Ao entrar pela porta, guiado pela Kelly para não esbarrar em nada, pode sentir o mesmo arrepio de antes, eram vários olhares densos, mas nada que se comparasse àquela única sensação angustiante.

    Quando a porta foi fechada, finalmente teve o saco removido de sua cabeça, era um saco de pão, vendo, diante de seus olhos que ainda se acostumavam com a forte luz das lâmpadas, cinco pessoas sentadas próximas a parede, lhe cercando, na razoavelmente grande sala do Diretor, que estava em sua mesa.

    Dos cinco, o Diretor era o mais baixo, apesar da pouca diferença, e o mais velho, ele continha um ar de superioridade, marcas de batalhas que claramente não as venceria de novo no estado em que se encontrava agora e a experiência estampada na cara, alguém que claramente teria a última palavra.

    O Vice-Diretor, sentado à direita do seu superior, era um homem bem mais jovem, não parecia ter mais do que quarenta anos. Ele tinha um olhar calmo e bem observador, o que incomodava Noah pela sua frieza, parecia que ele estava lendo a sua mente, julgando a sua personalidade e as suas expressões.

    Os outros eram Diretores de outros estados do sudeste do país, e era fácil distingui-los pelo sotaque e jeito de falar.

    — É esse o homem que nos obrigou a nos reunirmos aqui? — contestou a Capixaba. — Isso me dá gastura!

    — Essa parada vai ser um saco! — resmungou o Carioca.

    — Uai… Do que vocês têm tanta pressa? Graças a ele teremos o dia de folga depois que terminarmos esse trem — contrariou o Mineiro.

    — Temos muitos problemas para resolver para ficarmos perdendo tempo indo para o rock — respondeu a Capixaba, impaciente.

    — Parem com essa discussão inútil — interferiu o Diretor —, eu sei de que nesses últimos dias está tudo uma loucura, mas como líderes, como Diretores, temos que manter a calma e seguirmos com nossos deveres padrões de sempre, então calem a boca e deixem com que nossas equipes lidem com tudo enquanto estivermos aqui.

    — E além disso — continuou o Vice—Diretor —, de cabeça quente não conseguirão pensar direito, estão até usando gírias, ao invés de serem formais. Aproveitem o tempo que ganharão aqui para se acalmarem um pouco.

    — Isso é ruim, eles estão ainda mais mal-humorados do que o de costume — sussurrou Kelly, para Noah. — Não vai ser nada fácil convencê-los.

    — Você me anima tanto — murmurou, frustrado.

    — Muito bem — disse o Diretor, pela atenção de todos —, agora que se acalmaram, darei início a esse julgamento, onde decidiremos se, Noah Inácio da Silva, é alguém que merece uma chance de demonstrar o seu valor.

    — Se me permitirem começar, eu trouxe algumas informações sobre o “réu”, que creio que serão de grande influência em nossa decisão — disse o Vice-Diretor, com uma prancheta repleta de folhas em mãos.

    — Somos todos ouvidos — falou o Diretor, atento.

    E então o Vice-Diretor, começou a ler a extensa ficha criminal de Noah, eram quase duas folhas inteiras com coisas que fez nos tempos de escola.

    — E após entrar na faculdade, ele se envolveu com apostas fraudulentas — concluiu o Vice-Diretor.

    — Realmente isso é algo que não dá para ser deixado de fora — comentou o Mineiro. — E então, o que vocês acham? — perguntou ao ver Noah cabisbaixo e pensativo.

    — Por mim, já mandaria esse taruíra de volta de onde ele veio — disse a Capixaba, com a maior certeza do mundo.

    — Levando em conta o meio em que eu cresci, repleto de pessoas com fichas criminais ainda piores do que essa, eu estaria sendo hipócrita se simplesmente o condenasse. Então vou esperar por mais antes de tirar minha decisão — concluiu o Carioca.

    — Alguém tem mais alguma coisa a dizer sobre ele? — perguntou o Diretor. — Pelo jeito, não. Então, Kelly, nos diga, o que te levou a nos reunir aqui?

    — Quando eu decidi trazê-lo para cá, já tinha total ciência de todos esses crimes que o Noah cometeu, mas já fazem anos desde que ele não fez mais nada de errado, e a grande maioria desses crimes que ele cometeu foram de quando ele era de menor, depois disso, ele só fez o que fez para bancar a faculdade, as apostas ilegais com cartas, dados, jogos e etcétera…. E após ter pago a última parcela, ele nunca mais fez nada do tipo… — contou Kelly.

    — E que garantia nos daria de que ele não nos trará prejuízos? — contestou a Capixaba.

    — Enquanto ele não virar recruta, eu arcarei com todos os problemas que ele causar e ficarei inteiramente responsável pelo seu treinamento — orquestrou Kelly.

    — Palavras fortes — comentou o Mineiro.

    — Não é de hoje que venho procurando alguém para me substituir. O meu físico não é mais o mesmo há bastante tempo e não vai melhorar — explicou.

    — Agora fiquei curioso para saber, o que te fez pensar assim? — perguntou o Mineiro.

    — É difícil achar alguém que lute tanto para mudar e que não desista diante de tanta dificuldade, apesar das recaídas — contou.

    — Entendi.

    — Se é assim, Noah, me diga… O que o levou a vir aqui? — perguntou o Diretor.

    — Eu estava cansado de sempre me esforçar tanto todos os dias e não conseguir subir na vida, ainda mais precisando cuidar da minha mãe, então quando a Kelly ofereceu suporte a minha mãe e uma vida nova, pensei que seria a oportunidade de me sentir vivo de novo, de ter vontade de viver — contou, sentindo as próprias palavras saírem um pouco trêmulas de sua boca, eram palavras fortes, que saíam com um peso que nunca havia parado para sentir de verdade desde que voltou para as drogas, pois já faziam horas desde a última vez que se drogou.

    — Tenho que admitir que essa foi uma história intrigante, mas depois de anos ouvindo histórias tristes assim, repletas de mentiras, fico com o pé atrás com você — disse a Capixaba.

    — Então você decidiu se agarrar nesse pingo de esperança? — contestou o Vice-Diretor.

    — Sim! — confirmou Noah.

    — Nesse meio tempo, você criou alguma expectativa? — quis saber o Mineiro.

    — Sinceramente, a única coisa que veio à minha mente desde então foi descobrir um novo motivo para viver, algo que me faça acreditar que há sentido naquilo que estou fazendo — respondeu com mais ânimo, tentando se agarrar apenas nessas palavras.

    — Entendo — disse o Mineiro, com uma expressão séria.

    — Chega desse papinho melancólico, isso daqui não é uma consulta com um psicólogo particular, o que realmente me interessa é como você lidaria sob pressão? Quando estivesse numa situação de vida ou morte? — perguntou, bruscamente, a Capixaba.

    — Bem, essas coisas dependem muito da situação! Dependi várias vezes da sorte para sair vivo quando estava no campo de batalha, pelo exército, fiz diversas coisas que se tivesse tido escolha, ou mais tempo para pensar, eu nunca teria feito, e tem vezes em que estamos completamente vulneráveis, onde simplesmente desistimos ao nos sentirmos com as mãos atadas. Por isso, vai depender muito da situação, mas ainda estou vivo, ludibriei a morte várias vezes, e, independente de como fiz isso, continuo respirando, praticamente intacto depois de tudo o que passei. Bem diante dos seus olhos — respondeu de cabeça erguida, se sentindo feliz por estar vivo.

    — Acredito que agora seja a minha vez de te fazer uma pergunta… — disse o Carioca. — Então eu gostaria de saber, qual foi o seu maior sonho?

    — Essa é fácil de responder! Quando criança, eu era muito fraco, então o que eu mais fazia era ver televisão, e ficava sempre maravilhado com os jornalistas que viajavam o país e o mundo para trazer notícias, e desde então quis uma profissão que desse as duas coisas, aventuras e verdades, uma profissão onde eu pudesse, seja lá como fosse fazer isso, registrar tudo o que eu vivia.

    — Belas palavras, devo admitir — elogiou a Capixaba.

    — Muito bem, se ninguém mais tiver algo a perguntar, então eu darei início a discussão sobre o caso do réu — falou o Diretor, calmamente.

    O silêncio prevaleceu nesse tempo em que o Diretor esperava por alguém se manifestar.

    — Como ninguém tem mais nada a perguntar, então, Kelly, o leve para a prisão até que tomemos a nossa decisão — pediu o Diretor.

    — Sim, senhor.

    E então ela voltou a colocar o saco na cabeça dele e os dois saíram da sala do Diretor.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota