Capítulo 33: Serei A Tirana Para Salvar Vocês
— É um ótimo nome, minha senhora — respondeu a serviçal, seu cheiro aparecendo levemente.
Aquela fragrância não me era estranha.
— Madeira… Você cheira a madeira. Para ser mais específica, um pinheiro do norte. Faz sentido você se interessar tanto por esse assunto — disse, colocando meus pés sobre a mesa, cruzando-os. — Estou ainda mais interessada pelo seu corpo, serva! Coisas diferentes me deixam muito intrigada.
Ela escondeu o rosto com a bandeja de metal que segurava. Não entendia suas ações naquele ponto, mas estava certa em dizer tudo aquilo.
Talvez…
Não. Prefiro não entender o que ela queria com isso.
Minhas lembranças eram um pouco turvas, mas conseguia me lembrar parcialmente das conversas que se desenrolaram naquela noite.
Uma noite que não deveria esquecer, afinal, foi o dia em que encontrei o meu Dsyni. De acordo com as tradições de minha antiga vila, um Dsyni pode ser traduzido para…
Pessoa especial.
Quando decidido pela primeira vez, a mudança não se torna uma opção. É alguém pro resto da vida.
— Você pôs o seu Pêndulo em mim, Majestade?! — exclamou Gaia, seus olhos arregalados com toda a situação. — Por acaso… não sabe o que significa isso?
— Acabei de decidir que você será o meu Dsyni! Existe algum outro motivo para meu Pêndulo não ser você? — Comecei a rir sem parar, enquanto afiava a lâmina do meu cabelo. — Fique tranquila. Você não morrerá, afinal, estará sob minha proteção. Logo não existe nem um mal de minha vida estar ligada a sua, não é?
Tirei meus pés da mesa, indo até a porta de minha sala para falar com os guardas e outros servos que ali passavam.
Num estalar de dedos, todos que estavam próximos se apresentaram para mim, e logo todos se ajoelharam. Naquela noite foi ouvida apenas uma ordem: “A proteção de minha noiva é essencial. Arrumem-na um quarto apropriado e lhe deem alguma proteção adequada. E, se alguém ousar fazer qualquer mal a ela, sentirá a fúria dos Firebornn”
Esse era meu novo sobrenome. Ganhei-o quando completei onze anos, após ser tirada à força dos meus pais pela família real.
De certo modo, nem lembro mais o nome deles e quem dirá os rostos. Mas sabia seus cheiros.
Um dos soldados parecia não ter entendido muito bem minhas ordens, soltando-se da pose de reverência.
Acabou que ele foi morto antes mesmo que pudesse pronunciar uma palavra, seu sangue se espalhando pelo rosto dos outros serviçais, que não mostraram nem um pouco de empatia pelo morto.
— Limpem isso também. Taquem fogo para que sua alma não volte mais a essa terra.
Após isso, deixei com que meus servos cuidassem de todo o resto.
Não havia muita história para ser contada, afinal, eu era a maioral. Aquela que sentava no trono de ferro. Um imperador que chegou ao poder por uma estrada de sangue.
E, em meu reinado, todos os vizinhos de minhas terras foram dominados por completo. Não havia nenhum local em que meu nome deixasse de ecoar. O Rei de Espadas tinha controle absoluto de todo o continente em poucos anos.
O que poderia ser lembrado? Das diversas formas que pessoas foram mortas por minhas mãos? Eles nunca entenderiam o motivo de meus atos horrendos. Nem mesmo se eu explicasse passo por passo.
Afinal, meu destino como tirana já havia sido selado, mesmo que fosse o único caminho para que uma realidade feliz pudesse ser criada. Destruir aqueles que comandam para que uma nova geração possa surgir.
Uma geração que não precisaria se soltar das amarras, afinal, eu morreria por elas no mesmo instante se fosse necessário.
Morreria por poucas pessoas. Dentre elas estava minha noiva, cujas mãos um dia segurei. Seu rosto é inalcançável assim como todos os outros, mas seu cheiro ainda residia em minha cama.
Só de lembrar dos seus cabelos, o meu coração se aquecia.
Mas…
Não havia nada que pudesse fazer. Ela acabara por desaparecer sem deixar qualquer rastro.
Seus motivos? Eram desconhecidos. Foi inútil ter gastado tanto tempo buscando-a. Afinal, ela mesma não queria ser encontrada.
Inútil.
Eu era inútil.
Uma marionete de meus próprios pecados, andando sob uma terra que me chamava de amaldiçoada. Nunca fui respeitada, e isso é óbvio. Eu era temida por tudo e todos.
E perto do túmulo ninguém ficaria ao meu lado.
Por isso decidi de vez que não morreria. Nunca. Minha alma iria passar de geração em geração, até que um dia esse ciclo vicioso aconteça mais uma vez. Até que os porcos subam ao poder e com desejos de grandeza utilizem os necessitados para subir ao topo.
Meus últimos dias com aquele nome foram recheados de traições já esperadas. Todo o meu batalhão decidiu pôr um fim em minha tirania. Talvez fosse a escolha certa pra eles.
E, de certa forma, apoiava ela.
— Demoraram pra chegar — exclamei, vendo todos os meus 11 soldados entrarem pelas portas banhados em sangue. Sangue de pessoas inocentes que tentaram defender uma tirana. — Vejo que meus soldados não foram o suficiente para segurá-los. Bem, era o esperado. Afinal, fui eu quem os treinou.
Levantei de meu trono, guiando a coroa que voava sobre meu ser até o chão, fincando-a, como se ela tivesse ficado pesada num instante.
— Se querem minh’alma, venham pegá-la. Usem seus corpos e peguem aquilo que acham ser de vocês!
Aquilo não era um campo de batalha normal. Todo o castelo era projetado de uma forma que as paredes dos cômodos sempre ficassem suspensas. O motivo disso era óbvio…
Foi a primeira vez que vi aquelas telas.
Não compreendia seus propósitos, mas meu instinto me dizia para aceitar esse “contrato”.
— Espero que você perdoe seu batalhão, majestade — confrontou o líder, sacando sua espada. — Hoje nós viemos tomar seu trono!
A terra tremeu abaixo de nós.
Não eram terremotos.
O mundo não estava acabando.
E talvez fosse melhor que estivesse…
O cômodo do castelo estava se movendo ao meu bel-prazer.
E o destino? O céu.
— Hahahaha! Então eu vou propor algo interessante — disse, puxando dois montantes da cintura. — Lutaremos no céu, meus servos!

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