Capítulo 45: Conto Avulso.
A cabeça fervia.
Não apenas fervia, como tremia. Era como se fosse metal vibrando. Um zumbido vinha longe. Soava como uma guitarra, mas sabia que não era. Na mesinha diante dele, uma carreira por terminar descrevia uma linha branca.
Três sofás se dispunham em cada um dos lados da mesa, e o lado oposto ao que ele estava, por questões estéticas, era vago. Seu cartão era meio comido nas pontas, por conta do uso que vinha feito dele.
Cartões não importavam tinha algum tempo.
“Que dia é hoje?”
Resposta: vai saber.
Sua vida era composta de estradas, bares, casas de show, casamentos, formaturas, igrejas evangélicas, arraiais católicos, restaurantes e eventos de cidades pequenas. Coisas como dias, meses e anos, como cartões de crédito, não eram relevantes.
Guitarrista solo, base ou ambiente, baixista, não importava. Se tivesse cordas, ele tocaria. Tocava com todas as bandas que apareciam, e com elas rodava o Brasil. Não tinha casa, faculdade, família ou namorada.
A única coisa completa era o ensino médio, mas ele havia esquecido tudo.
“Merda.”
A espelunca era diferente. Não era qualquer chiqueiro que possuía um trio de sofás, um frigobar e ar-condicionado. Descrevendo assim, parece luxuoso, mas passava longe disso. O frigobar era todo descascado, e o ar-condicionado não gelava nada.
Os caras disseram que iam chamar ele ao meio-dia. Ele era bom. O melhor guitarrista que alguém pode querer. Iam chamá-lo, com certeza. Tateou a mesa, procurando pelo celular, e sentiu a superfície fria da tela.
Ligou.
“Oito horas…”
Estranho.
“Acordei cedo?”
Por isso se sentia tão moído.
“Minha garganta tá seca pra cacete.”
Levantou-se. Um enjôo suave roçou a garganta, mas ele engoliu de volta. No frigobar, uma Crystal trincava na porta. Reclamou, mas era o que tinha. O som do abrir de lata relaxou as têmporas, e ele bebeu.
Saciado, mexeu no cabelo. O movimento dos braços denunciou o mal-cheiro das axilas. Ia ter que tomar banho. Olhou os arredores, e avistou a própria camisa na maçaneta da porta. Ia servir. A pegou e foi ao banheiro.
— — —
Limpo e cheirando à Rexona, o rapaz saiu do lugar.
Era um prédio de kitnets. Desceu as escadas, esbarrando em um casal de cachorros que transavam desavergonhados. Filhos da puta! Ele pensou e riu. Então, isso era Palmas? Nada muito diferente de Belém ou Manaus.
Seria uma cidade muito bonita, se o céu não estivesse nublado. Mesmo sendo nortista desde que se entendia por gente, odiava as estações do Norte. Chuvas até Maio, e recomeçava tudo de novo a partir da última semana de Outubro.
Ele queria tomar café.
“Mas dá pra eu fazer isso lá, né?”
Com “lá”, ele se referia ao Bar do Miel, onde tocaria com a banda da vez.
“Eles iam me chamar no zap, mas vou surpreender eles.”
Ele só não tinha nada para fazer, mesmo.
O Bar do Miel ficava na Ilha da Canela. Você vai na Praia da Graciosa, pega um barco e paga pra te levarem. Foi o que disseram. Andou, andou, andou e finalmente chegou na tal praia. Ali, seguindo à direita de quem chega, entre estacas fincadas na água, um homem de boné vermelho e roupas manchadas comia pamonha.
— Me leva pra Ilha da Canela?
— “Bom dia”, pra você também — disse o homem, mal-humorado. — Cinquenta.
“Porra…”
— Achou que era de graça?
— Nah. Aceita cartão?
— Eu tenho cara de quem aceita cartão?
— Sei lá, cara. Aceita ou não?
— Bora ali.
O guitarrista seguiu o homem até um quiosque, cujo teto era de madeira e palha. Uma mulher alta e cabelos ondulados fofocava com uma velha.
“Hum…”
— Beca, o rapaz aqui vai pagar a passagem com o cartão — falou o homem à mulher.
— Vou já pegar, pai!
Assim que ela saiu, o homem virou o rosto e fitou o guitarrista.
— Bonita, né? Puxou pra mãe.
— Se fosse do senhor…
— Pô, garoto, não é pra esculhambar também — riu o homem, abrindo um sorriso. — Tu não é daqui, né?
— Sou de Itapiranga.
— DE LÁ?!
Até a velha, que já se distraía no celular, prestou atenção.
— O que tu faz aqui?
— Eu sou músico — disse o rapaz, ajeitando a camisa. — Eu gosto de rock, mas ninguém paga pra ouvir Sepultura.
— Sei nem quem é. Mas tu toca o quê?
— Bom… — ele conferiu nos dedos. — Brega, seresta, forró, axé, gospel, sertanejo, o que me pagar legal eu tô aceitando.
— Bacana, bacana — respondeu o homem, balançando a cabeça. — Tá aqui, ela trouxe a maquininha.
A moça dos cabelos ondulados e sorriso fácil chegou, se apoiando na beirada do balcão. A máquina ficou entre ela e o rapaz. Os olhares se encontraram, e ela meneou a cabeça.
— Tem a taxinha, sabe como é — O pai tentou chamar a atenção, olhando furtivamente para a filha. — Cin…
— …Quenta centavos à mais — falou o roqueiro, sacando o cartão como revólver. — Eu sei.
Depois de pago, a moça deu uma piscadinha para ele e voltou a falar com a velha. O pai apontou com o queixo para o barquinho.
“Simbora.”
As águas barrosas inundaram o horizonte, e o céu enegrecido o assustou um pouco. O banzeiro brincava de balançar o barco, e os ventos eram frios. Sentir frio e fome era sacanagem, mas o roqueiro sabia que era culpa dele mesmo.
“Devia ter comido antes.”
Atravessar águas em um barquinho. Aquilo era tão normal quanto andar de carro. Fazia isso o tempo todo, pois as bandas não tocavam apenas em cidades, mas em comunidades afastadas. Sempre tinha uma festa de interior, e elas sempre davam uma boa grana.
Fosse no Amazonas, no Pará ou ali, no Tocantins, tudo era a mesma coisa. O clima, as paisagens, era como andar em círculos. O sotaque das pessoas nem era tão diferente assim. Algumas gírias diferiam, mas não demorava para aprender.
Seus devaneios o levaram até chegarem na Ilha da Canela. Diversas tendas de palha se espalhavam pelas águas e, bem atrás delas, um punhado de terra se estendia por alguns quilômetros.
O dono do desceu primeiro, e ele foi atrás.
— Bar do Miel? É só seguir reto — disse o velho, acenando para as pessoas. — A gente também vem pra festa.
Ele claramente queria dizer algo com isso.
— Eu, minha esposa e minha filha.
— Legal — mandou o guitarrista, fingindo desinteresse.
— Espero que nada aconteça.

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