Notas de Aviso

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    Wood acordou confuso, piscou e percebeu onde estava. Virou o rosto e, ao seu lado, uma pequena luz quase invisível pulsava; desde que se entendia por gente, ela sempre esteve ali. Bart não a enxergava, e mesmo o rapaz acreditava ser apenas um delírio aleatório nesse inexplicável mundo.

    Ao pé da cama, esbarrou nas botas, calçou-as. A cabana onde morava compunha-se de um único cômodo. Sua forma era madeira — o chão, o teto, os poucos móveis e até mesmo os copos o eram.
    A versatilidade das fibras respondia a determinadas utilizações, e a origem delas, o machado do jovem bem conhecia. A madeira dura de Cumaru, por exemplo, era usada para o assoalho, e assim por diante.

    Esfregou os olhos, andou até a mesa próxima e pegou uma vasilha que continha algumas frutas vermelhas. Puxou-a para perto e fez o mesmo com uma jarra preenchida com um líquido quente.

    Sentado em sua cadeira favorita, e concentrando-se para além da janela, deixou o olhar vagar enquanto manuseava uma maçã com os dentes, refletindo sobre o significado daquele sonho. Não era a primeira vez, nem de perto a única; praticamente todas as noites, ao fechar os olhos, a imagem que adentrava a inconsciência era vívida e desconhecida.

    O que eram aquelas construções? A sensação de pertencimento e a paisagem familiar. Nada fazia sentido. Os sonhos sempre eram protagonizados por um jovem, mas dessa vez o ângulo era diferente, estava dentro do corpo, parecia que realmente estava lá.
    Colocou no copo próximo o líquido cor de cevada, conhecido como chá de finsy, feito a partir da flor de uma gramínea de mesmo nome. Após a breve refeição matinal, que deveria sustentá-lo até o almoço, Wood saiu, fechando a porta atrás de si.

    Ao longo da propriedade da qual ele e seu pai eram donos, existiam três casas, um estábulo e um cubículo utilizado como fossa. Todas eram construções cúbicas de um único cômodo, uma delas lhe pertencia e outra ao pai; esta última a principal das três. Localizava-se no centro do terreno e era a única em que despontava uma chaminé de pedras brancas polidas na lateral oposta à porta; à frente da morada, uma bela varanda, onde duas cadeiras de balanço e uma rede que estava amarrada às vigas de sustentação do teto, sentiam a brisa.

    Já a terceira e maior das estruturas da propriedade era utilizada para estocagem de mercadorias e como oficina; toras de madeira empilhadas por todos os cantos.  Eles eram lenhadores e fornecedores do produto bruto, ou manufaturado, retirado das florestas locais. Trabalhavam por encomenda, e uma delas estava em pendência; não havia tempo a perder.

    Inspirou fundo o gélido ar da manhã e deleitou-se com o calor da ainda sombria aurora. Espreguiçou-se para esticar os músculos dormentes por um breve momento, agora tinha que fazer as plantas moverem-se, mesmo que fosse para baixo.

    Tateou o ferrolho do armazém e abriu a ampla porta de duas abas. Ali encontravam-se as ferramentas dispostas na parede. Havia serras, machados, martelos, cordas e pregos. Ao lado do armazém, o pequeno estábulo de Cavam, uma subespécie de cavalo domesticado de origem montanhosa, não se encontrava no cercado agora, mas sim na vila, com Bart. Escolheu um machado pesado e grande; fechou o local.

    O dever do dia: caminhar pela trilha ao pé da montanha, e na mata de orla conversar com as árvores previamente marcadas — cujas toras, requisitadas há uma semana, precisavam cair.

    A caminhada não foi longa. Logo ritmou um corte com estalidos secos sobre o tronco rangente. O dia passava rapidamente quando focava na rotina. Os músculos reclamavam um pouco com os sucessivos rebotes na imersão dos impactos necessários para o serviço. Permaneceu movendo os braços e pouco tempo depois, marcado por algumas pausas para descanso, Wood já havia tombado três árvores.

    Sentou-se sobre uma delas. A sua próxima tarefa seria retirar os galhos. Era uma parte especialmente fácil e não requisitava muito esforço. As palmas calejadas mantinham-se em volta do cabo. O pai ensinara que bom lenhador sempre mantém a ferramenta nas mãos. Wood nunca realmente entendeu o porquê, mas pegou o hábito. Pôs-se de pé, afastou os pés e empunhou ao alto a lâmina do machado, com movimentos calculados, golpeou os galhos o mais próximo possível do tronco e, quando terminou de aparar as copas, olhou para o céu e analisou em que parte do dia se encontrava.

    — Perto do almoço — deduziu.

    Juntou um fardo de galhos embaixo do braço e, lentamente, começou o retorno à casa. A estrada era estreita, sobreposta por cascalhos erodidos que rolavam do pé da montanha. Os passos crepitantes vibravam nítidos pelo afloramento da mata inclinada que engolia os dois lados da trilha. A imensidão fazia sombra, uma floresta encorpada de troncos vivos e espaçados uns dos outros. Pouca vegetação rasteira ampliava a visibilidade sob a luz diurna, uma claridade suave que energizava o interior do corpo. O clima local era levemente úmido e ventilado, e amparava os sons dos pequenos animais que habitavam os poucos arbustos e as copas. Na atmosfera ecoavam os guinchos entrelaçados de várias espécies.

    Sozinho na trilha e com a fome incomodando, Wood apertou o passo; conhecia aquelas matas de olhos fechados. Eram a sua casa, o quintal e o local de trabalho, estendiam-se por toda a encosta montanhosa até a margem do rio formado pela vazão do lago Kenski, que recebia o nome de sua progenitora de águas. O rio Kenski corria pelo vale do centro do platô, cortando a cordilheira de montanhas circundantes e seguindo rumo aos planaltos elevados a leste. A navegação era o método mais rápido e seguro para sair do coração côncavo da cratera.

    A primeira coisa que encontrou ao entrar na propriedade foi a carroça do pai; Cavam ainda estava com os arreios, o que significava que tinham acabado de chegar.

    — Wood — chamou o homem de dois metros de altura, parado próximo à porta da casa.

    Quando foi responder ao velho, o rapaz hesitou. Ao lado do massivo lenhador, de músculos extremamente desenvolvidos, uma mulher — pouco mais velha que ele — encontrava-se de cabeça baixa, timidamente distraindo-se com as dobras do longo vestido áureo.

    — Venha, filho, quero te apresentar minha noiva — convidou Bart, com um sorriso empolgado que lhe curvava a barba.

    Sem palavras, caminhou em direção ao pai. Machado na mão. Machado — pensou. Desviou os passos, sem jeito, rumo à oficina, encostou a ferramenta em um canto e depositou o fardo de galhos sobre um amontoado de lenha.

    Voltou e seguiu rumo ao pai. Parou, olhou para Cavam, virou os calcanhares e alcançou o animal. Desprendeu-o da carroça, prosseguiu até o estábulo. Deixou o animal lá e, agora sem ter mais desculpas, subiu os degraus da casa e entrou na varanda.

    — Olá — cumprimentou, espalmando uma mão no ar.

    — Bom dia — sussurrou a moça.

    — Filho — a voz ressoante e grave do pai interrompeu o constrangimento de ambos.

    — Esta é Roset Medelin, da família Cross. Lembra que comentei há algum tempo? Então, encaminhei uma proposta de matrimônio ao pai dela — o senhor Cross, Stuart Cross — e ele a aceitou. Mas Roset ainda não. Como é costume que a mulher cortejada venha morar por um tempo na casa do pretendente… Bem, cabe agora a ela decidir se vai aceitar ou não a proposta.

    — Hum. Entendi. E esse tempo é o noivado? — questionou Wood, fitando a moça esbelta que parecia mais baixa do que realmente era quando se encontrava ao lado de Bart.

    — Sim, esse tempo é o noivado — confirmou o pai.

    Roset olhou para o alto, em direção ao rosto do possível marido, encontrou ali olhos negros e uma expressão gentil digna de um pai atencioso.

    — Bart — chamou ela. — Ele é o Rubro? Quero dizer, é assim que chamam seu filho, não é mesmo?
    Bart riu alto, colocou-se ao lado de Wood e repousou a pesada mão sobre o ombro do rapaz. — É, este é o Rubro, Roset. Como pode ver, ele tem a pele escura, diferente da nossa.

    — Nunca tinha visto alguém assim antes — observou a moça, sondando o rapaz por um breve instante. Logo em seguida, percebendo sua própria indelicadeza, abaixou o olhar e focou no assoalho.

    — Vamos entrar, vamos entrar — disse Bart, enquanto abria a porta.

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