Capítulo 206: A Sombra
O subsolo da Ala Oeste do orfanato tinha dois andares. O primeiro subsolo era composto por um depósito semi-subterrâneo, uma sala de máquinas e uma sala de aula multiuso. Já o segundo subsolo abrigava uma passagem subterrânea para a Ala Leste e muitas estruturas antigas agora abandonadas. A história deste orfanato era tão longa que mesmo as alas Leste e Oeste, consideradas “novas”, já tinham décadas de idade. As partes mais profundas e antigas desses dois prédios eram raramente visitadas até mesmo pelos “pais” do orfanato.
A Chapeuzinho Vermelho só se lembrava de ter vindo “explorar” o subsolo da Ala Oeste duas vezes quando era muito pequena, levada por algumas crianças mais velhas. Naquela época, o lugar já estava sujo, velho e esquecido. Agora, mais de dez anos depois, parecia que nada havia mudado. O chão de cimento sujo e as paredes com tinta descascada davam a impressão de que sempre foram assim, desde o dia em que foram construídos, e que permaneceriam assim até o prédio desmoronar.
Mas a Chapeuzinho Vermelho sabia que cada parte do prédio recebia uma manutenção mínima, incluindo esses cantos aparentemente esquecidos. Voluntários enviados pelo Conselho inspecionavam regularmente todas as instalações do orfanato, consertando os sistemas elétrico e de água. Os adultos cuidavam das crianças da melhor maneira possível. Portanto, se alguma mudança estranha tivesse ocorrido nesses corredores antigos do subsolo da Ala Oeste, certamente já teria chamado a atenção da equipe.
Afinal, os “voluntários” enviados para cá eram, sem dúvida, devidamente treinados.
Como não havia nenhum relatório a esse respeito, significava que a mudança era recente — pelo menos na última inspeção de rotina, tudo deveria estar normal.
“Ratos… baratas… ah, nem uma formiga sequer”, o “Rei” estava agachado no ombro do mercenário de armadura pesada, parecendo preguiçoso, mas suas pupilas verticais de felino pareciam ter “escaneado” o lugar inteiro repetidamente. “Use seu bom nariz, Chapeuzinho Vermelho. O ar aqui tem cheiro de mofo, mas, fora isso… os outros cheiros são ‘limpos’ demais.”
Sombras de lobos surgiram e desapareceram ao lado da Chapeuzinho Vermelho. Ela franziu a testa, seu olhar varrendo os cantos mofados e manchados do corredor subterrâneo: “Costumava ter ratos aqui?”
“Que pergunta boba. Claro que sim”, o Rei olhou para a Chapeuzinho Vermelho como se olhasse para uma tola. “Ratos e baratas são as criaturas mais adaptáveis do mundo. Mesmo que todos os humanos morressem, eles não seriam extintos. Já vim aqui muitas vezes, antes era bem ‘animado’.”
A Chapeuzinho Vermelho não disse nada, apenas olhou com uma expressão séria para aquele lugar que, superficialmente, não parecia ter nada de anormal. As sombras da matilha de lobos pairavam intermitentemente ao seu lado, soltando gemidos inquietos de vez em quando.
“Vamos continuar em frente”, disse ela de repente ao Rei. “Vamos dar uma olhada na passagem que conecta as alas Leste e Oeste.”
“Certo.”
Uma equipe de operações totalmente armada moveu-se silenciosamente pelas sombras entre os prédios, aproximando-se gradualmente do edifício de aparência comum à frente.
O local ficava na periferia da antiga zona industrial da parte sul da cidade, cercado principalmente por prédios residenciais construídos há trinta ou quarenta anos. Normalmente, a essa hora, as áreas residenciais estariam cheias de pessoas, mas hoje a região estava estranhamente silenciosa.
As pessoas pareciam ter sido afastadas das ruas por uma força invisível. Mesmo que alguém em um cruzamento distante olhasse para cá e visse os veículos estacionados na entrada do condomínio e os estranhos dispositivos montados no terreno baldio, seu olhar se desviaria rápida e naturalmente, como se toda a área tivesse “desaparecido” da “atenção” das pessoas.
Um comandante da Agência de Operações Especiais, vestindo um uniforme preto, estava ao lado de um “Nó” móvel na entrada do condomínio, olhando para o prédio alvo não muito longe. O prédio antigo de seis andares, com paredes brancas e telhado azul, destacava-se sob o céu azul. Naquele momento, alguns “pássaros” de aparência discreta circulavam a parede externa do prédio, aproximando-se ocasionalmente de uma janela no terceiro andar. A equipe de operações que havia avançado já estava dentro do prédio, reportando a situação pelo rádio.
“Aqui é ‘Caçador’, chegamos ao andar designado. O ambiente está seguro, aguardando novas instruções.”
O relatório da equipe soou nos fones de ouvido. O comandante de campo ordenou que esperassem e olhou para o lado.
Um jovem agente da Agência de Operações Especiais estava com a cabeça levemente inclinada, percebendo a visão transmitida pelos “pássaros”.
“Consegue confirmar a situação lá dentro?”, perguntou o comandante de campo.
Um pequeno pássaro pousou suavemente no parapeito da janela do terceiro andar do prédio alvo, esticando a cabeça para olhar para dentro.
“Não consigo ver o interior, mas posso sentir flutuações espirituais residuais. Há de fato um poder extraordinário no quarto alvo”, disse o jovem agente rapidamente. “…Uma percepção mais profunda está sendo bloqueada, não consigo determinar a localização exata do pessoal. Devem ter montado alguma interferência.”
“O truque clássico dos cultistas”, o comandante de campo sorriu de canto. “Desde que possamos confirmar que eles estão lá… ‘Caçador’, prepare-se para arrombar.”
“Entendido!”
O toque agudo do telefone interrompeu o trabalho de Song Cheng. Ele pegou o fone e, ao mesmo tempo, olhou para o identificador de chamadas. Sua expressão tornou-se séria imediatamente.
“Alô, sou eu. Qual é a situação?”
Um relatório rápido veio do outro lado da linha. No instante seguinte, Song Cheng se levantou de trás da mesa.
“Como assim ‘todos mortos’? Explique direito! As vítimas sequestradas pelos Cultistas do Anjo estão todas mortas? Houve inocentes sacrificados no local? Ou os moradores originais do prédio…”
O comandante de campo do outro lado da linha disse algumas palavras apressadas, e a expressão de Song Cheng gradualmente se enrijeceu.
“…Todos os malditos cultistas estão mortos?!”
Yu Sheng estava sentado na varanda do segundo andar da Ala Leste, observando através da janela as crianças que participavam de atividades ao ar livre no pátio. Vendo um grupo de crianças pequenas correndo desordenadamente pelo pátio, lideradas por crianças mais velhas, gritando e rindo, um sorriso gradualmente apareceu em seu rosto.
A sensação era sutil, mas ele podia de fato sentir uma pequena “conexão” se formando entre ele e aquelas crianças. Ele podia até sentir vagamente a alegria despreocupada que emanava do pátio.
Assim como o céu claro de agora.
“Que bom”, Aileen subiu no parapeito da janela e, junto com Yu Sheng, observou a cena no pátio. O tom da pequena boneca era de emoção. “A felicidade das crianças é simples. Seria ainda melhor se elas não ficassem correndo atrás de mim pelo pátio.”
“Elas gostam muito de você”, Yu Sheng olhou para a pequena boneca ressentida com um sorriso. “Eu vi na sala de aula agora há pouco. Duas garotinhas queriam pentear seu cabelo, não é?”
Teria sido melhor ele não ter mencionado isso. Ao ouvir, Aileen quase caiu do parapeito da janela: “Puta merda, não me lembre de uma coisa tão horrível! Eu vi com meus próprios olhos elas arrancarem a cabeça de uma boneca para pentear o cabelo! Quase morri de susto, tá?!”
Hu Li também estava ali, com uma expressão pensativa desde o início. Nesse momento, ela quebrou o silêncio: “Então, isso significa que todas as crianças neste orfanato agora estão sob a proteção das Artes do Sangue Feiticeiro do Benfeitor, certo?”
“Isso mesmo”, disse Aileen, balançando as pernas no parapeito. “As mais de setenta crianças de todo o orfanato agora estão nas mãos do Yu Sheng…”
Yu Sheng imediatamente lançou um olhar severo para a boneca: “Não pode usar uma palavra melhor? Como assim ‘nas minhas mãos’?!”
Hu Li, no entanto, ignorou a interrupção de Aileen e, após pensar seriamente, continuou: “Mas isso é apenas uma medida paliativa. O Benfeitor apenas protegeu as crianças atualmente afetadas pelos ‘Contos de Fadas’, mas sempre haverá novas crianças sendo influenciadas. Ainda precisamos encontrar uma maneira de tratar a raiz do problema.”
“Exato… ainda temos que encontrar uma maneira de resolver isso na origem”, Yu Sheng suspirou e disse lentamente. “Não sei se a Chapeuzinho Vermelho e os outros encontraram algum problema. E não sei por que, mas desde cedo meu coração está um pouco inquieto.”
A expressão de Aileen ficou séria imediatamente: “Não podemos ignorar isso. É a intuição espiritual dando um alerta?”
“Não é tão grave assim”, Yu Sheng hesitou, avaliando a situação com muito cuidado antes de balançar a cabeça lentamente. “Provavelmente está no nível ‘intuição espiritual meio bamba’, ainda não chegou ao ‘intuição espiritual pulando que nem louca’.”
Aileen ouviu, boquiaberta. Depois de um tempo, conseguiu dizer: “Quando é que você vai parar com essas suas descrições malucas? Quem consegue entender o que isso significa…?”
Yu Sheng coçou a cabeça. E, quando estava prestes a dizer mais alguma coisa, um som de passos apressados veio do corredor, interrompendo-o.
Os três no parapeito da janela olharam na direção do som e viram a Chapeuzinho Vermelho se aproximando apressadamente, seguida pelo gato malhado e gordinho.
Pela expressão no rosto da garota, Yu Sheng soube que ela devia ter descoberto algo errado.
“O que você encontrou?”, ele perguntou, aproximando-se imediatamente.
A Chapeuzinho Vermelho gesticulou com a mão e disse rapidamente: “Os ratos e as baratas do subsolo da Ala Oeste desapareceram.”
Yu Sheng ficou perplexo por um momento, trocou um olhar com Aileen, sem entender de imediato. Depois de dois ou três segundos, ele disse, hesitante: “Uhm… parabéns?”
“Isso é motivo para parabéns?”, a Chapeuzinho Vermelho lançou um olhar cortante para Yu Sheng. “Isso é claramente uma anomalia! Ei, eu não terminei de falar. Então, eu e o ‘Rei’ inspecionamos o corredor subterrâneo da Ala Oeste e, perto de um poço de ventilação na conexão entre as alas Oeste e Leste, encontramos algumas coisas…”
Enquanto falava, ela pegou o celular rapidamente, abriu uma imagem e o entregou a Yu Sheng.
Yu Sheng pegou o celular, curioso, e viu na tela uma foto tirada às pressas em um corredor subterrâneo.
A iluminação da foto não era boa, e parecia haver uma camada embaçada sobre a lente, mas ele ainda conseguia ver que, na parede do corredor fotografado, havia sombras de contornos sobrepostos e próximos.
Yu Sheng franziu a testa, tentando distinguir o que eram aquelas sombras projetadas na parede. Depois de um bom tempo, ele respirou fundo de repente.
“São árvores”, disse a Chapeuzinho Vermelho ao lado dele, lentamente. “A luz fraca atravessando uma floresta projeta as sombras das árvores na parede, criando esse tipo de sombra. No corredor subterrâneo da Ala Oeste, a imagem da Floresta Negra foi projetada na parede.”

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