Capítulo 23: Morte
— Gwaaa! Guh! — grunhiu a criança. — Goo!
É claro. O que eu esperava de uma bebêzinha que ainda não sabe falar? É…
Movimentei minha mão de um lado para o outro, vendo se minha teoria se confirmava. Fazia gestos simples: estalava os dedos e fingia que minha mão era uma pessoa que sabia voar.
Acreditava, pelo menos um pouco, de que estava certa. E aquela criança iria conseguir falar comigo. Quero dizer, falar é uma palavra muito forte. Interagir se encaixaria melhor nesse contexto.
Continuei observando os sinais se concretizarem na minha frente. A criança, sem largar o coelho, apontava para o meu dedo e seguia meus gestos como se eu existisse. Fenômeno que não acontecia com o adulto.
— Hahaha! O que você está olhando, bebê? — perguntou o tio, pegando-a no colo. Ele se levantou logo após. — Bem, acho que já está bom por hoje. Você ainda deve comer.
A criança olhava fixamente pra mim. Só que, dessa vez, ela fez um gesto diferente: pegou o coelho, estendendo um dos seus bracinhos de algodão. Parecia simples, mas aquilo fez meus olhos brilharem diante de tanta fofura.
Humano demais. Nada comparado ao que acabara de acontecer. Nem um pouco igual ao que acabei de fazer. Essa criança… deveria ser eu. Tentei evitar que os sentimentos entrassem em meu coração, mas era inevitável naquele ponto.
Era eu. Não sabia explicar como sabia, apenas tinha essa certeza.
Levei meu dedo até o bracinho do coelho de pelúcia, triscando de leve naquilo.
— Tive memórias boas, então — disse, sorrindo. Era involuntário! Não conseguia evitar mesmo. — Obrigada.
Chorei brevemente.
As lágrimas escorriam de meu rosto como se fossem farpas saindo de um corpo cheio delas. Era silencioso, afinal, ninguém estava ao meu lado para me consolar.
E nem sabia se algum dia tinha alguém ao meu lado para isso.
Uma luz veio de encontro assim que disse isso, cegando-me por breves segundos, antes de a realidade voltar ao mais absoluto nada. Tudo se encontrava em um mar vazio, acompanhada por uma luz clara que mais traria dor de cabeça.
Aquele lugar era infinito e, ao mesmo tempo, finito. Parecia confuso, muito confuso.
Não entendia onde estava, mas essa informação se gravava em minha mente.
— Então, o que achou de conhecer sua versão mais nova? — perguntou o anjo, que se materializou do pó à minha frente. Uma areia que havia surgido do mais absoluto nada. — Ugh… Sinto nojo disso tudo. Mas bem, você deve se lembrar de tudo.
Não entendia o motivo de tudo isso acontecer comigo. Era como se fosse a escolhida. Mas a escolhida do quê? De um jogo maldito que preza meu sofrimento? Queria poder continuar naquela memória. Continuar naquele cenário calmo.
O medo me dominava. Temia conhecer mais sobre minha pessoa, isso se ainda fosse considerada uma pessoa pela sociedade. Eu… Ah…
— Que? Não! Me volte para aquela memória, eu ainda não terminei tudo o que queria! — resmunguei, me aproximando do ser divino. Segurei em seu ombro, segurando o choro. — Por favor! Eu ainda não termin–
Um tapa.
— Não lhe dei permissão para me tocar, vadia — disse. — Em nenhum momento disse que tudo isso era por amizade ou que tinha um favor com você. Fui enviada a trabalho, então, respeite tudo o que eu disser.
Doía muito! O formigamento veio em instantes, e aquilo era muito mais marcante do que um mero espancamento de meu pai. Como se fosse uma força mais que sobre-humana. Ou melhor, sobrenatural.
— Cacete! Você não podia ser mais gentil? — falei, segurando o lado em que havia levado o tapa. O choro, naquele instante, já havia se dissipado e se transformado em rancor. — O que tu quer de mim, então? Se não posso reviver aquela memória mais uma vez, o que devo fazer?
— Viver todas as suas memórias. Dessa forma você vai deixar de ser apenas uma casca vazia, não é óbvio? — continuou, empurrando a ponta de seu guarda-chuva em minha barriga. — A sua vida não tem mais preço. Você não vive por ninguém mais. Essas suas memórias são apenas lembranças de um passado sofrido com que você pode apenas imaginar algo feliz.
Eu entendia seus métodos. Agora entendia o que estava acontecendo. Não deixei aquelas palavras me abalarem. Muito pelo contrário, aquilo era um convite para eu crescer. Ser alguém diferente do mostrado pelas memórias.
Se eu era uma assassina? Isso não importava mais. Aquele anjo não passava de um demônio tentando me afetar com palavras e gestos.
Um demônio…
Esse nome combinava com sua aparência. Sua origem era desconhecida, e nem deveria pensar como havia nascido.
— Está brava? — comentou, um sorriso desenhado apareceu em seu rosto. — Não fique brava apenas por descobrir que sua existência é miserável. Sua expressão é algo com que já me acostumei, então me mostre uma diferente! Me mostre a tristeza em seus olhos, Scarlett!
Se antes eu era aquela que levava o tapa, agora eu seria aquela que daria. Em instantes, me aproximei mais uma vez, levando minha mão ao seu rosto.
Mas…
Nada adiantou. Minha mão só atravessou seu corpo. A mesma sensação que tive anteriormente. Os olhos arregalaram, sentindo todo o meu esforço valer por nada naquele instante.
Aquela sensação que deveria ser ruim era familiar. O sentimento de ter meu mundo acabado me era muito familiar. Deveria ser algo com que lidei antes de perder minhas memórias, mas não era o momento certo pra pensar naquilo.
Eu sou diferente. Diferente de quem um dia já fui.
[O Complexo atende ao seu chamado.]
Complexo…?
Uma tela estranha aparecia na minha frente. Desconhecida, mas… ainda mantendo um ar de familiaridade. Eu já tinha vivido toda essa cena antes. Tinha certeza disso. Talvez foi o que causou a perda de minhas memórias? Esperava que sim, pois dessa vez ia ser diferente.
[A matéria não é nada mais do que correntes que te prendem nessa realidade.]
[Fuja dessa prisão.]
[Caso complete, ganhará recompensas de mesmo valor.]
Ganhar recompensas?
Hahaha… Me parece uma piada.
Como se eu estivesse interessada nesses assuntos.
Em minha mão, uma grande espada se fazia de cinzas. Uma coloração negra, marcada por arranhões e sangue que não parava de pingar. Aquilo não era um poder. Não era algo sobrenatural. Aquilo era a manifestação de um sentimento guardado dentro de meu peito.
O ódio.
Como se fosse uma extensão de mim. Sentia como se aquilo fosse meu braço esquerdo que faltava em meu corpo.
No mesmo instante, o demônio se afastou, teleportando-se para longe.
— Mas que caralho! Que merda de espada é essa? — perguntou, enquanto abria o guarda-chuva, apoiando-o em seu ombro logo após. — Cacete, amiga! Sinto orgulho de você ter encontrado esse meio diferente de tentar me atacar.
— Cala a boca!
Não conseguia pensar direito. Só existia uma coisa na minha mente: a morte.

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