Capítulo 356: Registros (1)
— Eruhaben-nim.
Já faz dois dias que Cale acordou.
Cale chamou o nome do Dragão Ancestral mais uma vez.
— O artefato ancestral-
— Cale-se.
Eruhaben ignorou Cale.
— Não, sério-
— Humano, cale a boca!
Um pedaço de carne pousou delicadamente na boca aberta de Cale.
Cale mastigou e engoliu o pedaço de carne que Raon havia colocado em sua boca com magia.
Choi Han cortava a carne e então Raon usava magia para colocá-la na boca de Cale. Cale estava deitado na cama, pensando consigo mesmo.
“…Isso não está certo.”
Ele estava rolando na cama havia dois dias. Cale olhou para todos antes de começar a falar.
— Não está na hora de começarmos-
— Jovem mestre-nim.
Ron lhe entregou uma limonada com um sorriso e Cale tomou um gole sem reclamar.
“Cruel.”
Eles estavam de olho nele.
Cale teve que lidar com essa vigilância constante e cruel por dois dias.
As crianças, com idade média de nove anos, Choi Han, Ron, Beacrox e Eruhaben. Além disso, o Rei Mercenário, que fingia estar bêbado, e o mago, Glenn Poeff, que estava bêbado de verdade.
Todos se revezavam para garantir que Cale descansasse um pouco.
Não importava que ele sentisse que havia uma montanha de coisas para fazer.
— Ahem, se quisermos derrotar o Estrela Branca.
— Humano, cale a boca!
— Eruhaben-nim, não está na hora de você usar o artefato ancestral?
— Cale a boca, seu desgraçado.
As tentativas de Cale falharam repetidamente.
Cale havia deixado o tempo passar nos últimos dias, falhando repetidamente. Seu dedo começou a se mover.
— Humano! O que você está fazendo?!
Cale cutucou a bochecha gordinha de Raon. Ele então acariciou On e Hong sem responder.
Um pedaço de fruta caiu na boca de Cale enquanto ele fazia isso.
— …Ser preguiçoso é realmente o melhor.
Cale confirmou esse fato para si mesmo e abriu a boca novamente.
— Eruhaben-nim.
— Cala a b-
— Estou bem agora.
Eruhaben olhou para Cale, que o interrompeu e começou a se sentar. Cale olhou para ele com confiança.
Foi nesse momento.
— Bem? Pfft.
Ele ouviu alguém zombando dele. Cale virou a cabeça. Viu uma mesa.
Quando ele olhou para quem estava sentado à mesa…
— …Esse maldito alcoólatra.
O alcoólatra que bebia, mesmo com a cabeça apoiada na mesa, levantou a cabeça. Claro, seus olhos estavam completamente focados.
Naturalmente, o alcoólatra era o Rei Mercenário Bud Illis.
— Na opinião deste secretário-nim, você precisará descansar por cerca de um ano para ficar bem.
— …Ahhh.
Cale não pôde deixar de suspirar.
“Por que fiz uma aposta para que ele fosse meu secretário?”
Ele abriu a boca para falar.
— Você não está decepcionado por não ter tentado ganhar a aposta? Que tal fazermos isso de verdade?
— …Uma aposta de bebida?
— Sim, sim. Uma aposta de bebida.
Cale apontou para si mesmo e continuou.
— Se eu ganhar, você não será mais meu secretário e nunca mais quero ver sua cara. O que você acha?
Sorriso.
O Rei Mercenário sorriu antes de abaixar a cabeça.
— Haa, estou ficando bêbado!
Ele colocou a cabeça de volta na mesa e se afastou de Cale.
— Is-isso-!
Cale começou a ficar irritado.
Ele nunca havia enfrentado um lunático como esse antes.
Bud Illis fingiu estar bêbado e ignorou Cale toda vez que Cale lhe disse para não ser seu secretário.
“Quem se importa se você finge estar bêbado? Mesmo que você cheire a álcool, seus olhos estão completamente bem!”
— Jovem mestre-nim.
Cale, irritado, estremeceu ao ouvir a voz de Ron.
— …Você está falando sério sobre beber no seu estado atual? Está falando sobre beber quando só comeu a comida que o Beacrox preparou para você por um dia e passou fome por seis dias?
— Ahem.
Cale soltou uma tosse falsa antes de se virar para Ron e sair lentamente da cama. O filho de Ron, Beacrox, suspirou e também acrescentou:
— Seria melhor se você pelo menos nos dissesse o que estava fazendo lá dentro ou por que passou fome por seis dias.
Cale fechou a boca ainda mais forte.
Ele explicou vagamente ao grupo o que fez na Ilha do Vento por uma semana.
Ele disse que estava um pouco atrasado porque estava fortificando o Som do Vento. Ele estava atrasado porque a ilha era um depósito de mana morta.
No entanto, ele ainda não havia conseguido explicar algumas coisas.
Cale olhou nos olhos de Choi Han. Ele se lembrou da pergunta de Choi Han.
— Que tipo de fortificação era?
Cale deu uma resposta curta a essa pergunta.
— Só um normal.
Ninguém acreditou naquela resposta. Que tipo de fortificação o obrigou a passar fome por quase uma semana?
Entretanto, Cale não deu mais explicações.
Não havia nada que pudesse ser feito.
“Não é como se eu soubesse mentir.”
Ele não podia mentir sobre o conteúdo do teste, mas também não podia contar o que realmente havia acontecido.
Não havia sentido em fazer isso.
Era tudo falso.
Era tudo uma ilusão que não aconteceria no mundo real.
Por que ele contaria isso só para deixar as crianças e os velhos ansiosos?
Cale levantou o pé com uma expressão calma.
Ele então chutou a mesa.
*Bang!*
— Haaaaaa!
Bud, que estava com a cabeça apoiada na mesa, fingiu estar chocado e levantou a cabeça. Cale começou a falar com ele.
— Ei, secretário.
Ele apontou para o artefato ancestral e continuou a falar.
— Vá preparar um lugar tranquilo.
Eles não poderiam usar esse artefato ancestral em um quarto lotado.
Cale podia ver o Dragão Ancestral se levantando enquanto suspirava.
***
Um grande portão de ferro foi aberto e uma área vazia apareceu.
Bud tinha uma garrafa na mão enquanto apresentava a área ao grupo.
— Este é o lugar onde tive que passar pelo treinamento infernal do meu avô, e também onde me tornei um mestre espadachim e o guardião da Ilha do Vento!
— Haaaaa.
O mago Glenn Poeff suspirou e balançou a cabeça. No entanto, Bud estava falando sério.
— Este é o lugar que tem meu sangue, suor e lágrimas! Este é o campo de treinamento dos guardiões! Hic, você não sabe quantas vezes eu comi terra aqui em nome do treinamento, Hic!
Bud Illis estava soluçando, mas nenhum deles olhou duas vezes enquanto entravam no campo de treinamento.
— Anime-se! Que história triste!
Somente o gatinho ruivo Hong, que foi o último a entrar, deu um tapinha em Bud com a pata dianteira.
— Hic. Hong!
Bud tentou abraçar Hong, mas o gatinho se afastou facilmente do alcoólatra. No entanto, o gatinho teve que parar.
— Eu farei isso sozinho.
Foi por causa do comentário de Eruhaben.
Cale segurava o artefato ancestral enquanto observava o Dragão, que dizia que faria tudo sozinho. Eruhaben respondeu calmamente àquele olhar.
— Gostaria de fazer isso sozinho. Preferiria que todos esperassem lá fora.
Ele então estendeu a mão para Cale. Ele estava dizendo para Cale lhe entregar o jarro.
— Não! Vovô Ourinho, eu estarei bem ao seu lado!
Raon retrucou como se sua presença fosse óbvia. Os outros demonstraram concordância com Raon. Eruhaben acrescentou mais uma frase naquele momento.
— Eu sou um grande e poderoso Dragão.
Ele era alguém que emanava uma aura forte mesmo quando estava parado ali.
— Não desejo mostrar meu processo de cura aos outros.
Houve alguém que foi o primeiro a ser empurrado para trás depois de ouvir as palavras vindas do pálido, mas firme, Dragão Ancestral.
— Rezo para que o artefato ancestral seja eficaz.
Era Ron Molan.
O velho entendeu os sentimentos do Dragão Ancestral.
Ninguém sabia como ele ficaria enquanto a cura acontecesse. Ele poderia se revirar de dor ou se debater muito. Ron entendia melhor do que ninguém por que o Dragão Ancestral não queria que outros vissem isso.
Foi porque ele se lembrou das expressões nos rostos das pessoas que estavam lá quando ele sofreu com dores depois de perder o braço.
Os próximos foram Choi Han e Beacrox.
As crianças, com idade média de nove anos, reclamaram, mas recuaram depois de ver Choi Han e Beacrox se mexerem.
— Aham, hum. Então explicarei como usar o artefato ancestral mais uma vez.
O Rei Mercenário Bud deu um passo para trás enquanto explicava como usar o artefato ancestral.
— Aquele artefato ancestral será preenchido com água suficiente para o usuário que decidir usá-lo em si mesmo.
Bud apontou para o pote rachado.
— Depois de beber a água, quaisquer problemas relacionados à vitalidade serão curados ao ponto desejado. Claro, pode ser um pouco doloroso dependendo da situação. Meu estômago não se sentiu bem quando o usei.
Vitalidade.
Esse era o poder relacionado à cura e ao prolongamento da vida de alguém.
Cale ouviu a voz da ladra em sua mente.
{A vitalidade que se enche naquele jarro vem das pessoas que perderam suas vidas no passado.}
Este jarro continha a vitalidade das pessoas que morreram mais cedo do que deveriam por causa da Floresta das Trevas.
{É por isso que gosto que ele esteja sendo usado por um bom motivo.}
A ladra demonstrou seu apoio a Eruhaben usar.
Cale se concentrou tanto na ladra quanto em Bud. Bud continuou a falar.
— É claro que, se a quantidade de vitalidade necessária para o usuário for maior que os limites do jarro, o jarro quebrará depois que o usuário beber a água.
Cale pensou que havia uma grande chance do jarro quebrar. Era da vida de um Dragão que eles estavam falando.
A existência mais longeva, que era igualmente forte. Seria preciso muito para aumentar a vitalidade de tal criatura.
— Eu entendo.
Eruhaben não disse muito antes de balançar a cabeça e apontar com o queixo.
— Me dê o pote e fique lá fora. Eu te chamo quando estiver pronto.
Cale entregou o jarro a Eruhaben sem reclamar. Ele então deixou o campo de treinamento sem hesitar.
Os outros o seguiram silenciosamente ou o seguiram lentamente, hesitantes. Raon parou por um momento e gritou para Eruhaben.
— Vovô! Você tem que viver muito tempo!
Eruhaben sorriu ao responder.
— Eu sei, garotinho.
Ele então deu de ombros.
— Vocês acham que conseguem enfrentar o Estrela Branca sem mim? Sou alguém que cumpre a minha palavra.
Cale observou o sorridente Dragão Ancestral.
— Eu disse que viverei uma vida longa, então tenho que viver uma longa vida.
O Dragão Ancestral tinha um sorriso relaxado no rosto, o que finalmente fez Raon deixar o campo de treinamento e se sentar ao lado de Cale.
Eruhaben olhou para o grupo do lado de fora do portão antes de se virar e estalar os dedos.
*Tlack*
O portão de ferro fechou-se automaticamente após esse barulho.
*Baaang!*
Os outros não conseguiam ver o que estava acontecendo do outro lado depois que o portão de ferro se fechou com estrondo.
Cale se aproximou e se encostou na parede enquanto os outros apenas olhavam para o portão.
— Ah, meu amigo. Você não está relaxado demais?
Ele respondeu sem rodeios à pergunta de Bud.
— Você disse que basta beber água e que não há efeitos colaterais, não é?
— Correto. Fiquei tão chocado quando vi que a água estava enchendo que engoli tudo.
Bud sorriu e acenou com a cabeça. No entanto, seu sorriso desapareceu rapidamente.
— Hm, mas não posso ter certeza de quanta dor ele sentiria. O Dragão Ancestral-nim e eu somos diferentes.
Cale apenas assentiu com uma expressão estóica. Colocou a mão no bolso.
Bud tomou outro gole de álcool depois de ver todos parados em silêncio antes de olhar novamente para o portão.
Ele então começou a pensar.
“Precisamos da força do Dragão Ancestral para poder derrotar o Estrela Branca.”
Haveria uma grande diferença em suas chances de derrotar o Estrela Branca e seus subordinados se o Dragão Ancestral estivesse com eles ou não.
Bud Illis havia determinado que o Dragão Ancestral precisava viver muito tempo por razões estratégicas, pelo menos até que tudo envolvendo o Estrela Branca estivesse concluído.
Foi por isso que ele esperou o processo de cura terminar com o coração ansioso.
Foi nesse momento.
Algo aconteceu na área silenciosa.
— Há!
Alguém zombou.
Bud virou-se para o lado.
Cale era quem tinha acabado de zombar.
— Eu sabia que seria assim.
Cale então começou a andar.
— Cale-nim, o que foi?
— Humano, o que houve?
Cale ignorou as perguntas.
*Bang!*
Ele ouviu algo quebrando dentro do portão de ferro.
Hong gritou em resposta.
— Acho que o artefato ancestral quebrou!
Uma estranha sensação de ansiedade tomou conta do grupo.
Eruhaben havia usado o artefato ancestral. No entanto, o artefato ancestral não resistiu e quebrou. Quanto ele teria ajudado Eruhaben antes de quebrar?
Todos esperavam Eruhaben em suspense.
Foi por isso que se esqueceram de Cale, que caminhava em direção ao portão. Não acharam que fosse muito importante.
Cale ficou em frente à porta.
Sua mão direita ainda estava no bolso.
Aquela mão estava segurando o chicote do pião.
• O Dragão está usando o artefato ancestral!
• Ahhhhhhhh!
Cale estava ouvindo as vozes dos Elementais do Vento desde antes.
Ele confiava em Eruhaben.
No entanto, ele tinha visto algo.
O jarro começou a encher assim que Eruhaben agarrou a alça.
Estava enchendo lentamente, bem pouco de cada vez.
Este jarro era algo que enchia de água tanto quanto o usuário quisesse e precisasse.
Se um Dragão estivesse tentando prolongar sua vida, se ele realmente quisesse fazer isso…
A água realmente encheria tão lentamente?
O Rei Mercenário disse que precisava engolir tudo rapidamente ao usar o artefato ancestral. Isso não significa que a água enche muito rápido?
Foi por isso que Cale agarrou o chicote do pião assim que ele saiu, só por precaução.
Ele imediatamente ouviu as vozes dos Elementais do Vento.
Ele ainda confiava em Eruhaben.
No entanto, ele sabia que Eruhaben estimava Raon, a si mesmo e aos outros. Cale sabia o que as pessoas que tinham coisas que estimavam costumavam fazer.
Isso porque ele foi estimado pelas pessoas no passado.
Cale ouviu as vozes dos Elementais do Vento.
• Uau! O Dragão só tomou um gole!
O jarro só estava cheio de água suficiente para um gole.
• Ele está colocando o jarro na dimensão espacial dele? Nossa, ele está fingindo um barulho de quebra com magia.
O canto dos lábios de Cale começou a se torcer.
Ele ouviu a voz de um velho Elemental do Vento.
• Criança. Você quer saber o que o Dragão interior murmurou para si mesmo?
Cale não respondeu nada. Nem sequer assentiu com a cabeça.
Os pensamentos de Eruhaben eram algo que ele precisava perguntar pessoalmente e obter uma resposta. No entanto, o velho Elemental do Vento respondeu, mesmo que Cale não tivesse perguntado.
O Dragão, que tomou um gole, murmurou para si mesmo: “Isso é o suficiente para durar o bastante”, foi o que ele disse.
Isso é o suficiente para durar o bastante.
O significado por trás dessas palavras era óbvio.
…Até derrotarmos o Estrela Branca.
Você só precisava colocar isso no final da frase.
Isso é o suficiente, isso é o suficiente para durar o bastante até derrotarmos o Estrela Branca.
Isso não era algo que alguém com o objetivo de viver uma vida longa diria.
Também era óbvio o que Eruhaben estava tentando fazer ao esconder o artefato ancestral em sua dimensão espacial. Ele definitivamente não o usaria para si mesmo.
Cale colocou a mão na maçaneta. O vento se acumulou em sua mão.
*Scrun-*
O grande portão de ferro se abriu lentamente graças ao vento.
Cale entrou pela pequena abertura. Ele disse algo ao grupo ao entrar.
— Vocês não entram.
O grupo respondeu com expressões estranhas em seus rostos.
*Baaang!*
Entretanto, a porta que se abriu ligeiramente bateu novamente.
Cale olhou para o portão fechado antes de se virar.
Ele podia ver o grande campo de treinamento.
— …Cale?
Eruhaben, que não parecia mais pálido, olhava para ele com uma expressão confusa, mas sorridente.
Entretanto, Cale começou a franzir a testa enquanto perguntava.
— Então é assim que você vai agir?
Era uma expressão que o príncipe herdeiro Alberu diria ser extremamente desrespeitosa se ele estivesse ali para vê-la.

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