Capítulo 21: O conto da Tecelã
Com esse movimento, vários fios saem das janelas, moldando-se em formas de lâminas e garras; alguns permanecem soltos, ondulando no ar.
— Pionla… — ele levanta a espada na direção de Opala.
— Bauvalier… — Pionla, com um salto rápido, avança na direção dela.
Bauvalier vai por um lado, enquanto Roseta avança pelo outro. Ré não estava à vista de ninguém.
— Vamos ver do que os deuses são feitos — Opala usa as janelas para se teleportar de um lado para o outro.
Os fios conseguem enredar Bauvalier e Roseta, mas Pionla, por sorte, retalha todos antes que a alcancem.
— Não queria desperdiçar minha técnica com algo como fios… mas, já que é necessário…
Os fios são cortados. Vários golpes surgem e destroem aqueles que prendiam Bauvalier. Por fim, Roseta termina um pouco à frente, segurando a rapieira com as duas mãos, a lâmina apontada para baixo. A sequência de golpes aparece em forma de rosa.
— Ainda não perdi a garra.
Roseta avança e consegue desligar algumas das janelas.
— Desligue, apague, destrua quantas puder… sempre haverá mais — Opala surge atrás de Bauvalier, com uma das mãos envolta em fios que se transformam em garras douradas.
— Se acha muito esperta, não é?
Com um golpe firme de espada, Bauvalier afasta Opala.
— Essa brincadeira de rato e gato é divertida, mas acho que é hora disso acabar.
Fios começam a girar ao redor deles, empurrando-os para o centro até fechá-los completamente. Mas Pionla, abrindo e fechando a tesoura, corta todos os fios, mesmo com dificuldade.
— Esse “corta e não corta” não vai adiantar nada — Pionla continua destruindo os fios que surgem.
— Não se esqueça, ainda temos… — Roseta é interrompida.
Uma janela se abre perto deles, e um raio de energia dispara na direção de Opala.
— Ataque surpresa!!! — Locista estala os dedos, e várias setas surgem, desligando as janelas eletrônicas. — Mãe! Você já foi longe demais com tudo isso!
— Filha… minha própria filha do lado do inimigo. Já sei, provavelmente te manipularam. Mas não se preocupe… eu vou enterrá-los tão fundo que farão parte da estrutura de um Simulacrum ainda maior… ainda mais resistente.
Outra janela aparece no chão, mas Roseta puxa todos para longe.
— Cair no mesmo truque três vezes é idiotice.
Roseta ajusta a rapieira.
— Realmente… a dama da família… R@… Rose é extremamente ágil… mas não importa.
Opala, com um sorriso carregado de ódio, leva as mãos ao pescoço e entra em uma das janelas, saindo logo em seguida envolta em um casulo.
Enquanto isso, madame Linyâte passava a mão nas linhas douradas que prendiam o núcleo.
— Quase lá, pequenas criaturinhas… logo terão sua própria função.
Faltava pouco para desamarrar, mas tudo treme. Ela sente que algo ruim está prestes a acontecer.
— Falta pouco… desperdiçar essa chance seria burrice.
Ela usa o máximo de sua força, desfaz os últimos laços, ativa o anel e lança todas as criaturas dentro do núcleo. Em seguida, cria alguns fios para impedir que escapem.
— Agora… — ela toca levemente o ar, sente um fio e surge atrás de Pionla. — O que está acontecendo, donzela de marfim?
— Não sei… ela virou um casulo, é tão estranho… — Pionla abaixa a tesoura, confusa.
— Casulo? — a deusa maior olha para cima e vê a estrutura, e seus olhos se arregalam. — Corram!
Sua voz sai baixa, mas, de repente, uma onda de fios brilhantes avança.
Pionla levanta a tesoura, achando que será como antes, mas Linyâte passa a mão pelo pescoço dela e cria um pequeno casulo ao redor do corpo da deusa menor.
Ao mesmo tempo, Locista abre uma janela, e Roseta joga todos para dentro, fechando antes que fossem alcançados pela onda de fios.
Os olhos de Pionla se abrem, confusos, enquanto ela se vê em um ambiente escuro. Ela olha para as próprias mãos.
— Que lugar estranho…
Pionla se vira e vê uma saída, mas, do outro lado, está escrito: Memórias da Artesã.
— Não faz mal dar uma olhada…
Ela segue em direção às memórias, e a saída se fecha atrás dela.
— Que grande surpresa… — diz, sarcástica.
Ela passa a mão pelas linhas douradas, e apenas contornos brancos de figuras do passado aparecem. Ela para e observa.
— Bem-vinda ao mundo, artesã. Qual será o seu nome? — Orpheus, o próprio conceito de bondade, dizia com calma à jovem deusa.
— Linyâte… soa bem para mim. — Seus cabelos balançam de maneira magnífica.
— Então que seja Linyâte.
Assim ele declarou.
Pionla continua andando até chegar a uma memória mais intensa.
— O céu…
Ela toca o fio.
O céu aparece rachado, com fios escapando de dentro dele.
— Meu pai… de novo e de novo… mas eu me recuso a deixar que tirem o livre-arbítrio deles. Mesmo que, para ti, seja o melhor… para todos os outros não é.
Ela pega um pino do cabelo, que representa sua própria alma.
— Que assim seja.
Ela usa o pino e costura o céu. Em seguida, cai no chão, exausta e com dor.
— Minha dor é pouco para salvar a todos…
— Poxa… o que será que tem mais no fundo?
Ela segue adiante e encontra outra memória, diferente. Ao tocá-la—
Linyâte estava diante de uma garota com partes de aranha.
— Acho que você está pronta.
Ela pega o último pino e o insere na garota. O corpo da deusa desaparece, enquanto a jovem recebe os pinos e características dela.
— Não vou desperdiçar essa honra.
O céu começa a se abrir novamente… e a memória termina abruptamente.
— Por que será que essa acabou tão de repente…? E quem era aquela…?
Ela segue mais fundo e vê fios formando uma peça.
— Essa também é diferente…
Ela toca.
A garota de antes estava se sacrificando para que outra pessoa voltasse — uma dama robótica.
— Camilie… — a voz de Rimuru podia ser escutada.
— Não me diga, Rimuru, que você reconstruiu minhas peças… e usou o núcleo de uma deusa para me estabilizar — a voz da mulher é ríspida e extremamente centrada.
— Precisávamos da própria Camilie Fonsiele para vencer a guerra contra Zero. Você pode nos ajudar, né…? — Rimuru se aproxima e a abraça.
— Claro… vamos resolver isso — a mulher diz com calma.
A memória se encerra.
— Camilie… acho que já ouvi falar… mas essa mulher… eu tenho certeza de que já vi…
Ela corre para a última memória e passa a mão sem pensar.
Charmomilla estava com o carretel de linhas douradas quando uma marionete vermelha apareceu.
— Madame Charmomilla, você sabe que esse objeto é dos deuses, não é? — a marionete diz.
— Eu suspeitava… mas o que tem a ver? Acha que eles vão querer de volta?
— É esperado… mas, se eles levarem esse carretel, seu reino cairá novamente na escuridão. O miasma retornará e apagará mais uma cidade… — a marionete sorri. — Se quiser, posso te ensinar a usar esse poder para impedi-los. Eu só quero ver como eles vão agir quando chegarem.
— Se for para impedir o apagão, então eu concordo… mas gostaria de saber por que deveria acreditar em você — Charmomilla passa a mão, ansiosa, pelo carretel.
— Eu tenho uma pergunta para te responder… será que realmente importa? Ajuda é ajuda. Mas, se não quiser… ótimo. Deixe seu reino cair em degradação. Será que Locista aguentará mais um apagão? E será que ela vai te perdoar quando souber que a própria mãe deixou isso acontecer? — a marionete se aproxima de forma assustadora. — Então… você ainda precisa de um motivo para acreditar em mim?
— Não preciso… agora me diga como eu uso isso…
A memória acaba ali.
— Ballet… por que não veio pessoalmente? Será que ela ainda está lá? Se for isso, eu vou até agradecer ela quando…
O raciocínio de Pionla se quebra quando ela retorna ao mundo real e sai do casulo.
— Desculpa… eu não devia ter perdido tanto tempo…
A janela de Locista se abre, e todos saem.
— Do que a dama de marfim está falando? Mal se passaram três minutos — Linyâte passa a mão no cabelo. — Pelo menos você está segura… minha proteção funcionou.
— Madame Pionla, você está bem? — Roseta se aproxima.
— Estou bem… mas acho que ainda temos coisas a resolver.
Pionla salta em direção ao casulo de Opala e, com a tesoura, rasga uma grande fenda.
Opala sai irritada, aparentemente completamente recuperada. Com um movimento, empurra Pionla para longe.
— Acho que é hora de desligar vocês de uma vez, antes que desperdicem mais do meu tempo.
Ela estala os dedos. Fios prendem os braços e pernas deles, lançando suas armas para longe. Outros fios se enrolam no pescoço de cada um — exceto em Locista e Linyâte, que, mesmo assim, estão completamente imobilizadas.
— Não se preocupem… a maioria dos enforcamentos não mata por falta de ar, e sim pela quebra do osso… mas vocês não sentirão essa dor. A decapitação é rápida e indolor.
— Mãe… por favor… — Locista bate a cabeça no chão, fazendo um som seco e eletrônico.
— Não se preocupe. Quando eu acabar com eles, prometo que resolvo tudo com você, filhinha — ela sorri, macabra. — Nossa rainha… nosso rei… madame Rose… adeus…
Ela para de repente.
— Espera… onde está… aquela cavaleira…?
Seus olhos vão até o carretel.
Ré estava escondida em uma janela bem próxima. Em um salto rápido, ela pega o objeto e rola pelo chão, ainda perto de Opala.
— Isso que eu chamo de taque supre… — Uma explosão faz Charmomilla cair, e Ré cair também. Por reflexo, Ré usa o braço para proteger o corpo e o artefato.
— Ré… — Pionla sente a magia voltando, e Locista leva todos para baixo. Pionla e Bauvalier criam um chão macio e amortecedor, e então elas caem; mesmo com o chão modificado, a queda foi dura.
Os amigos vão ver Ré, e Locista vai ver a mãe.
— Ré, Ré… — Bauvalier diz, perto dela.
— Hm… meu braço… dói muito… mal consigo mexer…
— Olha, madame dos relógios, se quiser ainda tenho um pouco de poder para arrumar qualquer ferida ou dano — Linyâte se aproxima — claro, se você quiser…
Um grito de agonia surge. Locista está ajoelhada no corpo inconsciente da mãe.
— Ela… morreu? — Pionla pergunta.
— Não, mas nesse estado ela vai morrer logo… — Locista continua chorando e chorando — Mãe…
— Linyâte, pode curar a Charmomilla? — Ré pergunta, levantando-se com dificuldade.
— Posso, mas e o seu braço? — a deusa maior questiona.
— É só um braço, eu ainda vou viver. Mas essa garota… eu já senti essa mesma dor, e me recuso a deixar uma menina tão jovem chorar com a mãe morta nos braços sem poder fazer nada — ela se aproxima da deusa, pega a mão dela e a leva até Charmomilla.
— Já entendi… você é realmente uma cavaleira a se orgulhar.
— Não sou nada disso, qualquer um faria a mesma escolha — Ré diz, sorrindo.
Linyâte, com um movimento, faz vários fios curarem por dentro e por fora, costurando as feridas internas.
Charmomilla cospe sangue, que era quase um glitch.
— O… que eu fiz… — ela se levanta, confusa.
— Sua filha vai te explicar, mas saiba que já resolvemos o problema da luz de Simulacrum, então não vai precisar mais disso — Ré usa o outro braço para balançar o carretel, mostrando.
— Sério… mas, espera, seu braço… — ela respira fundo — sinto muito. Se quiserem, como pedido de desculpa, podem usar o teleporte que pode levar para qualquer lugar do país cenográfico, e mais… e mai…
Pionla faz um sinal, e ela se cala.
— Não precisamos de mais, e compreendemos que foi nossa culpa ter causado o primeiro apagão em Simulacrum, então faz sentido o seu ódio. Mas, mesmo assim, vamos aceitar o teleporte — Pionla diz, calma.
Ré vê aquele anel que estava com Linyâte agora no chão e o pega.
— Certo… onde querem ir… — ela diz, apreensiva.
— Ainda não sabemos, mas, se puder nos deixar em um lugar para descansar, tenha certeza de que logo te daremos uma resposta — Pionla pega o carretel.
— Ok, já sei o que fazer — Charmomilla abre uma janela — do outro lado dessa janela tem alguns quartos da suíte de luxo.
Eles entram, deixando Locista e Charmomilla sozinhas.
— Filha… quantos problemas eu arranjei enquanto estava como Opala… — ela já começa a tremer.
— Vamos para casa, mãe, porque é melhor você sentar, senão ainda vai acabar caindo — Locista abre outra janela.
Pionla vê o quarto e se deita na cama, desbochadamente.
— Um descanso, finalmente… — ela segura o carretel e, usando a carta dourada, a utiliza no carretel, que solta um papelzinho — né que deu certo? Amanhã eu conto para eles qualquer coisa.
Ela segura o papel e lê a dica:
“Brincadeira, diversões, música, e muitos brinquedos… eu estou escondido lá, acima das estrelas.”
— Brinquedos… será que é lá… — ela tira o chapéu e se deita mais ajeitada — amanhã eu vejo isso.
Os olhos começam a se fechar, cansados, e ela sorri levemente…

Fim do arco 3 – Conexão entre Fios e Luzes Simuladas

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