Índice de Capítulo

    Ela não podia ver, nem ouvir, cheirar ou sentir qualquer coisa.

    O impacto deve ter sido maior do que esperava. Bem, precisava admitir que aquela criatura era tão terrível quanto os maiores diabos registrados na história do Reino Sagrado.

    “Eu poderia ter morrido se não fosse pela armadura que me foi dada”, refletiu.

    De fato. Mesmo tendo todos os sentidos arrancados, a ponto de não sentir nem mesmo dor, Ignet Crecensia não cogitou a ideia de estar morta. Isso não seria aceitável. Ela não poderia morrer antes de fundar um reino.

    “Claro que não. Sou boa demais para morrer aqui”, pensou com firmeza.

    Talvez isso fosse uma bênção disfarçada. Afinal, ela havia vivido quase trinta anos sem um momento de descanso. Decidindo se conceder um tempo de férias, Ignet simplesmente se permitiu existir no vazio, sem medo ou preocupações.

    No entanto, sua paz foi curta. Ignet franziu ligeiramente a testa ao notar algo familiar.

    “Estou vendo coisas?” ela pensou.

    Percebendo que flutuava como um fantasma, ergueu o olhar e viu a si mesma quando criança. Também viu seus amigos que já não existiam mais.

    “Certo! Consegui um trabalho com o velho Jack e pedi algumas coisas ao Tio Luke, o ferreiro. Vamos nos sair muito melhor agora” declarou Ignet, aos dez anos, na casa miserável da favela.

    — Podemos comer duas refeições por dia agora? — perguntou uma das crianças.

    Claro. Vou fazer com que comam até três! — prometeu Ignet.

    Uau! A Ignet é a melhor!

    Nós te amamos, Ignet! Vou te ajudar quando eu crescer!

    Cinco crianças comemoravam enquanto Ignet fazia promessas.

    Apesar da nostalgia ao ver aqueles dias há muito esquecidos, Ignet não sorriu. Apenas observou, impassível, até que a cena mudou.

    Agora, havia mais de dez crianças. Algumas estavam com lágrimas nos olhos. Mas Ignet, com treze anos, não chorava.

    Esperem apenas um ano. Eu voltarei forte, entenderam? Vocês vão conseguir se virar se gastarem com cuidado — disse ela com firmeza.

    Você não pode ficar? — choraram as crianças.

    Não posso. Voltarei em breve.

    Após uma despedida com lágrimas, a jovem Ignet se virou, segurando a carta de recomendação para a Academia de Esgrima Krono que havia recebido de um espadachim desconhecido.

    Para ser sincera, ela não queria ir. Queria ficar com seus amigos e as crianças mais novas. Mas a situação estava piorando. Crianças não conseguiam fazer muita coisa durante a guerra. Dada a situação, nem mesmo podiam pedir algumas moedas sem serem chutadas.

    Embora fosse esperta o suficiente para sobreviver, não conseguia sustentar todos. Então, Ignet decidiu ir para a Academia de Esgrima Krono.

    “Nem preciso ser uma aprendiz de verdade. Só preciso ficar forte em um ano”, pensou.

    Crianças eram indefesas diante do caos que dominava o Reino Macan. Contudo, as coisas seriam diferentes se ela se tornasse uma espadachim forte. Poderia ganhar fortunas para sustentar todos.

    Ignet virou-se para olhar pela última vez para a casa miserável. As crianças a encaravam com olhos marejados.

    “Tudo ficará bem. Afinal, deixei dinheiro para um ano inteiro.”

    Achando que isso era tudo que tinha, ela não se arrependeu nem um pouco. Assim, aos treze anos, Ignet forçou-se a dar as costas.


    O tempo passou novamente.

    A essa altura, Ignet não conseguia distinguir seu eu do passado de quem era no presente. De volta aos quatorze anos, ela correu para sua cidade natal, confiante como nunca antes. Com um talento que até ela mesma surpreendeu, havia se tornado uma especialista. Certamente poderia cuidar não apenas de dez, mas de vinte ou até trinta crianças.

    Mas a casa estava abandonada.

    A mente de Ignet ficou dormente. Pensamentos ruins começaram a assombrá-la.

    No entanto, ela não permitiu que esses pensamentos a dominassem. Recompôs-se e começou a perguntar o que havia acontecido às crianças.

    As notícias a entorpeceram novamente.

    Algumas estavam mortas, outras vivas. Mas mesmo as crianças que sobreviveram não eram as mesmas que ela conhecia. Uma criança que preferia pedir esmolas a roubar havia se juntado a uma guilda de ladrões, enquanto outra, que antes preferia apanhar a agredir, agora intimidava crianças menores para tomar seu dinheiro. Até mesmo as crianças mais novas já não tinham a inocência de antes.

    Ignet hesitou por muito tempo antes de desistir de seus antigos amigos e seguir para o oeste. Lá, buscou amigos plebeus que conhecera na Academia de Esgrima Krono, mas que haviam sido reprovados.

    “Vou me tornar uma mercenária.”

    Mas ela não culpava seus antigos amigos. Se tivessem começado em um lugar melhor ou crescido em um ambiente normal, não teriam se tornado o que eram. Sim, foi a própria vida que os empurrou para a escuridão. Então, Ignet decidiu que criaria um mundo melhor. Puniria os desgraçados gananciosos e eliminaria os vermes da sociedade. Quando a vida fosse melhor para todos, as coisas seriam muito diferentes.

    Sua guilda de mercenários faria isso acontecer.

    Claro — responderam.

    Por você, Ignet, eu me juntaria de bom grado.

    Haha, já estou animado! E se ficarmos famosos?

    A maioria de seus antigos colegas da academia, bem como alguns jovens talentosos, se juntaram a ela. Para ser justa, eles eram muito mais habilidosos do que seus amigos de infância. A jovem Ignet ficou animada. Com essas pessoas, seria capaz de criar um mundo melhor.

    Levaria dez anos para perceber que estava enganada.


    Eu não quero ir — disse um.

    Lá é só responsabilidade e nenhuma diversão. Honra? Não preciso de algo assim. Gosto de onde estou agora — acrescentou outro.

    Eu também.

    Idem.

    Parabéns, capitã. Mas preferimos ficar neste grupo de mercenários. Não podemos nos juntar a nenhuma ordem de cavaleiros, muito menos aos do Reino Sagrado, com nossas habilidades.

    Quero dizer, talvez não consigamos ganhar tanto sem você, mas ainda conseguimos nos virar.

    Aos vinte e quatro anos, Ignet havia se tornado uma das cem mestres espadachins do continente. No entanto, seus colegas recusaram seu convite.

    Ainda assim, ela não ficou desapontada. Não esperava muito, de qualquer forma. Acenando calmamente, Ignet respondeu — Boa sorte.

    Ela sabia que já havia se distanciado dos outros há muito tempo. Agora, eles se preocupavam mais com o pagamento do que com a natureza do trabalho. Interesses e riscos guiavam suas decisões. Para aqueles que viveram anos como se tivessem nascido para ser mercenários, os objetivos de Ignet pareciam fora da realidade. Mas Ignet não se importava.

    “Eu sabia que isso ia acontecer de qualquer jeito”, pensou enquanto deixava os mercenários que havia fundado.

    Ela não culpava seus amigos de infância por terem se perdido, nem condenava seus colegas de dez anos por quererem permanecer em sua zona de conforto. Por mais jovem que fosse, Ignet entendia que poucos no mundo tinham grandes ideais, quanto menos o poder para sustentá-los. Mas isso não importava.

    “Posso contar apenas comigo mesma”, pensou Ignet enquanto encarava a luz vermelha flamejante de sua Aura da Espada.

    Ela não precisava de mais ninguém. Tinha poder suficiente para mudar o mundo, afinal. Também não precisava persuadir ninguém. Só precisava permanecer alerta. Isso era tudo. O que precisava não era a confiança de seus colegas, mas a autoridade de um rei.

    — Eu vou com você, capitã.

    — Eu também! Anya também vai!

    — Hmm?

    — O quê? Não podemos ir com você?

    — Tanto faz. Façam o que quiserem.

    — Estou acompanhando você para o seu bem… Por que é tão…?

    — Eu gosto da nossa chefe, mesmo quando ela é durona! Yay!

    Por isso Ignet não respondeu à oferta de Georg com alegria, nem sorriu para Anya. Aqueles dois podiam estar com ela agora, mas quem sabia onde estariam depois? Nada era mais exaustivo do que prestar atenção em alguém que poderia deixá-la a qualquer momento.

    Tal indiferença era o motivo pelo qual a Ignet de vinte e quatro anos, não, Ignet Crecensia, conseguia seguir em frente sem hesitar.

    Então, uma escuridão desagradável a envolveu.

    E o que você ganha trabalhando tão duro assim? — perguntou uma voz desagradável.

    Quero dizer, pense nisso! Você está certa. Você é incrível. Um reino sem conflitos, ganância ou perseguição, onde todos são respeitados?! Você até tem o poder para realizar isso. Nem sei o que dizer, mesmo já estando morto.

    Ignet virou-se para o demônio bufão com uma expressão inexpressiva, os olhos vazios.

    Embora seu olhar ainda fosse frio, o demônio morto não deu importância.

    — Mas o que você ganha com isso? Solidão? Isolamento? Hah! Deixe-me te dizer, minha amiga. Você não terá ninguém na sua vida. Claro que não. Como poderia, quando tantos ficaram para trás? — provocou.

    Ignet Crecensia não negou. Foi o mesmo com seus amigos de infância e os colegas mercenários. Eles a acompanhavam, mas não compreendiam seus ideais. Diziam que suas ideias eram impossíveis e argumentavam que não poderiam segui-la.

    Os Cavaleiros Negros provavelmente diriam o mesmo. Talvez até Georg. Quando chegasse o momento, talvez ela se encontrasse caminhando por aquele mesmo caminho espinhoso sozinha ou acompanhada de alguém que não conhecia.

    No entanto, Ignet não se sentia ferida. Com um sorriso, concentrou sua aura. Sua espada cortou o demônio bufão.

    — Grrrgh… — o demônio gemeu.

    Assistindo ao demônio arder, Ignet pensou, “Não tenho muito tempo.”

    Ela mesma estava bem. Por mais forte que fosse a maldição final do demônio, não era poderosa o suficiente para derrubá-la. Contudo, os outros eram diferentes. Recordando os desejos finais do demônio, ela ficou inquieta.

    “Talvez metade deles já esteja perdida na escuridão…”

    Ela precisava se levantar. Precisava despertar e se recuperar. Só então poderia dissipar a escuridão e sair da masmorra. Sem ela, a capitã dos cavaleiros do reino sagrado, escapar seria impossível. Ignet concentrou-se em despertar.

    Então, outro pensamento surgiu. Ela sabia que era a única que poderia salvar a equipe de expedição…

    “Então por que eu os protegi?”

    Ela não deveria ter feito isso. Pelo contrário, deveria usá-los como escudos para proteger a si mesma, se necessário. Era o que precisava fazer…

    Sua visão voltou. Olhando ao redor, Ignet Crecensia quis se sentar, mas não conseguiu. Com uma careta, reuniu forças mais uma vez antes de ser parada por Anya Marta e Georg Phoibe.

    — Chefe, não! Você precisa descansar! — gritou Anya.

    — Você não deveria se mover ainda. Chefe, fique parada por mais um tempo — disse Georg.

    — Eu não posso… — lutou Ignet.

    — O que você quer dizer?! Fique quieta, chefe!

    — Eu preciso me levantar… A maldição do demônio atingirá os outros… — argumentou Ignet.

    — Eu sei o que você está pensando, mas está tudo bem. Então acalme-se… e olhe ao redor — disse Georg.

    — O que você… — balbuciou Ignet.

    — As coisas não estão tão ruins quanto você pensa — explicou Georg.

    Ignet franziu a testa. Ou talvez já estivesse assim o tempo todo. Estava exausta demais para sequer notar. Percebendo o quão drenada estava, suspirou.

    “Não posso fazer nada no meu estado de qualquer forma”, concluiu.

    Então, deveria descansar como Georg sugeriu. Claro, ela não pretendia apenas ficar parada. Precisava verificar como os outros membros da equipe estavam. Afinal, era isso que os reis faziam. Com seus olhos atentos, Ignet observou os membros espalhados pela masmorra.

    Surpreendentemente, a situação estava melhor do que ela imaginava. Alguns meditavam, enquanto outros brandiam suas espadas para escapar da angústia. Todos pareciam focados em algo. Não pareciam tão desesperados quanto Ignet esperava.

    Não, a masmorra em si não estava tão escura. Havia uma luz, uma luz dourada, ao mesmo tempo poderosa e gentil, que aquecia o ambiente.

    Sentindo a fina aura emanando do corpo de Airen Farreira, Ignet Crecensia pensou: “Agora eu entendo…”

    Percebendo por que o havia salvado, fechou os olhos novamente.

    Georg e Anya assentiram enquanto observavam sua capitã adormecer.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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