Capítulo 121: A reunião em Paris, França (2)
18 de maio de 2024, sábado.
Victor e Aki passaram pelo corredor, onde o chão era coberto por um carpete grosso o suficiente para abafar som de passos, enquanto as paredes exibiam quadros decorativos e algumas artes contemporâneas.
Ao fim do “túnel”, um amplo salão, com mesas enormes, organizadas em sessões de “entrada”, “acompanhamento”, “principal”, “sobremesas” e “sopas”. Um self-service muito luxuoso e extravagante. Havia muitas opções diferentes, de diferentes culturas e regiões.
Lâmpadas de cores quentes iluminavam todo o lugar, trazendo um ar requintado quando combinado com as mesas de acabamento atraente e cadeiras almofadas, aparentemente muito confortáveis e bonitas. As enormes janelas de vidro também permitiam a passagem de luz natural em abundância, deixando tudo muito bem iluminado.
Não tinha muitas pessoas presentes naquele horário, mas ainda era um movimento relativamente alto. Victor estava sem o terno e gravata, apenas com a roupa social simples, com camisa branca, calça e sapato de cor preta. Aki ainda estava com o vestido azul de antes. Suas unhas em estilo francesinha estavam delicadas, porém, atraentes. Seu cabelo preso num rabo de cavalo, diferente da reunião, que estava com um coque e mechas soltas emoldurando o rosto.
O clima primaveril da França era encantador, fresco e arejado. O hotel era quase um resort, com muitas árvores e flores ao redor, o que deixava um aroma muito sútil e floral no ar.
Victor logo identificou Choi e Kim, sentados numa mesa próxima a uma janela. O casal se aproximou, os cumprimentando novamente, quando foram convidados a se sentarem.
— Primeiramente, nos desculpe pela postura mais cedo. — Kim começou, cordialmente. — Estamos muito empolgados com a proposta do Event Link.
— É uma proposta ousada e inovadora, usando e abusando do sistema de inteligência artificial e da realidade virtual. Estamos deveras empolgados.
Victor respirou, quando com um sorriso profissional, respondeu:
— Entendo. Também estamos muito felizes com o progresso que conseguimos. — Ele intercalava o olhar com os dois, enquanto falava. — Na verdade, admiro a compreensão em relação à minha posição mais cedo. Estamos aqui como representantes da Elegance Affairs, e não da Pacca Consortium. — Justificou, sinalizando para ele e Aki.
Os dois assentiram, não querendo interromper.
— Contudo, agora, posso ser um representante da Elegance Affairs, já que não estamos na reunião. Vamos direto ao ponto: O que vocês propõem?
Choi e Kim sorriram, antes de responder:
— O projeto busca desenvolver cenários com realidade virtual, escaneando o ambiente, entre outras funções semelhantes. Nós, da Syntronyx Solutions, temos trabalhado justamente nessa área, com auxílio de IA focada nesse ramo. — Choi foi o primeiro a falar, e Victor assentiu, observando atentamente à explicação.
Aki, ainda que não fosse a reunião principal, sentia a tensão da conversa. Eram horizontes que, há até dois anos atrás, ela achava impossível de vivenciar. O ambiente luxuoso, os envolvidos na conversa, o nome de grandes empresas, o clima tenso e a sensação sufocante. Parecia uma mistura que somente se via em doramas, novelas, animes e demais séries fictícias. Ela engoliu em seco, quando apertou o tecido do vestido, tentando aliviar o estresse.
Victor, ainda que concentrado, percebeu a ação mínima da sua companheira e, com uma das mãos, que estava ligeiramente longe do alcance do olhar dos outros dois homens, segurou a mão dela. Ele percebeu que estava fria e mais úmida que o normal. Então, sem poder desviar o olhar da conversa, apenas segurou firme e apalpou em seguida, como se dissesse que está tudo bem.
Na verdade, aquela conversa não era nada quando se comparava com a reunião principal. As decisões tomadas ali não iriam influenciar diretamente nos planos da Elegance Affairs, embora pudesse ser benéfico de certa forma. Victor sentia que não era algo tão crucial.
— Então, pensamos em integrar a equipe de desenvolvimento, ajudando a aperfeiçoar essa área. O plano é esse. — Kim deslizou um papel pela mesa, até chegar na mão de Victor, que ergueu a folha e leu em silêncio. Aki acompanhou com os olhos.
Na verdade, não tinha muito o que fazer, afinal, ele estava tomando uma decisão pela Pacca Consortium e não pela Elegance Affairs. Neste caso, ela era praticamente uma espectadora.
Alguns minutos se passaram, com o silêncio da mesa sendo quebrado apenas pelo barulho do ambiente. O coração de Victor acelerou enquanto lia, sabendo que era uma decisão importante, e precisaria consultar Matheus, embora isso pudesse prejudicar a sua reputação como um representante.
E se os Sul-coreanos pensassem que estavam tratando isso com leviandade? Alguns pensamentos do tipo tomaram conta do brasileiro, enquanto analisava a proposta.
“Acho que será melhor se eu der uma resposta imediata…”, Victor ponderou, analisando a situação calmamente.
Aki, que tinha os olhos fixos no documento, quando terminou, prestou atenção em Victor e percebeu seu semblante hesitante. Sua expressão apática, pouco a pouco, se tornava mais fácil, pelo menos para ela, de ser lida. Talvez os outros não percebessem.
Agora, foi a vez dela de confortá-lo. Ele estava com as duas mãos expostas acima da mesa, mas Aki mantinha as mãos baixas, por não estar participando ativamente da reunião. Então, usou uma das mãos para encostar na perna de Victor — a única parte que ela conseguiria tocar sem que os outros percebessem —, sentindo seu rosto corar pelo gesto.
O namorado percebeu o toque sutil e rapidamente uma onda calorosa quebrou em seu corpo, lhe trazendo uma sensação de segurança na decisão. Ele raspou a garganta, que estava levemente seca, antes de prosseguir com a resposta:
— Os termos estão bons, favoráveis para ambos os lados. Exceto por um em específico, os outros estão ok.
Choi e Kim arquearam a sobrancelha, em surpresa.
— Qual termo específico?
— Esse. — Victor colocou a folha sobre a mesa, apontando com o indicador. — Bom, na verdade, o que me desagrada é a proporção. Não acho que seja justo essa porcentagem para a Syntronyx Solutions.
Internamente, Victor ainda sentia a pressão da decisão. Talvez fosse petulante de sua parte tomar a decisão sem consultar o Matheus, ainda mais por não ter sido nada programado? Ele sentiu o suor frio escorrer em suas costas.
Choi sentiu como se uma faca atravessasse seu peito. Aquela quantidade especificada já era muito baixa quando comparada com outros contratos semelhantes. A Syntronyx Solutions estava, basicamente, se colocando em desvantagem, apenas para conseguir integrar a equipe de desenvolvimento da Pacca Consortium. Entretanto, as palavras seguintes trouxeram uma sensação estranha para ele.
— Eu proponho que ajustemos em 40% sobre o valor pré-definido. Dessa forma, ficaria mais justo. O que acham?
Kim não pode deixar de inclinar o corpo para trás, com a surpresa que explodiu com aquela sentença.
— Senhor Victor, é muito humilde de sua parte, mas não queremos ser abusados. Integrar o desenvolvimento do Event Link já será de muito… — Ele foi interrompido.
— Não seja tão modesto, senhor Choi. Não queremos que nossos parceiros fiquem em desvantagem. Eu teria feito a mesma coisa se a Pacca Consortium saísse com algum prejuízo. Eu creio que, com a ajuda da Syntronyx Solutions, o projeto pode ter melhoras significativas.
Victor tentou fazer a menor quantidade de pausas possíveis, já que isso poderia ser visto como uma insegurança. Porém, também procuravam as palavras certas para que não parecesse estranho demais.
Os Sul-coreanos, no fim, deram um suspiro, com uma mistura de alívio e gratidão.
— No fim, acho que está tudo bem. Apenas corrijam esse valor e a gente fecha o contrato agora.
Aki não pôde deixar de sentir uma mistura de sentimentos complicados de serem explicados. A admiração pela sinceridade de Victor, a forma como administrou a situação e o seu nervosismo, fora que antes, também havia percebido sua inquietação e lhe acalmado. Seu coração bateu mais forte e um sorriso discreto estava em seus lábios.
…
No fim, após a correção dos valores, Victor assinou o contrato e, imediatamente, enviou para Matheus, explicando toda a situação que ocorreu. De certa forma, aquela pequena reunião dentro da reunião maior acabou por ser muito benéfica, já que uma das grandes dificuldades que a Pacca Consortium estava enfrentando no desenvolvimento do Event Link era justamente nessa área.
Victor não acreditava assiduamente em destino, contudo, ao lembrar de pequenas e grandes coincidências que aconteceram recentemente em sua vida, não pode deixar de pensar se isso realmente existia.
Já no quarto do hotel, estava mais relaxado. Após um banho quente, trocou de roupas e deitou na cama, com a mente exausta. E ainda precisava terminar de avaliar as outras propostas para a reunião de mais tarde. Aki saiu do banho, já com roupas mais casuais e se dirigiu até ele.
— Está muito cansado? — Comentou, quase tímida.
— Essas reuniões foram muito sufocantes. Até mesmo com a Syntronyx Solutions, que pensei ser mais tranquila, acabou exigindo muito. Eu fiquei com receio de tomar uma decisão de imediato… — desabafou, em seguida, sentando-se na cama.
— Bem, imagino. Eu, que não participei ativamente, senti a pressão. — Ela riu para descontrair e Victor a acompanhou.
— Seu sorriso é uma graça mesmo. Tão fofa! — Victor arrastou a última palavra, deixando Aki, visivelmente, envergonhada.
— Para! — Ela tapou o rosto, antes de bater nele com um travesseiro. — Não fale assim do nada. Me pega desprevenida.
— Preciso pedir autorização para te elogiar? — Victor provocou.
— Não é isso… — Ela tentou justificar. Victor achou isso ainda mais fofo e riu.
Depois de um tempo, os dois já tinham voltado ao trabalho, analisando as propostas que receberam..
— O que você achou?
— Na minha visão, está tudo certo. — Aki respondeu. — Se todos estiverem de acordo com o que propomos, acho que dá para fecharmos esse contrato.
— Mais cedo, você ficou muito quieta, apesar de ter uma ótima visão dos negócios. Por que não disse algo? — A pergunta era despretensiosa, mas a garota sentiu uma pontada de nervosismo.
— Eu não acho que eu seja muito boa em lidar com esse tipo de situação. Quero dizer, você já estava na dianteira e não vi uma forma de fortalecer suas palavras.
Victor suspirou, enquanto absorvia as palavras.
— Bom, fato é que a sua presença já me deixa mais tranquilo mesmo. — Ele não perdeu a oportunidade de comentar com um sorriso. — Mas seria bom se você se expressasse na reunião.
— Vou fazer o meu melhor! — Ela ergueu o punho fechado.
Porém, por dentro, estava hesitante demais. “Será que vou conseguir tomar a frente da palavra em algum momento? O que eu posso dizer que vai influenciar na decisão dos outros?” Ela pensava.
Rapidamente, um flashback se iniciou em sua memória. Estava numa sala de reuniões, com alguns funcionários atuais da Elegance Affairs, e outros que não estão mais presentes, assim como o próprio chefe Akashi. Ela teve a oportunidade de falar, mas se atrasou um bocado. Além de começar gaguejando, se atrapalhou na hora de repassar alguns dados.
Alguns, mais extrovertidos, como a Sayuri e a Yumi, acabaram fazendo comentários de apoio, para ela não ficar tão nervosa. Foi ali que a amizade delas começou. Mesmo com aquela ajuda, a garota ainda não conseguiu ler, efetivamente, o relatório, onde algumas palavras não foram ditas num tom bom o suficiente.
O chefe Akashi sorriu com a situação. Ele tinha o costume de seguir sua intuição para contratar funcionários promissores, e com Aki não foi diferente disso. Sentiu que ela tinha um grande potencial, só precisava de prática. Mesmo se atrapalhando, na época, o chefe Akahi elogiou a performance da garota, apontando onde ela havia errado e exaltando os pontos positivos.
Dentre outros motivos, isso era um fator que fazia todos os funcionários o admirarem como um superior e respeitá-lo imensamente.
Aki sorriu sozinha, enquanto ajeitava seu penteado de frente ao espelho. Lembrando-se disso e pensando em todas as vezes que o chefe Akashi havia lhe confiado uma tarefa tão importante, não pôde evitar o sentimento genuíno de gratidão e respeito.
Algumas outras cenas, de momentos, no início do seu trabalho na Elegance Affairs, onde ela buscava aprender com seus erros, com a ajuda do chefe e de seus companheiros mais próximos. Helsing também ajudou-lhe bastante na época, assim como o Koda.
Aki terminou de retocar a maquiagem, e se olhou no espelho uma última vez, vendo uma mulher de pele clara e longos cabelos pretos, presos num penteado de coque não tão alto, com algumas mechas soltas. Os olhos âmbar se destacavam no rosto delicado e o lábio levemente avermelhado pelo batom trazia um toque elegante.
Seu corpo estava coberto por um vestido de tom azulado, com detalhes da mesma cor, como o cinto que prendia na cintura. O decote era na medida certa e as alças finas davam um toque refinado. Suas orelhas adornadas por brincos delicados ficavam muito discretos, quando se misturavam ligeiramente com os fios negros que desciam.
Em seu pulso uma pulseira de miçangas ficava discreta, enquanto o anel no seu dedo se destacava em meio às unhas de modelo francesinha.
— Vamos, Aki! Está na hora! — Victor chamou um pouco mais alto, por causa da distância. Já estava na porta do quarto esperando.
— Já estou indo! — Ela respondeu, quando deu uma última olhada, e indo até seu namorado.
“Hoje eu vou mostrar ao chefe Akashi que valeu a pena ter confiado em mim!”
Aki pensou, convicta.

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