Capítulo 119: Notícias que espalham como fogo em palha
04 de maio de 2024, sábado.
O silêncio que tomou conta da sala após a revelação de Aki parecia se estender por minutos inteiros, embora não fossem mais que alguns segundos. Natsu e Fuyu se entreolharam, tentando decifrar se tinham ouvido direito. Natsu até enfiou o dedo mindinho no ouvido, como se limpasse. Victor, encostado de leve na parede, observava a reação deles com uma expressão de quem estava se divertindo com a reação.
— “Nossa casa”? — Natsu repetiu novamente, como se testasse a frase em voz alta para ver se realmente fazia sentido.
Fuyu arregalou os olhos:
— Então quer dizer que vocês… já estão… morando juntos?!
Aki respirou fundo, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Seu rosto estava ligeiramente corado, mas sua voz soou firme:
— Sim. Faz algumas semanas, na verdade.
Natsu se jogou no sofá como se tivesse recebido um soco no estômago.
— Como assim “algumas semanas”? A gente nem sabia! — Ele apontou para Victor, teatralmente indignado. — E vocês estavam escondendo isso da gente?
Victor deu de ombros, erguendo as mãos como quem se rende.
— Não era bem esconder… É que as coisas aconteceram naturalmente, e não encontramos o momento certo para contar. Não é algo que simplesmente possa ser dito pelo telefone.
Fuyu, mais contido que o irmão, apenas suspirou, sentando-se ao lado de Natsu.
— Eu pensei que fosse demorar mais… A mamãe provavelmente vai ficar emocionada. — Ele riu meio sem graça.
Aki se aproximou dos dois, cruzando os braços e encarando-os com firmeza.
— Sim, mas nós somos adultos, não é? Estamos em um relacionamento sério, e não vimos motivo para enrolar. As coisas foram acontecendo e… bem, aconteceu.
— Adultos? — Natsu exclamou, ainda inconformado. — Vocês ainda são muito jovens.
— Falou, velhinho. — Victor retrucou, rindo.
— Só falta vocês dizerem que já vão se casar.
Um silêncio se seguiu. Victor, percebendo que ficou aquele clima estranho, decidiu explicar, quando Natsu já estava começando a ter uma ideia errada.
— Bem… isso é verdade. Nós pretendemos nos casar, não é, Aki? — Ele olhou para a garota, que assentiu.
Os irmãos praticamente saltaram da mesma forma, como se fossem uma dupla ensaiada.
— O quê?! — ambos exclamaram em uníssono.
— Ainda não temos uma data definida — Aki acrescentou apressadamente, tentando amenizar o choque. — Mas é o que queremos.
O choque inicial foi seguido de uma enxurrada de perguntas.
— Vocês já contaram pros nossos pais? — Fuyu perguntou, preocupado.
— Ainda não… — Aki respondeu, deixando um ar de quem estava pensando nas palavras. — Mas vamos contar em breve. Como o Victor disse, não é algo que possa ser dito simplesmente pelo telefone, e não temos uma data ainda.
Natsu colocou a mão na testa, dramatizando:
— Isso vai dar uma confusão.
Victor não conseguiu segurar uma risada baixa diante da reação exagerada dele.
— Talvez… mas acreditamos que eles vão entender. Eu prometo que vou cuidar da Aki, não há porque se preocupar.
O assunto, entretanto, não terminou por ali. Quando se acomodaram novamente, Aki puxou outro tópico:
— E falando em família… Na próxima semana, vamos para Nagano, como falamos no bar.
Os dois irmãos se animaram de imediato, voltando ao tópico.
— Ótimo! Assim vocês podem ficar em casa, com a gente. Nos próximos dias nós estaremos em Nagano e vamos poder nos encontrar lá. — disse Natsu, seu tom animado não diminuindo.
— Na verdade… não vamos ficar na casa do papai e da mamãe. — Aki corrigiu, um pouco sem jeito. — Ficaremos em um hotel.
O ar da sala pareceu congelar de novo.
— Um hotel? — repetiu Fuyu. — Mas por quê?
Victor respirou fundo e explicou calmamente:
— O evento em Nagano será dividido em duas partes: uma na sexta à noite e outra no sábado à noite. Precisaremos estar perto do local, com acesso fácil e sem distrações. Vai ser intenso.
Natsu estreitou os olhos, desconfiado.
— Vocês não querem ficar na casa só pra evitar perguntas, né?
Aki soltou uma risada, passando a mão na testa.
— Não, Natsu. É questão prática. Não vamos ter tempo de ficar indo e voltando, e precisamos estar descansados para o evento. O evento não vai ser tão perto da casa deles.
Fuyu pareceu ponderar por alguns segundos antes de concordar.
— Faz sentido… mas nossos pais não vão engolir essa desculpa tão fácil. Haha.
— É a verdade. — Victor respondeu. — Não é uma desculpa.
O clima começou a se acalmar, até que Natsu, como sempre, não resistiu a cutucar:
— Então, primeiro vocês já estão morando juntos, depois revelam que pretendem se casar, e agora dizem que não vão dormir na casa dos nossos pais em Nagano… Vocês gostam de viver perigosamente, né? A mamãe vai querer explicações.
Todos riram, inclusive Aki, mesmo que com um certo nervosismo.
Depois de alguns minutos de conversa descontraída, Victor mencionou a terceira novidade.
— Ah, e pouco antes de Nagano, teremos outra viagem.
— Outra? — Fuyu arqueou as sobrancelhas. — Pra onde?
— França. — Victor respondeu. — Uma reunião com potenciais investidores internacionais.
Os dois irmãos arregalaram os olhos mais uma vez.
— França?! — Natsu quase se engasgou com a própria saliva, saltando do sofá. — Então é uma lua de mel disfarçada de reunião!
Victor riu, balançando a cabeça.
— Que lua de mel? Não viaja. não tem nada a ver com isso. Vai ser uma das reuniões mais tensas que já tivemos. Representantes de várias empresas grandes estarão lá. Não é um passeio romântico, é um trabalho árduo. — Finalizou com certo orgulho na voz.
Aki reforçou, antes que os irmãos pudessem responder.
— A viagem vai ser exaustiva. Estaremos sob pressão o tempo todo.
— Mas… vocês vão juntos, não é? — Fuyu perguntou, com um meio sorriso.
— Sim — Aki confirmou. — Mas isso não significa que teremos tempo para aproveitar.
Natsu inclinou o corpo para trás, colocando as mãos atrás da cabeça e soltando um assobio.
— Ainda assim… Vocês dois estão avançando em passos de gigante. Eu não sei se admiro ou se fico preocupado.
— Pode ser os dois. — Victor respondeu com simplicidade, arrancando outra rodada de risadas. — Acha que não percebi aqueles olharem com a Sayuri? — Agora foi a vez de Victor provocar o cunhado, que se levantou apressadamente, gesticulando de forma apressada.
— O quê?! Eu não troquei nada. Quero dizer… — Ele gaguejou e todos riram.
— Ei, seu traidor, você ficou de olho na Yumi. Acha que ninguém percebeu isso?
Agora foi o irmão mais novo quem tentou se justificar, fazendo Victor e Aki rirem muito da reação deles e acalmando o clima tenso de antes.
A noite avançava lentamente. Os irmãos continuavam impressionados, mas a cada explicação ficava claro que o relacionamento de Victor e Aki não era apenas um impulso, mas algo sólido e concretizado.
Quando, mais tarde, Aki foi até o quarto buscar algumas roupas de cama para os irmãos dormirem no quarto de visitas, Victor aproveitou para ficar sozinho com eles por alguns instantes.
— Sei que pode parecer rápido demais — ele disse, sério, quebrando o tom barulhento —, mas quero que entendam: eu amo a Aki. E quero construir uma vida com ela.
Os dois ficaram em silêncio, analisando sua expressão. Natsu foi o primeiro a responder:
— Você parece sério demais pra estar mentindo… Quero dizer, nunca duvidamos de você. Desde a primeira vez, sabemos que você era um cara legal. E a nossa irmã já estava gamada em você. Haha.
Fuyu assentiu, rindo:
— Se for pra fazê-la feliz, acho que não temos do que reclamar. Você é uma ótima escolha. Gostamos de você, e a mamãe e o papai ainda comentam sobre o “Victor” quando têm a oportunidade.
Victor sorriu de leve.
— Obrigado.
Pouco depois, Aki voltou e os irmãos se acomodaram. Mas, antes de apagar as luzes, Natsu não resistiu a mais uma provocação:
— Só não esqueçam de avisar os nossos pais, porque quando eles descobrirem por terceiros… será um choque.
Aki suspirou fundo, já prevendo o futuro.
— Eu sei… Eu sei…
…
05 de maio de 2024, domingo.
O sol mal tinha subido quando Natsu e Fuyu já estavam de pé, ajeitando mochilas e agradecendo pela hospitalidade. O café da manhã foi rápido, e, diferente da noite anterior, o clima estava tranquilo.
— Obrigado, irmãzinha. — Natsu disse, puxando Aki para um abraço apertado, quase sufocante. — Da próxima vez, você vai cozinhar pra gente, e nada de esconder novidades.
Fuyu, mais tímido, inclinou a cabeça em agradecimento para Victor.
— E… cuide bem dela. Ela é nossa preciosa irmãzona. E agora, você é meu irmãozão, né?
— Sempre irei cuidar dela. — Victor respondeu, sincero. — E já sou irmãozão da Haru, não tenho mais vaga disponível. — Ele ergueu o punho, mostrando a fitinha, com um sorriso provocador.
Começou uma breve discussão teatral, com, principalmente Natsu, sendo o irmão inconformado com aquela declaração.
Pouco depois, os dois irmãos desapareceram, depois que se despediram, deixando a casa mais silenciosa do que antes. Aki suspirou, encostando-se à porta após fechá-la.
— Finalmente… — murmurou. — Eu adoro meus irmãos, mas eles sempre trazem essa energia caótica. Dão muito trabalho.
Victor sorriu, sentado no sofá.
— Mas foi bom. Acho que, no fim, eles aceitaram bem a notícia. E eles têm razão em algo: devemos falar com seus pais.
— Aceitaram “bem” demais. — Aki resmungou, cruzando os braços. — Aposto que, neste exato momento, já estão mandando mensagens para os meus pais. Daqui a pouco a mamãe me liga.
Victor ergueu a sobrancelha, quase rindo.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza. — ela respondeu, suspirando.
…
O dia seguiu normalmente, com ambos aproveitando o domingo para descansar. Victor revisava alguns documentos do próximo evento em Paris, enquanto Aki se dedicava a organizar roupas e fazer algumas anotações em seu telefone. O clima de tranquilidade durou até o início da tarde, quando o celular dela vibrou sobre a mesa.
Na tela, o nome “Mamãe” apareceu destacado.
Aki engoliu em seco.
— Eu sabia… — murmurou, antes de atender.
— Aki? — a voz da mãe soou do outro lado, animada mas carregada de algo mais. — Precisamos conversar.
— O que foi, mãe?
— Como assim você está morando junto com o Victor? — a pergunta saiu em tom rápido, sem rodeios. — E como assim vocês já estão pensando em casamento?!
Aki levou a mão à testa.
— Natsu… — sussurrou. “Eu vou te matar!” Declarou em pensamentos.
Do outro lado da linha, a mãe continuava:
— Seu pai está aqui do meu lado, e ele também quer entender.
Aki ouviu um pigarro firme antes da voz do pai surgir:
— Filha, isso é verdade? Vocês já estão morando juntos?
Ela fechou os olhos, respirando fundo.
— Sim, é verdade.
Do outro lado houve um silêncio breve, mas pesado. Até que a mãe exclamou:
— Mas por que não nos contou antes?
— Porque… — Aki buscava as palavras certas. — Porque as coisas aconteceram rápido, mas de forma natural. Não foi algo planejado de repente. Nós só… sentimos que era o momento. E achamos que, por telefone, não era a melhor maneira de contar.
Victor, percebendo a tensão, se aproximou e fez um gesto para que ela colocasse a chamada no viva-voz. Aki hesitou, mas acabou aceitando, quando mudou para uma videochamada.
— Olá, Shouto. Olá, Hana. — ele começou, com respeito. — Não tomamos essa decisão por impulso. Estamos vivendo juntos porque acreditamos que é o passo certo para nós agora.
— Victor… que prazer te ver. Nós gostamos de você. Mas tudo isso é tão repentino. Ficamos em choque! Vocês já pensam em casamento?
— Sim. — Aki respondeu antes dele. — Nós pretendemos nos casar. Não agora, mas em breve.
O pai pigarreou novamente.
— “Em breve”? O que isso significa? Este ano? No próximo?
— Não temos uma data ainda. — A garota respondeu, mordendo o lábio inferior.
— Hmph. — o pai murmurou. — Nós confiamos em vocês. Mas tomem a decisão com sabedoria. — Exortou.
A mãe, porém, parecia mais preocupada com outro detalhe:
— E ouvi dizer que, quando vierem para Nagano, não vão dormir em casa. É verdade?
Aki suspirou.
— É verdade. Ficaremos em um hotel.
— Um hotel?! — a mãe quase gritou. — Por que fariam isso, quando têm um lar aqui?
Victor tomou a frente, sua voz firme mas educada:
— O evento em Nagano vai ser dividido em duas noites seguidas, sexta e sábado. Precisaremos estar descansados e próximos do local. Não é falta de consideração, é uma questão prática.
O pai respondeu com tom duro:
— Não quero que pareça que vocês estão nos evitando…
— De forma alguma. — Aki rebateu. — Nós vamos visitá-los durante o dia. Só não dormiremos aí.
O silêncio que se seguiu parecia um campo minado. Até que a mãe suspirou, em voz baixa:
— É difícil pra nós, Aki. Sempre imaginamos você em casa, com calma… e de repente já está morando com o Victor e falando de casamento. Acho que não vimos o tempo passar. Você já está tão grande! — Uma lágrima escorreu no rosto de Hana e Aki sentiu um aperto no coração, mas suavizou o tom.
— Eu sei que é difícil. Mas, mãe, pai… eu estou feliz. Com o Victor eu me sinto segura, compreendida. Não é um capricho. Eu… — Ela hesitou, desviando o olhar brevemente, antes de voltar a atenção aos pais: — Eu amo o Victor.
Victor apertou a mão dela, em sinal de apoio.
— Prometo cuidar dela, sempre. Podem ficar tranquilos. — Ele sorriu e os pais se surpreenderam. Não era sempre que ele ria daquela forma.
Do outro lado, os pais permaneceram em silêncio por alguns segundos. Então o pai falou, mais brando:
— Se vocês estão certos disso… não temos como impedir. Só queremos que pensem com cuidado mesmo. Casamento é uma decisão muito séria.
— E que não nos deixem de lado. — completou a mãe, em tom emocionado.
— Nunca faríamos isso. — Aki disse com firmeza. — Vocês são parte da nossa vida.
…
Depois de mais alguns minutos de conversa, em que prometeram visitar os pais em Nagano, a ligação terminou. Aki deixou o celular na mesa e suspirou, caindo para trás no sofá.
— Eu sabia que seria difícil.
Victor passou o braço ao redor dela, aconchegando-a.
— Foi difícil, mas você foi incrível.
— Acho que agora a família inteira vai comentar sobre isso. — Ela encostou o rosto no ombro dele.
— Melhor assim do que viver escondendo. — ele respondeu, com um leve sorriso. — E, no fim, eles só querem ter certeza de que você vai ser feliz. Eles só estão preocupados com a filhinha deles. — Falou com certa provocação e Aki lhe deu um soco de brincadeira.
Depois, ficou em silêncio por alguns instantes, antes de responder, num tom suave:
— Eu sou feliz com você. — A voz saiu quase inaudível, mas ela continuou: — E eu quero continuar assim, com você, Victor. — Ela o olhava nos olhos agora.
Victor beijou sua testa, fechando os olhos por um momento.
— Então já temos a resposta que importa, né?
…
Naquela noite, enquanto jantavam juntos, Aki recebeu uma enxurrada de mensagens no celular. Algumas tias, primos e até uma vizinha de Nagano pareciam já saber das novidades. Até mesmo Sayuri e Yumi, junto com outros funcionários, mandaram mensagens falando algo como: “Ficamos sabendo que vocês vão se casar! Nem falaram com a gente!”
— Eu disse que seria como fogo em palha… — ela resmungou, mostrando o celular para Victor. — Olha só, minha tia me perguntando a cor do vestido de noiva! A Sayuri e a Yumi fazendo esse drama todo!
Victor caiu na gargalhada.
— Bom, pelo menos você já sabe com quem contar para organizar o casamento. Acho que você tem muitas pessoas que se importam com você.
Aki balançou a cabeça, sorrindo.
— Eu devia ter previsto isso. O Natsu e o Fuyu são dois fofoqueiros.
Victor estendeu a mão e segurou a dela por cima da mesa.
— Bem, essas fofocas não importam, né? No fim, é realmente o que queremos.
…
Naquela noite, já estavam deitados, prontos para dormir, quando Victor recebeu uma mensagem, que o fez dar um leve salto da cama quando a leu: — O quê?!

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