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    — Isso é tipo… muito brutal. Nem mesmo os massacres de Hektar tinham tantos mortos — falei, enxugando a cabeça. — Pensei que seria diferente nessa terra, já que não tinham as torres. Mas parecia que estava errada.

    Ainda não estava tão acostumada com a tecnologia daquele mundo. E, desde que cheguei aqui, só vi destruição e mais destruição sendo anunciada no que eles chamavam de “Jornal da Noite”.

    Pelo que Damien havia me explicado, isso que eles chamam de jornal é, nada mais, do que um portal de notícias. Mas que notícias são essas que apenas mostram perdas?

    Logo após, o programa mudou de assunto, indo pra mais uma tragédia: ocorreu um suicídio em massa num local abandonado. Pelo visto, eles adoravam tudo aquilo em nome de um “Deus Mudo”. 

    Nome que nunca havia escutado antes. 

    Mas, naquele instante, já estava cansada de tanta destruição. Sentia-me incomodada quando tudo isso me lembrava do que havia feito no passado. Então, antes que Damien pudesse comentar algo, peguei o controle de sua mão.

    — Não veja mais jornais comigo perto — murmurei, mudando o canal. Agora era um filme de esportes, um em que os jogadores corriam atrás de uma bola. — Pronto, isso é muito melhor. 

    — Eu tava assistindo, poxa! — resmungou Damien, tomando o controle da minha mão. — Ainda teve a audácia de pôr esse filme? É sério? Futebol, Annie? Ugh….

    — Não me importo com o que você vai assistir agora. Minha única ordem foi não abrir esse jornal comigo por perto. Tô cansada de escutar essas notícias tristes.

    — Para de drama! Tem notícias boas, sim.

    Cruzei os braços, o ar entrando pela janela entreaberta da sala percorria por todo o meu corpo, gelando a espinha.

    — É sério? Me diga elas, então. 

    — Uh… É… Sabe como é que é, né?

    Damien paralisou naquele instante, como se seu cérebro tivesse apertado o botão de desligar. Aquela foi uma confirmação da minha teoria, e me sentia certa de não deixar essas notícias abalarem mais meu mental.

    — Foi o que eu pensei.

    Agora estava longe da destruição. Longe do que chamavam de Viajantes. Longe da sociedade que era o maior monstro para meu coração. 

    Mas… Parecia ser chamada com todas as forças para aquele inferno. Como se minha presença fosse indesejada nessa terra, e eu tinha uma certa certeza de que realmente era.

    Movimentei-me até o quarto, os passos lentos pelo chão gelado do qual encostava. Tinha certeza de que aquela noite era mais uma de muitas em que sentiria frio. 

    Acabei me trocando, vestindo o pijama que Damien havia comprado para mim. E ainda não tenho tantas palavras para descrever o quanto sou grata por esse garoto! Ficou com todo o trabalho sujo.

    Voltei para a sala após um tempo, encontrando-o ainda assistindo aquele filme que havia posto. Achei super fofo o jeito que estava comportado!

    — Tá com fome? — perguntei, aproximando-me do sofá. — Estava pensando em fazer sopa.

    — Sopa? Quer ajuda? — respondeu, olhando diretamente para mim. — Posso cortar pra você.

    — Você já me perdoou? — disse, observando suas ações, que pareciam até muito normais pelo o que acabara de exigir dele. 

    — Fala da TV? Ah, eu preciso? É uma exigência simples… 

    Acho que eu tive as impressões erradas dele. Nunca esperaria uma atitude tão passiva de sua parte. Pensei que, por suas atitudes anteriores, agora fosse o momento perfeito para explodir de raiva. Eu havia vivido dois anos com ele! Não poderia estar tão errada agora.

    A resposta havia se tornado tão óbvia em alguns segundos.

    Pfft!

    — Tá rindo do que, sua mocreia!? — gritou, subindo no sofá. — Você já me tira o acesso e logo vem tirar sarro da minha cara?

    Uma mentira! Hahahaha!

    Comecei a gargalhar sem parar naquele instante. Damien estava aprendendo a reprimir seus sentimentos impulsivos, só que ele ainda era muito ruim! Hahaha! Como uma pessoa pode ser tão incompetente a esse ponto?!

    Tudo havia passado tão rápido. Damien acabou me ajudando com unhas e dentes para terminar a tão querida sopa. Havia se gabado tanto de suas habilidades culinárias, para no final não ajudar em quase nada. 

    Mas ele havia tentado do jeitinho dele.

    Aquele estilo de vida simples foi algo que sempre havia desejado. Um meio de me divertir sem precisar arriscar minha vida.


    O dia seguinte chegou num vulto. Parecia que tinha acabado de viajar para o futuro, quando acordei por causa do clarão da manhã, cegando meus olhos. 

    — Ughhhh! — resmunguei, tampando os raios solares com a mão. — Já é dia…? Mas eu nem dormi direito. 

    Ainda me sentia cansada. Muito cansada. 

    Era estranho, considerando o fato de ter jantado um bom ensopado que havia feito na noite passada. Talvez não havia comido o suficiente, ou era falta de algo a mais que tinha esquecido. 

    Uma incerteza. Mas tinha certeza de que essa pergunta não se responderia agora.

    Fui em direção à cozinha. Meu objetivo era achar algo que pudesse saciar minha fome matinal.  Mas… acabei tendo uma surpresa muito agradável. 

    Damien já estava acordado, diferente dos outros dias, nos quais dormia até meio-dia. 

    — O que te fez levantar tão cedo, Damien? Agora que são… — disse, olhando para o relógio que estava atrás dele. — Sete da manhã.

    — … Ugh! Você já acordou… — resmungou, desligando o celular. — Agora a surpresa já foi estragada.

    Surpresa? 

    Assim que olhei para a mesa, pude ver algo até que surpreendente. 

    — Panquecas? — murmurei, limpando a baba que já estava saindo pela boca. — Uoh… 

    — Coma.

    — O que? É pra mim?

    Tch! Não é óbvio, Annie? Só coma logo, sua idiota! — Ele empurrou o prato em minha direção. — Demorou pra cacete, viu? Então, aprecie minhas belíssimas habilidades culinárias. 

    — Belas não são — retruquei, pegando o garfo que estava ali perto. — Ontem você mais me atrapalhou do que ajudou. Mas vou dar uma chance…

    Comi um pedaço.

    E…

    — Qual foi? Tá tão ruim assim? — perguntou Damien, o rosto apoiado no braço. — Ah! Quer saber? Me devolve isso aqui.

    Ele tentou puxar o prato que estava perto de mim, mas não deixei. Não ia deixar ele tirar essa maravilha de perto!

    — Isso está muito bom! Cacete, Damien! Não pensei que você iria conseguir cozinhar algo na sua vida. 


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