(N.T. HIKARI, LUZ)

    Kaoru continuava no chão, paralisado. Estava vendo Iker se aproximar com uma calma assustadoramente imponente.

    — Sabe onde estão as outras garotas com Potentia? — disse Iker sem alterar o tom de voz. — Os portais reais desse mundo, sabe onde ficam?

    “O que… o que esse doido está falando? O que mais vai acontecer hoje?”, pensou Kaoru, suando frio.

    A conversa estava ficando cada vez mais estranha. Iker parou por um momento, esperando que o homem à sua frente se pronunciasse. O silêncio ensurdecedor se manteve.

    — Não vai responder nada? — disse Iker, após fechar os olhos e dar um longo suspiro.

    Fortes correntes de vento começaram a se formar do punho cerrado de Iker. Rapidamente elas se expandiram, tornando-se visíveis.

    O empresário pareceu se render. O corpo estava rígido e ele suava frio. Encarava Iker à sua frente, aterrorizado. Ele, que era alguém que possuía controle total sobre si mesmo, agora se via numa situação em que se sentia completamente inútil.

    Os ventos se juntavam no punho de Iker, a concentração de ar era tão forte que era possível enxergar a massa de ar. Nem isso permitiu que Kaoru fugisse. Ele acabou sendo envolvido pelo pescoço, como se alguém o segurasse, porém, a força era muito maior.

    O pescoço estava pressionado, não o suficiente para matá-lo, mas o suficiente para deixar Sr. Kaoru respirando com dificuldade. Ele se debatia no ar e puxava a espessa massa de vento em seu pescoço, sem sucesso algum.

    — Se decidir colaborar, eu paro. Não gosto de tortura desnecessária. — explicou Iker, sem mudar o tom de voz. Suas palavras não carregavam ironia nem sarcasmo.

    A sessão de tortura continuava, Iker observava aquele homem brilhando, preso pelo pescoço, para ver se ele demonstraria possibilidade de colaboração.

    De um canto dos destroços, algo rapidamente foi na direção deles, iluminando o ambiente. Tratava-se de fogo concentrado, que se movia com velocidade, parecendo que havia sido lançado àquele local.

    Iker percebeu a vinda das chamas rapidamente. Ele se desviou, num salto. Seu corpo era ágil, assim como sua mente, que sabia exatamente do que aquele ataque se tratava. Além disso, logo cessou o ataque, cortando a massa de vento, o que acabou por fazer com que Kaoru fosse ao chão.

    “Droga… Tá…”, os pensamentos de Vacchiano estavam confusos. Logo após a queda, ele levou sua mão até o pescoço, sentia a dor e mal-estar. Sua mente ficava ainda mais confusa com cada acontecimento.

    “Resolveram aparecer”, pensou Iker, enquanto sua atenção se dirigia a mais adiante nos destroços, em direção a duas figuras femininas, altas, de pé.

    — Quase acertei. — murmurou Hitomi, com seus cabelos bagunçados e roupas amarrotadas. Sua mão, que baixava lentamente, havia acabado de desferir o golpe de fogo.

    — SENHOR VACCHIANO, VOCÊ ESTÁ BEM? — Megumi gritou enquanto corria em direção a Kaoru.

    — SAIAM DAQUI, ELE É PERIGOSO! — percebendo as duas ali, deu o alerta. Ele foi se levantando e cambaleando, correndo em direção às modelos o mais rápido possível.

    Kaoru e Megumi acabaram indo ao encontro um do outro, mas o posicionamento do inimigo chamou a atenção dela. Iker estava com sua mão levantada, olhos fixos nos dois e com ventos se formando novamente em suas mãos.

    Mais uma vez Kaoru se via sendo percebido pela massa de ar, e continuava tão assustado quanto antes. Desta vez Hitomi não perdeu tempo e rapidamente levantou sua mão para desferir um novo golpe de fogo.

    Iker, numa velocidade e calma únicas, desviou o vento em direção ao fogo. As duas forças se chocaram, não houve uma explosão e nem o fogo se apagou. As duas Potentia se uniram como numa dança e se espalharam em torno do campo de batalha. A batalha se intensificou em meio às muralhas de fogo.

    “É isso… É hoje que eu vou morrer…”, pensava Kaoru enquanto encarava a muralha de fogo, cuja forma era conduzida pelo sopro dos ventos. Ainda nervoso, agora parecia que ele havia decidido aceitar seu destino, ainda suava frio, porém não se encontrava petrificado.

    — SENHOR, VAMOS NOS AFASTAR! — pediu Megumi, encostando a mão no ombro dele, para que pudesse ter sua atenção. A urgência em suas palavras contrastava com o toque suave.

    — MEGUMI… — exclamou, retomando sua consciência.

    Tendo a atenção de Kaoru para si, Megumi o agarrou pelo braço para se distanciar do perigo.

    “Eu não acredito que ele usou os ventos para criar um muro de fogo… não fazia ideia de que isso era possível.”, pensou Hitomi, encarando o fogo que os cercava. Aquela situação lhe era muito familiar.

    — VEM AQUI LUTAR CARA A CARA! ESSE TRUQUE AÍ A SUA AMIGA JÁ USOU E NÃO NOS DERROTOU. —  provocou Hitomi sem sentir-se ameaçada.

    — Você fala sobre Yesenia? Ela é movida pela violência e pela vingança. Não mede as consequências, não é o meu caso — respondeu Iker. 

    Ele não estava mentindo, possuía o controle da situação e não parecia que tomava ações por impulso, pelo menos não numa luta. Seu corpo estava relaxado o suficiente para tomar qualquer movimento que precisasse.

    Enquanto os dois conversavam, Megumi se apressava em retirar as luvas de Kaoru, revelando suas mãos iluminadas.

    — Ei, você está vendo o que está acontecendo? Eu não acho que seja uma boa hora para me despir — indagou num tom sério, levemente incrédulo, olhando para Megumi.

    Megumi soltou a mão de Vacchiano. Eram poucas as vezes que alguém era capaz de tirar seu sorriso e simpatia, mas naquela hora, Sr. Kaoru havia conseguido esse feito. O comentário a fez encará-lo com desdém.

    — Senhor, poderia apenas confiar em mim? Eu sei resolver a sua situação… — solicitou Megumi. 

    “Despir?”, ela pensava no termo que ele havia utilizado e já não tinha certeza do que deveria sentir, mas havia ficado incomodada.

    — Sabe? — questionou desconfiado, mas sabendo que naquele momento ele não tinha tantas escolhas, e tudo era tão estranho que qualquer coisa poderia ser real.

    A luta entre Hitomi e Iker continuava acontecendo. Os ventos e o fogo ficavam se chocando, numa batalha de velocidade, Hitomi sentia que qualquer descuido poderia ser fatal.

    Iker desviava facilmente da Potentia de fogo de Hitomi, parecia que a estava analisando, como se estudasse o inimigo. Ela também conseguia desviar, mas acabava tendo que colocar um esforço maior em suas manobras.

    “Se eu viajar… já era…”, pensou Hitomi, vendo que a luta estava se tornando mais acirrada.

    — O que… está acontecendo? Hitomi não vai aguentar assim. — Kaoru ficava cada vez mais assustado com a situação, a sensação de impotência tomava conta dele.

    — Senhor, preciso que bata palmas para dissipar a sua energia — pediu Megumi.

    Ao escutar aquelas palavras, Kaoru rapidamente virou e encarou Megumi. Suas pupilas estavam dilatadas, em choque pela passividade da mulher. Seu sangue ferveu por todo o corpo, a indignação e a irritação o tomaram por completo.

    — VOCÊ ESTÁ VENDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO? HITOMI PODE MORRER E VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO PARA BATER PALMINHAS? QUAL O SEU PROBLEMA — gritou, enquanto agarrava os ombros de Megumi, com o intuito de fazê-la enxergar a realidade.

    — Me desculpe, senhor, — respondeu Megumi, empurrando as mãos do homem. — Mas o único que não está entendendo nada aqui é você. Não consegue me escutar pelo menos uma vez sem se irritar?

    Kaoru percebeu a segurança na fala de Megumi e se silenciou, encarando-a. Sua expressão se encontrava um pouco mais relaxada, o sangue parecia ter esfriado um pouco. Demonstrando que estava disposto a ceder, decidiu seguir as instruções e levantar suas mãos, as deixando paralelas. 

    Sua expressão era de curiosidade e também de dúvida sobre a veracidade daquela informação. Desconfiado e temendo cair em uma brincadeira boba feita por uma modelo novata, uniu suas mãos vagarosamente.

    A batalha seguia de maneira frenética. Hitomi estava começando a encontrar brechas na defesa e calma de Iker. Em um salto, ela conseguiu a velocidade e o ponto certo para lançar sua Potentia de fogo na direção dele.

    Pela primeira vez ela havia conseguido acertá-lo. O fogo atingiu ligeiramente o braço do homem, queimando sua camisa. Não havia sido uma grande chama, nem fez grande estrago, mas era o primeiro golpe desferido com sucesso. Iker continuava inabalável, apenas apagando a chama com a mão, com a mesma frieza de quando havia recebido. Sua face não demonstrava surpresa alguma, mo entanto, Hitomi já mostrava sinais de cansaço.

    Após apenas encostar suas mãos, nada aconteceu. O sangue de Kaoru começou a ferver novamente, ele se sentia enganado.

    — Não aconteceu nada… — murmurou.

    — Com força… — disse Megumi, que já começava a mostrar sinais de incômodo com Sr. Vacchiano, que se recusava a fazer as coisas como ela pedia.

    Kaoru encarou suas mãos brilhantes. Tudo estava a um nível tão absurdo naquele dia, que ele finalmente pensou que fosse melhor obedecer às ordens da mulher à sua frente.

    Desta vez ele deu seu melhor, bateu as mãos com toda a sua força. Foi possível ouvir o som do estalo de longe. A luz, que estava concentrada, seguiu como se fosse conduzida até suas mãos, e dali começou a ser expelida para fora, iluminando gradualmente todo o ambiente. Forte e brilhante, a luminosidade deixou o corpo de Kaoru. Quase não era possível ver o que estava à frente.

    Pela primeira vez, Kaoru Vacchiano ficou realmente espantado. Aqueles últimos dias haviam sido estranhos para ele. Primeiro a luminosidade e o brilho surgindo de suas mãos, que logo tomaram todo o corpo. Seu desfile havia sido destruído por fortes ventos, assim como boa parte da estrutura daquele shopping.

    De repente, ataques, uma pessoa desconhecida tentando matá-lo e usando poderes que só se via em desenhos animados e filmes de fantasia. Então descobriu que sua colega de trabalho também possuía os mesmos poderes.

    E, para piorar, ou melhorar, seu dia, ele mesmo possuía algum tipo de energia inexplicável. Estava atônito, perplexo. Sua mente, cheia de críticas e desconfianças, se calou diante de tudo o que acontecia.

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