Capítulo 113: Outras faces...
12 de abril de 2024, sexta-feira.
O sol estava alto e escaldante quando o caminhão branco, com o grande logotipo azul e verde da TransGlobal Brasil estampado na lateral, dobrou a esquina e estacionou diante de um amplo terreno batido de terra. As letras se destacavam na lateral: TGBs.
Victor foi um dos primeiros a descer do carro que seguia logo atrás, ajeitando a camiseta. Olhou para Aki descendo do carro, mais lento do que normalmente demoraria.
— Chegamos, finalmente… — comentou.
Ela olhou em volta com curiosidade, mas também com uma ponta de apreensão. Não era como nada que havia visto até então no Brasil. Várias paredes das casas expostas, apenas no tijolo; outras com a pintura muito gasta ou desbotada; vielas que se estendiam e acabam se entrelaçando… Durante os dias anteriores, tudo parecia um recorte de boas lembranças — e agora, era como outro lugar completamente diferente.
O terreno improvisado como ponto de distribuição já tinha uma fila formada. Homens, mulheres e crianças esperavam pacientemente, alguns segurando pequenos cartões, outros apenas de pé, observando. O murmúrio de conversas se misturava com o barulho distante de rádios tocando funk ou sertanejo.
Aki ajeitou a bolsa atravessada no ombro e respirou fundo.
— Victor… aqui… — hesitou por um momento. — É muito diferente de tudo o que eu vi até agora.
Ele assentiu, já esperando a reação dela.
— É… aqui você está conhecendo uma outra face do Brasil. Não é só praia, música e festa. Tem muita gente que passa por dificuldades… e é por isso que a gente está aqui hoje.
Victor já tinha comentado com Aki sobre essa situação de pessoas necessitadas, mas o que ela havia visto anteriormente, era a parte interna da “Brilho Feliz”, não imaginando que a parte externa era delicada daquela forma.
Do caminhão, alguns voluntários começaram a descarregar as cestas básicas — caixas de papelão, pesadas. Cada uma trazia arroz, feijão, óleo, açúcar, farinha, leite em pó, enlatados e alguns pacotes de macarrão. Era comida para sustentar uma família por algumas semanas.
O motorista do caminhão, um homem robusto de boné, de nome Roney, desceu e se encontrou com Victor:
— É um prazer te encontrar aqui, senhor. — cumprimentou, cordialmente.
Victor assentiu, enquanto apertava a mão do homem. Após um breve diálogo, o motorista se afastou, indo ajudar a descer algumas cestas.
Aki observava em silêncio, tentando absorver aquela cena. E de repente, imagens, como um flash, passavam em sua mente, lembrando-se de quando Victor disse que a sensação de botar a mão na massa era diferente. Ela observou o chão de terra batida, que levantava pequenas nuvens a cada passo das pessoas. As crianças corriam descalças em alguns pontos, algumas vestindo roupas já gastas, outras com camisetas de times de futebol.
“É mesmo bem diferente de tudo que vi até agora do Brasil…”
Victor percebeu seu semblante e tocou levemente seu ombro.
— Tá tudo bem?
— Sim… — Ela respondeu baixo. — Só é diferente do que eu estava imaginando. Foi um choque.
Ele respirou fundo e falou num tom mais suave:
— Esse é o Brasil real também… Não é só propaganda de cartão postal. Tem muita beleza, mas também tem muita desigualdade. Por isso essas ações são importantes. Nosso trabalho na “Brilho Feliz” é justamente esse, de trazer um pouco mais de esperança para essas pessoas que estão numa situação ruim.
Um coordenador do projeto começou a organizar a fila, pedindo calma. O barulho de vozes aumentava conforme as primeiras cestas eram entregues. Aki, sem saber muito como ajudar, se aproximou de Victor que já pegava uma caixa.
— Quer tentar ajudar a entregar? — Ele perguntou.
Ela hesitou: — São pesadas?
— Bastante. — riu, ajeitando a caixa nos braços. — Mas você pode ajudar em outras coisas, como organizar a fila das crianças ou entregar os pacotes menores.
Foi então que percebeu um grupo de garotos e meninas olhando fixamente para ela. Tinham entre sete e dez anos, e cochichavam entre si. Um deles, mais corajoso, se aproximou e puxou a camiseta dela.
— Moça… você parece aquela menina do desenho que meu pai assiste.
Aki piscou, confusa, sem entender o que ele falava. Victor riu e traduziu, quando botou a caixa que carregava no chão.
O garoto ficou animado quando Victor perguntou de qual desenho era.
— A do cabelo preto que brilha no sol! — E logo vieram outros, cercando-os em roda.
— Parece a mocinha que luta com espada!
— É igualzinha à do cabelo fofo que o professor gosta!
— Você fala japonês mesmo?
Aki levou a mão ao rosto, sem saber se ria ou se se escondia. Estava encurralada pela curiosidade infantil e não entendia o que diziam, deixando para Victor o trabalho de tradutor.
— E-então… sim, eu sou japonesa… — respondeu e Victor traduziu. Alguns soltaram um “oohhh” coletivo.
Uma menina sorriu, segurando a barra da camiseta dela.
— Fala como no desenho pra gente! — Os olhos brilhavam cheios de expectativa.
Aki sentiu seu rosto corar. Olhou para Victor, que apenas sorria divertido, e então se inclinou um pouco para as crianças.
— Ohayou gozaimasu. — disse, cheia de confiança.
As crianças explodiram em risadinhas, repetindo a frase com sotaques variados, completamente fora do tom certo.
— O-ha-yo go-za-maçu! — Um deles gritou, arrancando gargalhadas dos outros.
Victor se aproximou dela.
— Tá vendo, Aki? Aqui você é uma celebridade.
Ela balançou a cabeça, meio sem jeito, mas não conseguiu deixar de sorrir. O olhar brilhante daquelas crianças, mesmo em meio a uma realidade difícil, tinha uma força inesperada.
Por um momento, sentiu-se cheia de uma energia positiva, se sentindo parte de algo tão bonito e belo como esse projeto e, talvez, fazendo alguma diferença na vida de algumas crianças. Seu coração batia forte só de pensar nisso.
Enquanto isso, uma senhora recebia sua cesta básica das mãos de uns dos colaboradores. Ela agradeceu emocionada, segurando firme a caixa, com a ajuda de outra moça, e disse:
— Que Deus abençoe vocês. A gente precisava muito disso.
Victor assentiu respeitosamente, se aproximando dessa fila. — É por isso que a gente tá aqui… — E continuou o diálogo com a senhora, sem demorar muito.
Aki observava a cena, e seu coração apertava novamente. No Japão, a pobreza tinha outra forma, mais escondida, menos escancarada. Mas ali, tudo estava diante de seus olhos: a necessidade, a desigualdade, e ao mesmo tempo, a gratidão.
Ela respirou fundo e se aproximou de Victor quando tiveram um pequeno intervalo.
— Eu não sabia que… tinha tanta gente precisando assim… — A voz saiu baixa, quase um sussurro.
Victor assentiu, enxugando o suor da testa com o braço.
— Pois é… e essa é só uma comunidade. Imagina o Brasil todo. É uma luta constante. Mas… se cada um fizer um pouco, já ajuda.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, observando ao redor. Crianças brincando de correr com uma bola de plástico, adultos em fila com olhar esperançoso, jovens ajudando na descarga das cestas.
— Eu… não sei o que dizer. — confessou, apertando as mãos.
Victor sorriu de canto, colocando a mão sobre a dela.
— O que podemos fazer aqui, é ajudar essas pessoas. Vamos continuar firmes!
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Aki estava, novamente, ajudando na organização da fila de crianças. Agora estavam distribuindo uma lembrancinha para os pequenos. Após algum empurra-empurra e pequenas confusões, tudo acabou bem.
Aos poucos, a multidão foi se dispersando. E o que marcava aquele encontro era o sorriso no rosto das pessoas quando recebiam a cesta básica. Aki, embora tivesse ficado mais por conta das crianças, que também tinham um sorriso genuíno nos rostos, não pôde evitar de perceber como os adultos também reagiam.
E era como Victor havia falado: a sensação no peito, aquele calor e aquela emoção, eram muito mais impactantes do que quando se vê de fora.
Ela percebeu também que Victor era muito respeitado. Várias pessoas pareciam lhe conhecer e o cumprimentavam com abraços e sorrisos calorosos.
“Então esse é o verdadeiro Victor, não é?” Divagou. “Será que, quando voltarmos ao Japão, algo vai mudar?”
Pensamentos variados passavam por sua cabeça. Ela sabia que, agora provavelmente, Victor teria muito mais destaque do que estava tendo recentemente.
Lembrou-se ainda do que Victor havia conversado com ela, sobre ter destaque, inclusive na mídia. Um frio percorreu sua espinha. Foi aí que percebeu que tinham pessoas tirando fotos de todo o evento.
Só agora pensou nisso: Seriam eles paparazzis? Jornalistas? Fotógrafos amadores? Uma série de suposições passaram por sua mente. “Será que isso vai ser divulgado?”
Aki não queria que toda essa incerteza e dúvidas atrapalhasse o que estava fazendo, então, forçou-se a concentrar-se naquele serviço.
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Quando finalmente chegaram à sede da “Brilho Feliz”, Victor e Aki se encontraram com Amaro e Rosália, sentados numa mesa específica para reuniões. Foram servidos com biscoitinhos e café, enquanto comentavam sobre o evento.
— Foi um dia memorável! — Rosália comentou, com um tom animado e orgulhoso. — Ter sua presença aqui foi realmente gratificante.
— Só funcionou bem porque todos nós nos esforçamos. Toda a equipe está de parabéns.
Aki não conversou muito, já que o casal mais velho não sabia falar outro idioma, além do português. A conversa se estendeu por mais algum tempo, até que se despediram e voltaram ao quarto do hotel.
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Victor estava em pé, de frente para Aki, os olhos fixos naquelas duas jóias âmbar, emolduradas numa pintura esplêndida.
O coração de Aki batia forte. O seu namorado havia, simplesmente, se levantado, quando ela estava caminhando pelo quarto e parado na sua frente.
— Como você está se sentindo? — perguntou, num tom curioso.
— Eu estou muito feliz, Victor! — Aki expressou, seus olhos não mentiam. — Foi uma experiência incrível! Eu pude conhecer várias pessoas legais nesses últimos dias, além de te conhecer melhor… digo, eu pude ver um lado totalmente diferente seu. É como se eu tivesse conhecido “outra face” sua.
— Me dói pensar que larguei isso tudo por um tempo, mas agora, eu estou decidido, nunca mais farei isso. Eu pude perceber e lembrar o quanto esse projeto é importante.
— E foi como conversamos, a sensação de “pôr a mão na massa”, é incrível!
— Como eu havia dito? — provocou, num tom de brincadeira. — Mereço algum prêmio? — Ele abriu os braços.
Ela sorriu e engoliu em seco. Tinha certeza que seu rosto estava vermelho, mas não tinha porque correr daquela situação. Era seu namorado, era o Victor, pedindo um abraço de forma tão… leve.
— Sim. — Aki saltou nos braços de Victor, em seguida começando um beijo.
Por mais que ela soubesse respeitar o espaço de terceiros, Victor estava ali, lhe autorizando de forma explícita. E, embora estivesse sentindo uma pontada de vergonha, também queria muito aquilo.
O beijo se aprofundou, carregado de ternura e desejo. Para Aki, cada segundo parecia preso no tempo, como se o mundo ao redor tivesse se apagado, restando apenas o calor dos lábios de Victor contra os seus.
Seu coração acelerava tanto que ela tinha medo de que Victor pudesse ouvi-lo. Pensou em todo o tempo que havia esperado por aquilo, em todas as vezes que o imaginara, principalmente quando teve suas imaginações com Victor. Mas não havia espaço para pensar em coisas passadas agora estavam ali, e era tudo real.
“Então é isso…” — Refletiu em silêncio, sentindo o toque dele, que trazia uma confirmação palpável. Era como se estivesse selando, em silêncio, aquele momento. — “O sabor de estar com quem eu amo… Esse é o momento que eu esperei tanto para viver.”
Os dedos dela se apertaram contra a camisa dele, quase instintivamente, como se quisessem garantir que nada a arrancaria dali. Cada batida do coração, cada respiração ofegante, trazia a certeza de que aquele instante não era algo que já imaginava, mas que era a materialização de seus sonhos bobos de uma garota apaixonada.
Quando o beijo terminou, Aki permaneceu próxima, os rostos quase colados. Seu olhar brilhava, e sua voz saiu suave, mas firme:
— Victor… eu quero… — Hesitou, mas não desviou o olhar. — Eu quero continuar vivendo esses momentos para sempre. Nunca me esquecer deles.
Victor a observou, os olhos brilhando com a surpresa genuína pela coragem dela em dizer aquilo. Ele passou a mão pela lateral do rosto dela, como se confirmasse que estava tudo bem.
— Para sempre? — repetiu, num tom baixo, como se buscasse uma confirmação dum momento que não quisesse esquecer.
Aki assentiu, sentindo o calor subir às bochechas, mas sem recuar:
— Para sempre. Quero guardar isso… nós dois, assim… não só hoje, mas em todos os dias que vierem.
Victor sorriu, e antes de responder, a puxou novamente para um beijo mais demorado. Um beijo da confirmação daquele momento.
Aki fechou os olhos, sentindo cada toque de forma intensa. Sentia um calor no seu peito, uma sensação que lhe enchia de energia e uma vontade ainda mais forte de continuar naquele beijo.
Foi quando Aki deslizou sua mão pela camisa de Victor, até chegar na barra, e começou a puxá-la para cima. O movimento era lento, hesitante, mas no fundo, tinha certeza do que queria ali, naquele momento.
“Eu não vou mais segurar meus sentimentos nem meus desejos!” — determinou em pensamentos, enquanto Victor, surpreso, recuou um pouco o rosto, olhando-a com curiosidade.
— Aki? — perguntou, buscando uma resposta para entender o que estava acontecendo.
— Victor… Eu acho que, eu estou pronta…

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