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    Granja das Hortências, 10:48 da manhã.

    — Que silêncio! — diz Bruno ao acordar e lentamente abrir os olhos.

    Sua visão está um pouco turva e na cabeça há uma imensa dor pulsante, seu corpo está completamente imobilizado, com cordas cheias de nós que estão muito bem apertados a ponto de impossibilitar até o menor movimento dos braços e pernas.

    Deitado numa mesa larga de madeira, que se encontra muito bem conservada como se fosse nova, alguns sons de passos começam a ecoar por um corredor atrás da porta trancada da sala onde ele está.

    — E aí vacilão. — disse uma voz semelhante à dele mesmo, porém com um tom meio arrogante.

    Com um olhar já bem preocupado, Bruno procura em volta. Ele olha para todos os cantos até que duas mãos agarram sua cabeça, forçando-o a olhar para cima.

    Mas a real surpresa veio, quando ele viu a situação mesmo com aparência modificada. 

    Olhos vermelhos e brilhantes, cabelos grisalhos, dentes pontiagudos que parecem próprios para rasgar a carne como os de um tigre.

    A coisa recua de volta para a escuridão.

    — Mas que merda foi essa? Será que tive algum tipo de alucinação? — pensou Bruno com uma respiração pesada e um olhar assustado.

    — Até quando planeja ficar aí, seu verme? — A voz ressoou na mente dele mais uma vez.

    A porta de onde ele está é aberta.

    Uma garota entra.

    — Pai, você tem que acordar! — gritou a menina pouco antes de sumir.

    Uma imagem de seu rosto surgiu na cabeça dele.

    — Ok… agora sei que tô realmente com sérios problemas de cabeça! — olhou para cima ao ouvir o som da porta aberta novamente.

    Ivana passa pela porta carregando uma bolsa cheia de ferramentas e facas. Os sons dos metais chacoalhando e colidindo uns nos outros deixaram claro para ele, afinal, ele estava de fato nas mãos dela.

    Seus passos estão lentos, deixando claro o quanto ela não sente nenhuma pressa em preparar a mesa de tortura.

    — Até que enfim cê acordou — virou-se para ele e agachou para pegar algo embaixo da mesa.

    Levantou-se e fixou sua visão nos olhos vazios e distantes de Bruno. Ele não a olhou de volta, mas tentou ver o que ela havia pegado embaixo da mesa.

    — Bom… fiquei sabendo desse seu poder de regeneração, quer que eu fale como descobri?

    Ele virou seu rosto para que o seu olhar fosse de encontro ao dela, sem medo, como se a desafiasse com um olhar rancoroso e cheio de ódio, mas com um sorriso de canto de boca, igual ao que costumava fazer quando queria provocar alguém.

    — Pro seu azar, piranha, eu não sou curioso, mas seria interessante se eu pudesse, no mínimo, mover o braço — tentou levantar os braços usando a força, porém sem sucesso — minha pica tá coçando, tu não colocou a boca aqui não certo… 

    Ela o ignorou, puxou uma faca e colocou em cima dele, bem naquilo que o define como homem.

    Ele então levantou e viu aquilo, suspirou debochadamente.

    — Ah, tomar no cu, carai, cê não tem uma louça pra lavar, não, porra!

    Em silêncio, ela ergueu a mão sobre a bolsa e de dentro dela puxou um martelo, o levantou e com muita força acertou os dedos das mãos dele, um por um.

    A cada vez que ela o acertava, um som seco e doloroso seguido de gritos percorria os corredores, e todo impacto do martelo fazia Bruno sentir seus ossos se quebrando.

    — SUA PUTA, FILHA DA PUTA, ARROMBADA DO CARALHO! — berrou com tanta força que seu rosto ficou todo vermelho com veias saltadas.

    Com um sorriso sádico, Ivana coloca a mão sobre a boca e diz:

    — Ué! Por que você não começa a chorar e implorar pra que eu pare? — Pegou o dedo indicador que ela ainda não acertou.

    Crac!

    Bruno grita mais uma vez, ele chega a ranger os dentes de tanto que doía, afinal, seu outro dedo foi quebrado e torcido para trás.

    Ivana então aproximou a boca do ouvido dele e enquanto ele gritava, sussurrou.

    — Vou te dizer algo interessante… eu vou te quebrar de pouquinho em pouquinho e então vou esperar o seu poder cura agir, só para que depois eu possa te quebrar novamente! — afastou-se de perto do rosto dele.

    Ela puxa um estilete do bolso e o leva até o peito dele. Forçando a lâmina contra a pele e bem devagar, Ivana começa a abrir um corte profundo nele, subindo até próximo do pescoço.

    — Te rasgar também está no caso bem no topo da minha lista, sabia disso? — sorriu, soando um tanto cínica, como se fosse uma pessoa bondosa.

    Rangendo os dentes com a dor, Bruno resmungou para ela.

    — Por que tá fazendo isso? — encarou ela nos olhos — eu nunca te vi na minha vida, QUAL É O SEU PROBLEMA COMIGO, DESGRAÇA!

    Afastou-se da mesa em silêncio, pegou um alicate de corte semelhante a uma tesoura. Virou-se para ele novamente e escorregou na mesa enquanto pegava o dedo mindinho dele.

    — Eu não tenho problema contigo, sabe, o lance é que eu precisava de um brinquedinho, ainda mais novo, com a função de auto-reparo…

    Sorriu de uma forma um tanto simpática.

    Bruno dá um leve suspiro, mesmo com a situação estando bem ruim, ele age como quem está prestes a fazer algum tipo de provocação.

    — Hum… Vem cá, piranha! Teu cú deve ta morrendo de inveja dessa tua boca, né… cê tá é doido, meu, só fala merda!

    Ela o encarou sem muita expressão no olhar, nitidamente incomodada com o fato de ele agir como se aquela tortura não fosse nada para ele.

    — É, né… então cê é cheio de gracinhas. Vamos ver quanto tempo dura isso! — No estalar do alicate, um pedaço do dedo dele saiu rolando pela mesa até cair no chão.

    Mais um grito agonizante de dor inundou o lugar, encobrindo qualquer possível barulho no local.

    Novos estalos foram se sobrepondo e dedo após dedo Ivana continuou cortando, mesmo os que já estavam quebrados. Em pouco tempo, ela ficou sem ter o que cortar.

    Tapou a boca dele.

    — Quietinho, quietinho, quietinho…

    Ele a encarou com os olhos arregalados, suando, assustado e com a respiração pesada.

    — Então, Bruninho, eu poderia usar um alicate e cortar cada dedo do seu pé também, porém não é tão prazeroso. — Sorriu de canto de boca.

    Tirou a mão da boca dele e ele começou rapidamente a proferir insultos de forma agressiva, sua voz aos poucos começou a falhar tanto que ele insistiu em gritar com ela.

    E sem dar a mínima para os xingamentos dele. Ivana se retira bem devagar, com uma calma que parecia estar ouvindo uma música prazerosa a ponto de fazer alguns passinhos de dança.

    A luz do quarto é apagada e a porta trancada, o deixando em uma completa escuridão…

    Três dias se passam, sem que uma alma viva entre naquele quarto. 

    — Por que não se solta? Por que você se permite ficar nessas condições? Por que nos humilhar dessa forma patética? — Essas perguntas não param de surgir na mente dele.

    Para ele, é como se um outro lado dele mesmo estivesse o questionando sobre seu estado atual. De repente, a sala escura fica branca, sem paredes, o único contraste ali é o sangue que secou na mesa que o prende.

    — Droga… eu tô… alucinando de novo? — perguntou enquanto a sua mente vagueia entre o estado consciente e não-consciente.

    Antes que sua visão escurecesse novamente, Bruno percebeu três pessoas entrando na sala…

    Mais um dia se passou.

    Ele abre os olhos sentindo um cheiro desagradável de algo que parecia estar morto há vários dias. Tomou um susto ao ver a cabeça decapitada de João Paulo diante de sua face, larvas de mosca varejeira que rastejam sobre a carne morta se mexendo e caindo em seu rosto.

    — JÁ CHEGAAAAA! — gritou com uma voz rasgada e de um gutural demoníaco.

    Um processo de transformação iniciou-se no corpo dele, a temperatura corporal começou a subir de tal forma que sua pele parda começou a assumir uma nova cor avermelhada.

    Usando toda a força que tem, logo após um curto período de esforço, Bruno conseguiu se libertar.

    Bufando com uma enorme ira devido ao esforço, ele encarou a porta como se estivesse aguardando que alguém a abrisse.

    Um vapor avermelhado começa a surgir, subindo por todo o corpo dele.

    ***

    Ivana, que supervisiona os testes que estão sendo feitos em alguns escravos recém capturados, ouve o grito assustador que Bruno deu.

    Tadeu, um jovem de 20 anos que há alguns dias se ofereceu para fazer os testes com o sangue do Bruno naqueles escravos, que se contorcem de dor devido à incompatibilidade, olhou assustado para ela.

    — Será que deu certo? Ivana, aquele grito não foi normal!

    Ela, porém, não respondeu, apenas sorriu como se tivesse conseguido atingir o seu objetivo.

    Puxou um comunicador da cintura e então falou:

    — Atenção, atenção… quero todos de prontidão para contenção do alfa do sangue.

    Sua voz ecoou por todo o condomínio, logo uma enorme correria tomou conta do local com a maioria dos jovens carregando bestas com flechas armadas com corda.

    — Demônio branco, fique pronto para combate, caso a gente não consiga dar conta.

    *** 

    Alguns jovens com facões param em frente à porta, que eles do perigo que Bruno representava caso as cordas não dessem conta de segurá-lo.

    Suando frio, alguém disse.

    — Abra!

    Aquele que está mais próximo engoliu seco e então a abriu…

    Logo perceberam uma densa concentração de uma névoa vermelha que os impedia de enxergar o que havia ali dentro.

    O silêncio dali, mais o terror que todos ali sentem, fez parecer que haviam acabado de entrar no território de um terrível monstro. 

    Até o mais corajoso dele sentiu um enorme calafrio subir pelo seu corpo junto a inúmeras ondas de arrepio e suor.

    — Vam…

    Não deu tempo de completar a frase, afinal, num piscar de olhos, sua cabeça foi enterrada na parede com tanta força que o crânio explodiu.

    Ninguém reagiu ou sequer pôde sair do lugar, Bruno tira a mão da parede toda destruída e parte do corpo do rapaz ainda fica pendurada nos destroços. Aquele ataque foi tão brutal que nem mesmo a mão dele saiu ilesa do golpe, porém, diferente dos demais, ele facilmente consegue se regenerar em pouco instante daquele tipo de ferimento.

    Aquela névoa quente que sai como vapor do corpo de Bruno de uma forma bem rápida se espalhou no local, o que fez com que todos a respirassem.

    Em silêncio e completamente possesso, ele passou por todos e, logo após ganhar alguma distância dos demais, geral que ficou para trás caiu morto no chão com sangue vazando pelos olhos, nariz, orelhas e boca.

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