Índice de Capítulo

    Foi um dia como nenhum outro.

    Depois de terminar suas orações matinais, Vargo lidou com a papelada que chegava.

    Depois de resolver várias tarefas administrativas de Elia e finalmente lidar com o orçamento adiado para o mês seguinte, ele pôde saborear suas férias tardias.

    Vargo estava curtindo seu novo hobby de passear pelo grande jardim de flores, onde certa vez conversou com uma garota branca e pura.

    “Ah, por que este está murchando de novo?”

    Sua mão estendida acariciou ternamente uma delicada flor vermelha.

    As folhas, aparentemente à beira de murchar, absorveram uma energia vermelha canalizada de sua divindade e as revitalizaram com uma vitalidade renovada.

    “Você deveria estar prosperando, não murchando assim.”

    Só então a flor se ergueu em toda a sua glória. Vargo riu baixinho, retirando sua divindade, e falou com a delicada flor.

    “Ainda não é sua hora, pequenina.”

    Elia, localizada no extremo sul, estava agora banhada por um clima quente. A luz do sol era deslumbrante e a brisa suave. Murchar nessas condições certamente resultaria em uma vida de arrependimentos.

    Vargo olhou para a flor por um momento antes de gemer e se levantar.

    “Vamos ver… qual outro sujeito pode ser o próximo a vacilar?”

    Cuidar do jardim era uma tarefa interminável, então ele tinha que ser muito diligente.

    ***

    “É bom vê-lo, Santidade.”

    Enquanto olhava ao redor do jardim, Vargo levantou a cabeça ao som de uma voz profunda e viu um velho de físico robusto entrando em seu campo de visão.

    O pelo curto e as orelhas redondas eram inconfundivelmente os de um animal. Além disso, vê-lo sentado em uma cadeira de rodas indicava que ele não conseguia usar as pernas.

    “Dovan.”

    Vargo chamou o nome agora familiar com um sorriso encantado.

    Era o convidado que viera com Marie do Império, alguém que não estava muito distante dos pecados que havia cometido no passado.

    “O que te traz até aqui?”

    Quando Vargo perguntou por que Dovan, que deveria atuar como chefe de uma vila próxima de Elia, tinha ido ao Grande Templo, Dovan respondeu.

    “Vim com um pedido para você.”

    “Um pedido?”

    “Rumores estranhos têm circulado pela vila ultimamente.”

    Rangido, rangido.

    Dovan se aproximou de Vargo em sua cadeira de rodas. Observando o canteiro de flores que Vargo estava cuidando, ele continuou.

    “As crianças da aldeia dizem que viram uma mulher nos arredores da aldeia nos últimos dias.”

    “Hm? É um visitante?”

    “Eu também pensei isso inicialmente, mas algo parece estranho. Você se lembra do incidente que enfrentei no Império antes de vir para cá?”

    Vargo enrugou a testa, sabendo muito bem a que Dovan estava se referindo.

    “Um cadáver vazio, não era?”

    Ele já tinha ouvido relatos sobre sua aparição.

    “Cabelo rosa, vestido branco como a neve e descalça. Isso corresponde à descrição da mulher?”

    O rosto de Dovan ficou sério enquanto ele assentiu.

    Sim. Embora seja possível que outros tenham uma aparência semelhante, eu não poderia simplesmente descartar. Espero que seja só paranoia de um velho, mas…

    “Não, obrigada por me avisar. Vou investigar.”

    “Obrigado.”

    Vargo assentiu e seu olhar se voltou para o distante portão leste de Elia, onde a vila de Dovan estava localizada.

    Seus olhos se estreitaram e seus lábios se apertaram com força. Como se tentasse discernir algo, ele olhou fixamente naquela direção por um longo tempo. Por fim, soltou um suspiro profundo.

    “Parece que minha aposentadoria continua sendo um sonho distante.”

    Como o mundo era cruel, onde mesmo velho, o destino não o deixava ir. Ele se sentiu um tanto amargo naquele dia.

    ***

    No Grande Salão.

    Vargo procurou Trevor, que estava ocupado supervisionando as relíquias divinas.

    “Pirralho.”

    Trevor virou a cabeça. Ao perceber que era Vargo quem o chamava, curvou-se defensivamente e respondeu nervosamente.

    “S-sim, Vossa Santidade?”

    Trevor pensou consigo mesmo que o momento da visita de Vargo era incomum. O fato de ele ter chegado àquela hora e parecer descontente provavelmente significava que estava ali para repreendê-lo.

    O que poderia ter dado errado?

    Enquanto esses pensamentos consumiam Trevor, especialmente com o olhar penetrante de Vargo sobre ele, Vargo finalmente falou.

    “Vou sair por um tempo”, disse Vargo.

    “Na verdade, posso voltar mais tarde do que o esperado.”

    Embora a declaração tenha sido abrupta, o comportamento grave de Vargo fez com que Trevor empalidecesse.

    Trevor estava familiarizado com os momentos em que Vargo tinha uma expressão tão severa, quando seu rosto transbordava sede de sangue.

    “…Aconteceu alguma coisa?”

    Só uma vez ele vira Vargo com tal expressão. Foi no dia em que se conheceram. Aqueles olhos, que perfuravam seus pecados, carregavam aquela sensação avassaladora.

    Naquele momento tenso, Vargo instruiu.

    “Se eu não retornar após quatro dias, abra o Círculo de Selamento do Mal.”

    Trevor prendeu a respiração e seus olhos ficaram arregalados mais do que nunca.

    “Vossa Santidade, isso…”

    “Sinto muito incomodá-lo com isso. Vou deixá-lo com esse conhecimento.”

    Não havia mais nada a dizer.

    Paralisado no lugar, ele só pôde observar enquanto Vargo se afastava.

    ***

    Mesmo a tal distância, era evidente.

    A energia que cercava Elia naquele momento era completamente diferente dos cadáveres ocos que as crianças enfrentaram no Império, e a intensidade disso significava que ele não podia garantir a vitória.

    Caminhando lentamente, Vargo finalmente chegou ao ponto exato de onde sentiu a energia vindo e engoliu em seco.

    “Então é você?”

    Uma massa de carma estava ali. Era um mal grotesco assumindo a forma de uma mulher esbelta.

    Vargo lamentou.

    “Sua vadia.”

    A mulher, lembrando a primavera, sorriu.

    Pisando suavemente no chão com os pés descalços, ela olhou para Vargo.

    “Você me conhece? Que estranho. Você não deveria saber ainda.”

    “Como eu poderia não te reconhecer se você tem uma aparência tão nojenta?”

    Vargo recitou o nome que havia recebido no relatório.

    “Alaysia.”

    “Sério? Me movi descuidadamente?”

    “Sua puta miserável. Monstro nauseante.”

    Vargo largou a bengala, endireitou as costas com um estalo audível e continuou suas palavras.

    “Qual é o seu propósito em vir aqui?”

    Seu corpo gigantesco alcançava sua altura máxima de 2 metros e 30, excedendo os padrões humanos.

    A divindade vermelha fluindo de suas roupas e o brilho carmesim em seus olhos o faziam parecer uma fera sedenta por sangue.

    No abismo ao redor do corpo da mulher, Vargo deixou escapar sua raiva.

    “Que outras maldades você veio cometer?”

    Alaysia encarou Vargo e soltou uma risada.

    “Sabe? Toda vez que te vejo, você diz a mesma coisa.”

    “Bem, acho que é a primeira vez que te vejo, vadia…”

    A divindade vermelha de Vargo convergiu em uma forma singular.

    Segurando seu julgamento, moldado em uma maça em sua mão, ele o levantou acima de sua cabeça e proclamou.

    “É natural repetir as mesmas palavras quando você tem uma aparência tão vil!”

    Ele atingiu o ar com a maça.

    [—–]

    Houve uma onda de choque e um som de toque.

    Era uma força distante e obliteradora que eliminou toda a existência.

    A mais pura aura de luta para erradicar o pecado e o mal tomou conta de Alaysia.

    Imediatamente depois, Vargo estalou a língua, irritado.

    “Tsk, afinal você tem alguma habilidade.”

    O ataque a atingiu diretamente, mas a sensação que ele sentiu lhe disse que ela ainda estava intacta. Desta vez, ele agarrou a maça com as duas mãos e golpeou novamente.

    Mais uma vez, a onda de choque foi desencadeada.

    Tudo em sua linha de visão na direção onde Alaysia estava havia desaparecido.

    No entanto, a única coisa que permaneceu intocada…

    Não, ao contrário, Alaysia havia regenerado seu corpo esmagado e falou.

    “Isso dói.”

    A expressão de Vargo endureceu.

    Com metade da cabeça regenerada, Alaysia riu e continuou falando.

    “Como esperado, você é o mais irritante. Se eu tiver que me livrar de um, que seja você.”

    Ela estendeu a mão pálida e a balançou bruscamente.

    O que Vargo sentiu em seguida foi como se estivesse preso em um pântano profundo e pegajoso.

    ***

    Vargo, Clube de Ragal.

    Ele era o segundo entre os primeiros grupos do Reino Horden.

    Um solitário sem família ou amigos, um mero bandido que abraçou uma vida de violência com seu corpo feio e brutal.

    Sua vida não tinha propósito; sua única alegria era lutar.

    Enquanto seu passado se desenrolava diante de seus olhos, ele se sentiu profundamente envergonhado.

    – O que é isso?

    Seu eu passado inclinou a cabeça enquanto olhava para o estigma de dois tempos em seu braço e continuou pensando.

    Foi uma reação natural.

    Se um bandido que vive sem rumo não questionasse por que isso aconteceu com ele, isso seria ainda mais estranho.

    Entretanto, em meio a essas dúvidas, outro mundo chamou sua atenção.

    – …Porra.

    Ele se viu manchado de pecados no beco.

    A expressão de Vargo se contraiu enquanto ele confrontava seu eu passado.

    ‘…Devo estar iludido.’

    Essa era a única razão pela qual ele estaria ali depois de atacar Alaysia.

    Como ele poderia escapar?

    Enquanto ele agonizava com isso, o mundo virou de cabeça para baixo.

    Outra cena se desenrolou.

    – Quem é você?

    — Quem sou eu? Sou a professora que vai te ensinar boas maneiras.

    Uma mulher com cabelos loiros impressionantes sorriu.

    Era Teresa, a Apóstola do Amor, em sua juventude.

    Ela cerrou o punho e subjugou seu eu passado.

    E então, ela o levou para o Reino Sagrado.

    Ao chegar ao Reino Sagrado, ele foi espancado sem sentidos e despertou sua divindade.

    Ele aprendeu a usar o poder de seu apóstolo.

    Por fim, ele se tornou um observador direto do carma e recebeu uma revelação.

    De repente, enquanto as cenas se desenrolavam ao seu redor, os pensamentos de Vargo mergulharam no caos. Absorvido por essas memórias, os limites entre passado e presente começaram a se confundir para ele.

    O tempo passou.

    As cenas continuaram.

    — Tem um canino desgraçado. Não, talvez seja um gato?

    Ele quebrou o crânio do Rei Tigre Haman.

    — De répteis a filhotes de morcegos, todos são igualmente besteiras.

    Ele esmagou o crânio do Dragão Demoníaco e despedaçou os vampiros.

    No entanto, esse não foi o fim. Ele viajou pelo continente, eliminando os incontáveis ​​carmas malévolos que lhe chamaram a atenção. O carma que surgiu diante dele era simplesmente repulsivo e abominável.

    No final, em uma prisão ao leste, um velho perguntou ao seu eu do passado.

    — Com que direito você tem de nos julgar?

    Em resposta à pergunta sobre sua qualificação para julgá-los, seu eu passado proclamou.

    — Pela vontade do céu. Como seu representante.

    O velho perguntou novamente.

    — Quais são os nossos pecados?

    Ele não tinha resposta para isso.

    Ele não teve outra escolha senão permanecer em silêncio, pois não sabia a origem dos pecados que os prendiam.

    Seus olhos apenas revelavam o carma que haviam acumulado.

    Sentindo como se estivesse afundando em um pântano, Vargo enfrentou seus próprios pecados.

    Ele ergueu sua maça, direcionando seu julgamento carmesim ao velho.

    Bang—!

    Ele caiu.

    ‘Ah…’

    Havia um sentimento de culpa que apertava seu coração.

    Ele mesmo ignorou que o verdadeiro pecado deles era o desejo pela vida.

    Ele se concentrou apenas nas palavras de outras pessoas de que elas eram pecadoras e no carma que envolvia seus corpos.

    Ele ficou apenas cativado pelo que viu e não pensou muito sobre isso.

    Tais eram seus sentimentos de culpa.

    Seus pensamentos afundaram ainda mais.

    O pântano, que mal chegava aos seus tornozelos, agora chegava ao seu queixo.

    Foi a primeira vez em muito tempo que Vargo teve que enfrentar seus próprios pecados: fé cega e fanatismo.

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