Capítulo 150: Berço (1/5)
Na manhã seguinte.
Baque—!
Renee abriu a barraca e saiu.
Ao sair cambaleando da tenda rasgada, Renee tinha uma aparência que lembrava uma lunática.
A espada branca em sua mão tremia violentamente. Um sorriso insano pairava sobre seu rosto avermelhado.
“Ahhhh…!”
Seu grito parecia o uivo de uma fera demoníaca selvagem.
Claro, essa reação foi porque ela se lembrava de cada detalhe de seu comportamento ridículo do dia anterior.
Renee gritou internamente, incapaz de afastar a ressaca que a deixava enjoada.
‘Essa louca!’
Por que ela acabou bebendo tanto!? Por que ela se jogou em cima do Vera daquele jeito!?
Não, se jogar em cima do Vera era uma coisa! Mas que sons fofos eram aqueles que ela estava tentando fazer!? Por que ela colocou divindade na garrafa de álcool!?
Renee queria chorar.
Ela queria fingir que os eventos do dia anterior nunca tinham acontecido.
Ela queria acabar com o seu eu bêbado do dia anterior, que se divertiu tanto apontando o comportamento de Rohan com Vera mas que acabou bebendo demais.
Pela primeira vez em muito tempo, Renee estava tremendo no lugar, sentindo a necessidade do poder de voltar no tempo.
‘Como vou ver a cara dele…’
Claro, ela era cega e não conseguia enxergar, mas não havia algo chamado expressão idiomática?
Renee ainda não estava pronta para agir de forma tão descarada na frente de Vera depois de causar uma cena tão feia no dia anterior.
Outro pensamento me veio à mente.
‘…Devo fingir que não lembro?’
Ela poderia dizer para Vera: “Ah, eu estava tão bêbada que não me lembro de nada da noite passada. O que aconteceu?”, enquanto se fazia de inocente.
Se ela beliscasse o lado de Vera de brincadeira enquanto dizia isso, ele não faria vista grossa para o que aconteceu no dia anterior?
Parecia uma ideia muito boa.
Depois de se decidir, Renee bateu no chão com sua bengala.
A divindade se espalhou da ponta da bengala, envolvendo a vila. Ela podia sentir os orcs, que cuidavam de suas respectivas armas e se preparavam para a cerimônia. Ela sentiu os gêmeos, Miller e Norn no mesmo lugar. Hela estava escovando o cabelo de Aisha e, finalmente, Vera…
“Santa, você tossiu?”
…estava logo atrás dela.
O corpo de Renee saltou como um peixe recém-pescado.
“Kyaa!”
Um grito escapou.
Num instante, Renee girou e perdeu o equilíbrio, e Vera rapidamente veio ajudá-la.
“Você precisa ter cuidado.”
As palavras de Vera foram ditas com um tom indiferente, como se não fosse nada demais.
Com isso, Renee sentiu o rosto arder e assentiu. Enquanto isso, observava o humor de Vera.
‘…E-Ele está fingindo que não sabe?’
Ele vai ignorar o que aconteceu no dia anterior?
Não houve nenhuma mudança aparente em suas emoções, nem parecia que ele estava prestes a dizer algo.
Renee sentiu um vislumbre de esperança começando a crescer dentro dela.
‘Por favor, vamos seguir em frente!’
Não aconteceu nada ontem!
…Assim que pensou nisso, Vera soltou um suspiro.
Renee congelou.
Vera viu isso e abriu a boca.
“Santa, há algo que você queira dizer?”
Seu comportamento enquanto falava era severo, o mais severo do que ela já tinha visto.
Era como se ele estivesse dizendo: ‘Estou prestes a repreender você agora’.
Renee sentiu o suor frio escorrer pelo rosto. Em meio a tudo isso, lembranças do dia anterior passaram pela sua mente, enchendo-a de vergonha.
“Uh, aconteceu alguma coisa ontem…”
Ela tentou agir como se fosse inocente e prolongou as palavras, mas não funcionou com Vera.
“Desta vez, chegou a hora de você ser repreendida. Eu estava pensando que talvez eu estivesse te mimando demais por muito tempo. Ver alguém que nem sequer teve sua cerimônia de maioridade se comportar daquele jeito, sem nem mesmo sentir um pingo de hesitação, me deixou completamente consternado.”
Cada palavra de Vera era como uma facada no coração de Renee.
Foi como se a adaga de um assassino habilidoso a tivesse atingido.
Renee se aproximou sutilmente de Vera, agarrou sua gola e disse.
“Eu estava apenas envolvida pela atmosfera…”
Sua voz estava lentamente perdendo força, tornando-se desanimada, enquanto ela murmurava e falava de forma pouco clara.
Foi uma tentativa de demonstrar seu constrangimento e pedir que ele parasse, mas Vera não entendeu bem.
No meio de tudo isso, os olhos de Vera ficaram cansados, e ele estendeu a mão pensando que Renee, que não demonstrava nenhum sinal de remorso, estava sendo um tanto atrevida.
Ele colocou a mão na bochecha esquerda de Renee, beliscando-a levemente e esticando-a.
“Tem certeza de que é isso que você deveria estar dizendo?”
Ele fez uma coisa que normalmente não faria, e suas palavras demonstravam que ele não tinha intenção de deixar passar dessa vez.
Renee respondeu com uma cara que parecia que ela ia chorar a qualquer momento.
“Desgulpa…”
A resposta dela saiu daquele jeito por causa da sua bochecha, que estava sendo esticada e espremida.
***
Depois que uma tempestade de repreensões tomou conta de Renee, ela recebeu ajuda de Hela, que chegou atrasada, para se vestir. Quando Renee chegou ao centro da vila, Valak começou seu discurso em voz alta e enérgica.
“Hoje é o dia da cerimônia! Nosso povo está pronto!?”
Sua voz estava impregnada de uma aura de luta.
Os orcs responderam com um rugido de ‘Woooooo!!!’.
Miller, ainda embriagado, murmurou com a voz quase acabando.
“Eles estão indo sem nenhuma preparação…”
Sua voz estava cheia de descrença.
Da perspectiva de Miller, era natural.
Eles estavam indo para o local mais notório e proibido do continente.
Era a Terra dos Mortos, onde ninguém que se aventurava saía ileso.
Não há feitiçaria, pelo menos não com feitiços primitivos ou auxílio místico. Será que eles estão indo lá só para brigar?
‘Como é que essas pessoas conseguem atravessar?’
À medida que sua curiosidade crescia, tais pensamentos começaram a surgir na mente de Miller.
“Eles estão vivos porque não pensam? O Berço dos Mortos é um lugar por onde só idiotas conseguem passar?”
Pensando bem, era uma especulação bastante plausível.
Se isso fosse verdade, ele achava que os gêmeos não precisariam se preocupar com segurança.
Enquanto isso, após terminar seu discurso, Valak se aproximou do grupo.
“Fortes! E menos fortes! Estão prontos?”
O rosto de Valak demonstrava um espírito de luta absoluto, uma expressão feroz pronta para dar um soco a qualquer momento, mas também cheia de alegria.
Sentindo-se encolher diante daquela visão, Miller perguntou a Valak.
“Com licença…?”
“O que!”
“Hum, estou perguntando isso pela segunda vez, mas vamos mesmo entrar sem nenhum preparo? É o Berço dos Mortos. Tem como sairmos ilesos?”
Miller tinha um motivo para perguntar isso, para garantir a segurança.
Por que não? Ele não havia dito pessoalmente ao grupo para aceitar a ajuda dos orcs? Esta situação era culpa dele.
Se algo desse errado, a responsabilidade seria dele. Portanto, Miller precisava analisar a situação com mais cuidado do que qualquer outra pessoa do grupo.
Valak caiu na gargalhada ao ver a cara séria de Miller e respondeu.
“Vá e volte logo! Você pode sair se provar sua aura de luta!”
Foi a mesma resposta de antes.
Os olhos de Miller se estreitaram.
“Como provamos nossa aura de luta?”
Já que essa frase continuava aparecendo, devia ser o ponto-chave. Miller perguntou porque não conseguia entender o significado.
“Uma competição de superioridade contra mortos-vivos poderosos! Obtenha o reconhecimento dos mortos-vivos! Se fizer isso, o Rei dos Mortos fará vista grossa!”
“Ah…!”
Com a resposta de Valak, os olhos de Miller se arregalaram muito.
‘Foi isso que pensei!’
A especulação sobre encontrar uma maneira de sobreviver e escapar do Berço dos Mortos buscando a permissão de Maleus se mostrou correta, e essa percepção motivou sua reação.
Só então Miller assentiu satisfeito.
“Obrigado pela resposta.”
“Mm!”
Valak assentiu vigorosamente com a cabeça, contraindo constantemente seu corpo já inquieto.
Desta vez ele se virou para Vera.
“Ah! O forte também precisa se lembrar! Você precisa lutar contra mortos-vivos fortes! Tão forte quanto o forte, ou até mais forte, você precisa provar seu valor!”
Pego de surpresa por ter sido escolhido, Vera o questionou.
“Você quer dizer eu?”
“Exatamente! Você não pode provar nada lutando contra mortos-vivos fracos! Você tem que escolher seu oponente com sabedoria!”
Um morto-vivo tão forte quanto ele.
Engraçado que o primeiro pensamento que veio à mente de Vera no momento em que ouviu essas palavras foi:
“…Existirá um morto-vivo assim?”
Era uma questão de saber se um morto-vivo tão poderoso quanto ele poderia existir.
Pode parecer arrogante, mas Vera tinha motivos de sobra para pensar assim.
Quem conhecia seu próprio poder melhor do que ele mesmo?
Vera estava ciente. Exceto pela parte referente à utilização da intenção, sua força estava em um nível em que ninguém poderia derrotá-lo, a menos que Vargo retaliasse pessoalmente.
Mesmo que alguém tão forte quanto um Comandante do exército do Rei Demônio viesse, ele poderia ter dificuldades, mas no final, ele venceria.
Se ele lutasse diretamente com a espécie antiga Maleus, isso poderia ser diferente, mas o conceito de Valak de provar a si mesmo não seria tão difícil.
Essa foi a conclusão que Vera chegou depois de considerar vários fatores.
Ao ouvir a autoconfiança de Vera, Valak caiu na gargalhada e respondeu.
“Há!”
Foi uma resposta que pretendia destruir a autoconfiança de Vera.
“Cavaleiro Espectral do Berço! Um deles tão forte quanto… não, em alguns aspectos, até mais forte que o forte!”
O sorriso de Valak se aprofundou.
“Eu sei porque os conheci!”
Ele parecia estar revivendo aquele momento, suas palavras carregadas de um espírito de luta que beirava a loucura.
“O mais forte que já conheci na vida! Valak ainda não derrotou este, forte! A espada do Cavaleiro Espectral fez Valak sentir medo! Valak tem certeza! Até o forte terá dificuldades se enfrentar o Cavaleiro Espectral!”
Sua voz era inabalável.
Ao ouvir isso, a expressão de Vera endureceu um pouco. Foi uma reação que poderia ser descrita como surpresa e tensão.
Valak sentiu uma sensação de expectativa ao ver isso.
‘Eu quero ver!’
Ele queria ver a cena do forte lutando contra o Cavaleiro Espectral.
Ele tinha uma estranha crença de que testemunhar isso levaria sua aura de luta para o próximo nível.
Valak pensou consigo mesmo.
Talvez sua aura de luta, que ainda não havia sido totalmente concluída, pudesse ser completada nesta cerimônia que se aproximava.
***
Imediatamente após o discurso, os orcs e o grupo se moveram sem hesitação em direção ao Berço.
Depois de uma hora cavalgando para o leste, eles chegaram à entrada do Berço.
Embora não houvesse outros pontos de referência, muralhas ou portões do castelo, ninguém foi incapaz de reconhecer que esta era a entrada para o Berço.
Isso acontecia porque a fronteira do Berço contrastava fortemente com as Planícies Geinex.
A paisagem muda de cor três passos à frente. A grama vibrante e as árvores murcham abruptamente e morrem além daquele limite. O chão fica preto e o céu, cinzento. Se você se concentrar, poderá ver os mortos-vivos vagando por ali. Uma paisagem verdadeiramente adequada ao nome ‘Terra dos Mortos’.
Depois de dar a explicação, Vera sentiu a mão de Renee apertar com a tensão e a tranquilizou.
“Não precisa se preocupar. Eu te protegerei com certeza, Santa.”
“…Claro.”
Renee assentiu levemente, demonstrando concordar com as palavras de Vera. Mas, apesar disso, não conseguiu evitar a preocupação.
Foi por causa do que Valak havia dito antes de partirem.
–Cavaleiro Espectral do Berço! Um deles tão forte quanto… não, em alguns aspectos, até mais forte que o forte!
O Cavaleiro da Morte, que havia sido designado como oponente, Vera teria que lutar para ‘provar’ seu valor. 1
Pensamentos relacionados a isso a incomodavam e a deixavam ansiosa.
Claro, como o objetivo deles era Maleus, e eles precisavam obter a ‘Coroa’ dele, eles poderiam não encontrar o Cavaleiro da Morte. No entanto, o mundo nem sempre funciona como planejado.
Havia uma possibilidade de Vera ter que lutar contra o Cavaleiro da Morte.
“…Vera.”
Finalmente, Renee abriu a boca.
“Se você acabar lutando contra aquele Cavaleiro da Morte…”
Contudo, ela não conseguiu terminar a frase.
‘Como devo dizer isso? Como devo expressar meus sentimentos e essa ansiedade em palavras?’
Foi por causa desses pensamentos.
Felizmente, Vera entendeu a preocupação de Renee e conseguiu dar uma resposta.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios de Vera.
“Não precisa se preocupar.”
Vera levantou a cabeça levemente e respondeu, sentindo um calor estranho dentro de si ao ver o olhar de Renee sobre ele.
Foi uma resposta repleta de uma firme crença em si mesmo e manchada por um desejo ardente de vencer.
“A Santa parece ter esquecido.”
“O que?”
“O que eu faço de melhor. Já não te contei?”
O queixo de Renee caiu levemente.
Vera viu isso e respondeu.
“Estou mais confiante na minha esgrima do que em qualquer outra coisa no mundo.”
Suas mãos dadas inconscientemente entrelaçaram os dedos.
“Agora, vamos.”
Quando Renee sentiu os dedos de Vera entrelaçados aos dela, ela corou levemente e exibiu uma expressão boba e apaixonada no rosto.
Um pensamento lhe veio à mente.
Por alguma razão, esses pequenos gestos de Vera lhe deram um sentimento de fé mais forte do que todos os juramentos e votos que ele havia feito até então.
- Cavaleiro da morte parece ser uma classe de morto vivo[↩]
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