Capítulo 31: Escarlate
— Foi como se estivesse numa selva… — murmurei, olhando para Daiane. — As vendedoras pareciam leões com aqueles olhares afiados.
— Hahaha! Mas foi divertido, viu? Muito libertador — Daiane respondeu, balançando as sacolas. — Você lembrava uma pobre coelha numa jaula de predadores. E parece que você foi devorada, não é?
— É… Acabei comprando uma das coisas que ofereceram… — Apertei uma pequena caixinha que estava no bolso. — Espero que dê certo agora.
Uma última chance?
Não…
Era só mais uma tentativa.
Nunca saberia dizer ao certo o motivo de meu coração ainda seguir o caminho vermelho trilhado por Scarlett. Minha mente sempre… sempre voltava para seu rosto.
Já estava chegando perto das doze horas, um horário em que a confeitaria poderia encher de clientes.
Uh…
Era melhor eu ir o mais rápido possível, mas meus pés não se moviam tão rápido quanto a mente queria.
— Nunca perguntei pra você sobre… — começou Daiane, evitando o olhar. E ali eu já sabia que teria problemas. — Sem querer ser insensível, mas o que houve entre você e Scarlett? Tem uma tensão muito estranha.
Ah…
Entre eu e Scarlett?
Achei adorável o jeito em que havia perguntado pra mim, então, não fiquei chateada a princípio. Foi modesto até demais.
— Tem certeza? É uma longa história — respondi, guiando o caminho até minha confeitaria sem Daiane perceber.
— Poxa… Tenho uma certa curiosidade. Não me importaria de escutar uma looonga história.
Eu ainda lembrava o cheiro do álcool daquele dia.
— A gente namorava. Isso é óbvio, né? — disse, sem jeito. — Cheguei nela em um bar, e daí em diante foi só felicidade. Conversamos todos os dias, sendo amigas, até que…
— Até que começaram a namorar? — interrompeu Daiane. — Me parece uma linda história de amor.
— É, isso mesmo. Namoramos por um ano inteiro até um pouco depois do acidente que aconteceu com Scarlett e seus amigos — continuei, coçando a bochecha. — Pelo visto, ela perdeu seus dois amigos de infância num acidente de carro por um motorista bêbado. Nunca foi divulgado quem dos dois foi o causador do acidente.
Era doloroso pensar sobre isso.
Conhecia Scarlett o suficiente para saber que ela mesma se culpava pelo acidente, e talvez até acreditasse que estava bêbada.
Mas eu não. Eles me mostraram o suficiente para saber que o outro motorista estava bêbado.
Ela era teimosa… Muito teimosa.
— O motorista e os dois amigos dela morreram no local. Só ela sobreviveu a todo o acidente. — Virei mais uma rua, levando a um bairro mais local. — Claro, foi muito doloroso no começo, afinal, ela passava o dia inteiro na cama. Eu a forçava a comer algo para que não passasse fome… Um mingau de arroz, algo mais simples de digerir.
Só de lembrar daqueles dias… eu sinto…
Me sinto culpada.
Poderia ter feito muito melhor, e eu sabia disso. Não aguentava lembrar de tantas lembranças dolorosas que vieram à minha cabeça.
— Me parece que foram dias difíceis — murmurou Daiane, compreensiva com a situação. Até me sentia bem compartilhando isso, como se fosse um modo de desabafar. — Eu consigo imaginar que isso a afeta até hoje.
Daiane era uma garota perceptiva, e isso era um traço muito evidente da sua personalidade.
Enquanto caminhávamos, peguei uma barra de cereal que tinha em meu bolso e comi um pedaço.
Um sabor de amendoim que adorava, e de alguma forma, me lembrava dela. Tudo me lembrava daquela teimosa.
— Sim… Pensei que estaria tudo bem quando ela voltou a frequentar as aulas da faculdade, mas estava profundamente errada. — A rua estava vazia agora, e sabia que estávamos quase no meio do caminho até a confeitaria. — Até que aconteceu algo na escola que mudou tudo. Quero dizer… Piorou tudo!
Frustrante.
O que mais poderia dizer? Foi super frustrante tudo isso. Queria ajudar e entender as dores, mas fui afastada por seu modo de defesa.
Não conseguia culpar ela por tudo isso, e, de certo modo, poderia ter tentado ganhar mais sua confiança para que não tivesse me afastado.
— Piorou tudo? O que houve para você estar falando assim? — Ela mostrava uma expressão confusa.
Ofereci um pedaço da barrinha para Daiane, que recusou educadamente com a cabeça.
Acabei me distraindo por um segundo olhando para um pombo que acabara de pousar no banco, mas logo me toquei na conversa.
Talvez… fosse só um modo de fugir dessa situação. Não sei.
— Não sei. Scarlett nunca quis me falar o que havia acontecido, mas eu sei que rolou. Foi uma semana após isso que ela terminou comigo, alegando a incrível desculpa de “estar me traindo”. Ridículo, né? — suspirei, arrumando a jaqueta. — Ela nunca me trairia. Aquela bobona tem princípios muito bem definidos e a traição não é um deles.
Foi pra tentar me proteger, esse era o motivo. Não queria me taxar como a “Namorada de uma assassina”.
Mas isso eu tinha de ocultar. Esses detalhes são demais para informar.
— Ah… Me parece ser uma situação muito complicada. — Daiane franziu a testa. — Então, ela terminou com você por causa desse acontecimento misterioso?
— É isso. E eu tenho certeza de que não foi traição porque ela passou todos os dias, em que alega ter traído, comigo! Ela por acaso traiu comigo? — disse, indignada só de lembrar. — Nem pra criar uma desculpa melhor, sabe? E é por isso que ainda insisto nisso tudo. Ainda a amo, e muito.
— Você não sente vergonha nenhuma de declarar isso, né? — comentou Daiane, distraída. — Mas deve ter sido muito difícil. Espero que vocês duas se resolvam logo, porque eu não aguento romances inacabados!
Parei na frente de uma loja. Uma fachada simples, marcada pelo estilo vitoriano.
Algo bem… chique. Adorava esse jeito de meu pai, ele era bem chamativo quando queria.
— Quem dera pudesse ser resolvido tão rápido — murmurei.
— Ahn? O que você disse? — retrucou Daiane, chegando mais perto.
— Chegamos. Eu disse que chegamos — completei.
— Uma…
— Confeitaria. É um ótimo lugar para se passar a tarde ou no horário de almoço. Sempre tem lanche. — Abri a porta do local para Daiane.
— E você acha que eu estou com fome? — Ela cruzou os braços com aquelas sacolas cheias de roupas, mostrando uma expressão indiferente, por mais que já soubesse seus verdadeiros sentimentos.
Ninguém resiste a um bom doce.
— Bem… Quer um bolinho?

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