CONTO: O Algoz
A taverna velha e suja, surpreendentemente, recebeu novos clientes. Vindos de Ermo, estavam de passagem pela abandonada Vila Cervantes, que ficava próxima da fronteira. O homem negro e careca, que já tinha virado algumas canecas da cerveja barata, e única servida na casa, aumentou seu tom de voz para uma gritaria de beberrão enquanto conversava com seu amigo.
— Eu tô te falando, é verdade! O cara era renomado cavaleiro que tava traficando humanos e usando de sacrifício, sei lá! Sei que é verdade.
— Ah, que Uno não te escute! Onde foi que cê ouviu isso?
O pardo homem esguio também pediu uma outra caneca, gesticulando para o taverneiro com o dedo levantado e usando a outra mão para descer o capuz de seu manto. Este se aproximou com mais uma caneca encarando atentamente os dois homens. Seus bigodes grisalhos tremeram porque ele adorava um rumor.
— Se me permitem, senhores… Sei um pouco sobre o assunto.
O careca se virou muito interessado.
— Vai confirmar a minha versão, não é? Eu tenho minhas fontes, rapaz, te falei! — Esbarrou violentamente no ombro de seu amigo.
— Ah, sim! Vai nessa! Ele vai é te chamar de maluco também.
O taverneiro se recostou contra o balcão com um olhar de garoto encrenqueiro. Seus bigodes cinzentos tremeram mais uma vez.
— Escutem bem o que vou lhes contar, essa história é totalmente verdadeira.
O renomado cavaleiro, Leonard Alphonse Claude, famoso, bonito, forte, habilidoso, tinha uma família linda e muito dinheiro, o suficiente para nunca mais precisar trabalhar, era conhecido, apesar de ser quem é, pela humildade com todos. Lutava pelo povo, porque achava ser o certo e morava numa casa simples, próximo dos mais pobres.
É claro que ninguém nunca imaginaria que, por trás do rostinho bonito e lâmina reluzente, teria uma pessoa horrível que cometeu crimes hediondos e nojentos.
Era um dia como qualquer outro na capital real de Luzet, Luzânia. Tinham, há poucos dias, vencido uma guerra contra o Reino de Numbranta, que fazia fronteira ao norte. O clima era de festança e bebedeira, todos brindavam em nome dos cinco heróis, mas principalmente em nome de Leonard.
O taverneiro contou que estava lá bebendo também, comemorando a vitória. Foi visitar um amigo da capital para que festejassem juntos. As festividades duraram mais de uma semana. Depois de umas cinco canecas bem cheias, já via estrelas. Ouviu alguns gritos na rua, batidas, sons estranhos, e pensou ser efeito da bebida, mas não.
Assim como ele é curioso, seus amigos também eram, e todos saíram da taverna para ver o que acontecia na rua de tão alarmante. Várias pessoas aglomeradas tentavam esticar seus pescoços para ver o que tinha ao centro da rua. O taverneiro e seus amigos, já alterados, passaram por todo mundo sem pedir licença, empurrando quem estivesse no caminho.
O que viram foi bem chocante. Leonard Alphonse Claude, o cavaleiro reconhecido como um dos heróis de guerra do Reino de Luzet, foi algemado pelos guardas reais sem resistir. Realmente parecia ser culpado de algum crime horrível, pois ao fundo, todos puderam ver sua esposa e filho chorando.
Na direção do castelo, no meio da estrada real, o próprio Rei, Otar, acompanhado de seus outros quatro cavaleiros reais, encarava com nojo.
As pessoas na multidão lentamente descobriram o que aconteceu, cochichando o boato de orelha a orelha. Os que internalizaram as informações mudaram suas expressões de chocadas para raivosas. Urraram e vaiaram Leonard.
Quando o burburinho chegou ao velho taverneiro e seus amigos, ele também não pôde deixar de gritar para aquele homem terrível.
O taverneiro se levantou, recolheu as canecas dos dois clientes e as limpou com a flanela velha e suja.
— E aí, não vai terminar a história? — disse um dos homens.
O velho dono do local olhou de canto de olho, fez um charme de contador de histórias, criando o suspense que antecede o clímax, encheu as canecas de cerveja e finalmente disse algo enquanto apoiava as bebidas no balcão. Era uma boa estratégia de negócios, pois os dois nem perceberam que teriam de pagar por mais uma cerveja cada um.
— Sir Leonard foi acusado de fazer parte do culto de Agnostos. — O velho estremeceu ao proferir o nome amaldiçoado, olhou para os cantos e até cruzou os dedos das duas mãos, para afastar o mal. — Ele foi o responsável por coletar prisioneiros de guerra, mendigos e crianças abandonadas para se tornarem sacrifícios e cobaias dos experimentos macabros que conduziam em Numbranta.
Os dois homens se encararam e tomaram grandes goles de suas cervejas, também muito chocados, tanto quanto as pessoas da época.
— Eu sei que disse que tinha certeza, mas… ouvir de alguém que estava lá na época é diferente! — disse o careca. — Ele tava junto com o inimigo então?
— Mas e aí? O que aconteceu com a família do cara? — perguntou o outro.
— Aí que fica mais triste ainda…
Leonard não resistiu à prisão em Exóristos, conhecida por ser a pior prisão do reino, cercada por água e completamente isolada da terra firme, à quatro quilômetros da costa, mas durante os interrogatórios exaustivos, em que ele apanhava bastante, insistiu que era inocente.
Disse coisas plausíveis todas as vezes. Ele era famoso, conhecido por ser humilde e gentil, um alvo fácil para esse tipo de incriminação. Até porque sempre se imagina que nobres vão ser terríveis e não bondosos como ele. O que ficou na cabeça do povo foi algo como: “Então por isso que ele era daquele jeito! Ele só fingia!”.
Contudo, não tinha ninguém do lado dele a não ser a sua família. Diana, sua esposa e mãe de seu filho, lutou com unhas e dentes. Ela e sua família protestaram em frente ao castelo, mas obviamente não deu em nada.
Foi relatado por um dos investigadores responsáveis pelo caso que Leonard parecia sincero, e o interrogatório passou a ser mais uma conversa do que uma tortura.
Um dia o novo responsável pelo prisioneiro levou um formulário oficial de relatório para uma das sessões de interrogatório. Somente o rei ou nobres importantes teriam acesso àquele texto.
— Você se diz inocente, mas quatro cavaleiros reais testemunharam contra você. — disse o investigador de cabelo lambido e bigodes pretos, com a expressão serena. — Meu trabalho aqui não é acusá-lo, você já está preso, só quero extrair as informações e você pode cooperar.
— Estou cooperando, senhor. Não gritei uma vez sequer ou me descontrolei durante as outras duas sessões que tivemos. Sou um homem inocente, que ainda mantém a compostura e educação, jogado numa prisão suja.
— E nessas últimas duas sessões realmente não extraí nenhuma informação nova de você, mas acho que é por teimosia. — Encarou friamente o detento. — Sempre foi conhecido pela sua força de vontade, não é, Leonard?
O ex-cavaleiro não respondeu e manteve o olhar baixo.
— Então me diz… — continuou o investigador. — Qual o seu relato de verdade?
O homem surrado ao fundo da taverna, que sempre estava lá, bebendo demais e pagando de menos, ouvia toda a história atentamente. Seus cabelos castanhos batiam nos ombros, sua barba longa e desgrenhada não era aparada há anos e seu crânio guardava olhos caídos de um homem cansado de viver.
Vestia roupas sujas, fedia à beça, mas era tão intimidador, com seu físico monstruoso, que ninguém ousava se aproximar ou cobrar pelas bebidas que ele tomava sem pagar. O taverneiro já nem via mais ele como uma ameaça, só trocava palavras quando tinha de fechar a taverna de madrugada e o vagabundo nunca respondera ou reclamara. Saía e vagava pela madrugada até amanhecer, daí retornava ao seu canto e roubava as canecas dos clientes desavisados. O que aguardavam os ignorantes que ousavam tentar confrontar o vagabundo eram seus socos pesados.
Ele conhecia essa história do taverneiro muito bem, não só porque o taverneiro contava ela para todos os viajantes que paravam ali, mas por estar muito próximo dos fatos.
Tomou o último gole de cerveja da caneca velha e a apoiou na mesa que ele puxou pro canto. Levantou os olhos cansados para o taverneiro. A partir desse ponto a história ficava terrível e ele sentia raiva disso.
“O velho tá contando tudo errado de novo.”
O investigador também permaneceu em silêncio por um tempo, mas afirmou:
— O gravarruna está ligado. Se é realmente inocente, não vai ter medo de falar.
O detento encarou friamente o funcionário da prisão por um tempo e escorou os braços lotados de cicatrizes, antigas e novas, na mesa.
— Eu tenho certeza que aqueles quatro armaram para mim. Não sei o porquê, já que sempre fomos muito próximos, mas se notar uma coisa, os quatro parecem ter me isolado. Se perguntar a qualquer criado de dentro do castelo, saberá que é verdade.
— Não foi por inveja?
— Justamente. Não acha motivo suficiente para armar algo assim pra mim? — Leonard pigarreou e ajeitou a postura na cadeira velha. — Não estou me gabando, mas fui decisivo naquela batalha. Eles foram ofuscados e quiseram me derrubar. Não é uma teoria plausível?
O investigador meneou a cabeça, parecendo simpatizar com o cavaleiro.
— Mas é a sua palavra contra a de quatro cavaleiros reais. Tecnicamente, mesmo não sendo tão poderosos quanto você, ainda têm a mesma patente. A única diferença gritante entre suas vidas, é que você, Leonard, possui uma linda família te esperando lá fora.
O funcionário real permaneceu em silêncio após a própria fala, pensativo. Assinou o formulário e guardou em sua bolsa dizendo que faria o possível para resolver o caso, se retirando para fazer os devidos procedimentos do interrogatório. Leonard foi levado de volta à sua cela pelos guardas sem dizer mais nada.
— Fala logo, taverneiro velho! O que aconteceu? — O careca, já extremamente alterado pelo álcool, berrou e bateu a caneca no balcão. — Para com esses suspenses!
O taverneiro deu uma gargalhada. Ele adorava fazer isso. Mais uma rodada de cerveja e eles nem perceberam.
— Tudo bem, tudo bem… — Se recompôs e encarou sua plateia novamente. — Alguns dias depois esse mesmo investigador foi encontrado morto e o suposto documento desapareceu. Claro que criaram-se várias teorias sobre como o cavaleiro não era o culpado, que de fato tinha uma conspiração acontecendo contra ele, mas nada foi comprovado. Na verdade todo esse interrogatório sempre foi somente um rumor.
— Tá, mas cadê a parte todo mundo fala? A famosa fuga! — disse o careca.
— Fuga? Agora cês tão me tirando! — respondeu o amigo de voz fina e rachada. — A prisão não ficava à quatro quilômetros da capital?
— Estamos falando de Leonard Alphonse Claude. Nada é impossível. — prosseguiu o taverneiro. — Ou melhor… nada é impossível para o Algoz.
Decretaram a sentença de prisão perpétua pelos crimes de guerra de Leonard, mas sua família não desistiu dos protestos. As várias famílias que admiravam o cavaleiro se uniram à causa, principalmente as mais pobres. A pressão pública foi tanta que Otar teve de comandar os guardas que fizessem uma patrulha mais agressiva em volta do castelo.
Quando uma das mulheres, mãe de uma criança pequena, foi empurrada por um dos guardas e bateu sua cabeça contra o calçamento, uma guerra civil começou. Já não era mais sobre a libertação de Leonard, era sobre a responsabilidade dos governantes sobre seu povo. Se exigiam respostas, tinham de ouví-las.
Os grupos rebeldes cresceram cada vez mais, pois o número de plebeus era exorbitantemente maior do que de nobres. Perderam totalmente o controle e Luzânia virou um mar de sangue. As ruas se tornaram inseguras e antros de criminosos de inúmeras facções, que se aproveitaram do momento de fragilidade.
Quem conhecia Diana e o pequeno Joseph, primogênito e único de Leonard, sabiam que eles não concordavam com nada disso. Se esconderam com a família e não pisaram mais do lado de fora, aterrorizados. Não se esqueceram de Leonard, mas o futuro se tornara incerto em Luzânia.
Com a ajuda dos rebeldes, Leonard conseguiu fugir da prisão após cumprir somente cinco anos da sua pena. Demoliram os muros, atearam fogo onde podiam e libertaram mais presos. A prisão mergulhou em caos e o cavaleiro aproveitou a brecha. Nadou no mar agitado da baía que separava a prisão da terra firme por horas a fio, escalou com suas mãos nuas, até que ficassem ensanguentadas, as falésias de pedras pontiagudas e finalmente chegou na cidade.
Ele não sabia quem e nem como tinham libertado-o, mas algo estava estranho. As ruas, geralmente bem cheias e movimentadas, tinham poucas pessoas com olhares assustados. Algumas paralisadas, outras fugindo apressadamente. As casas reviradas, as estradas sujas, sangue pelo chão e fumaça preta subindo aos céus.
Um incêndio enorme engoliu o quadrante residencial e provavelmente sua casa também. Leonard correu pelas ruas com os pés descalços e lacerados até encontrar a fonte de todo o caos. Os rebeldes só conseguiram libertá-lo, e só o fizeram, por conta do ataque à capital. Não queriam libertá-lo só porque achavam que era inocente, mas de novo, jogaram todo o fardo em seus ombros.
A tribo de orcs vermelhos marchou pela estrada de pedra, deixando somente fogo e sangue por onde passavam. Todos eram enormes, guerreiros de alto nível. Emanavam uma intenção assassina intimidadora que fazia os ossos vibrarem.
O cavaleiro, antes de qualquer dever, verificaria se sua família estava bem, mesmo com o peso na consciência. Não poderia simplesmente deixar que os inimigos andassem livremente pela capital, mas os mataria assim que pudesse.
Correu para o meio do fogo e escombros, passou por ruínas de casas do mesmo bairro dele e já imaginou o pior. Chegou à sua casa, também em ruínas e desesperadamente, rasgando seus dedos e quebrando as unhas, vasculhou por toda parte, mas só encontrou sangue dentre os escombros. Gritou seus nomes, Diana e Joseph, mas não obteve resposta.
Os corpos poderiam estar debaixo das pedras mais pesadas, poderiam ter virado cinzas e fuligem junto do resto da madeira que queimou, poderiam ter sido devorados pelos orcs… Não ouviu sequer um grito ao correr pelo bairro e nem um sussurro ou gemido quando chegou à casa. Não tinha ninguém vivo ali, além dele. Não queria acreditar nisso.
A fome e o cansaço o abateram. As refeições em Exóristos eram escassas e sabiam a gordura. A cama dura moeu suas costas mais do que as camas militares. Gastou o resto de suas energias chegando ao suporte da pesada espada de metal maciço e escuro que adornava o topo da lareira da sala, ou que sobrou dela.
O metal cheirava a sangue fresco. Nunca conseguiu tirar esse odor terrível, mesmo esfregando e polindo com todo tipo de material. Era a marca que nunca desaparecia da alma de um homem, a marca de um assassino. Mesmo que em prol de uma nação ou daqueles que amava, um homem que matava nunca deixava de ser um homicida. Leonard não era conhecido por Algoz atoa.
Mas sabia que cheiro de sangue não era igual. O que sentiu há pouco, na casa, era de sua família. Sangue doce e inocente derramado às custas da violência. Sangue do seu sangue, sangue que ele amava. Não deixaria isso passar, não sairia barato.
A Tribo Vurkaskh era lar de um xamã excepcional. Imsh analisou, mesmo que distante, o estado espiritual desse povo humano e tolo. Tinham vencido uma guerra, deveriam estar sólidos, contentes e mais poderosos, mas não estavam.
Um dia o xamã acordou de um sonho maravilhoso: a sua tribo estava destruindo a capital daquele reino. Lavariam o chão com o sangue deles, ergueriam seu próprio império, dominariam as outras tribos. Levantou-se no meio da madrugada para meditar e rascunhar.
O plano ficou perfeito, digno de ser oferecido a seu deus, Valarkhus. Quando chegou ao líder da tribo, o fez sorrir como nunca antes na vida.
Descobriram que Luzet, apesar da recente vitória contra Numbranta, passava por um momento conturbado. O xamã pôde enxergar vultos escuros, sombras nos corações, o medo, a tristeza e a decepção. Sintomas da traição, um corte profundo numa nação.
Foi com essa brecha que invadiram as abaladas linhas de defesa luzentes sem muitas dificuldades. Os guardas pareciam desmotivados, como se lutassem batalhas diárias difíceis demais. Tinham poucos e dentre os que enfrentaram, também tinham vários criminosos.
O herói de guerra de Luzet era famoso e poderoso o suficiente para ser temido pelos orcs também. Sabiam exatamente do que o Algoz era capaz. Mas na prisão não poderia causar problemas, pois ficava isolada numa ilha bem longe da costa. Teriam tempo de sobra.
Apesar disso, os rebeldes começaram seu plano assim que o caos do pânico total se instaurou. Usaram a desculpa da invasão dos orcs para libertar Leonard e os guardas cooperaram.
O cavaleiro se tornou uma ameaça. O estrategista e o xamã mudaram os planos rapidamente, já tinham feito isso várias vezes antes, um método simples e eficaz. Queimaram tudo.
Marcharam numa formação perfeita e blindada. Os guerreiros em volta com suas armas pesadas protegendo os atiradores à distância e ao meio de tudo, no centro desse olho que via o futuro glorioso pintado em vermelho, os mais importantes, líder, estrategista e o xamã.
A moral dos humanos foi jogada ao chão. Os poucos que tentaram proteger seu lar, morreram. Os inteligentes fugiram para bem longe dali, carregando o pouco que tinham.
Imsh sorriu, bradou em nome de sua tribo e de Valarkhus, acompanhado por seus companheiros. O sonho era uma profecia, ele sabia que a vitória alcançaria-os. O calçamento pintado de sangue e fuligem seria o nobre tapete que os levaria ao trono de ossos. As casas em chamas, as piras do caminho do triunfo. Maravilhoso, foi o que disseram em uníssono os orcs. Não se distraíram da tarefa, mas ousaram sorrir entre si, gargalhar por cima dos corpos.
Lembraram-se de Leonard, o grande cavaleiro, o Algoz, talvez o único que pudesse ameaçá-los, mas quem se importava com ele num momento como esse? O que ele faria agora, perguntaram entre si.
Quando cruzaram à principal avenida da capital, o som das gargalhadas engasgou de repente. Engoliram em seco ao sentir aquela presença pesada. A marcha parou e encarou o horizonte tomado pelo fogo, semelhante ao inferno. E como todo bom lar do mal, tem de ter o seu demônio.
Uma só figura fez os corações dos orcs palpitarem errado. Seus ossos vibraram, o fluxo sanguíneo acelerou. Precisariam se preparar. A adrenalina subiu às suas cabeças de guerreiros e calafrios escalaram pela espinha.
A raça guerreira dos pele vermelha sempre foi conhecida por estar preparada para o combate a todo momento. Todos os sinais de estar diante da morte dispararam, as funções criadas para salvá-los do perigo. Mas eles entraram justamente no território do demônio.
O Algoz avançou como um touro. Carregando uma arma ainda mais exagerada do que ele, a infame Guilhotina, e não foi afetado de modo algum pelo peso ou cansaço.
— Detenham-no! — gritaram o xamã e os demais dentro da formação.
Os guerreiros ergueram suas armas, entraram em posição de guarda, prontos para receber o ataque que fosse. A muralha nunca cairia, o líder tinha certeza disso. Continuou com a cabeça erguida e foi o único a testemunhar, num piscar de olhos, o Algoz ultrapassando toda a formação e degolando sua cabeça.
Continuou vendo e ouvindo o mundo por alguns segundos antes de morrer de fato. O corpo ainda quente caiu sobre o calçamento vermelho. O corte da Guilhotina sempre foi conhecido pela crueldade. É tão limpo que o inimigo ainda tem tempo para se arrepender do terrível erro que cometeu, ao ousar pensar que conseguiria derrubar o Algoz.
Não conseguia pensar em outra coisa além de matar. Leonard entorpeceu-se com a sensação de sangue quente respingando contra a sua pele e do seu próprio sangue, que rebatia furiosamente contra seu crânio, embaçando a visão.
Já não valia mais à pena, pensou enquanto degolava mais um inimigo. Perdeu tudo o que tinha. Ouviu os orcs se reunindo para atacá-lo, bradando e erguendo suas armas pesadas, mas era tudo abafado.
Decepava a carne imaginando estar matando os covardes que o acusaram. Covardes porque não só traíram a confiança de um companheiro, mas traíram seu reino.
Nem sequer se importou quando notou que já não segurava mais a sua espada com as duas mãos. O orc que, gritou vitorioso por arrancar o braço esquerdo do Algoz, foi partido ao meio pela Guilhotina. Crânio, dorso, tudo de uma vez.
O Algoz continuou girando o corpo para compensar a perda de um dos braços, sendo atingido pelos grandes martelos e machados, mas ainda assim matando a cada arco de sua enorme lâmina.
A visão era vermelha, embaçada. Não conseguia fazer outra coisa além de matar, porque foi tudo que lhe restou, na verdade. Se deixou levar e o Algoz tomou conta de Leonard.
Despertou seus sentidos quando a lâmina parou de cortar. Balançou a sua espada, mas não havia carne de pé. O suposto líder dos orcs foi o primeiro. A cabeça ainda exibia uma expressão apavorada. Os órgãos do velho estrategista escorregaram para fora pelo corte na cintura. O xamã temeu a morte e amaldiçoou o Algoz, gritando em nome de seu deus. A carga da sua raiva, do seu espírito amargurado, foi a mais pesada, com certeza. Se aglomerou junto das tantas outras almas presas no sangue que cobria a Guilhotina.
Ergueu-a mais uma vez com o único braço que lhe restou e percebeu que já não era mais daquele tom metálico de metal fundido e barato. Tingiu-se de carmesim para sempre. A marca de um assassino nunca desaparece.
Merecia, sim, o título de Algoz. Não se achava mais merecedor do título de herói, muito menos de esposo e pai.
— Depois disso ele desapareceu — contou o taverneiro. — Retomaram a capital lentamente e reconstruíram tijolo por tijolo. É óbvio que Otar estava em segurança, ele governa até hoje. Assim como seus outros cavaleiros reais ainda devem atuar. A família de Leonard nunca mais foi vista, muito menos ele.
Os homens ficaram tão bêbados que talvez nem tenham escutado o fim da história. O taverneiro contou ainda mais, para lucrar mais.
O homem pesado que vivia no canto sujo do comércio se levantou e caminhou pela noite. O taverneiro olhou-o de soslaio e bufou.
Vagou descalço por Cervantes sob a luz da lua parcialmente bloqueada por nuvens densas e escuras. A estrada suja lembrou-o de quando vagou até esse lugar. Chegou com essas roupas, descalço assim como agora, mas ainda carregando seu único pertence.
Demorou muito para se recuperar do combate contra a tribo orc, não só fisicamente, mas também mentalmente. Quando de fato recobrou a consciência, já havia caminhado vinte quilômetros em linha reta para longe da capital.
Nunca foi de vagar por aí, como um cavaleiro errante, mas soube se virar. Caçou animais da populosa fauna das florestas de Luzet, pegou carona com comerciantes e noticiou tudo o que aconteceu, claro, ocultando o fato de que ele era Leonard. Para disfarçar-se, cobriu o rosto com trapos velhos e evitou encarar os olhos das pessoas.
As várias caronas levaram ele a Cervantes, uma vila no interior do leste de Luzet, próxima de Ermo. Não quis se estabelecer, nem sabia quanto tempo passara. Entrou na primeira e única taverna que viu, passou a beber por lá, e descobriu, lendo um cartaz velho, que já fazia oito anos desde a sua prisão. Ele contou cada dia que passou em Exóristos. Ficara três anos na estrada.
Pensava a todo momento na sua família e no seu dever, mas seu corpo não se levantava para fazer nada. Aposentou a Guilhotina, fincando ela no topo de uma colina infértil. Há tempos deixou de ser o orgulhoso Leonard.
Riu de si mesmo quando percebeu que fez exatamente a mesma coisa que seu pai. O alcoólatra, Fabius, nunca encostou um dedo sequer na esposa ou no seu filho para bater, mas era omisso. Não fedia ou cheirava. Trabalhava para sustentar a casa, chegava tarde da noite, mal olhava nos olhos de seus familiares e dormia. Seguiu essa mesma rotina até morrer. Leonard se viu nele, omisso. Não pôde salvar a própria família, por isso extravasou no álcool.
Enquanto encarava as manchas de cerveja no seu manto velho, um homem passou correndo por ele na estrada, que ignorou o vagabundo que fedia a álcool. Carregava consigo uma bolsa lotada de papéis, que caíam pelo balanço forte da corrida.
Desesperado, o mensageiro foi até a taverna e avisou que uma tribo de orcs estava a caminho. O pânico foi tanto que o taverneiro deixou que todos ficassem ali dentro e fechou tudo. Trancou as portas e janelas e se esconderam todos no cômodo mais profundo da casa dele, conectada diretamente ao comércio. Nem sequer pensou no bêbado perdido na noite.
Este que, mesmo ouvindo tudo graças a seus sentidos aprimorados, ignorou completamente a situação. Orcs eram seus inimigos naturais, em teoria, já que foram o desfecho da sua terrível história como o cavaleiro Leonard, mas já não erguia a espada há tempos. Não tinha forças para isso e nem queria.
Continuou andando para fora da vila. Inconscientemente seus pés o levaram até a colina coroada pela espada de metal carmesim. Deitou-se ao lado dela e sentiu seu cheiro terrível de sangue ferroso. Ela pedia por mais, sussurrou isso no ouvido do Algoz. A Guilhotina precisava de sangue.
Ao deitar na grama, pensou que poderia morrer ali mesmo. Um raio poderia cair na sua cabeça, vindo daquelas nuvens escuras. Poderia ser devorado por um predador noturno que sentiu seu cheiro podre. Infarto era uma possibilidade não tão improvável. Não diria que estava pronto para morrer. Sentiu, desde que percebeu que já não era mais um cavaleiro buscando pela sua família, e sim um prisioneiro de guerra desolado que perdeu tudo, que já tinha morrido.
Alcançou, sob a abóbada celeste, o estado que alguns chamavam de Harmonia ou Catarse. Não sentia mais nada, entrou no limiar entre a vida e a morte, sem existir em nenhum dos dois mundos. Essa brecha foi aproveitada pelo demônio no seu interior, pelo sangue que manchava sua espada. A Guilhotina precisava de sangue.
Os três homens escondidos quase tiveram um piripaque quando o velho taverneiro roçou seus bigodes pelas tábuas que barricavam as janelas e usou seus dedos para abrir uma fresta. Seus bigodes grisalhos tremiam de ansiedade, precisavam ver o que acontecia em Cervantes.
Tentaram tirar o velho da fresta a todo custo, mas ele lutou com tapas e dizendo que a taverna era dele, fazia o que bem entendia e se alguém fosse contra, seria despejado. Não falaram mais nada, apesar de continuarem muito apreensivos. Era de conhecimento geral que os orcs tinham uma boa audição e faro.
No fim os homens cederam, talvez pela bebida, mas muito provavelmente pela curiosidade. Cervantes estava mais silenciosa do que nunca e os três observaram por diferentes frestas nas tábuas.
Passaram horas ali e viram tudo o que aconteceu atentamente.
— Já faz seis anos que partimos de Luzânia! Temos de tentar achá-lo, agora é o momento! Não ouvimos dizer que retomaram o território e que voltaram aos trilhos? Poxa vida, recebemos uma carta ontem do velho Tom dizendo que a cidade estava linda outra vez!
— Não é não, Joseph! Quem sabe o que pode acontecer conosco ao descobrirem que você é o descendente de Leonard? Seu pai sumiu e não foi atoa, é um homem procurado, traído pelo próprio rei. Sabe o que fizeram com ele, e ainda assim quer voltar?
— Irmão, por favor… — Diana interveio. — Terminei a sopa, se aprontem para comer.
Gelt saiu aos resmungos da sala de estar. Joseph se sentou, os olhos lacrimejando de raiva e decepção.
— Por que ainda vivemos com esse cara?
— Seu tio nos protege, filho, sabe disso. Se não fosse por ele… só Uno sabe o que poderia acontecer. — Ela se sentou ao lado dele no banco velho da casa baixa. A sala foi tomada pelo cheiro da sopa de legumes. — Daqui há alguns anos teremos dinheiro o suficiente para começarmos uma nova vida em Init. Poderemos parar de viver às custas de Gelt.
Diana agarrou firmemente a mão de seu filho, também com os olhos lacrimejando.
— Não saber o que aconteceu com seu pai é a pior das angústias…. uma ferida tão profunda no meu coração, que só pude continuar minha vida por você, filho. — Ela recostou os nós dos dedos de seu filho na testa. — Só quero que você não tenha o mesmo destino que ele nesse mundo cruel. Seu pai era um homem bom e você vai ser ainda melhor, Joseph. Por favor, não vá. Não posso te perder também.
Durante todo esse tempo, Joseph tentava segurar suas lágrimas, mas finalmente elas irromperam. A tristeza afundada no fundo do peito dessa família era grande demais para ser contida. Não era a primeira vez que choravam juntos dessa forma, e não seria a última.
Desde que pisaram em Oros, refugiados das rebeliões de Luzânia, e posteriormente, das garras de Otar, economizaram quanto a comida, roupas e moradia. Tudo para juntar dinheiro suficiente para uma nova vida no reino ao lado, Init, terra próspera dos novos começos.
Mas a todo momento se perguntavam a mesma coisa, será que um dia veriam Leonard outra vez? Ou sequer ouviriam falar dele?
Bond, o taverneiro, costumava se orgulhar de sua única história boa para contar no bar, mas sabia que, no fundo, não era nada demais. Um contador de histórias não tinha esse ofício por conta de um só conto ou boato. Leonard já não era tão glorioso nos dias de hoje, propositalmente apagado dos registros por Otar e os demais.
Só que, agora, boquiaberto como o mensageiro e os dois estrangeiros, percebeu que teria uma nova peça para seu repertório.
Os orcs vermelhos, com olhos amarelos penetrantes, dentes pontiagudos para fora da boca e músculos monstruosos, usaram a cabeça ao invés do físico. Formaram um cerco em volta de Cervantes para acabar com tudo de uma vez. Era hora de pilhar, diziam eles, enfileirados e comandados por Randark.
Bufaram e seus hálitos formavam pequenas nuvens de fumaça na noite fria. Cerraram seus punhos e agarraram firmemente as empunhaduras de suas armas sedentas por sangue. As tatuagens douradas encravadas em suas carnes reluziam à luz do luar.
O grito de guerra ecoou até mesmo para as vilas e cidades vizinhas naquela noite solitária e silenciosa de lua cheia, onde as nuvens se abriram como alas para a batalha na grama seca.
Avançaram descendo as colinas e percorrendo os pastos, atropelando árvores, arbustos, cercados e casas pequenas. A vila inteira tremeu, assim como seus moradores, amedrontados.
Destruíram os primeiros edifícios e cercados. Ignoraram os animais, pois seriam os espólios para comer mais tarde à fogueira. Mataram todos os homens que ousaram desafiá-los para proteger suas famílias e honraram seus esforços, poupando crianças e mulheres, mas os despejaram de Cervantes. Para onde iriam, não era da conta deles.
Pararam quando o xamã os avisou que tinha algo errado. Mandou um recado telepático, usando as tatuagens como canal, para verificar se todos estavam bem. O poder do xamã percorreu por eles e suas espinhas gelaram. Decepcionados, os orcs vermelhos abaixaram suas armas e responderam à mensagem, fechando os olhos e juntando os dedos para se concentrarem.
— Ala norte, tudo certo… ala sul… ala leste… — De olhos fechados e sussurrando dentro do feitiço amarelo que brilhava como uma coroa em sua cabeça, o xamã tentou chamar pelos últimos que faltavam responder. — Ala oeste? Respondam!
Mobilizaram todos os homens para a ala oeste do cerco formado antes de começarem o combate. O xamã verificou tudo momentos antes de começarem, não há nada que possa matar orcs tão rapidamente. Convencido de que os abrutalhados só se distraíram, rumou com seus homens e sentiu o cheiro de sangue.
A grama seca pintada de vermelho escuro como um tapete de guerra serpenteava até uma pilha nojenta e fedorenta de monstros musculosos empilhados, pelo menos vinte deles. O xamã subiu os olhos que, mesmo ofuscados rapidamente pela luz do luar, puderam ver a encarnação da morte.
A luz carmesim da lâmina assassina e sedenta por sangue encheu o coração dos pobres guerreiros do mais puro pavor. Tremeram, suspiraram pesado e perderam a vontade de lutar. Ergueram suas armas e levantaram suas guardas, mas sua moral foi ao chão.
A pressão intimidadora roubou o ar dos pulmões do xamã, que, como últimas palavras, clamou por seu deus.
— Quando o xamã caiu de joelhos… AAAAH! — Bond caiu dramaticamente no chão, em frente a uma plateia atenta de homens, mulheres, crianças e idosos, todos sentados no chão da taverna. — Por favor! Por favor, Valarkhus, salve-nos!
Ele contou como o homem feito de sombras carmesim, e de um braço só, cortou todos os inimigos com uma espada tão grande quanto a pilha de corpos. Sua cabeça era coroada por uma runa vermelha feita de fumaça, seu rosto apagado e os olhos brilhantes da noite. A espada cortava tão facilmente quanto uma guilhotina, desmembrando e decapitando a cada novo ataque.
Depois desse dia, Bond, o dono da taverna de Cervantes, contou para todos o que viu. Contou de novo e de novo para todos que passavam por lá. A lenda se espalhou e tomou essas bandas do reino. Em pouco tempo todos conheciam a lenda do Algoz.
Ganhou esse nome pela semelhança com o tipo de massacre feito por Leonard na sua época de ouro, quando guerreou em Numbranta. Isso era ainda mais impressionante, pois é dito que um orc vermelho adulto sozinho pode matar dois cavaleiros. Imaginar um espadachim forte o suficiente para matar uma tribo inteira dos orcs, sozinho, era maluquice.
Rumores nasceram em vários pontos do reino sobre como o Algoz e Leonard eram tão parecidos, que poderiam ser a mesma pessoa, mas ninguém nunca soube do fim que teve o cavaleiro, ou da origem do Algoz.
Dizem que, hoje, ele vaga pelas sombras, que só aparece em noites de céu limpo, acompanhado pelo cheiro de sangue fresco, e que quando empunha a Guilhotina, não sobra nada para contar história.
Não é visto como uma besta, muito menos como um herói. Mata quem perturba o silêncio da noite, supostamente, e desaparece antes do sol raiar. Isso porque só pode matar sem ser visto, e morrerá se ficar muito tempo sem matar, pois a marca de um assassino nunca desaparece, e precisa constantemente de sangue.

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