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    Os orcs se espalharam em todas as direções.

    Aconteceu menos de dez minutos após sua chegada ao Berço dos Mortos.

    O absurdo é que até mesmo Valak, que havia afirmado que os acompanharia, estava entre os orcs que fugiram gritando.

    Vera riu involuntariamente da situação e falou com o grupo.

    “…O que faremos agora?”

    Os orcs que deveriam guiá-los haviam desaparecido, deixando-os em uma situação realmente incômoda. Enquanto tentavam pensar em uma solução juntos, Miller, que esteve examinando o Berço o tempo todo, disse:

    “Vamos tentar primeiro essa ‘prova’ sobre a qual os orcs estavam falando.”

    Ele cruzou os braços e coçou o queixo.

    “Poderíamos ir direto para Maleus… mas não deveríamos nos preparar para imprevistos? Talvez tenhamos que recuar se encontrarmos perigo antes de chegar a Maleus.”

    Ao ouvir isso, Vera concordou com a cabeça e então parou abruptamente.

    Temos que provar nosso valor primeiro.

    Assim que pensou nisso, imagens daqueles que poderiam ter dificuldades para provar seu valor vieram à mente.

    Seu olhar se voltou para Renee e Aisha.

    ‘…A prova provavelmente assumirá a forma de um combate individual.’

    Em outras palavras, habilidades individuais de combate eram extremamente importantes.

    Naturalmente, isso significava que essa prova representaria um grande risco para Renee e Aisha.

    Uma expressão séria apareceu no rosto de Vera em resposta a esses pensamentos.

    Houve uma série de reações seguidas de silêncio.

    Ao perceber que Vera estava preocupado com ela, Renee deu uma risadinha.

    “Vera, você está preocupado comigo?”

    “Santa…”

    “Não se preocupe. Posso derrotar um morto-vivo sem sair do lugar usando apenas um feitiço. E a seleção do oponente para a prova se baseia, em última análise, na capacidade física, não é? Então, naturalmente, meu oponente terá um tamanho semelhante ao meu.”

    ‘De qualquer forma, por quanto tempo mais você vai me ver como uma criança?’

    Rindo desse pensamento, Renee levantou a bengala que estava segurando.

    “Ainda posso usar isso mais duas vezes.”

    Ela estava se referindo à função embutida em sua bengala que podia detectar objetos através de ondas.

    Vera, diante da atitude confiante de Renee, soltou um suspiro, mas logo concordou.

    “…Eu intervirei se algo perigoso acontecer.”

    “Claro, claro.”

    Renee assentiu casualmente.

    ‘Ela não deveria ser tão descuidada’, pensou Vera, sem refletir nem um pouco sobre seu comportamento habitual.

    Vera não sabia que era a influência dele que fazia Renee demonstrar tanta autoconfiança antes mesmo da luta, e também fazia Aisha pensar arrogantemente: ‘Eu vou vencer’.

    ***

    Após o término da discussão sobre o cronograma, o grupo partiu em direção ao centro do Berço, ‘provando’ seu valor um por um.

    Se havia uma coisa ridícula no processo, era o fato de que essa “prova” era uma questão de pedir um ‘favor’ aos mortos-vivos que encontravam pelo caminho.

    Todos no grupo, até Miller, ficaram surpresos.

    Claro que sim. Ao contrário da percepção comum de que os mortos-vivos guardavam ressentimento em relação aos vivos, os mortos-vivos respondiam de maneira cortês, dizendo coisas como: “Qualquer coisa para o pedido de um hóspede.”

    Em meio a isso, Vera teve esses pensamentos.

    “Dullahan, você vai duelar?”

    “Marek bate com delicadeza. Não tenha medo.”

    [Ah, lutadores espirituosos chegaram. Ótimo. Vou me certificar de tratar meus convidados adequadamente!]

    [Hehehe, me lembra dos meus dias de vida. Eu era igualzinho a você quando estava no auge da minha vida como cavaleiro!]

    Vera pensou que seria um insulto a esses cavalheiros mortos-vivos colocá-los contra oponentes como os gêmeos.

    Ele observou os gêmeos, cada um envolvido em um combate com os Dullahan, com um rosto frio e glacial.

    Era possível ver a relutância deles em recuar enquanto seguravam suas alabardas e bloqueavam os ataques dos Dullahan com seus corpos, como uma representação admirável de um cavaleiro, mas não para Vera.

    Não eram os gêmeos que estavam constantemente lambendo os lábios na hora da comida enquanto cuidavam da filha de Valak, Coco, e que tratavam o slime como um brinquedo?

    Vera estava preocupado que os gêmeos pudessem ofender involuntariamente os Dullahan, que abordaram o duelo com uma atitude séria.

    Então o Dullahan brandiu seu machado.

    Marek evocou uma divindade de cor terrosa e bloqueou-a com as próprias mãos.

    Bang—!

    Um som pesado, incrivelmente alto, ressoou quando o ferro colidiu com a carne.

    [Excelente espírito! É importante para um cavaleiro não recuar!]

    “Dullahan bate um pouco forte, mas dói menos que Vera.”

    Marek começou a balançar sua alabarda com uma mão enquanto falava.

    Bang! Bang! Bang!

    Um som ensurdecedor soou, e a alabarda de Marek atingiu o pescoço decepado do Dullahan, encerrando o duelo.

    Somente depois que o duelo terminou completamente, Vera secretamente soltou um suspiro de alívio, percebendo que Marek não havia sido desrespeitoso.

    Foi uma resposta fria e sem a menor preocupação. Ele poderia ter dito isso, mas estaria errado.

    O poder da ‘Vontade Indomável’ possuído pelo Apóstolo da Proteção mostrou seu verdadeiro valor ao enfrentar um oponente digno.

    Era um poder que prometia vitalidade e revitalização infinitas, desde que sua vontade não se quebrasse.

    Não importava o quão incansável o morto-vivo fosse, não havia como os Dullahan derrotarem os gêmeos que não entendiam o conceito de ferimentos acumulados e não eram inteligentes o suficiente para pensar em ‘desistir’.

    [Foi uma boa batalha! Fico feliz em relembrar os dias em que eu estava vivo!]

    O Dullahan desceu do cavalo e disse isso, rindo alto. Então, vasculhou sua armadura e tirou um colar de osso, entregando-o a Marek com as seguintes palavras:

    [Aqui está a sua prova. Se você enterrar isso na divisa quando sair do Berço, poderá sair em segurança.]

    “Ótima luta, Dullahan. Fazia tempo que Marek não suava tanto.”

    Marek pegou o colar e colocou-o em volta do pescoço.

    Vera fez uma cara de surpresa ao ver o formato do colar que apareceu em seu campo de visão.

    ‘Aquilo é…’

    Porque o colar parecia exatamente com as relíquias que foram leiloadas na casa de leilões que em que ele disputou na última vida.

    Só então Vera pôde perceber por que aqueles que retornaram vivos do Berço e venderam aquelas coisas morreram de uma doença.

    ‘…Eles ficaram gananciosos por algo que deveria ter sido enterrado.’

    Se o que Dullahan disse fosse verdade, os mercadores cegos pela ganância trouxeram um item que não deveria ser retirado do Berço e foram amaldiçoados.

    Isso deveria ser chamado de tolice humana?

    Vera sentiu uma risada amarga surgir ao pensar nisso.

    ***

    O cavalheiro morto-vivo foi gentil até o momento da separação e então desapareceu.

    Eles indicaram oponentes adequados ao nível do grupo e informaram suas localizações antes de partir.

    Por algum motivo, o pensamento ‘Isso não parece certo’ veio à mente… mas não é bom quando as coisas acabam bem?

    Com um clima bem mais leve que o anterior, o grupo seguiu em direção ao centro do Berço.

    Depois dos gêmeos, Norn e Hela terminaram suas provas.

    O oponente deles era um Cavaleiro Esqueleto.

    Fiéis ao seu jeito silencioso de fazer seu trabalho, eles conseguiram uma vitória limpa e sem um arranhão.

    Em seguida, Miller enfrentou dez espectros.

    Como feiticeiro, ele espalhou alguns reagentes no ar, distorceu a percepção dos mortos-vivos e alcançou a vitória perfurando suas lacunas expostas com uma maldição.

    Vera teve um pressentimento bastante desagradável sobre o método usado por Miller.

    A visão das maldições violentas o lembrou do fim da vida anterior, sem que ele sequer percebesse.

    Era uma sensação desagradável, como se a dor daquele momento estivesse voltando.

    Claro, ele não conseguia dizer agora se aquela dor era realmente devido à maldição, ou devido ao item chamado de ‘Coroa’, mas ainda assim, era inevitável que a dor e a maldição daquela época viessem à mente como juntos.

    Observando Miller retornar do grupo de espectros com um rosto radiante e um colar de osso, Vera respondeu com uma careta.

    “…Você deve ter tido problemas.”

    “Ufa, não foi nenhum problema. Foi uma experiência divertida usar feitiços de forma tão combativa. As moças espectros também foram gentis, então me senti menos culpado.”

    Rindo e colocando o colar em volta do pescoço, Miller terminou sua resposta e então olhou para Aisha.

    “É a vez daquela garota agora?”

    “Sim, o oponente dela é um ghoul.”

    Vera respondeu, voltando seu olhar para Aisha também.

    Diante da atenção que lhe era dada, Aisha aguçou os ouvidos e falou com um tom animado.

    “Eu agora? É a minha vez? Eu também vou lutar?”

    Enquanto falava, cheia de energia depois de ter ficado em silêncio todo esse tempo, Vera suspirou profundamente.

    “Não seja descuidada. Eu sempre te disse…”

    “Que não há covardia em uma luta?”

    Ela interrompeu suas palavras.

    Os olhos de Vera se arregalaram. Seu corpo enrijeceu e seu rosto ficou vermelho.

    Parecia que ele poderia explodir de raiva a qualquer momento.

    Com isso, Aisha rapidamente se escondeu atrás de Renee e colocou a cabeça para fora, rindo alegremente.

    “Pfft…!”

    Renee também riu.

    Vera sentiu uma profunda sensação de traição. Seu rosto foi se escurecendo de emoção.

    “Desculpe… Pfft! Aisha pede desculpas também… Hahaha!”

    A visão dos ombros dela tremendo de tanto rir era muito maldosa.

    Alguém disse uma vez que não é a sogra que bate na gente, mas sim a cunhada que tenta impedi-la que é mais rancorosa. 1

    Era um ditado realmente correto.

    Vera não ousou xingar Renee, então ele apenas olhou para os dois com ressentimento.

    ***

    Será que a imatura Aisha realmente conseguirá vencer o mortos-vivo com segurança?

    Suas preocupações chegaram a um fim ridículo.

    [Oh não, pequena…! Não seja tão cruel com esse velho…!]

    Em um canto do Berço, que era uma floresta apenas no sentido de que árvores mortas preenchiam densamente a área, Aisha brincava com o ghoul, pulando e correndo entre as árvores ao redor.

    Um físico pequeno. Movimentos rápidos. E sentidos aguçados.

    Ela estava lutando, aproveitando ao máximo seus pontos fortes como uma mulher-fera e uma criança.

    A velocidade do ghoul não era lenta. Ao contrário de suas queixas lentas, os movimentos do ghoul eram definitivamente rápidos, e o poder embutido em suas longas unhas era mais forte do que a espada de um cavaleiro comum.

    Entretanto, como esperado, lutas e artes marciais eram disciplinas em que o talento se tornava cada vez mais evidente à medida que se atingia um nível mais alto.

    Embora Aisha ainda fosse uma criança, ela já foi aclamada como heroína na vida passada.

    Além disso, Aisha recebia aulas diárias de Vera, que estava no extremo do talento.

    Sua pouca idade e força ainda insuficiente não eram um problema para Aisha.

    “Hiya!”

    Aisha balançou sua adaga enquanto caía de uma árvore e cortou profundamente o crânio do ghoul.

    [Oh não…!]

    O ghoul recuou o corpo surpreso e então admitiu a derrota com uma atitude mal-humorada.

    [Este velho perdeu…]

    Aisha respondeu ao ghoul, muito feliz com sua própria vitória.

    “Você foi um adversário difícil, vovô!”

    [Keke…Sim, pequena… pegue isso…]

    O ghoul tirou um colar de osso do bolso e colocou-o no pescoço de Aisha.

    Aisha riu enquanto brincava com o colar de osso e então se aproximou de Vera para se gabar.

    “Como eu me saí?”

    De repente, Vera pensou em dar um tapa forte e ‘brincalhão’ na cabeça da animada Aisha.

    Um pensamento realmente infantil.

    Só então Vera se sentiu envergonhado por ele ter pensado nisso, suspirou profundamente e colocou a mão na cabeça de Aisha.

    E ele bagunçou rudemente o cabelo dela.

    “Você se saiu bem.”

    “Claro, claro. Porque a Aisha é incrível!”

    Seu rabo ficou ereto.

    Sua risada estava misturada com um ronronar.

    Olhando para Aisha daquele jeito, Vera, sem querer, lembrou-se de um pensamento da luta de agora pouco.

    Ele tinha certeza de que era ele quem a ensinava devotadamente, com todo seu coração e alma, nos últimos meses, mas, por algum motivo, tinha a sensação de que as únicas técnicas que Aisha usava pareciam ser aquelas ensinadas por seu eu do passado, da vida anterior, que esteve com ela por apenas um dia.

    ***

    Depois que a prova de Aisha foi concluída, o que se seguiu foi a prova de Renee.

    Nesse ponto, eles estavam quase no centro do Berço.

    Em frente a uma pequena cabana, num lugar onde se avistava ao longe uma grande e sombria cidadela,

    Renee encontrou um Lich.

    1. Uma expressão idiomática que basicamente diz que a cunhada (Renee) está fingindo impedir a sogra (Aisha), mas na verdade elas estão do mesmo lado, e que Renee não tem intenção alguma de impedir Aisha.[]

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