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    14 de fevereiro de 2024, quarta-feira.

    Aki estava deitada de lado na cama, abraçada ao travesseiro, observando a cortina balançar suavemente com a brisa da noite que passava pela fresta da janela e o som quase distante de gotejamento da levíssima chuva que caía. 

    Victor já havia pegado no sono. Respirava tranquilo, do outro lado da cama, e ela podia ouvir o som calmo da sua respiração ritmada. Era reconfortante. Aquilo deveria bastar para que seu coração se sentisse em paz. Mas não bastava. Ele havia dormido ali naquela noite também, pois ambos estavam aproveitando para revisar alguns projetos das reuniões internacionais juntos, e acabou ficando tarde — embora não fosse necessariamente uma desculpa, mas ao menor sinal de gotículas caindo do céu, foi motivo suficiente para ele ficar ali com ela. 

    Seus olhos estavam abertos, brilhando no escuro, enquanto mil pensamentos martelavam em sua mente.

    “Será que um dia… a gente vai se casar?” Pensou, virando levemente o rosto para ele, sabendo que estaria corada. “Será que ele pensaria nisso também? Será que é cedo pra pensar assim?”

    Sentia-se boba, até infantil, por cogitar essas perguntas. Mas, ao mesmo tempo, era impossível não pensar. Estavam juntos agora. Tinham passado por tanta coisa até ali. Victor havia perdido tudo e, aos poucos, ela o viu reconstruir não apenas a vida, mas também o sorriso. E como ele mesmo dizia: estava de volta à realidade. 

    “E se… isso tudo mudar? Se ele resolver voltar pro Brasil um dia? E se a Elegance Affairs crescer mais, e ele for transferido, ou for abrir uma filial lá? E se ele quiser recomeçar de verdade no lugar onde tudo começou pra ele?”

    Um frio percorreu suas costas, sentia como se o suor escorresse de seu corpo. Era apenas uma sensação desconfortável e não necessariamente acontecendo isso. 

    Aki apertou o travesseiro com mais força, como se isso pudesse afastar o peso daquele pensamento.

    “Eu iria com ele?”

    A pergunta ficou suspensa no ar por alguns segundos, como uma nuvem prestes a desabar. Ela se imaginou empacotando a própria vida, deixando Tóquio, Nagano, o Japão para trás. As ruas que conhecia desde pequena. O bairro com suas lojinhas favoritas. Os colegas, a família, sua rotina. E, ao lado disso, se imaginou num país estranho, com outra língua, outras culturas, quase uma solidão. Agora seria ela que, nesse cenário hipotético, precisaria recomeçar a vida.

    “Será que eu conseguiria ser feliz lá? Só com ele? Quer dizer… Eu amo ele, seria feliz com ele, mas abandonar tudo estaria certo?”

    Era uma pergunta cruel. Porque a resposta era sim… e não. Sim, porque Victor era a presença que ela mais amava no mundo. Não, porque abandonar tudo também doía. Ela não sabia se era forte o suficiente para isso.

    “Mas e se ele não quiser ir… e só se afastar aos poucos? E se a gente… mudar? E se esse amor acabar como tantos outros por aí?”

    As lágrimas surgiram discretamente. Não de tristeza imediata, mas daquela ansiedade que sufoca quando se ama tanto que começa a temer pelo fim mesmo no começo. Era um sentimento ambíguo, chegando a ser desconfortável. Ela revirou na cama por um momento, tentando achar uma posição mais confortável. 

    “Será que estou sendo insegura? Ou só realista? O que eu preciso fazer para ele querer ficar? Para isso durar? Ou eu não preciso fazer nada e só continuar sendo eu?”

    Victor mexeu-se na cama, virando de lado e, no meio do sono, esticou o braço, procurando por ela. Quando tocou em seu ombro, puxou-a suavemente para perto, sem sequer abrir os olhos.

    Ela sentiu seu corpo colar no dele, o calor, o coração batendo forte. A voz dele, ainda sonolenta, sussurrou quase inaudível:

    — Aki… fica perto… quero te sentir aqui comigo… está frio…

    E então o silêncio retornou. Mas agora, o medo parecia ter diminuído, ou apenas teria sido redirecionado. 

    Ela encostou o rosto em seu peito e sussurrou para si mesma:

    — Eu também quero isso pra sempre…

    O calor do corpo de Victor a aquecia mais do que qualquer coberta. O braço dele a envolvia com ternura, como se mesmo adormecido ele ainda a protegesse — ou a quisesse por perto.

    Ela sentia o coração bater acelerado, mas não era mais ansiedade. Era algo que beirava a emoção. Uma mistura de sonho e realidade. Dúvidas e certezas. 

    E foi ali, com o rosto escondido no peito dele, que outro pensamento surgiu…

    “E se um dia tivermos filhos…?”

    Aki sorriu sozinha. Um sorriso bobo, duradouro e cheio de imaginação. A ideia parecia tão distante… mas não absurda. Na verdade, pensar em ter filhos de Victor fazia seu coração se aquecer de um jeito que nunca tinha sentido antes. Uma imagem surgiu na sua mente: uma criança de olhos escuros como os de Victor, correndo pela casa, chamando por “mamãe”. Talvez uma menininha com cabelos pretos lisos como os dela, subindo no colo de Victor enquanto ele tentava cozinhar.

    Tapou o rosto com as mãos, sentindo suas bochechas mais quentes, enquanto conseguia visualizar perfeitamente, agora, um casal de filhos, correndo num parque, enquanto ela e Victor observavam os dois filhos. 

    “Será que ele gostaria disso? Será que se vê como pai depois do que passou?”

    Ela nunca havia perguntado. Nem se atreveria a tocar nesse assunto agora, claro… Mas seu coração começava a querer mais. Era natural, não era? Era assim nos livros que lia, nas histórias que acompanhava. As pessoas se apaixonavam, começavam a namorar, depois vinham os planos: morar juntos, casar, construir uma vida.

    “Casar…”

    A palavra soou quase como um sussurro em sua mente. Ela se virou de leve na cama, ficando de costas para ele, mas ainda sentindo seu abraço pelas costas, envolvente.

    “Será que ele pensa nisso? Será que um dia vai querer me pedir em casamento…?”

    Era cedo, ela sabia. Mas também sabia que às vezes, o coração não entendia de tempo. Victor era o tipo de pessoa que ela poderia amar por toda a vida. Era alguém que dava segurança, mesmo quando ele próprio estava confuso por dentro. Alguém que a fazia rir, a fazia pensar, a fazia sentir que era importante de verdade.

    “Será que seria cedo demais se morássemos juntos?”

    Ela pensou na rotina deles. Quase todos os dias estavam um na companhia do outro, fosse na empresa ou fora dela. Ele já havia dormido em sua casa duas vezes seguidas, uma vez em outra oportunidade, fora que dormiram no mesmo quarto vários dias durante a viagem, e ela própria já havia dormido na casa dele duas vezes. Ela sabia que ele mantinha sua própria casa, suas coisas, seu espaço… Mas também sabia que a presença dele deixava o lar dela mais aconchegante, talvez pudesse dizer que o deixava mais cheio de vida.

    Parecia quase normal pensar na ideia de estarem, oficialmente, morando juntos. Mas uma série de pensamentos morais invadiu sua mente, de costumes e regras. Mas tentou afastar essas ideias divergentes e ficou na sua fantasia momentânea. Lembrou-se de sua mãe, que sempre que conversavam sobre relacionamentos, ela dizia: Aki, ache uma pessoa que te ame de verdade, que te respeite e que te deixe com a sensação de estar nas nuvens. 

    Então, novas lembranças continuavam a surgir de Hana falando: Ame, seja amada. Mas é importante que certas coisas só aconteçam após o casamento. E para acontecer o casamento, precisa ser com a pessoa certa. Não existem dois casamentos na vida de uma pessoa. Apenas um casamento, para sempre. O casamento tem que ser eterno, imutável. Então, pense bem sobre isso… 

    “A pessoa certa…” — Pensou. “Acho que sim, o Victor é essa pessoa certa, que eu quero passar o resto da minha vida. Passamos por tanta coisa juntos, acho que já nos conhecemos o bastante…”

    Ela divagou, com imagens desde que Victor chegou à empresa até o primeiro beijo, tudo passava como um filme e rápido na sua cabeça.

    “Será que ele se sentiria invadido se eu sugerisse isso? Morarmos juntos…”

    Ela suspirou baixinho.

    A verdade era que ela queria acordar com ele todos os dias. Queria cozinhar com ele ou para ele todos os dias. Queria ter plantas na varanda, móveis que escolhessem juntos e talvez um porta-retratos com uma foto boba dos dois. Queria compartilhar os dias ruins e os bons. As vitórias e as frustrações. Queria poder cuidar dele. E deixar que ele cuidasse dela também.

    “Mas será que é cedo demais pra dizer isso em voz alta?” — se perguntou, virando o rosto para espiar Victor, mesmo na penumbra do quarto.

    Ele ainda dormia, com a respiração calma, o rosto tranquilo. Como se ali, ao seu lado, ele também tivesse encontrado um lugar seguro. Geralmente ela dormia primeiro que ele e sempre acordava antes dela também. Mas, não naquele dia. Ele estava com a mente muito cansada por causa da grande revisão que fez, tanto com ela, quanto individualmente.

    Ela esticou um dos dedos e traçou lentamente o contorno do braço dele, encostado ao seu. O silêncio da noite parecia um momento muito introspectivo.

    “Um dia, talvez… a gente se case. E tenha filhos. E uma casa só nossa. Um lar.”

    Ela fechou os olhos com essa imagem em mente, e seu coração, embora ainda carregasse algumas dúvidas, se acalmou com uma certeza:

    Ela queria viver esse futuro com ele.

    Mesmo que ainda fosse cedo, mesmo que os caminhos fossem incertos, ela estava disposta a sonhar. A amar. A construir. Ela entendeu o que ela realmente queria, naquele ponto e traçou uma meta em sua mente. Essa era a sua decisão.

    E com esse pensamento, enfim, adormeceu

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