CAPÍTULO 01 – Novos líderes e o futuro de 10.000 anos

    A luta entre os universos continuava implacável. O irmão destemido, Frenizet, socava sem parar o corpo de Human Beast; costelas, abdômen, rosto e costas, qualquer parte era um alvo. Infelizmente para ele, os golpes eram absorvidos ou defendidos, e o impacto se transformava em ondas de vibração tão poderosas que abalavam as terras ao redor.

    Frenizet tentava desferir socos e chutes continuamente, em uma velocidade superior a um piscar de olhos, porém Human se defendia com os braços. O vilão possuía um corpo musculoso, com a pele grossa e firme, e pernas rígidas que não sacrificavam sua agilidade; ele era tão rápido quanto seu adversário. A velocidade dos golpes crescia a cada segundo, alcançando o limiar da luz.

    Freizen, por sua vez, distorcia o espaço e retrocedia alguns segundos no tempo, tentando criar brechas para que seu irmão contra-atacasse, mas boa parte do plano falhava, pois Human parecia prever cada movimento.

    Olhares eram trocados em meio ao caos. Sangue vazava dos três combatentes, flutuando brevemente antes de ser expelido pelas ondas de impacto. A intensidade da batalha era tamanha que ninguém conseguia se aproximar.

    — E não é que o bebê indefeso sabe dar uns tapas! — zombou Human Beast, cuspindo um pouco de sangue e limpando a boca. Seu sangue era uma mistura exótica de azul e verde, algo nunca visto antes.

    — Pois é, nós crescemos! — retrucou Frenizet de forma sarcástica, com um leve sorriso que demonstrava o quanto ele ansiava por mais.

    — Para um cara que foi tão castigado pelo próprio universo, seus movimentos não estão nada mal — gritou Freizen, um pouco mais afastado, marcando sua presença e desafiando o inimigo.

    — Bom, acho que posso dizer o mesmo de vocês — respondeu Human. — Como está a Terra-01? Já foi destruída pela raça de vocês? — indagou ele, provocando-os com um ódio que atingia níveis monstruosos.

    — Ela não foi destruída, foi readaptada — Freizen respondeu secamente, sem qualquer intenção de dar detalhes. — Mas isso não é da sua conta.

    — Então não tenho com o que me preocupar. Meus homens já estão encarregados de destruir todas as Terras — rebateu Human com arrogância. — Vocês dois não acharam que eu viria de mãos vazias depois de todos esses anos, acharam?

    — Então essa gritaria… são os universos?! — Frenizet indagou a si mesmo, percebendo a tragédia que ocorria enquanto lutavam. — Mas aqueles três estão protegendo-os. Espero que consigam sobreviver.

    — Você se refere aos três magos místicos da sua terra? Eles já foram mortos — disse Human Beast, com um tom de satisfação cruel.

    — O quê? — Frenizet perguntou, perplexo, tentando processar a informação.

    — Quantos anos você acha que eu esperei para atacar? — questionou Human. — Estudei cada um desses universos imundos até traçar o plano perfeito. Isso incluía matar vocês dois e os mais fortes de cada terra, inclusive aquele trio. Foi relativamente fácil eliminá-los; meus homens não tiveram problemas.

    “Desgraçado!”, pensou Frenizet. “Você vai pagar até a última gota de sangue”.

    — Você não está pensando em me matar, está? — Human perguntou sarcasticamente, notando que o rosto de Frenizet estava vermelho de fúria.

    — Acha que não sou capaz? — retrucou Frenizet com prepotência. — Freizen, você não está cansado, está?

    — Eu te pergunto o mesmo — respondeu o irmão.

    — Estou em perfeita forma e com poder de sobra para lutar por dias — afirmou Frenizet, fazendo um sinal de positivo com o polegar.

    — Então não se preocupe, eu também aguento muito tempo — concluiu Freizen, repetindo o gesto.

    — Vou vingar aqueles três, nem que eu morra no processo! — urrou Frenizet. Human Beast apenas gargalhou.

    — Então venham tentar, seus supostos deuses! — desafiou ele.

    — Vamos, Freizen! Agora! — gritou Frenizet, e seu irmão prontamente se lançou ao ataque.

    A luta recomeçou sem pausas para respirar. Frenizet atacava no corpo a corpo enquanto Freizen cobria a retaguarda, criando aberturas estratégicas. Eles se moviam tão rápido que pareciam estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e a cada instante o cenário ao fundo mudava, revelando diferentes universos em meio ao caos.

    As terras se deterioravam, grandes crateras se formavam e milhões de vidas inocentes eram perdidas. O cenário era de uma chacina: corpos decepados e soldados de Human Beast massacrando quem estivesse no caminho.

    Felizmente, após muito tempo, os exércitos das Terras, compostos por humanos e não-humanos, conseguiram finalmente abater as tropas inimigas, mas o custo foi alto demais para qualquer comemoração. O desespero das famílias que perderam tudo era a única reação possível.

    Ao perceberem que o exército inimigo fora derrotado, os irmãos sentiram um breve alívio, mas a fúria pelo estrago causado os fez atacar Human com ainda mais vigor. Human, por sua vez, apenas ria da dor deles.

    Foram trinta longos dias de combate ininterrupto. Os universos ainda não haviam recuperado nem dez por cento do que foi destruído. Até que, em certo momento, os três pararam. Suas forças haviam se esgotado totalmente. Seus corpos estavam envergados e os rostos inchados, com sangue escorrendo por toda parte.

    — Vocês são duros na queda… — ofegou Human, tão exausto quanto os irmãos.

    — Olhe pelo lado positivo: quase conseguimos te matar! — Frenizet debochou.

    — Se ainda acham que conseguem, tentem! Mas duvido que tenham forças para isso — provocou o vilão, tentando manter sua soberania.

    — Freizen, o que faremos? Estamos acabados e não conseguimos finalizá-lo. Precisamos de uma solução agora — sussurrou Frenizet para o irmão.

    — Eu já sei o que fazer. Prepare-se! — respondeu Freizen, já com um plano em mente.

    — Para sua insatisfação, Human, hoje não será o dia da sua vitória — Freizen retrucou. — Nossa vontade é grande o suficiente para fazer algo melhor do que simplesmente te matar.

    Reunindo o último resquício de energia, Freizen projetou uma barreira esverdeada e semitransparente em volta de Human, prendendo-o em um cubo apertado. Era apenas questão de tempo até ele se libertar, mas os irmãos foram mais rápidos.

    — Fique tranquilo, vamos te mandar de volta para casa — disse Freizen, com um semblante que misturava justiça, ódio e rancor. — E desta vez, sem volta.

    — Podem me mandar embora, mas eu voltarei! — gritou Human Beast. — E da próxima vez, matarei todos os universos, inclusive vocês dois, bebês!

    — Então tente… se for capaz!

    Em seu último ato de força, Freizen o baniu de volta para a Terra-51. Logo depois, ele separou o universo-51 do círculo astral, isolando-o para que nenhum evento ali pudesse interferir nos outros novamente. Temporariamente, a batalha estava vencida, mas a guerra estava longe de acabar.

    Após o confronto, os irmãos ficaram em coma por duas semanas devido à exaustão extrema, recebendo cuidados médicos de ambos os universos. Quando se recuperaram, foram exaltados como heróis e nomeados líderes. Freizen assumiu o 2º universo, batizando-o de Realidade Tecnológica, enquanto Frenizet tornou-se o líder do 3º universo, chamado de Realidade Média.

    100.000.000 anos depois da guerra, ano 51 D.g.

    O primeiro universo, que outrora era habitado por deuses, tornou-se um lugar simples, onde ninguém mais despertava poderes ou magia. Seus habitantes viviam vidas comuns, exceto por um caso específico. Havia um garoto chamado Jack Park, um nome incomum, pois ele era o único com esse nome no planeta.

    Poucos dias após o seu nascimento, seus pais o deixaram com a avó e fugiram, tomados por um medo que nunca explicaram. Jack cresceu sozinho e triste, observando as outras crianças brincando com seus pais, o que lhe causava uma angústia profunda.

    Ele sofria de insônia todas as noites e soluços frequentes durante o dia, mal conseguindo se alimentar ou descansar. Sua avó, preocupada, o levava a médicos e terapeutas, mas no fundo sentia que aquele trauma era impossível de curar.

    Entretanto, aos cinco anos, sua vida começou a mudar. Duas crianças, Jhenefer e Michel, aproximaram-se dele. A amizade do trio floresceu, e Jack finalmente começou a dormir melhor, os soluços diminuíram e ele passou a se alimentar regularmente. Aos seis anos, ele já se destacava nos estudos e nas atividades físicas. Os três tornaram-se inseparáveis.

    Jack conquistava méritos e chegou a ser líder de classe, aclamado por todos, mas sua expressão ainda era fechada às vezes, revelando que as feridas do passado ainda estavam lá, escondidas.

    Quando ele estava prestes a completar dezesseis anos, o equilíbrio do trio era perfeito: o temperamento de Jhenefer, a autoestima de Michel e a inteligência de Jack se completavam.

    Em uma manhã fria, o telefone tocou. Jack atendeu com um sorriso, sem imaginar quem estaria do outro lado.

    — Alô, quem fala? — perguntou ele.

    — Alô… Jack Park está? — perguntou uma voz feminina misteriosa.

    — Sou eu mesmo. Quem é?

    A mulher começou a chorar de forma incontrolável.

    — Alô, senhora? Quem é você?

    — Eu… sou a sua mãe, Jack.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo de Jack parou. Sua mão fraquejou e o telefone caiu ao chão enquanto ele desabava, em pânico, com os olhos vermelhos e lágrimas correndo sem parar. Lentamente, ele recuperou o aparelho.

    — Desculpe, senhora. Deve haver um engano. Eu não sou seu filho! — disse ele, trêmulo.

    — Tenho certeza de que não é engano. Você é Jack Park, não é? Eu lhe dei esse nome antes de deixá-lo com sua avó.

    Um ódio tremendo começou a consumir o corpo de Jack. Ele cerrou os punhos com tanta força que as articulações estalaram em um som seco. Seu rosto ardia de fúria.

    — Você? Você não é minha mãe coisa nenhuma! — gritou ele. — Você é uma pessoa desumana, sem coração, que abandonou o próprio filho sem motivo e sumiu! Se fosse minha mãe, não teria me largado assim que nasci. Uma mãe de verdade cuida do filho nos momentos felizes e tristes! Pais que fazem o que você fez não merecem ser chamados de pais, nunca!

    Ele desligou o telefone com tanta força que quase o quebrou. Jack encolheu-se no chão, chorando freneticamente e golpeando o que via pela frente — a mesa, as cadeiras, o piso. Todo o trauma guardado por anos explodiu novamente, da pior forma possível.

    Continua…

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