Capítulo 27: Eu Sou Um Monstro
— Pensei que você tivesse morrido — disse, olhando para trás. — Como voltou?
O demônio estava lá mais uma vez. Estava estático, olhando para a sala que se desfazia com o vento.
A pessoa com quem tanto amei estava se desfazendo diante da poeira no ar, assim como tudo dentro daquele espaço. Quase como se fossem memórias se destruindo.
Minha mente estava se destruindo aos poucos.
— Você sou eu, não é? — continuei, enquanto segurava as cinzas do que restou em minha mão. A saudade de seu abraço já doía no peito naquele momento. — Tudo isso é só a minha mente, não é?
O ser celestial se aproximou, os passos leves e silenciosos, quase majestosos.
— Percebeu meio tarde, não? — respondeu. — Não passo de uma criação da sua mente na tentativa de lidar com seus queridos traumas… Mas isso não importa agora. Você ainda vai se tornar um monstro, e logo tudo perderá seu sentido.
— Não compreendo… Por que tenho de me tornar um monstro? — Levantei, deixando o resto da poeira ser levada pela brisa que se formou.
— É bem mais complicado do que posso dizer. Mas você tem um papel essencial no ciclo — disse o anjo. — O Ciclo de Hektar! Em que finalmente possamos atingir a perfeição…
— Para isso devo me tornar alguém horrível? — perguntei, cerrando os olhos. — Isso só não faz sentido.
— Você… Não. Nós já somos pessoas horríveis, só falta essa parte de com quem falo lembrar de tudo — respondeu, colocando seu braço apoiado em meu ombro. — Vai ser majestoso concluir esse papel mais uma vez… Ser aquele que trará a destruição do mundo e levar tudo a um novo começo. Mais um novo ciclo.
— Um novo começo?
Eu não entendo. Ainda não entendo o motivo de tudo isso acontecer, de tudo isso existir.
Fui uma pessoa horrível? Não… Pelo visto, eu já sou uma. Destinada a ser um monstro.
Seria na destruição que encontraria o meu fim, mas também dela que eu vim.
— Pelo visto você entende agora. Seus olhos me falaram mais do que sua boca poderia dizer. — Sua mão encostou no meu rosto, um carinho desconfortável, marcado pelo sorriso alegre diante daquela máscara. — Aquele jeito com que você me matou só me mostrou o quanto você esconde sua crueldade. Você não sente remorso nenhum por ter feito isso, não é?
Eu… não conseguia me mexer. Cerrava o punho e tentava esquecer tudo que havia feito, mas era impossível. Minha mente sempre lembrava do que havia feito, mas nunca do motivo.
…
Sequer havia um motivo?
— Por que só agora? — perguntei. — Podia começar a lembrar de tudo muito antes, mas passei tanto tempo naquele mar de sangue. Por que?
— É isso que você quer saber? — respondeu, gargalhando. — É hilário o fato de você não querer admitir que me matou por diversão! — Bateu duas vezes nas minhas costas. — Sabe… aquilo já era uma lembrança, entende? Um mar formado pelo sangue das pessoas que você já matou. É divertido se perder num lugar manchado pelo o que mais te seguiu enquanto viva.
O sangue…
Aquele sangue todo foi causado por mim?
— Você nunca deve esquecer de quem já matou. Quantas vezes você já puxou o gatilho? Quantas vezes você já arrancou a esperança de uma pessoa? Quantas malditas vezes você já enfiou a espada em um coração? — continuou o anjo, dando um soco na minha barriga. Aquilo me levou ao chão, mesmo que não sentisse tanta dor. — Você é uma pessoa horrível, e deve se lembrar disso. Mas não morra! Morrer não vai ser divertido. Destrua a todos.
Eu…
Eu não queria aceitar.
A minha natureza era mais do que clara, mas não queria aceitar esse destino final. Não poderia me dar o luxo do caminho da destruição.
Isso…
Ah…
Eu lembro.
Consigo lembrar.
Consigo lembrar do que já vivi.
As lembranças entravam em meu corpo como facas, perfurando sempre num único lugar: o coração.
Os olhos das vítimas que se enchiam de lágrimas cada vez que percebiam que aquele era seu fim.
Seus corpos tremendo diante da morte, diante de uma pessoa que não se importava com nada além de ter seu objetivo realizado.
Escutei tantas súplicas pela vida que já havia perdido as contas. Havia perdido as contas de quantos havia matado.
Quantas pessoas sem famílias havia deixado.
Não queria aceitar…
Nem um pouco. Quase como uma birra vindo de uma criança.
Mas…
Carregada por culpa.
Todo o peso vinha de uma vez só, e nesse momento pus a mão em meu rosto. As duas, uma deixada como uma lembrança do que já fiz, e a outra criada pela culpa, manchada por meio de uma névoa negra que havia se formado com os sentimentos.
Aquilo…
Era pra eu ter controle sobre isso, afinal, é meu subconsciente, não é!? Mas no final eu não tinha.
Não tinha forças para contestar o que estava lembrando.
— Você conseguiu? Hahaha! Só de eu falar foi gatilho o suficiente para te fazer pensar e lembrar deles? — disse o demônio, colocando sua mão em meu queixo, puxando-o para que pudesse observar seu rosto. — Você é um Monstro. Um dos melhores, é claro! Nunca existiu uma pessoa tão cruel quanto.
Não pareciam…
Não deveriam ser minhas memórias!
Não… isso não é meu! Isso não é meu! Isso nunca foi meu! Não sou eu.
Não sou eu. Nunca fui eu.
Eu não matei ninguém. Não matei.
Não matei.
Matei.
Matei…
— Eu fiz isso em outras vidas? — murmurei, os lábios tremendo diante de tanta informação. — Essas merdas não são minhas! Pare com essa manipulação desnecessária!
— Sempre sendo uma Scarlett… Sempre se mantendo como uma assassina. Cópias? Não… Apenas um ciclo eterno que você sempre se lembra. Uma hora isso ia acontecer, e está tudo bem.
A herdeira do trono feito de metal.
Esse era o nome com que clamavam.
Suplicavam suas vidas a uma rainha, uma rainha que governava com dor. Marcada e destinada a destruir todos que viessem no caminho.
Era isso…?
Eu era essa coisa?
Queria não acreditar. Só pensar que isso tudo era apenas uma manipulação terrível.
Mas não.
Era verdade…
Merda! Aquilo era verdade! Tudo era real.
Eu…
Eu consigo lembrar de tudo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.