxofre e carne que nunca cicatrizou. Por fim, o cavalo surgiu.
Não era um cavalo digno dos vivos. Sua pele pendia em tiras, as costelas expostas como grades de ferro enferrujado. As crinas eram feitas de vermes que retorciam-se, os olhos, duas esferas brancas, vazias e fundas como buracos no mundo.
A boca, quando se abriu num relincho baixo, expôs dentes humanos, quebrados e tortos que gotejavam pus negro ao chão.
A garotinha gritou e recuou com terror.
— Isso… isso é seu cavalo? — perguntou com a voz embargada.
Markus não respondeu. Apenas subiu calmamente na sela retorcida, feita de couro morto, suas mãos seguravam as rédeas compostas de tendões ressecados. Nenhum traço de emoção e nenhuma palavra. Para ele, aquele era só mais um costume nesse mundo onde o grotesco já não o surpreendia.
Do alto, estendeu-lhe a mão.
— Vem. Vai ser mais rápido.
A menina olhou para a mão, para o cavalo, para os olhos vazios da criatura. Estremeceu, apertou o punho e virou o rosto.
— Não. Eu… eu vou andando.
Markus não insistiu. Fechou a mão, recolheu-a para si, e com um leve toque nas rédeas, fez o cavalo avançar num trote macabro, as patas afundavam na terra que pulsava sob eles. A menina, cabeça baixa, seguia ao lado, ela andava devagar e olhava disfarçadamente para a criatura ao seu lado com medo, mas sem recuar.
Ela estava faminta, cansada, assustada. Mas mesmo assim, escolheu seguir a pé.
Markus, de cima, não disse nada. Apenas avançaram juntos, rumo ao norte, onde nem mesmo ele sabia o que encontrariam.
O caminho tornou-se cada vez mais repulsivo conforme avançavam. A terra já não era terra, mas uma mistura pútrida de vísceras e lodo, como se caminhassem sobre o interior de uma criatura moribunda e eterna.
Por onde passavam, pedaços de carne, cascas de ovos gigantescos e restos de coisas sem nome surgiam submersos, soltando bolhas ocas e fétidas.
O cheiro, antes suportável pelo hábito, agora parecia se agarrar à pele e invadir as narinas com uma persistência nauseante.
A menina tropeçou. Suas pernas, magras e frágeis, cederam de cansaço e nojo, e ela caiu de rosto direto numa carcaça estufada. Um inseto enorme, alado, com o tórax rasgado, do qual escorriam ovos translúcidos e larvas que ainda se contorciam como se não soubessem que sua mãe estava morta.
Ela gritou, engasgou com o fedor, e afastou-se em desespero, limpando o rosto com as mangas sujas. Lágrimas de humilhação e medo escorreram pelos olhos escuros, e misturavam-se ao lodo que lhe colava os cabelos à pele.
Sem que Markus dissesse uma palavra, ela se ergueu, hesitante, olhou para o cavalo podre e, derrotada, assentiu com um gesto pequeno.
Ele estendeu a mão de novo.
Dessa vez, ela aceitou.
Subiu com dificuldade e tentou não tocar mais do que o necessário na carne exposta da sela. Sentou-se atrás de Markus, as mãos agarravam firmemente a borda do assento como se aquilo a pudesse proteger do chão que tanto a enojava.
Avançaram assim até chegarem a uma intersecção. Duas trilhas igualmente detestáveis, mas distintas. À direita, a névoa era mais espessa, as sombras dançavam como dedos ansiosos para agarrar qualquer tolo que se aproximasse.
À esquerda, as árvores estavam mortas, retorcidas como ossos queimados, mas o ar parecia menos carregado, quase suportável.
Do alto de uma raiz, o gato se espreguiçou, bocejando.
— Direita, Markus. Sempre é mais divertido pela direita. Confia.
Do outro lado, como se emergisse da própria terra, veio o carneiro, passos calmos e voz suave, ainda envolta em rima.
— Esquerda é o norte, não te deixes ludibriar.
Na trilha mais cinzenta irás encontrar
Não o fim, mas a chance de luz alcançar.
Markus observou um instante. Depois puxou as rédeas e conduziu o cavalo para a esquerda. O riso do gato ecoou atrás dele, comprido e zombeteiro, como sinos quebrados em um funeral sem padre.
— Sempre teimoso, Markus… sempre teimoso.
Ele não respondeu. Seguiu adiante, ouvindo apenas o som dos cascos podres que afundavam na carne do mundo.
O silêncio reinava enquanto avançavam pela trilha cinzenta. A menina, encolhida atrás de Markus, olhava ora para o chão pulsante, ora para as árvores que se dobravam como braços doentes.
Foi então que, num sussurro, a voz dela rompeu o silêncio:
— Qual é o seu nome?
Markus manteve os olhos fixos adiante. A resposta veio seca e sem rodeios, como tudo nele:
— Markus.
Ela mordeu o lábio, pensativa, antes de falar de novo.
— E como você… morreu?
Houve um breve instante em que ele pensou em mentir. Mas já fazia tanto tempo que nem as mentiras lhe serviam de refúgio.
— Não me lembro. Só sei que fui… um homem mau.
Ela inclinou a cabeça e franziu a testa com estranheza, como se tentasse encaixar aquela ideia com o homem exausto e silencioso que agora a carregava.
— Você não parece mau.
Markus não respondeu. Não havia necessidade. Aquilo não era opinião que merecesse ser discutida. O silêncio bastava.
Mas então, foi ele quem quebrou a pausa.
— E você? Qual é o seu nome?
O gato, ainda empoleirado em algum galho morto, cessou seu riso por um instante. Seus olhos brilharam com algo raro: surpresa.
— Ora… ora… faz séculos que você não pergunta o nome de ninguém.
A menina hesitou um instante, como se temesse que dizer seu nome pudesse mudar algo naquele lugar. Depois, encolhida, respondeu:
— Charlotte.
Markus apenas assentiu com a cabeça e aceitou o nome como quem aceita uma pedra no caminho ou a chuva fria numa tarde cinzenta.
— Charlotte. — Ele repetiu, não como quem chama, mas como quem guarda a informação em algum canto da alma, já sem espaço para muita coisa.
E seguiram adiante, ao som das asas do gato que batiam ao longe e dos cascos do cavalo que afundavam.
Caminhavam havia tempo demais. A trilha, embora menos sufocante que a outra, parecia sempre a mesma, como se o mundo ao redor girasse sem que eles saíssem do lugar.
As árvores permaneciam retorcidas, imóveis, como cadáveres pendurados por raízes. Não havia vento, não havia som, apenas os cascos do cavalo que mergulhavam no lodo e a respiração contida da menina em suas costas.
Mas então Markus sentiu.
Algo havia mudado. Não no chão ou nas árvores, mas no ar. Um cheiro retornou, um fedor agridoce, de pus quente e de carne apodrecida sob o sol de um mundo que não conhecia o tempo.
Parou o cavalo.
Os galhos se partiram adiante, e do meio da terra negra, algo começou a surgir, escorrendo entre as árvores como um aborto renascido: o mesmo inseto colossal da caverna. As asas podres batiam com dificuldade e cuspiam vermes e sangue coagulado a cada movimento. As patas tortas arrastavam-se, cravejadas de bocas menores, famintas. Os olhos, aquelas bocas sem língua, mastigavam o ar com sons molhados e insuportáveis.
O carneiro surgiu à esquerda, os olhos suaves, as palavras tão doces que quase mascaravam a maldade em seu conselho:
— Deixa a criança, Markus…
Abandona quem não pode correr.
Pois tua alma é velha, e há muito a perder.
Foge, foge, foge e não tornes a olhar.
Do alto, o gato gargalhou ao bater as asas com gosto.
— Ou… use isso. — O gato sorriu, um sorriso largo demais para um rosto tão pequeno. — Você não foi jogado nesse buraco sem motivo, Markus. Lembra? Uma vez por mês, mais ou menos… Mol ainda te permite fingir que ainda é digno. Faz bonito.
Markus olhou para sua espada. O ferro estava gasto, sujo, coberto de sangue seco e lodo. Mas sob toda aquela miséria, havia nela uma promessa antiga, enterrada sob camadas de pecado: um fio de luz.
Uma lembrança de que ele já foi um paladino. De que, por mais longe que tivesse caído, ainda havia algo ali que o mundo das trevas temia.
Apertou o cabo. Rezou silenciosamente e o ferro respondeu.
A lâmina ardeu. Uma chama pálida, fria, branca como a luz da lua em sua forma mais cruel. Não queimava como fogo, mas brilhava como o pesar das estrelas mortas. O lodo ao redor recuou. As larvas estalaram. O próprio cavalo pareceu hesitar, rangendo os ossos, como se lembrasse que aquilo não lhe pertencia.
Markus desceu.
Olhou para Charlotte.
— Fique atrás de mim.
E pela primeira vez em eras, ergueu sua espada para proteger.
O inseto avançou primeiro, com o mesmo som odioso que Markus lembrava: um zumbido grave e doente, como mil moscas que mastigavam carne de animais vivos. Suas asas abriram-se, rasgadas, gotejavam pus e vermes no chão encharcado.
As patas, feitas de quitina rachada e ossos roubados, rasgaram a terra podre enquanto sua boca cheia de dentes circulares se arreganhava, faminta.
Markus não recuou.
Sua espada queimava com a chama pálida de Mol, e à medida que avançava, o mundo ao redor reagia. As trevas estremeceram, as raízes secaram e o próprio chão pareceu tentar engolir o brilho, como se aquele poder antigo fosse algo proibido ali.
Mesmo seu cavalo podre recuou, bufando uma fumaça densa de podridão e mantinha Charlotte protegida sob seu ventre ósseo.
Quando o primeiro golpe veio, uma pata rápida e grotesca, Markus desviou, seu corpo já acostumado ao peso da morte, mas não à pressa dos vivos. Rolou pela lama, ergueu-se com um joelho cravado na terra e cravou a lâmina ardente na pata que tentava esmagá-lo.
Houve um estalo como vidro quebrado. A luz espalhou-se pelas rachaduras do inseto e o queimou por dentro. Do ferimento, centenas de larvas caíram, se contorceram e morreram sob a luz divina.
O monstro recuou, mas só por um instante.
Veio de novo, abriu as asas como foices e lançou-se contra Markus com uma velocidade monstruosa. Os dentes tentaram alcançá-lo, arrancar-lhe o crânio como quem arranca uma fruta madura da árvore.
Markus ergueu a espada em defesa. O choque da boca contra a lâmina espalhou faíscas pálidas, e a boca foi rasgada e cortada até a metade. O inseto guinchou, um som que fez as árvores sangrarem pelas raízes e o céu tremer.
Mesmo ferido, atacou novamente. Suas patas cortaram o ar e abriram fendas no solo onde brotavam braços esqueléticos, que tentavam segurar Markus, prendê-lo e arrastá-lo para baixo.
Mas Markus sabia lutar contra o abismo. Era parte dele, agora.
— Mol, não por mim, mas pela ordem que eu traí. — murmurou sem voz, apenas para si, enquanto avançava.
Saltou sobre uma das patas, correu pela carapaça repleta de buracos, cravou a espada direto no tórax pulsante da criatura. A lâmina brilhou e consumiu a podridão como chama que se alimenta de pecado. O inseto tentou voar, tentou escapar, mas suas asas queimaram e derreteram como papel diante da luz.
Markus cravou ainda mais fundo.
O corpo inchado do monstro explodiu numa chuva de pus, sangue negro e larvas queimadas. O cheiro era indescritível e o horror absoluto. Mas Markus permaneceu de pé, coberto daquela imundície, a espada, finalmente calada, apenas pulsava com um brilho fraco, como uma estrela cansada.
O silêncio caiu.
Charlotte espiou e tremia agarrada ao cavalo podre. Os olhos negros encontraram os de Markus.
Ele não sorriu. Não porque não estivesse feliz com a vitória, mas porque ele sabia que aquela batalha, no fundo, não tinha valor algum.
— Vamos seguir. O caminho ainda é longo.
Do alto, o gato ria novamente ao bater as asas em um aplauso fingido.
— Ah, Markus… sempre exagerando… Mas admito, foi bonito de ver.
O carneiro, como sempre, apenas olhou em silêncio, seu sorriso carregava uma sombra que ninguém ali conseguia decifrar.
Seguiram em frente. Markus caminhava em silêncio, a menina agarrada ao cavalo como se ainda temesse que o chão se abrisse a qualquer momento e a tragasse de volta para o pesadelo de onde tinha saído.
O chão não melhorava, as árvores continuavam secas como ossadas, e a podridão parecia um véu constante pendurado no ar.
Mas então, algo chamou sua atenção.
Adiante, mais à frente, a trilha da direita, aquela que o gato havia sugerido com sua voz de veneno disfarçado, encontrava-se novamente com o caminho que Markus tomou. As duas rotas se uniam como velhos conhecidos, e serpenteavam juntas para além do que a névoa deixava ver.
Por um momento, Markus parou o cavalo. Olhou para o lado direito, os olhos semicerrados.
Ali, numa clareira pequena, quase discreta, crescia uma planta. Uma única. Suas folhas eram largas, de um verde escuro com veios pulsantes de âmbar, e exalavam um aroma forte, quase adocicado, que afastava qualquer sinal dos insetos.
Ao redor dela, não havia carcaças, nem larvas, nem ovos apodrecidos, só o silêncio e a terra limpa, como se o mundo podre ao redor respeitasse aquele pequeno pedaço de vida.
Markus franziu o cenho. Ele se lembrava dela. Vira aquela planta na bifurcação, antes de escolher a esquerda. Sabia o que era. Os paladinos a usavam em tempos antigos para afastar pragas e monstros das aldeias. Sabia, e mesmo assim, ignorou.
— Maldito…
Do alto, o gato gargalhou com gosto, suas asas batiam preguiçosamente enquanto se deitava sobre um galho como quem assistia uma peça cômica.
— Eu disse que era mais divertido pela direita, Markus. Não disse? Disse. Mas você gosta de sofrer. Teimosia, orgulho… essas coisinhas humanas. Sempre achei encantador como vocês se agarram a elas como se fossem alguma espécie de armadura.
Markus não respondeu. Apenas olhou mais uma vez para a planta, então apertou o passo. A menina atrás dele nada entendia, mas já aprendera que aquele homem estranho não desperdiçava palavras.
O gato continuou rindo, satisfeito.
— Tão previsível… e mesmo assim, nunca aprende. — A voz do gato cortou o silêncio, arrastada e repleta daquele tom zombeteiro que ele conhecia bem. — Me diga, Markus… você é burro mesmo, ou só tá se esforçando? Porque, honestamente, eu já não sei mais.
Markus fechou o punho com força sobre as rédeas do cavalo, sua paciência estilhaçou–se como vidro fino e rosnou entre os dentes.
— Cale a boca.
O gato riu ainda mais alto, como um nobre entediado diante de um bobo da corte.
— Ah, então você é burro e sensível. Melhor ainda. Escolheu o caminho mais difícil, quase morreu, e agora descobre que podia ter poupado tempo, suor e essa menina inútil de cair em carniça. Sério, eu me pergunto como Mol achou que você era digno de carregar qualquer coisa além da própria vergonha.
Markus virou o rosto, irritado. A chama branca da espada havia se apagado, mas a chama da sua raiva nunca cessava.
— Você é só uma maldição mal vestida de conselheiro. Nada além disso.
— Chamou de maldição? Olha o carinho que você tem por mim… — O gato sorriu, seus dentes eram longos demais e pontudos demais para serem naturais.
Foi então que Charlotte, encarou Markus com uma sobrancelha arqueada.
— Com quem você tá falando?
Markus suspirou. Não queria explicar. Não havia explicação que fizesse sentido para alguém como ela.
— Parasitas. Na minha cabeça.
Ela arregalou os olhos e se afastou um pouco, desconfiada.
— Não literalmente. — Completou ele, mais ríspido do que queria soar. — Eles só estão aqui. Não tem nada que possa te afetar. Só a mim.
Charlotte continuou a olhar com desconfiança, mas permaneceu em cima do cavalo. Sabia que não havia para onde fugir.
Markus então percebeu. Algo no ar mudou. O chão ao redor deixou de pulsar com aquela carne viva, as árvores secaram de vez, e no centro do caminho havia um círculo.
Um altar.
Não de pedra ou ouro. Um altar feito de raízes torcidas, ossos encravados como dentes e runas costuradas com fios de almas mortas. Em seu centro, um brilho púrpura pairava e pulsava como um coração. Ao redor, cresciam as mesmas plantas que afastavam os insetos e protegiam aquele lugar como se fosse sagrado.
— Então é pra cá que o norte nos trouxe…— murmurou Markus.
— Bonito, não? — disse o gato ao balançar a cauda no alto. — Um altar de transmutação de alma. Poucos lembram que ainda existe um desses por aqui. Mas você foi paladino… você sabe o que ele faz.
Markus já sabia. Um altar onde se podia, com magia antiga e proibida, mudar o destino de uma alma. Roubar alguém do inferno. Ou arrastá-lo à força para lá. Do céu ao abismo, do abismo à luz. Um lugar que não deveria mais existir.
Charlotte não entendia o que via. Mas ela sentia. O medo cresceu nela como a lembrança de algo que nunca deveria ser lembrado.
Markus desceu do cavalo, sua mão repousou sobre a empunhadura da espada.
— Porque trouxe a gente aqui? — Ele perguntou, mas dessa vez, sua pergunta não era para o gato. Era para quem, ou o que, estava além daquele altar.
Das sombras retorcidas por trás do altar, o carneiro emergiu com passos calmos, suas patas negras manchavam o solo como tinta derramada em um pergaminho velho.
Mas algo havia mudado. Seus olhos, antes doces e repletos de falsa compaixão, agora ardiam em vermelho profundo, e sua boca, antes dedicada a versos delicados, mostrava um sorriso largo, cheio de dentes que não pertenciam a carneiro algum.
— Sem poesia hoje, Markus. — Ele disse com uma voz que soava como carne queimando. — Direto ao ponto. Uma oferta justa.
Ele ergueu a mão e apontou para Charlotte com um gesto preguiçoso, como quem aponta um animal em um leilão.
— A alma dela… em troca da sua. Você, Markus, poderia finalmente ir para o céu. Libertar-se deste tormento. Pagar seus pecados com uma eternidade de paz, como o homem bom que você nunca foi. Tudo isso… por uma garotinha que você conheceu hoje.
Charlotte recuou um passo, confusa, mas não surpresa. Algo nela parecia já saber que tudo ali se resumia, no fim, à troca de uma alma por outra.
Markus permaneceu imóvel, observando. O antigo Markus, o homem que havia traído tudo e todos por vaidade, teria aceitado.
Sem remorso.
Sem sequer refletir.
Mas aquele Markus estava morto. Morreu com cada queda, com cada morte e com cada pedaço de alma que se esfarelou nas mãos do tempo.
Quando o carneiro começou a se aproximar da menina, ainda sorrindo, Markus não hesitou.
Sua espada saiu da bainha num único som frio. A lâmina cortou o ar, a carne, o osso, sem misericórdia.
O corpo do carneiro caiu com um baque surdo, seus olhos arregalados ainda em surpresa, sem poesia, sem rima e sem verso final.
Apenas silêncio.
O gato, que até então apenas observava com desdém, perdeu o sorriso pela primeira vez em eras.
— Markus… você tem ideia do que acabou de fazer? Do que vai acontecer com você por isso?
Markus limpou a lâmina, mesmo sabendo que naquele lugar o sangue não manchava mais nada.
— Sim.
Voltou ao cavalo, montou com Charlotte ainda assustada, sem entender se devia temer ou confiar. Ela apenas o seguiu, porque no fim, ele fora o único que não tentou trocá-la por nada.
— Para o sul, então. — disse o gato, agora sem riso, voando atrás com asas tensas.
E assim seguiram, cavalgaram para longe do altar, para longe da escolha que Markus recusou fazer. O norte havia sido um engano. O sul era onde estava a salvação.
Mesmo que não fosse a dele.
O caminho ao sul parecia mais longo do que antes. O ar ficava denso, pesado como névoa carregada de luto. A cada passo do cavalo, Markus sentia o peso se acumular em seus ossos, como se o próprio mundo tentasse puxá-lo para baixo, sugá-lo de volta para a terra podre que já o devorou tantas vezes.
Charlotte, sentada atrás dele, percebeu primeiro. Seus pequenos dedos apertaram com mais força as laterais do couro morto da sela, e sua voz, fraca, quebrou o silêncio:
— Você… tá bem?
Markus demorou a responder. Seu peito doía. Não como dor de carne, mas como se algo dentro dele estivesse a se desfazer, então ele mentiu, porque não havia outra resposta possível.
— Estou.
O portal apareceu adiante como uma ferida rasgada no ar, uma fenda feita de pura luz, pulsante e quente, como um sol pequeno plantado no meio daquele mundo imundo. Ao redor, nada crescia, nada vivia, nada existia além daquele limiar entre mundos.
Charlotte desceu do cavalo com cuidado, olhando para Markus uma última vez. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela sorriu, um sorriso frágil e sincero, coisa que Markus já não sabia reconhecer.
— Você… vai ficar bem, não vai?
Markus a encarou por um momento que pareceu maior do que o tempo permitia. O portal sussurrava seu chamado à alma da menina, mas ela não se movia ainda, presa ali, esperando uma resposta que pudesse lhe dar alguma paz.
— Sim.
Não havia mentira na palavra, apenas o consolo de quem sabia que nunca ficaria bem e não importava mais.
As lágrimas escorreram silenciosas pelo rosto sujo da garota. Ela limpou com a manga e, com voz trêmula, falou:
— Eu vou falar pra deus… das coisas boas que você fez por mim. Vou dizer que você me ajudou, que me protegeu, que foi… bom comigo. E eu… vou esperar por você no céu. Vou esperar mesmo.
Markus não respondeu. Apenas assentiu uma única vez, pesada como a espada que já não conseguia mais levantar.
Charlotte caminhou para o portal, virou-se uma última vez, e então desapareceu na luz com um brilho pequeno, feito de esperança e lágrimas de criança.
O portal se fechou devagar, como uma porta se selando contra o mundo podre e contra Markus para sempre.
E ali, sozinho, ele caiu do cavalo. Seus joelhos cederam e sua respiração falhou. Seu corpo já não tinha forças para se manter de pé. Não havia mais motivo para isso.
O chão o recebeu com frieza. A terra do Reino das Almas cobriu seus dedos como mãos famintas.
O gato, ao observar de cima, apenas murmurou:
— Idiota… você realmente mudou.
Mas Markus já não o escutava.
Ele apenas fechou os olhos.
E deixou-se ficar.

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