Capítulo 109: Dois brilhos e Dois caminhos; Juntos e Entrelaçados
11 de abril de 2024, quinta-feira.
Tábata estava explicando para Aki, durante o trajeto, no que ela precisava de ajuda. O salão estava preenchido por mesas ocupadas por famílias e convidados. O burburinho se misturava à música e ao som das crianças brincando.
— Nós não queríamos preocupar o Victor, mas tivemos um pequeno imprevisto… — Ela fez uma pausa, que soou até dramática para Aki. — Duas pessoas que iriam ajudar na cozinha faltaram e acabou apertando…
Ela fez uma breve explicação do que tinha acontecido e da demanda atual:
— (…) E agora ainda falta descascar e picar as frutas. E você é uma das pessoas que eu sei que posso confiar. Pode nos ajudar?
— Mas é claro. — Aki respondeu, enquanto seguia de perto a Coordenadora do Núcleo de Nutrição.
“Esse evento precisa dar certo!” — Pensou, num tom de desafio consigo mesma.
Aki sabia da importância daquele evento, tanto para a instituição em si, quanto para Victor. Por mais que não estivesse tão por dentro do assunto quanto o seu namorado, ela sabia que ali seria um marco.
Ao chegarem na cozinha, Tábata pegou dois pares de luvas plásticas, entregando uma para Aki e o outro par ela colocou em suas próprias mãos. Também deu uma faca para Aki enquanto pegava outra para si.
Elas caminharam até uma bancada, com algumas caixas de frutas frescas recém chegadas. Tinha maçã, mamão, abacaxi e laranja. Tábata explicou como precisava ser cortada cada uma das frutas e Aki começou o serviço.
Algumas travessas de vidro estavam dispostas ao lado para serem preenchidas. O cheiro adocicado e cítrico se espalhava no ambiente quando as frutas eram cortadas, e se misturavam ao aroma salgado da comida sendo preparada. O cômodo estava quente, com uma leve fumaça pairando, apesar dos exaustores.
Alguns minutos se passaram e duas travessas já haviam sido cheias. Uma das auxiliares de cozinha as pegou e levou para outro canto, abrindo mais espaço para as duas trabalharem. A japonesa estava concentrada enquanto realizava a tarefa passada.
…
— Então, o que acha da proposta? — Victor perguntou, após expor suas ideias para Rafaela e ela pensar por alguns segundos, em silêncio.
Victor sabia que o tempo estava correndo e ele precisava dar atenção aos outros convidados, e ainda iria fazer um discurso. Além disso, queria conversar com outro convidado importante para a associação.
Automaticamente, ele batucou com os dedos na mesa, um pouco nervoso com a situação. Sentia sua mão suar frio quando pensava em tudo que ainda podia acontecer naquela noite.
— A sua proposta é, no mínimo, muito interessante… — Rafaela finalmente respondeu, deu um gole na bebida em sua taça, e continuou: — Você está realmente levando isso a sério, não é mesmo?
Um sorriso discreto e profissional surgiu nos seus lábios e Victor acenou, sentindo um frio na barriga. Tão importante quanto a sua proposta com o senhor Ronaldo, era essa parceria com a Élysée Beauty Group, ou simplesmente Élysée, como era mais conhecida.
A “Brilho Feliz” era muito beneficiada com essa empresa, onde eles realizavam doações de kit higiene para ser distribuído, além de oficinas de autoestima, cuidado pessoal e valorização. Também disponibilizaram para conveniados da associação, um cadastro, que permitia descontos em determinados lugares.
A ideia de Victor era propor um contrato onde a Elegance Affairs divulgaria e usaria os produtos da Élysée nos eventos que organizassem. Isso, ajudaria na divulgação do nome, já que uma das propostas de Rafaela era distribuir seus produtos no Japão.
— Eu preciso levar… — Ele respondeu, levantando-se. — Eu preciso falar com os outros convidados, mas você pode me dar a resposta depois. E também podemos ajustar os detalhes, se tudo der certo, por telefone ou e-mail.
…
Aki já havia finalizado de ajudar no corte das frutas. Ela limpou a testa com o braço, sentindo suor se formando. O calor ali dentro chegava a ser exaustivo.
“Por isso eu não gosto de cozinha industrial…” — Ela pensou, relembrando as vezes que já ficou nesse tipo de ambiente e o calor era sempre igual. “Embora seja muito divertido, é cansativo. Prefiro a cozinha da minha casa… quero dizer, da nossa casa, Victor…” — Ela sentiu um misto de vergonha e ansiedade e suas bochechas coraram.
— Aki, pode nos ajudar aqui? — Tábata pediu, já se posicionando atrás das panelas da distribuição de comida. — Vamos montar os pratos e os organizar naqueles balcões. — Ela apontou.
Uma enorme bancada com um forro branco estava à espera dos pratos, onde o pessoal formaria uma fila e se serviriam. Apesar da festa ser aberta para todos os associados, havia, relativamente, pouca gente, ainda que fosse um número relativamente grande.
“Será que não teria sido melhor ter contratado uma empresa de bufê?” — Aki ponderou, em determinado momento, sabendo que esse tipo de empresa já tinha a experiência necessária para essas ocasiões, evitando assim, uma possível bagunça.
Pelo que Victor tinha lhe explicado, a associação optou por eles mesmos organizarem, para se sentirem mais “unidos”, como eles descreveram. Inclusive, muitos associados estariam ajudando na organização. Mesmo que fosse melhor ter contratado uma empresa especializada em bufê, não teria o mesmo efeito.
Com isso em mente, após refrescar a memória, ela optou em deixar isso de lado, focando-se no trabalho: “Não adianta ficar com especulações. Já estamos aqui, é hora de agir!”
Aki ficou responsável por colocar arroz nos pratos e, após se organizarem na ordem de montagem, começaram o serviço. Aki era a primeira a colocar comida nos pratos e passava adiante.
…
“Será que ele não veio?” — Victor pensou, enquanto seguia caminhando pelo salão, ainda atento a cada rosto conhecido que pudesse identificar. Seus olhos varriam as mesas, mas Jonas não estava em lugar algum. Ele suspirou discretamente, tentando disfarçar a leve frustração.
— Victor! — Uma voz feminina chamou seu nome. Era dona Márcia, uma das associadas mais antigas, uma senhora simpática, de cabelos grisalhos e olhar carinhoso. — Que bom ver você aqui.
Ele se aproximou e ela segurou sua mão com força.
— Eu só queria agradecer… — Disse, emocionada. — Esses oito anos da “Brilho Feliz” mudaram a vida da minha família. O apoio que recebemos foi fundamental, especialmente quando eu perdi meu emprego. Vocês nos deram esperança.
Victor sorriu, sentindo o peso e a importância daquelas palavras. A cada pequeno encontro com associados e parceiros, percebia o quão grande era aquele projeto e um sentimento de melancolia e arrependimento o rodeava.
“Como pude deixar isso de lado? Quantas pessoas deixaram de ser ajudadas nesse tempo que ele fez pouco caso com a associação?” — Essas e outras perguntas martelavam sua mente com força e ele sentia como se um tinir agudo ecoasse pelo seu cérebro.
— Fico feliz em ouvir isso, dona Márcia. É por histórias como a sua que tudo vale a pena. — Respondeu, apertando levemente a mão dela antes de se despedir.
“Sim, é por isso que fundei a “Brilho Feliz”, para ser um brilho de esperança e trazer felicidade para quem precisa de ajuda…” — Continuou ponderando, enquanto cumprimentava mais pessoas.
Então, continuou sua caminhada e foi parado por um rapaz mais jovem, que parecia nervoso.
— Senhor Victor… eu não sei nem como agradecer. Graças aos cursos da associação, consegui meu primeiro emprego. Eu… eu realmente não teria conseguido sozinho. — Gaguejou, passando a mão na cabeça, nervosamente.
Victor colocou a mão no ombro do rapaz:
— Quem conseguiu foi você. Nós só demos a oportunidade. Continue firme. Planeje seus sonhos e metas, e construa sua história. — Aconselhou, antes de seguir, seguindo o lema ensinado pelos cursos.
— Isso chega a ser emocionante… — Murmurou, como se pensasse em voz alta.
Mas o que o surpreendia a si mesmo, era a quantidade de pessoas que o paravam para cumprimentar, agradecer e contar suas histórias. Cada relato reforçava nele a sensação de que aquele evento não era apenas uma celebração fútil ou para se mostrar. Era uma prova de que o esforço coletivo tinha dado frutos. E isso era revigorante.
Mesmo assim, no fundo, não conseguia evitar pensar em Jonas. Onde ele estaria? Será que desistiu de vir? Ele não queria deixar essa frustração atrapalhar sua noite.
“Ele seria importante para completar o plano… vou ter que procurá-lo depois…”
Então, uma voz feminina o tirou do breve devaneio.
— Victor! — dessa vez, uma das organizadoras da equipe de apoio o chamou, acenando com entusiasmo. — Chegou a hora do discurso!
Um frio percorreu sua espinha. Ele respirou fundo, ajeitou discretamente a gola da camisa polo cinza e assentiu, caminhando em direção ao palco.
Era a sua vez…
…
Quanto mais pratos enchia com arroz, mais pratos vazios pareciam surgir para serem enchidos. Aki suspirou internamente, pensando em quanto tempo ainda levaria para acabar ali.
Apesar de estar gostando de ajudar, não estava acostumada a ficar tanto tempo num ambiente tão quente, com tanta pressão. Geralmente, ela apenas participava como supervisora, e não precisava fazer esse tipo de trabalho.
“Agora eu posso admirar ainda mais o pessoal dos bufês! Isso aqui é muito cansativo!” — Ponderou, dando um leve sorriso, enquanto continuava enchendo pratos com arroz.
— Vamos pessoal, estamos quase acabando! — Um dos auxiliares da cozinha bradou, numa tentativa assertiva de levantar os ânimos.
Passado um tempo, finalmente não tinha mais pratos esperando. Ela respirou, aliviada, sentando-se numa cadeira mais próxima de uma janela para pegar um ar. Ainda assim, a temperatura ambiente não ajudava. Estava um dia quente, mesmo que já estivesse de noite.
Alguns minutos se passaram e Aki ainda se abanava discretamente com as mãos, tentando espantar o calor que parecia ter grudado em sua pele. “Esse calor está matando!” — Exclamou mentalmente.
De repente, ouviu alguns murmúrios vindos do salão principal. Pessoas se levantavam, outras ajustavam as cadeiras, e a movimentação indicava que algo estava prestes a acontecer.
Curiosa, Aki se levantou e caminhou até uma das portas que ligava a cozinha ao salão. Abriu apenas um espaço discreto, suficiente para espiar.
No palco, Victor já estava posicionado, de frente para todos. Ela percebeu que ele respirava fundo antes de segurar o microfone. A postura ereta, o olhar atento e a seriedade estampada em seu rosto.
Seu coração acelerou.
“É agora… o discurso dele…” — Pensou, apertando as mãos contra o avental que usava.
Aki sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se compreendesse que aquilo era muito mais do que apenas algumas palavras a serem ditas. O olhar de Victor lhe mostrava que para ele, aquele discurso seria algo importantíssimo.
Mesmo com aquela sensação de cansaço, ela sorriu:
“Você vai brilhar, Victor. Eu sei que vai.”.
Pensou, antes de murmurar: — Boa sorte!

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